Dona Maria da Luz

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Se perguntada, dona Maria da Luz vai dizer que é católica e que escuta a voz de Nossa Senhora Aparecida falando com ela, mas que não freqüenta missa, “que hoje em dia as missa muito baruienta, não tem mais aquelas música bonita de antigamente. Como dizia minha avó, a verdadeira fé a gente exerce entre quatro parede…”

“Já ajudei muita gente na hora da precisão, mas só ajudo quando Nossa Senhora me assopra no ouvido… “Vai, Maria, vai que ocê pode ajudá tar e tar pessoa. Ela fala no meu ouvido e então eu faço uma prece e uma promessa e as coisa se resorve por meio do poder dela.”

“Uma vez ela me falou que eu podia ajudá no acidente do Ulisses Guimarães, que eu podia salvá o seu Severo Gome, mas eu fiquei com vergonha de acharem que eu era doida, daí eu fiquei quieta. Mas só dessa vez eu não ajudei…”

“Eu ajudo de noite também, saio do corpo, esse corpo magrelo que ocêis tão veno, e vôo por aí atendendo quem precisa. Tem uns que não tem nem como ajudá, esses eu deixo pra lá, mas quem tem condição eu ajudo. Eu não falo com as pessoa, elas não me vê, mas eu entro na cabeça delas e elas faz o que eu digo pra elas fazê e elas pensa que foi um anjo quem ajudô, mas era eu…”

“Tem veiz que eu escuto os pensamento das pessoa. Elas tão dizeno uma coisa com a boca, mas para mim elas conta otra, compretamente diferente. Mas eu não posso falá nada, tenho que que nem um padre, escutá e ficá quieta”.

Um dia, quando jovem, a mãe ficou furiosa com a filha e a chamou de Maria Louca, porque ela, por caridade, dera um saco de 60kg de mandioca para uma família que apareceu pedindo na estrada. O pai, vendo o desespero da filha com a repreensão, chamou-a num canto e explicou que eles eram descendentes de D. João VI e que a mãe de Maria da Luz tinha certeza que ela era a encarnação da mãe de D. João VI e mais, que eles eram descendentes do monarca. Mas que ela não comentasse isso com ninguém, sob risco de ser ridicularizada, pois quem acreditaria que uns pés rapados como eles poderiam ter alguma ligação com a nobreza portuguesa?

Isso tudo eu escutei da boca da própria dona Maria, na cozinha de sua casa, em companhia de minha esposa. Tínhamos ido buscar um balaio que havíamos encomendado e ela, com sua conversa cativante, foi nos envolvendo e acabamos ficando horas ouvindo suas histórias. O que aqui relato é apenas uma parte do que ouvimos.

Dona Maria da Luz é muito prendada, sabe fazer de tudo que se faz na roça, tanto serviço de homem como de mulher. Faz qualquer objeto de taquaruçú, sabe domar um boi, matar um porco e pega na enxada e na foice como se fosse um peão. Hoje ela mora na cidade e, entre outras coisas, faz artesanato para sobreviver, que a aposentadoria do marido não dá para o gasto. O artesanato que ela faz é evidentemente coisa da cidade e eu perguntei com quem ela aprendeu, se tinha sido em algum curso.

“Comigo mesma, aprendi sozinha!”

“Mas viu alguém fazendo e fez igual?”

“Não, seu Chico, eu aprendi comigo mesma! De noite a minha cabeça me ensina e de dia eu faço o que ela me ensinô!”

Fantástico, pensei comigo mesmo! Essa mulher é um fenômeno da natureza!

Dona Maria da Luz nos serviu um café e nos fez degustar um broto de bambú que ela mesma havia preparado. O café, apesar do exagero de açúcar, estava surpreendentemente muito gostoso e o broto de bambú, apesar de salgado demais, estava tenro e saboroso. Perguntei a ela se não ia nos acompanhar no café.

“Não, meu filho, eu não posso comê quase nada, se eu comê eu estufo que nem um sapo boi. Quarqué coisa que cai na minha barriga explode.”

“Como assim, dona Maria? O que a senhora come, então?”

“Ah, de vez em quando eu como um salgadinho, tem que ser comida que não foi cozinhada com água. Se bem sequinha eu posso comê, mas tem que sê poco, senão explode, eu boto tudo pra fora. Às veiz eu fico sem comê uns dois, três dia, que nada me apetece.”

Eu fiquei pensando com os meus botões, de onde viria a energia daquela mulher, que durante as horas que passamos ali, não se sentou por um segundo sequer e tampouco parou de falar, nos maravilhando com suas histórias?

Maria da Luz, este nome não é o dela por acaso…

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