O Pinto do Boi, o Saci e a Bomba Atômica

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Estávamos nos preparando para sair quando minha amiga Teca soltou a pergunta:

__ E aí, Chico, o que você acha de eu levar o pinto do boi?

__Ótima idéia, Teca, tudo a ver, vai fazer sucesso! Bora levar esse pinto pra reunião!

Ela apanhou sua bolsa, o celular, o pinto seco do boi, que é um objeto cilíndrico de 60 cm de comprimento, parecendo feito de plástico reciclado, trancou a porta da casa, entramos os dois no carro e partimos em direção à cidade de Caçapava, onde nos esperava uma reunião do Núcleo Içá Bitú, o braço regional da Comissão Paulista de Folclore para o Vale do Paraíba.

A cada mês, um grupo de pessoas se reúne para discutir estratégias que visam a salvaguarda do folclore na região. O responsável por disparar os emails convidando a turma sou sempre eu. Contabilizo os que confirmam, a fim de que o dono da casa possa ter uma previsão do número de bocas que se farão presentes para o almoço, que é gentilmente oferecido pelo anfitrião.

Para esta reunião em Caçapava, uma das participantes, a minha amiga Lucia, que mantém o verdadeiro Sítio do Pica Pau Amarelo, cogitou da conveniência de levar à reunião, 4 japoneses que estavam passando férias em sua casa. A primeira coisa que me ocorreu foi querer saber se eles falavam o português. “Não, Chico, somente um deles fala o português e mesmo assim mal e má…”, foi a resposta que ela me deu. Não querendo contrariar minha amiga Lucia, uma virginiana arretada, eu disse que tudo bem, mas ela que cuidasse de entreter os seus japoneses, já que, certamente, eles não teriam muito o que fazer durante nosso encontro.

No caminho para Caçapava, fui discutindo com Teca o assunto dos 4 japoneses que nos aguardavam na reunião. Eu havia dito sim para a Lucia sem consultar o grupo, o que será que eles iam achar? Será que os japoneses iriam ficar sentados durante 3 horas olhando para nossas caras ou iriam interagir? Como seria pinto de boi em japonês? Numa tentativa de integrar os orientais, eu já estava bolando uma mímica sonora para que eles entendessem o que era o pinto do boi, quando me lembrei que nossa amiga Misae iria estar presente à reunião. Misae nasceu na ilha de Okinawa e sabe falar japonês, o que me deixou mais relaxado naquele momento. Pelo menos os japoneses não iriam se sentir deslocados…

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A casa da nossa anfitriã em Caçapava, a Darcy, é um misto de museu com loja de antigüidades. Ela foi juntando bonecos de pano, enfeites religiosos, imagens de santos, missais que o povo não quer mais e enfeitando com eles os cômodos da casa. É difícil achar um espaço livre, sem objetos, nas paredes daquela casa. Tudo chama o olhar, mas o que mais me interessou foi um santinho de Nossa Senhora Aparecida que na verdade é uma propaganda política de uma figura local. Disse a Darcy que, antigamente, os políticos patrocinavam romarias à cidade de Aparecida e forneciam os santinhos com seus nomes para as eleições vindouras. Descobri, assim, a origem do nome “santinho“, que é o panfleto que hoje em dia mostra o rosto dos políticos, mas que de santo mesmo não tem nada…

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Quando chegamos à casa da Darcy, os japoneses ainda não estavam lá. Mas já haviam chegado o seu João, um carreiro que no século XXI ainda lida com bois, e o Carajás, um senhor que também já mexeu com bois de carro na infância. A Teca, que também é da roça, segurando o pinto do boi nas mãos com a maior sem cerimônia do mundo, foi logo perguntando aos dois se eles sabiam do que se tratava. Eles, educadamente disseram que não… Claro que conheciam, mas preferiram não correr o risco de ferir susceptibilidades.

Não demorou muito e chegou uma senhora que eu não conhecia e que veio de carona com seu marido. Descobri que a Madalena não só era casada com um nissei, como também falava japonês. Muita coincidência! Nessas alturas eu relaxei de vez, com as duas falantes para servir de intérpretes. Mas o melhor estava ainda por acontecer.

Lúcia chegou com os seus 4 japoneses, três senhoras e um menino de 11 anos, depois de ficar perdida pela cidade. Essas pequenas localidades do Vale do Paraíba tem o dom de emaranhar o turista em suas ruelas estreitas e com sinalização precária. O aumento do numero de carros tem sido sempre mais rápido do que a necessária adequação das vias.

Pois bem, feitas as apresentações, deu-se início à nossa reunião e tão logo pode, Lucia tomou a palavra para apresentar seus amigos e disse que uma de suas amigas, a Yumiko, iria mostrar um trabalho sobre o saci. Saci? Será que eu tinha escutado bem? Uma japonesa do Japão mostrar um trabalho sobre o saci? Lucia não havia me falado nada sobre isso…

Yumiko, que já viveu um tempo no Brasil, é uma professora de português para filhos de brasileiros, os dekasseguis que voltaram para o Japão. Essas crianças nasceram no Japão e apesar de terem pais brasileiros, não tiveram contato com a cultura brasileira. Para ensiná-los, Yumiko usa os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, dos quais ela é fã. Tanto ela gosta da criação infantil de Monteiro Lobato que seus filhos japoneses foram criados com histórias de Dona Benta! Disse ela que isso proporcionou a eles uma grande liberdade e uma alternativa ao estrito comportamento japonês.

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O trabalho que Yumiko nos mostrou eram desenhos coloridos em cartolina, de uma história do saci, feitos por essas crianças, com legendas em português e japonês. Eu fiquei impressionado com o interesse de uma professora japonesa pela cultura brasileira. A outra japonesa, fiquei sabendo depois, faz bicos de pena pelos lugares que viaja. Havia um livro dela com desenhos de São Paulo, um primor de traço que retrata o Mercado Municipal, a igreja da Sé, o Pátio do Colégio e outros pontos conhecidos da cidade. Depois ela leva para o Japão e mostra o Brasil pelos olhos dela. Maravilha de se ver! Na pressa, acabei  não tirei fotos do livro, mas minha amiga Dóris Bonini foi mais cuidadosa e clicou o livro (grato Dóris!)

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Não me lembro como foi, mas o assunto do pinto do boi veio à tona e o mesmo correu as mãos de todos os presentes. Explicou-se que o objeto é usado como relho, um chicote feito para dar nos animais de montaria e quando os japoneses ficaram sabendo do que era feito, fizeram cara de espanto recatado mas depois caíram na risada. Alguém quis saber como se diz pinto em japonês e aí foi a vez dos brasileiros rirem. Pinto em japonês é tim tim, exatamente o mesmo que dizemos quando brindamos com bebidas! Pronto, os japoneses estavam integrados de vez.

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Num clima de festa, fomos comer o delicioso almoço preparado pela família da Darcy no fogão de lenha. Polenta, arroz, feijão, farofa, carne ensopada, frango assado, salada de rúcula com tomate, não teve quem não repetisse o prato! De sobremesa havia taiada, maria mole, sorvete e mais alguma coisa que não me lembro… Foi difícil parar de comer!

Lá pelas tantas, apareceu uma japonesa que eu ainda não tinha visto. Será que ela tinha ficado dormindo no carro e levantou para comer? Não, tratava-se da Noêmia, uma vizinha da Darcy que foi convidada justamente por causa da presença dos amigos da Lucia.

Dona Noêmia logo entabulou conversa com os outros japoneses. Curioso, eu tentava entender o que diziam e Yumiko, percebendo meu interesse, ia traduzindo para mim. Noêmia viera ao Brasil com 25 anos, para arrumar casamento com japoneses que tinham se fixado no país. Como a maioria dos imigrantes eram homens, era preciso importar mulheres do Japão para casarem-se com eles. Foi assim que Noêmia chegou à cidade de Caçapava, casou-se com um agricultor e ali ficou até hoje.

Noêmia contou também que escutou as explosões nucleares que deram fim à Segunda Guerra, três estouros assustadores que ficaram para sempre em sua memória. Não sei porque, naquele momento senti uma profunda reverência por aquela mulher, talvez pelo fato de ela haver presenciado um momento de grande dor da humanidade. Fiquei emocionado e em silêncio agradeci a Lucia por ter tido a idéia de trazer gente do outro lado do mundo para um encontro que em princípio deveria tratar da cultura local. Gente que com certeza valoriza muito mais nossa cultura que muitos de nós brasileiros.

Comentando com a amiga Misae sobre a coincidência de estarem reunidos ali tantos japoneses, ela me chama à atenção para o fato de que no dia seguinte, 06 de agosto, comemora-se o sexagésimo oitavo aniversário das bombas atômicas que caíram sobre o Japão determinando o fim da Segunda Guerra Mundial…

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17 Respostas to “O Pinto do Boi, o Saci e a Bomba Atômica”

  1. bete Says:

    Chico demorei…mas estou feliz em ler o seu texto pela simplicidade e objetividade nas palavras…vc so me faz sentir a cada dia mais orgulho de participar de seu caminho…PARABÉNS

  2. Maria Lucia Ribeiro Guimaraes Says:

    FRANCISCO querido…..Muito bom nossos encontros…Quantas pessoas que se juntam para viver momentos tao especiais….Quanta sabedoria….Bom ouvir….Bom falar…BOM VER…Bom VIVER BEM……BEIJOS…LUCIA

    • chicoabelha Says:

      Falou dona Benta! Sem a senhora os encontros careceriam de pimenta! rsrsrsrssr! Bjs!

    • Frankie Says:

      De lo que más extraño de cuando viví en España es justamente la horchata, aunque por estos lares se toma algo muy similar y también delicioso. Con el mosto ya me lo arreglo cuando me lo envían. Así que voy a sobornar a una amiga que vive en Vaa03cil&#82ne;.pa que me mande las chufas :p y hacerme con tu receta!Un biquiño grandfe desde acá

  3. Marta Rossi Fortes Says:

    Que experiência maravilhosa.Parabéns pelo grupo. Darci Breves minha querida professora.

  4. Renata Sacilotti Says:

    Encontro mais que folclorico, surreal! Mais pra Garcia Marques…
    Com descricao encantadora. Adorei! Bj

  5. Flavia Says:

    Salve a nossa Gente Brasileira!!! É o caminho né Chico… Parabéns por essa maravilha de texto!!! Bjs

  6. Janaina Zaninoto Domingues Says:

    Delícia de crônica!!! Me senti lá no meio de vocês! Muito bom!!!

  7. Monica Vilhena Says:

    Xico Véio … adorei esta tua nova faceta ! Não sabia … vou te seguir …Beijão !

  8. hermann henrique goebel Says:

    bom demais adorei chico abraçao!

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