SEU CARLINHOS – MOÇAMBIQUE E FOLIA DO DIVINO

 

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Seu Luís Carlos Francisco, ou seu Carlinhos, como ele é mais conhecido, nasceu e sempre viveu no distrito de Eugenio de Melo em São José dos Campos SP. Aos 11 anos, já trabalhando com agricultor, se encantou com a beleza dos movimentos de um Moçambique que havia na região e pediu para participar. Dançou durante alguns anos, até que o grupo se desfez porque o mestre acabou indo embora da cidade e seu Carlinhos ficou na saudade…

Muitos anos mais tarde, a pedido do sub-prefeito de Eugenio de Melo, Seu Carlinhos foi encarregado de montar um novo grupo de Moçambique para animar uma festa de São Benedito, o que ele fez com base no conhecimento adquirido quando rapaz. Para ele não foi difícil, pois no seu dia-a-dia na lavoura vivia assoviando as melodias do Moçambique. Já para remontar os versos, o que ele não guardara na memória foi inventando da própria cabeça…

Assim surgiu O Grupo de Moçambique Companhia de São Benedito, que já vai para mais de 30 anos de existência, sempre sob o comando de seu Carlinhos, que hoje só não dança mais porque o corpo não permite. O cargo de mestre passou para seu Marinho, que está na folia desde os primórdios.

Um belo dia, o festeiro da Festa do Divino de Eugenio de Melo resolveu que queria uma folia do divino para arrecadar prendas para a festa e “convocou” o grupo de seu Carlinhos para tal tarefa. Seu Carlinhos recusou, haja vista que nunca havia ouvido falar de uma folia do divino e não tinha a mínima idéia de como montar uma… Entretanto, havia um problema. O cartaz da festa já havia sido impresso e anunciava que o grupo do seu Carlinhos iria fazer a alvorada. E agora, que fazer?

Homem de brio que é, sentindo a expectativa do povo devoto, seu Carlinhos não quis manchar o nome de sua companhia e tomou para si a tarefa de montar uma folia do divino no exíguo prazo de três dias que faltavam para a saída da bandeira. Assim, varou as madrugadas rabiscando letra e música para os versos do que imaginou que seria uma folia do divino em peregrinação fazendo os pedidos de prendas.  Ele conseguiu encher 30 páginas durante essas 3 noites em claro.

Como não havia tempo para ensaiar com o grupo, o que seu Carlinhos fez foi passar rapidamente para o pessoal, nos minutos que antecederam a alvorada, as melodias para que eles acompanhassem o mestre, que faria a voz. Estourados os rojões, lá partiram para o campo os 6 integrantes, munidos de viola, violão e muita coragem para enfrentar o desafio de percorrer 35 km num só dia, pedindo prendas em nome do festeiro. A bandeira foi feita por dona Maria Lucia, esposa do seu Carlinhos, que amarrou as três primeiras fitas, uma para o Pai, outra para o Filho e outra para o Divino Espírito Santo.

Foi uma caminhada difícil, o povo não sabia o que era aquele bando de gente que surgia tocando, cantando e pedindo diante de suas porteiras e muitas deles nem se dignaram recebe-los. Comida só foram comer de verdade lá pelas 10 da noite, exaustos da caminhada. Durante o dia enganaram a fome com bolachas e cafés nas vendas do caminho. Nesta primeira vez, como o povo não estava habituado, ninguém se preocupou com a alimentação dos foliões.

Depois desse primeiro dia, a Folia do Divino de Eugenio de Melo tornou-se uma tradição na cidade e vem saindo a cada ano, não só pedindo prendas para a Festa do Divino na cidade, mas também em outros eventos, tamanha a fama que o grupo ganhou.

Perguntei a seu Carlinhos se os versos que ele canta hoje ainda são os mesmos daquelas 30 páginas compostas nas madrugadas em claro.

__”São nada, Chico, os versos a gente vai variando pelo caminho afora. Se eu canto uma coisa numa casa, na seguinte já é outros os verso e se tem alguém gravando muito que bem, pois do contrário eu não sei repetir. É tudo de improviso, conforme o momento pede que seja.”

__Mas seu Carlinhos, me diga uma coisa. O senhor não conhecia nada de folia do divino e de uma hora pra outra monta uma folia que vem acontecendo há mais de 30 anos! Como o senhor explica isso?

Seu Carlinhos assume um tom solene e depois de um longo silêncio explica:

__”Ah, meu filho, isso não é obra nossa. Pra essas coisas quem ensina e ilumina é o próprio Espírito Santo. Meu trabalho só é permitir que ele se manifeste”.

A bandeira que o grupo usa é a mesma que foi confeccionada lá atrás, só que hoje o bandeireiro que hoje a empunha durante as saídas, carrega agora 15 (quinze) kg de fitas dos pedidos e graças alcançados. Seu Carlinhos foi obrigado a dividir as fitas e fazer uma outra bandeira, criando um novo ritual que é o encontro das duas bandeiras. Essa nova bandeira passa um ano na casa de quem fizer o pedido e o ritual da mudança acontece no 3º domingo de janeiro de cada ano.

E assim vão se reinventando as tradições do nosso povo.

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