A Ferradura De Burro Com 7 Furos

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Leite ferrado é um antigo remédio caseiro que se fazia na roça e que era usado no combate aos vermes. Hoje em dia, com a invasão das panacéias dos gigantes da indústria farmacêutica, estas receitas praticamente cairam no esquecimento. Quem é que vai se dar o trabalho de juntar picão, duas qualidades de hortelã, erva-de-bicho, erva-de-santa-maria, ruibarbo, raspas de chifre de carneiro, colocar tudo isso numa panela de ferro, adicionar leite e jogar dentro uma ferradura em brasa, quando se pode comprar um vermífugo ou vermicida genérico por um par de reais na farmácia da esquina? Mesmo eu, que sou fã das receitas tradicionais, nunca me animei a juntar todos esses ingredientes e preparar a tal poção.

Meu interesse por remédios contra vermes vai além da curiosidade de pesquisador de folclore. Como eu tenho uma horta e estou sempre com as mãos na terra e no esterco, pelo uma vez por semana tomo um chàzinho de erva de santa maria com boldo e hortelã, para expulsar algum possível intruso instalado em minhas entranhas. De modo que quando fiquei sabendo que minha vizinha, a dona Vicentina, costumava dar o leite ferrado para seus netinhos, mais que depressa fui falar com ela, perguntar quando seria o próximo preparo do remédio.

Encontrei dona Vicentina no terreiro, dando de comer às galinhas, calça jeans por baixo da saia, botinão de couro, sua cabeca branquinha se destacando contra o azul-celeste da parede. Na roça costuma-se pintar as paredes com a cor do céu, dizem que espanta as moscas. Fico imaginando se não espantasse…

__Bom dia, dona Vicentina! Quando é que vamos ter frango na idade de ir pra panela?

__Mais uns dois mês, meu fio, que bicho criado só no milho, sem hormônico e tibiótico é mais demorado mezz.

Enquanto joga o milho ela ralha com um cachorro policial branco, que fica atentando as pobres aves.

__Passa daqui, seu fio duma égua! Vou ter que acabar prendendo esse sem vergonha, senão ele come os frango tudu antes di nóis. Ocê tá quereno frango pra hoje? Cumpadi Bastião me falô inda onti que tava quereno dá fim nos dele

__Não dona Vicentina, eu vim é por causa do leite ferrado, que eu fiquei sabendo que a senhora faz para os seus netos.

__Fazia, Chico, hoje não tenho mais como.

__E por que isso? Falta alguma planta? Eu arrumo, vou atrás e arrumo pra senhora.

__Não é planta, não, Chico, o que tá fartano é a ferradura. Perdi a ferradura da úrtima veiz que mudemo de casa e nunca mais fiz. Tô usano o remédio do postinho memo, que a dotôra receitô pras criança

__Mas não seja por isso! Amanhã mesmo eu arrumo uma ferradura pra senhora e tá resolvido!

__Aí é que , não pode quarqué ferradura. Tem que ser ferradura de burro e com sete furo!

Eu, na minha santa ignorância perguntei:

__E ferradura de burro é diferente da de cavalo, dona Vicentina? E por que de 7 furos?

__Mai craro que é diferente! A de burro é de burro e a de cavalo é de cavalo, uai! E só dá certo com sete furo, se  com mais ou com meno furo é trabaio pirdido

Confiante de encontrar o que ela me pediu, disse a ela que em breve voltaria com a tal ferradura de burro com sete furos.

__E se eu encontrar a ferradura do jeitinho que a senhora pediu vamos ter de novo o leite ferrado? A senhora promete?

__Tá prumitidu. É um remédio gostoso dimais da conta, as criançadinha adora e inté os mais véio tóma. Ocê trazeno nóis fáis.

Durante meses eu procurei pela tal ferradura, mas minhas buscas foram infrutíferas. Todas as que encontrei tinham de 6 ou 8 furos, porque os cravos são colocados no casco do animal aos pares, simètricamente. Sómente quando o animal é defeituoso é que se faz um número ímpar de furos. Fui a antiquários, brechós, feiras do rolo, todos me diziam que era muito difícil encontrar uma ferradura de 7 furos e ainda mais de burro! Comecei a desconfiar que ferradura de burro com 7  furos era uma lenda e que dona Vicentina inventou essa história apenas para se livrar de mim e não ter que preparar o leite ferrado, que dá um trabalhão danado…

Mais de ano se passou, eu já havia desistido de encontrar a tal ferradura. Um belo dia, minha mestra na pesquisa de folclore, dona Angela, me sugeriu procurar o povo ligado ao tropeirismo em nossa cidade. Não por causa da ferradura, que ela nem sabia dessa minha busca. Ela apenas achava este aspecto de nossa cultura andava um tanto quanto negligenciado pelo saber oficial nos últimos tempos.

A princípio não me animei muito não, pois, para mim, tropeirismo era algo do passado, morto e enterrado depois do advento dos caminhos de ferro e mais tarde os de asfalto. Se havia interessados nele, seria por puro saudosismo, assim eu imaginava. Ledo engano.

Assuntando com amigos, descobri que o tropeiro, figura chave no transporte de mercadorias desde fins do século XVII até meados do século passado, sobrevive ainda hoje “encostando lenha” ou transportando a produção agrícola em lugares onde não há estradas ou que o trator não consegue chegar. “Encostar” ou “puxar” lenha, na linguagem deles, quer dizer adentrar uma plantação de eucalipto com burros e mulas, carregá-los até a beira da estrada onde está o caminhão que vai levar a madeira para ser utilizada para papel, lenha para queimar ou construção civil.

Não são muitos estes que trabalham desta maneira ainda hoje, mas todos que conversei tem orgulho do que fazem e o fazem por opção; dentre estes, alguns são jovens com menos e 20 anos.

Em torno desta atividade, existe todo um mundo de fazedores que suprem a demanda dos tropeiros, fazendo toda sorte de material de uso deste ofício. E foi justamente um destes que fui procurar, o Daniel muladeiro, que comercia com muares e trabalha com couro de maneira artesanal.

Daniel tem um rancho situado a dez minutos de carro do centro da cidade, um verdadeiro baluarte da cultura muar e eqüina, que concentra pessoas interessadas em tudo que diz respeito à cultura tropeirista. Acabei ficando amigo do Daniel, que percebendo meu interesse, sempre me convida para uma breganha ou cavalgada.

Numa das visitas ao rancho, Daniel me apresentou o Reinaldo, um rapaz que se dedica à arte de fazer ferraduras. Reinaldo, mais conhecido como Gordo Ferreiro, estava lá com seu carro-oficina para ferrar duas mulas. As ferraduras que Gordo faz são sob medida, para que se adaptem adequadamente aos cascos dos animais, coisa chique! Já chegou a fazer até ferraduras ortopédicas para um cavalo que teve os tendões da mão rompidos.

Pois bem, Gordo retirou a parafernália do carro e montou sua oficina instantânea. Uma forja à gás, uma bigorna de 60 kg, martelos, marretas, pinças, torquesas, grosas e mais um tanto de ferramentas que não guardei o nome. Pedi licença para filmar e fui bombardeando o rapaz com perguntas, um defeito de todo pesquisador… Enquanto limpava e cortava os cascos, ele ia me contando que aprendeu a ferrar animais com o pai, tomou gosto pela coisa e decidiu que era isso que ia fazer pelo resto da vida. Fez vários cursos de especialização e do seu trabalho como ferrador tira o sustento de sua família.

Lá pelas tantas me deu um estalo e lembrei da ferradura de burro com sete furos, perguntei ao Gordo se ele já tinha visto alguma na vida.

__Olha, Chico, o certo é um numero par de furos. A gente só faz numero ímpar se o animal tiver o casco com defeito.

__Mas você já viu alguma na vida? É que eu preciso de uma ferradura dessas para fazer um remédio caseiro, já faz tempo que estou procurando…

__Ver mesmo eu nunca vi, mas a gente pode fazer. É dois palito!

Mas é claro, o cara era ferrador e fazedor de ferraduras! Eu até agora esperava topar com a lendária ferradura por acaso, nunca que alguém a confeccionasse! Em menos de 5 minutos o Gordo me colocou nas mãos, já devidamente resfriada, o objeto de desejo que eu passara mais de ano procurando. Dona Vicentina que me aguarde! Enquanto isso ela fica pendurada atrás da porta de entrada de casa, que é pra ver se minha sorte melhora…

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Quatro meses mais tarde, marquei com dona Vicentina e num sábado de manhã fizemos o esperado leite ferrado, na versão dela.

 

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13 Respostas to “A Ferradura De Burro Com 7 Furos”

  1. Carlos Says:

    Que maravilha. Toda a beleza e sabedoria do povo simples. Parabéns pelo registro.

  2. Lurdez Says:

    Muito bom, Chico!!

  3. chicoabelha Says:

    Eis o esperado video do leite ferrado!

  4. Maria Says:

    O remédio com as plantas é fácil, difícil é arrumar a tal fechadura de 7 furos e por cima de burro.

  5. Consuelo M F Guimarães Says:

    também gostaria de ver a estória do remédio da D. Vicentina…

  6. Seu irmão da terra do urso polar Says:

    A ferradura vai dar sorte e boa saúde…!!
    Me conta como foi o preparo do leite ferrado.
    Rafael

  7. Doris Bonini Says:

    Chico, mais uma maravilha de relato! Quero ir tomar o remédio da D. Vicentina tambem!

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