PIRACÁ, SACI E NOVOS AMIGOS

 

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Uma das coisas mais gostosas da vida do pesquisador de campo é quando brota uma amizade à partir do inevitável convívio entre invasor e invadido. Foi o caso com a família do casal Agenor e Nilza, dois menestréis da nossa música caipira que moram ao lado da linha do trem, na quase rural Vila Teresinha.

Conheci os dois ano passado, ao fazer as fotos para o 23º Caderno de Folclore, editado pelo Museu do Folclore de São José dos Campos. Neste primeiro encontro já nos gostamos e houve convite para uma outra visita sem cunho profissional. Ensaiei várias vezes ir à casa deles mas sempre aparecia um contratempo de última hora. Quando nos encontrávamos em eventos da cultura, o convite era refeito e eu me sentia em falta com eles.

Semana passada recebi uma intimação de dona Nilza por telefone, que me jogou uma isca irresistível. Estava visitando sua casa uma irmã septuagenária, dona Zilda, que tinha histórias do arco da velha para me contar. Sim, se eu quisesse poderia gravar tudo e ela ainda nos receberia com um café da roça e um bolo de fubá sem farinha de trigo, pois ela sabe que minha esposa é alérgica a glúten.

A Vila Teresinha é uma pequena ilha de casas, situada entre a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil e o banhado do Rio Paraíba. As moradias são simples e cada vez que vou ao bairro, a impressão que tenho é a de cheguei num oásis, um lugar que resolveu descansar da correria da moderna São José dos Campos. São casas antigas

A maioria das casas do bairro tem seu jardim ou vasos com plantas medicinais. É um boldo, um guaco, um capim-limão, um bálsamo, um piracá, essas coisas que não faltam na casa de gente que ainda ontem estava na roça. Até na praça do bairro há plantas de chá e eu mesmo já fui até lá com a única finalidade de colher alguns galhos do alumã, também conhecido por boldo baiano, ótimo para o fígado.

Na casa de Agenor e Nilza, além dos chás, há também uma pequena horta de 10mX1m onde eles plantam até milho e feijão!

__”A gente pranta porque gosta, de teimoso, porque a produção mêmo é poca…”, diz seu Agenor.

Às 14h chegamos à casa dos amigos e só conseguimos sair de lá às 18h. Não vimos o tempo passar. Foram quatro horas com muita música, contação de causos, lendas e depoimentos da vida sofrida que eles tiveram na infância e adolescência.

Dona Zilda nos contou que aos 13 anos de idade teve que fugir de casa para ir ao encontro do grande amor de sua vida. O pai já havia arranjado o casamento da filha com outro pretendente e não admitia ser contrariado. A notícia do desaparecimento correu mundo, deu até na rádio e não demorou, Seu João, um matuto que andava sempre armado, foi resgatar a filha em Pindamonhangaba, dentro do quartel, que era onde estava Agostinho, o soldado que havia mexido com o coração da menina. O encontro foi tenso, mas graças ao bom senso do rapaz, que também estava armado, não houve derramamento de sangue. Os dois se entenderam, o soldado entregou a menina intacta e quatro anos mais tarde casavam-se Zilda e Agostinho.

Cada ato de desobediência era seguido de chicotadas, que nunca impediram que os filhos continuassem desacatando as ordens do pai. Certa feita, a menina Zilda resolveu comer escondido as bananas verdolengas que amadureciam dependuradas sobre o fogão de lenha e por azar o cacho todo veio ao chão. A punição paterna foi que a menina comesse todo o cacho, incluído o talo central…

Os irmãos todos tinham que ajudar nas lidas da casa e sofriam mais que os vizinhos, que pelo menos aos domingos e dias santos tinham folga para divertirem-se. Os pais de Zilda e Nilza não professavam nenhuma religião e assim, cada dia era igual a todos os outros, ou seja de muito trabalho. Levantavam sempre de madrugada e só iam descansar no colchão de palha de milho quando tivessem cumprido todos os deveres. O único momento em que se relaxava era quando seu João resolvia tocar sua sanfona ou viola. Todos cantavam, acompanhando o pai, o tempo parava, o velho amolecia o coração e se esquecia momentaneamente do seu papel de carrasco.

Parece que a música estava no sangue desse povo pois todos vieram a se tornar músicos quando adultos. O casal Nilza e Agenor se conheceu através da música e isso os une até hoje. Apresentam-se em programas de rádio e eventos de música sertaneja, tocam e cantam pelo prazer de tocar. Com orgulho, nos mostraram diversas gravações dos programas que tem feito pela cidade e Vale do Paraíba. Quando descobriram que minha esposa toca e canta, mandaram pegar um violão e quiseram ouvi-la. Daí por diante foi uma festa só, o violão só descansou quando os pasteizinhos ficaram prontos e fomos para a cozinha comer…

 

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Quando Zilda se casou e foi morar em outra cidade, as tarefas da casa passaram a ser da Nilza, já que dona Virgínia, a mãe, também trabalhava na Tecelagem e não tinha tempo de cuidar de nada. Conta ela que quando foi destroncar o primeiro frango, seus bracinhos eram tão pequenos que não conseguiram realizar a tarefa. Ela tentou até enforcar o bicho com as mãos, o sangue jorrava pelos olhos mas nada de ele morrer. Só foi conseguir matá-lo quando teve a ideia de colocar o pescoço da pobre ave debaixo de um cabo de vassoura sobre o qual ela deu vários pulos…

Dona Virgínia era mulher exigente com a roupa, que também sobrou para Nilza lavar. O processo era demorado e complicado naqueles tempos. Era preciso esfregar cada peça com melão de são caetano, uma planta trepadeira que ajuda a limpar o tecido. A roupa fica toda verde quando se esfrega com essa trepadeira, mas basta uma enxaguada e ela fica livre da sujeira mais renitente. Antes da última lavada se colocava o anil, um pozinho azul que era diluído na água e punha-se as roupas no sol para quarar. Dona Virginia tinha olhos de lince e se não estivesse a contento dela, fazia a filha repetir todo o processo, lavando tudo novamente…

Num dado momento a conversa pendeu para o lado das histórias de assombração. Segundo Agenor, naquele tempo era comum ver essas coisas que o povo acha que é lenda ou invencionice dos velhos. Ele mesmo já viu lobisomem, saci, espíritos que sobrevoam as pessoas que passeiam depois da meia noite, mas conta que nunca teve medo, que se acostumou a conviver com isso…

__”Quando a gente conta essas histórias hoje, a juventude pensa que é mentira, invenção do povo mais velho, eles dão risada… mas eu agaranto que era verdade, a gente convivia com essas coisa… Ocê já ouviu o assovio do saci? É um barulho insuportável quando eles fica tudu muntuado na pontinha do bambuzeiro, esperando os cavalo passa pra eles amuntá. Dia seguinte pode oiá, as crina dos animá tá tudo trançada pela sacizada… Uma trança que ninguém consegue distinguí como que foi feito… O saci é danado… ”

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Quando Agenor já tinha esgotado seu estoque de causos de assombração, Nilza comentou que quem tinha histórias boas era dona Virgínia, sua mãe. Pela idade das filhas, imaginei que dona Virgínia já não estivesse entre nós e perguntei se as filhas não poderiam contar o que lembrassem. Nilza arregalou os olhos e disse se eu quisesse podia ouvir da boca da mãe. Na hora me veio à mente uma sessão espírita, mas nem deu tempo de completar o quadro em minha mente, pois Nilza explicou que a mãe estava no quarto dos fundos e só não estava ali com a gente porque quebrara o fêmur dias atrás.

As filhas foram, então, chamar a mãe. Dona Virgínia saiu do quarto com seu andador e foi até o sofá da sala. Muito arrumada, cabelos penteados e unhas feitas, nota-se que foi e ainda é uma mulher que não quer passar despercebida. Pergunta quem somos nós, o que fazemos, onde moramos, se interessa por tudo que acontece. Às nossas perguntas sobre histórias de assombração ela responde contando da vida das filhas. Nilza e Zilda se entreolham e me cochicham que a mãe está “azeda”, talvez um outro dia saia alguma história, hoje ela não está para responder perguntas, não… Mas eu tinha uma pergunta ainda, que não queria calar. Qual a idade de dona Virgínia? Perguntei diretamente para ela, que abriu as duas mãos em frente ao meu rosto.

__”Cem anos, faz dois mês que eu completei 100…”

 Fiquei espantado com a vitalidade da anciã. A mente podia não estar 100% mas era evidente que à minha frente estava uma pessoa que transbordava vida. Perguntei se ela tinha alguma doença se tomava algum remédio, ao que as filhas responderam:

__”Toma nada, essa aí tá melhó qui nóis. A médica vem toma a pressão dela, tá 12 por 8… as doença ela deixou tudu prá nóis, não ficou com nenhuma…” e deram risada dá má sorte delas!

 

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Zilda propõe então nos mostrar a varanda onde ela ficava esperando Agostinho passar de trem, nos fins de semana. O soldado acenava com o bibico nas mãos e o seu coraçãozinho de adolescente batia mais forte no peito. Zilda começa a desfiar memórias daquele tempo e eu aproveito para tirar fotos das irmãs sentadas ao lado de minha esposa que também embarca na nostalgia.

 

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Ao lado do banco onde as mulheres estavam sentadas, há um pé de piracá. Eu peguei uma folha, amassei e cheirei. Nilza então disse:

Tomá remédio a mãe num toma, mas esse é um chá que a mãe usa todo santo dia sem faiá…”

__Ela faz chá com piracá? Não sabia que era de tomar também, pensei que fosse só pra passar no corpo…

__”Nada, a mãe mastiga umas foia de piracá, ela come memo…

Não pensei duas vezes, apanhei uma folhas e coloquei na boca. Mal não pode fazer, pois se dona Virgínia que tem cem anos come todos os dias… Um gosto amargo, mas não desagradável, encheu minha boca. Um pensamento amargo e desagradável perpassou minha idéia. Essa mulher só está forte e rija porque não toma nenhum remédio… Vou providenciar um pé de piracá para poder mastigar umas folhas todos os dias…

 

Vernonia scorpioides 7147

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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