VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

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Semana passada estivemos visitando a charmosa São Bento do Sapucaí, uma pequena cidade do estado de São Paulo que é praticamente um enclave paulista em Minas Gerais, já que não se chega até lá pelo asfalto sem antes cruzar o solo mineiro.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, ruas com calçamento de paralelepípedos, muitos casarões ainda preservados, charretes e cavalos trafegando livremente, a cidade tem uma atmosfera pacata e deliciosamente interiorana.

A visita deveu-se a um convite que nos foi feito, à minha esposa e eu, para entrevistar um lavrador octogenário, que aos 75 anos passou a frequentar o Mobral e com muito esforço se alfabetizou, porque tinha uma vontade imensa de ler os “foiêto da missa”. Seu Tião Tino não é apenas lavrador. Enquanto prepara suas roças de milho, feijão e abóbora, vai compondo versos em sua cabeça e tem até um livro editado com seus poemas.

 

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Feliz coincidência, ficamos sabemos que nos dias de nossa estada em São Bento, haveria uma tradicional Congada no Bairro do Quilombo, na região rural da cidade. Dois pratos cheios para um pesquisador!

Ao chegarmos à cidade, instalamo-nos numa pousadinha perto da Igreja Matriz e partimos para o reduto de seu Tião Tino, onde ele vive com sua filha, genro e netos. Chegamos juntos à sua casinha na encosta de um morro muito íngreme, nós motorizados e ele à cavalo. Ele tinha ido à cidade buscar sal para o cavalo e não pareceu nem um pouco cansado de ter feito os 6km debaixo de um sol forte.

Mal apeou ele já desandou a falar; sobre a seca brava que está assolando a região; sobre o cultivo  orgânico que ele pratica; sobre as sementes que ele vem preservando; sobre suas devoções, a Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião e principalmente sobre os poemas que ele faz quando Deus o inspira.

 

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Ficamos mais de 3 horas com este homem e ele passou praticamente este tempo todo de pé, respondendo nossas perguntas. Mostrou tudo que pode em seu sítio, pegou na enxada para que eu o filmasse e ainda matou um frango para a janta que sua filha Carmen nos preparou. Um arroz com feijão, salada da horta e o frango caipira daqueles que quem não tem bons dentes não consegue comer…

Teríamos ficado horas conversando com seu Tião, ele inclusive nos convidou para pousar, mas o trabalho do dia seguinte nos obrigou a voltar naquela noite mesmo. De lembrança do nosso encontro trouxe algumas sementes de feijão “espírito santo” que ganhei de seu Tião, um curioso grão branco que tem estampado um desenho em vermelho do Divino Espírito Santo e do qual eu nunca tinha ouvido falar.

 

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Já na pousada, depois de descarregarmos as imagens e recarregarmos as baterias, resolvemos sair para dar uma olhada na Festa de Santo Expedito que estava acontecendo na praça da Matriz. Que decepção! Esperávamos doces e comidas da região, mas só encontramos à venda uns tristes cachorros quentes, anêmicos churros, um desenxabido bolo floresta negra e um mais que comum pudim de leite condensado. O que teria acontecido com as comidas tradicionais? Não pudemos nem perguntar, pois vindo de enorme palco que ocupava metade da praça, um evangelizador pagode funkado invadiu nossos delicados ouvidos e nos expulsou dali…

Fiquei imaginando como poderiam dormir os pobres mortais,  vizinhos deste mega evento…

Dia seguinte partimos para o Bairro do Quilombo, cuja história ainda não consegui apurar ao certo. Parece que o local teria sido um quilombo e que depois a Igreja, proprietária das terras, entrou em acordo com os moradores que hoje lá habitam mas não são os donos.

 

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Nosso contato era dona Luzia, uma simpatissíssima senhora de 82 anos, descendente de escravos, que nos recebeu e contou que a Festa do 13 de Maio, na qual acontece a Congada, era feita por sua avó, que passou para a mãe de dona Luzia e hoje quem organiza tudo é ela.

 

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Segundo dona Luzia, a festa que acontece nos dias de hoje não difere em nada dos tempos que ela era criança. Há as novenas nos 9 dias que antecedem a festa, as celebrações e a missa na Igreja da Imaculada Conceição, a procissão com as bandeiras, os Moçambiques e as Congadas, o almoço, a distribuição de doces caseiros e finalmente o forró na parte da noite.

Tudo isso é organizado por dona Luzia, que recebe as doações de carne, mandioca, frango, farinha e as frutas para os diversos doces, todos preparados de maneira tradicional, no fogão de lenha em sua casa. O que é recebido de graça é dado de graça no dia da festa, não se cobra um tostão por nada do que é distribuído.

Não é uma logística simples, preparar comida para as mais de 1000 pessoas que formam fila com seus pratos e potes de plástico trazidos de casa. O cuidado e o carinho na preparação ficaram evidente na qualidade da comida e dos doces. Minha esposa e eu comemos de tudo um pouco e posso dizer que estava tudo muito saboroso.

Impossível não comparar esta Festa do 13 de Maio com a festa de Santo Expedito que acontecia no centro da cidade. Na roça tudo se distribui de graça enquanto que na cidade tudo é pago. Esta se contaminou com comidas e músicas alienígenas, enquanto que aquela faz questão de preservar a tradição. Numa eu vejo a beleza da humildade e da devoção enquanto que na outra há a frieza do dinheiro e do poder, ao usar de maneira impositiva a praça pública.

 

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Foi emocionante ver a Congada de Gonçalves MG, tocar dentro da igreja, louvando São Benedito e Nossa Senhora de Fátima e o povo beijando com muito respeito as bandeiras em frente ao altar. Os cânticos das congadas louvam também a Princesa Isabel, que teria sido a redentora dos escravos. Esta festa é justamente para comemorar o fim da escravatura.

Embalado pelo clima da festa, estava achando tudo maravilhoso, me achando no melhor dos mundos, que havia realmente uma libertação sendo comemorada, quando vejo a rainha de um dos congados ostentando orgulhosamente uma camiseta com os seguintes dizeres: MEU PAI, UM PRETO COM ALMA DE BRANCO. O pai que os dizeres da camiseta faziam referencia foi o fundador da Congada de Gonçalves.

Fomos embora tiritando de frio, depois do balde água fria.

 

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14 Respostas to “VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ”

  1. Nelio Carvalho Says:

    Acho que Chico Abelha tem razão em vários pontos. A Setur da Prefeitura de São Bento deveria ser mais seletiva. Na última semana santa que passei na terrinha fiquei chocado com a procissão do enterro praticamente passando em meio as mesas de um bar que colocou-as praticamente na rua. Havia gente bebendo e comendo, falando ao celular, vendo a procissão com indiferença…. Claro que a massificação é ampla, geral e irrestrita e a para a indústria e comércio de turismo o que vale é apenas faturar. Não sou ingênuo. Mas, quando criança, na procissão do enterro, as luzes da cidade se apagavam durante a duração da procissão e o único som que se ouvia era o do Canto da Verônica, das matracas que substituíam os sinos da matriz emudecidos nesse dia. Não se ligava rádio ou TV. Mais respeito com a religiosidade e tradição naão faz mal a ninguém, principalmente ao povo da minha cidade natal.

  2. chicoabelha Says:

  3. chicoabelha Says:

  4. Priscila Says:

    acho que vocês dseveriam morar aqui para poder criticar.
    Não sabe o quanto nós sambentistas trabalhamos com o resgate da cultura local.
    Somos requisitados em algumas cidade para fazer o tradicional casamento caipira, temos grupos de catira….entre outros.
    Acho qure você ficou pouco tempo em nossa cidade e não conseguiu fazer sua pesquisa corretamente.

    • adriana abelha Says:

      vimos em SAO BENTO manifestaçoes maravilhosas de folclore…que nao precisam nem ser resgatadas, pois acontecem naturalmente, e contam com a participaçao fervorosa de crianças adultos e os grandes representantes dessa historia…como D LUZIA, que mantem viva uma tradiçao ancestral….fiel as origens…..como seu QUIM, que nos presenteou com sua historia de vida , um FAZEDOR DE CARROS DE BOI…..somos emocionados e apaixonados por sua vida e obra….e graças a Deus conseguimos registrar para o mundo um dia antes dele voltar para o céu….seu Tiao…..um valor indiscutivel…poeta,,,,escritor….mesmo antes de aprender a ler e escrever……
      TUDO lindamente registrado e enaltecendo a nossa cidade de SAO BENTO DO SAPUCAI, em videos que ja estao disponibilizados no YOU TUBE para apreciaçao de todos. Tudo é Brasil…..tudo é nosso…..
      SE algo nos choca…..como uma festa devocional a Santo Expedito descaracterizada…falamos tambem…..sem a intençao de ofender uma terra que tambem é nossa, mas buscando, ai sim, para a importancia de resgatar valores. Em momento algum negamos os projetos culturais da cidade, ja que nao era nosso objetivo nessa empreitada, e estamos sempre prontos para divulgar e enaltecer todos os movimentos genuinamente folcloricos, culturais e devocionais , de nossa gente…nossa terra, nosso Brasil.

  5. chicoabelha Says:

    Preocupado com as respostas indignadas que recebi e tendo refletido com minha esposa, resolvi reler o texto e fazer um mea culpa.
    Quero pedir desculpas às pessoas que fizeram os doces que eu desqualifiquei, pois com certeza o fizeram com amor e carinho. Porque eu estava incomodado, desfiz dos mesmos, talvez estivessem muito gostosos, mas a intenção ali era ressaltar o corte com a tradição e não a qualidade dos doces.
    Quanto à qualidade e altura do som e a não existência de comidas tradicionais, mantenho o que disse.

  6. adriana abelha Says:

    ninguem deve falar absolutamente nada?……..como assim?………a igreja eh um icone? e as pessoas, suas vidas, suas origens, seu folclore? o que vem genuinamente do povo, e eh transmitido por geraçoes deve ser vivido em plenitude, ou vira apenas mais uma festinha,,,,,esquecida da devoçao…..
    nao podemos questionar isso??????? como nao? somos brasileiros, damos valor ao que eh nosso , da terra, do povo…….. vamos lutar para que nossa historia, crenças costumes nao se perca.

  7. Isa Says:

    Boa tarde, depois de ler esses depoimentos chulos sobre a minha cidade não poderia deixar de comentar. Sobre a Festa de Santo Expedito e qualquer outra festa religiosa ninguém, mais ninguém deve falar absolutamente nada. Porque são essas festas que arrecadam fundos para as ações sociais da Igreja para a comunidade sambentista. A Igreja é o icone principal da cidade, e todos os municipes daqui impõe respeito a ela. Se você não gosta das musicas que estavam cantando no dia que foi, o problema é seu, porque gosto cada um tem o seu e não se discute. Você deve rever seus comentários para falar da nossa cidade, até porque nós não vamos na sua para fazer essas coisas.
    Também aproveitando o momento vou comentar o o que essa mulher tal de Regina falou no comentário dela, disse que a administração não tem seu secretariado pessoas sensibilizadas para trazer atrações de cultura popular etc, ACORDAAA!!! Você está muito mal informada. Vá olhar o calendário da cidade e ver o que temos. Você vai se surpreender.São teatros quase todo mês, apresentações musicais, esportes, festivais, etc. Só não enxerga aquele que não quer ver!! Eu espero não ter que ler novos depoimentos desse senhor, que nem sei quem é. E pode ter certeza que vou repassar tudo isso a todos que conheço.
    Conhece aquela frase? “O bom turista sempre volta!”
    Não vai ser os seus depoimentos mesquinhos e nem o cometário dessa mulher que vão fazer a nossa cidade perder o brilho.
    Evoluímos muito e ainda precisamos mais, mas para isso precisamos de pessoas que queiram nos ajudar.
    Sem mais!

    • chicoabelha Says:

      Dona Isa, a senhora é livre para ler ou não o que eu escrevo.
      Meu blog é lido por não mais que 30 pessoas. Não se preocupe com a repercussão do que escrevo, pois não deixarão de ir a São Bento apenas por ler o que escrevo. O município tem muitos encantos naturais e pessoas maravilhosas que valerão a visita.
      Para sua informação, conversei com várias pessoas que moram na redondeza da igreja matriz e elas concordaram com o abuso sonoro que acontece ali.
      Eu lhe pergunto e gostaria de uma resposta sicera sua; suponhamos que uma igreja evangélica, muçulmana ou umbandista, requisite a praça para uma festa das mesmas proporções desta de Santo Expedito. Seriam autorizadas?
      Boa tarde.

  8. Priscila Says:

    Engraçado. Acho que é fácil criticar porém ninguém pensa em um modo de ajudar…..
    Gostaria que as pessoas antes de apontar defeitos deveriam encontrar soluções.
    Tenho certeza que a Paróquia estaria aberta a sugestões de melhoria em suas festas.
    Todos intitulam o Poder Público como culpado, mas será ele que promove esta festa?
    Antes de escrever o que quer, pesquise para saber a quem apontar…..
    A propósito, você é quem?????? Já desenvolveu algum projeto que interessante que auxiliou a nossa cidade em algo?
    Você sabe o que é TURISMO? Você conhece o nosso trabalho. Quem não participa não dá opinião.

    • chicoabelha Says:

      Sinto muito, Priscila, minha intenção não foi criticar o seu trabalho, mas sim, como pesquisador de folclore, constatar, com tristeza, que alguns traços importantes de nossa tradição estão desaparecendo, não só em sua cidade, mas, de modo geral, em todos os centros urbanos do nosso país.
      O que eu vi e senti, na noite em que estive presente à festa de Santo Expedito, qualquer um poderia ver e dar sua opinião. Eu dei a minha, assim como você deu a sua sobre o que eu escrevi.
      Grato pelo comentário.

  9. Regina Says:

    Poi é amigo Chico Abelha, o que vc viu lá na cidade é o que eu como filha da terra fico muito entristecida quando estou lá. Prefiro ficar sempre lá na minha casa da roça no bairro do Serrano e não faço nenhuma questão de ir nas festas na cidade, porque lá fico também ensurdecida com as músicas tanto pela altura como pela qualidade e também a culinária oferecida que não tem nada a ver com a cultura de cidade que se intitula de turismo rural.
    Infelizmente a administração do município não tem em seu secretariado pessoas que tenham sensibilidade para a cultura popular do município, valorizando-a , trazendo para a cidade suas apresentações e sua culinária.

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