Dona Anita

Quando minha mãe comentou de uma amiga dela com 100 anos e que ainda dirige seu carro, não tive dúvidas, intimei-a no ato:

__Mãe, quero conhecer esta mulher!

__Quando você quiser, meu filho, nós vamos lá.

Ela passou a mão no telefone, marcou uma hora e lá fomos nós para o apartamento de dona Anita, no centro da cidade de São José dos Campos, onde moram ela e uma acompanhante. Uma senhora ereta, impecavelmente vestida, penteada, maquiada e com as unhas pintadas, nos recebeu em sua sala de visitas com uma maravilhosa vista para o banhado, a várzea inundável do Rio Paraíba.

Sentaram-se ela e minha mãe em um sofá e eu numa poltrona ao lado de dona Anita. Nas primeiras palavras que trocamos já percebi que dona Anita não escuta muito bem e minha mãe, que estava mais perto, tinha que repetir o que eu falava. Sem a menor cerimônia, a centenária senhora me indicou que sentasse na mesinha de centro e ficasse exatamente em frente dela. Ponto pra ela!

A voz de dona Anita é de uma mulher de 50 anos, firme, fluida e com um timbre que ao telefone jamais denunciaria sua idade. Foi esta voz que, me encarando de frente perguntou:

__Então, Francisco, o que você quer saber?

__Eu quero saber de tudo, dona Anita e para isso gostaria de filmar a senhora, fazer um video com seu depoimento, tudo bem?

__Ah, não! Você pode filmar tudo que quiser aqui desta sala, menos eu!

Ela foi tão veemente na negativa que eu não insisti. Peguei o gravador e perguntei se podia registrar somente a voz. Outra negativa, o que me deixou com a alternativa do bloquinho de notas, que foi o que gerou este texto, que ela liberou com a condição de que eu usasse um nome fictício. Negócio fechado, ela passou a responder minhas perguntas.

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Sanatório Vicentina Aranha

Dona Anita chegou à cidade de São José dos Campos em 1934, para casar-se com Mário, um ex-tuberculoso que já era seu namorado há anos. Para quem chegava de São Paulo, como ela, a provinciana São José dos Campos era um desafio enorme, que somente um grande amor poderia vencer. Amiga mesmo, só a esposa do médico que tratara de seu marido. Segundo ela, havia muito preconceito com quem vinha de fora e não foi nada fácil integrar-se à vida social da cidade. Sua amiga e confidente era a esposa do médico que cuidara do marido. Assim, a jovem Anita passava suas horas costurando, lendo, cuidando da casa e esperando o primeiro filho.

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Mercado Municipal de São José dos Campos

Quando saia da casa que alugaram na Praça Afonso Pena, era para ir ao mercado comprar frutas, legumes e verduras, muitas vezes pegando carona no carro de bois do seu Argemiro, que vinha 3 vezes por semana trazer lenha que abastecia o fogão de lenha da casa. Era madeira que saía do desmatamento da Vargem Grande, beira do Rio Paraíba, para abertura de novos pastos e campos de cultura. Quando não ia de carro de bois ela pegava a Rua Sete, andando pela estreita calçada de pedras chatas e irregulares, evitando caminhar pelo leito da rua, para não sujar seus sapatos de terra…

Mais tarde, ela aprendeu a andar de bicicleta e dava seus passeios na poeirenta Praça Afonso Pena, que na época era pelada de tudo. A bicicleta, os veículos de tração animal e as pernas, era o que as pessoas usavam naquela época para se locomover. O primeiro automóvel que dona Anita e seu Mário compraram foi somente depois da II Guerra, quando a cidade começou a crescer, com a chegada das industrias, e a abertura de novos bairros.

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Carro de bois em São José dos Campos, usado para transporte de mercadorias antes do automóvel

A diversão de Anita, afora a missa dos domingos, na Igreja de São Benedito, eram os circos, as cavalhadas e as festas que tinham lugar na mesma Praça Afonso Pena. Às vezes, nos fins de semana, o casal era convidado para almoçar na casa de gente importante da cidade e foi com eles que Anita começou a expandir seu círculo de amizades. O cinema só apareceu mais tarde, com a abertura do cine Paratodos e Anita não perdia um filme. Quando queriam fazer algum programa diferente, a opção era Jacareí que na época era um núcleo urbano bem mais desenvolvido que São José dos Campos.

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Praça Afonso Pena, com circo armado, década de 1930

O marido, pouco tempo tinha para ela, já que ficava o dia todo por conta da farmácia da qual era o dono. E à noite ainda tinha que sair para atender chamados de médicos e pacientes que não podiam esperar o dia seguinte para uma injeção ou o que fosse. Quando ficou bem conhecido na cidade, dr Mário, como era chamado, candidatou-se a vereador e exerceu o mandato por 16 anos, numa época em os edis não ganhavam um centavo de salário, pelo contrário, tinham que pagar a maior parte das despesas com dinheiro do próprio bolso.

Dona Anita ia levando a vida doméstica, cuidando da casa e dos 4 filhos, penando com as empregadas muito chucras que ela e dr Mario arrumavam na roça. Era preciso ensinar tudo, desde higiene pessoal até os pratos finos que dona Anita servia para os convidados. Dentre as pessoas que recebeu em sua casa, estão figuras do quilate de um Assis Chateaubriand e um Ademar de Barros. Ela tem fotos que tirou ao lado deles, mas estão numa caixa em cima do guarda roupas, quem sabe em outra oportunidade me mostra…

A menção das fotos faz a emoção brotar, lembra do marido que se foi há mais de 20 anos. Dele não guarda nem a aliança, já que a mesma foi doada na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, logo depois do golpe militar de 1964. Com os cofres públicos vazios, foi lançada pelos Diários Associados uma campanha nacional para arrecadar jóias da população. Em troca, ganhava-se uma aliança de latão e um diploma com os dizeres: “Dei ouro para o bem do Brasil”. Nesta brincadeira, foram-se as alianças do casal e alguns preciosos presentes de casamento…

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Depois que o marido se foi, vítima de um AVC, dona Anita passou a cuidar um pouco mais de si. Viajou pelo mundo e fez tudo aquilo que os compromissos do esposo não permitiam, na época. Acontece com muitas mulheres que viveram em função do marido, de desabrocharem para a vida depois da partida do companheiro. Mas ao mesmo tempo que ela fala disso, detecto uma certa tristeza em seu olhar. Ela se antecipa à minha pergunta e afirma:

__Mas hoje, quem sobrou da minha turma? O pessoal todo se foi, só fiquei eu, sozinha aqui neste apartamento, esperando a minha hora.

__Não fala isso, não, dona Anita. Dá pra ver que a senhora está forte, bonita, mais firme que muita mulher com metade de sua idade!

__Ah, Francisco, eu conheci 7 gerações, desde meus avós até meus tataranetos. Mas me sinto muito solitária aqui, só saio para fazer as compras da casa e o meu remédio da pressão, que é o único que eu tomo. Mas a pressão não incomoda nada, não me impede de fazer o que eu tenho que fazer, não!

__Surpreendente para uma mulher uma pessoa de sua idade, dona Anita. O que a senhora come para manter esta saúde toda?

__Bom, eu rezo o terço todos os dias, isso é o alimento da alma, que pra mim é o mais importante e já faz vinte anos que como frango cozido com tomate, arroz e uns legumes cozidos. O que? Coisa crua? Deus que me livre! De tarde eu tomo um chazinho com bolo e margarina. Mas eu nunca fumei e nunca bebi, acho que isso ajuda, não é?

Fica pensativa, o silêncio instala-se na sala por um tempo.

__Acho que meu problema é não ter problema. Vejo essas mulheres do povo brigando, discutindo, sofrendo naqueles ônibus horríveis. Tenho inveja delas…

Resolvi não continuar o assunto, pois na verdade estou de pleno acordo com dona Anita, uma vida sem desafios fica triste, carece de sentido. Me veio a curiosidade de saber como ela ocupava seu tempo, sozinha naquele apartamento e perguntei:

__Mas além do terço, dona Anita, o que a senhora faz o resto do dia aqui sozinha? – a resposta me surpreendeu…

__Ah, eu fico no computador!

__Uma pessoa da sua idade, que bacana! E o que a senhora vê na internet?

__Ah, meu filho, tudo que eu tenho direito, vejo de tudo!

__E o que é esse tudo, dona Anita?

__Tudo que você quiser imaginar…

Com esta resposta evasiva ela me calou e nos convidou para tomarmos um chá com bolo e margarina, na cozinha. Ela se levanta sozinha do sofá, recusa e faz cara feia quando faço menção de ajudar. Também não gosta de ser servida, ela mesma verte o chá em sua xícara e nos serve do bolo que também foi assado por ela. A empregada, que escuta nossa conversa se intromete e diz que ela mesma pinta as unhas e corta o cabelo, nunca foi a um salão de beleza!

De repente dona Anita para de falar e fica contemplativa, olhando pela janela.

__O que foi, dona Anita, lembrou de alguma coisa que quer me contar?

__Lembrei sim, de uma coisa muito importante que eu tenho imenso prazer de fazer.

__O que é dona Anita?

Ela então nos leva para perto da janela e mostra umas arvores e pergunta:

__Vocês estão vendo?

__Vendo o que, dona Anita?

__Os dois gatinhos ali em cima da copa das árvores. Elas formam dois gatinhos se beijando, não estão vendo?

Finalmente entendi que os gatos não eram de carne e osso, e sim as copas das árvores que, com um pouco de imaginação deixam ver um casal de gatos se beijando.

__Aquele da esquerda é o Mário e a gatinha sou eu…

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Este é o retrato aproximado de uma centenária senhora que vive escondida em nossa cidade. Quantas mais haverão como ela, esperando um pesquisador curioso? Não me canso de escavar estes tesouros, alguns mais escondidos, outros à flor da terra. Ficou evidente que ela gostou da entrevista, mesmo sendo uma pessoa reservada. Dona Anita me deixou as portas abertas e eu prometi voltar tão logo ela tire as fotos de cima do armário e resolva mostrá-las.

Antes de irmos embora, ainda deu tempo de perguntar à dona Anita se ela não tinha problemas para renovar a carteira de motorista, dada a idade avançada. Ao que ela respondeu:

__Mas eles não tem motivo nenhum para me negar a renovação. Eu enxergo bem, tenho coordenação motora e outro dia esteve aqui um médico gerontologista que veio estudar o “meu caso”. Ele colocou aqueles eletrodos na minha cabeça, fez um monte de perguntas e ontem chegou o resultado, diz que eu tenho o cérebro de uma jovem de 20 anos! Ai deles se me me negarem esse direito! – e deu uma boa risada!

Dona Anita pode não ser perfeita, mas é um exemplo de perseverança e amor à vida.

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10 Respostas to “Dona Anita”

  1. Berenice Lima Says:

    Adorei! Primeira vez que venho aqui, vou seguir o blog.
    Berenice

  2. Doris Bonini Says:

    Fiquei curiosa para saber mais da D. Anita!!!!!

  3. Eliane Israel Says:

    Como senpre digo qdo leio seus textos, vc nos remete a lugares variados com sua forma de escrever. Por algusn instantes estava eu sentada ao lado dessa personagem, pude vê-la em detalhes. Parabéns mais uma vez por sua sensibilidade.

  4. renata Says:

    Adorei esta entrevista e seu texto. A fotos dos gatinhos….explica tudo, parabéns!!!!

  5. Anthony Smith Pinho Says:

    Muito bom Chico, pergunto vc. tem interesse em saber da Histria de um Ingls que veio p/ o Brasil, veterano da Guerra dos Boer!s na frica do Sul, fundou a Alpargatas, tem condecoraes da Rainha e outras coisas.? Date: Wed, 6 Nov 2013 12:43:23 +0000 To: anthonypinho@hotmail.com

    • chicoabelha Says:

      Tenho sim, Tony. Ele mora em São José dos Campos? Tenho milhares de projetos, mas se a gente se apaixona por um personagem ele pula fila, passa na frente de todos os outros…
      Grato pelo comentário!

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