A VIA SACRA DO BAIRRO DO SERRANO – SBS

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Sabendo do meu interesse pela tradição e o folclore, minha amiga Heloisa Barros, moradora do Bairro do Serrano, zona rural de São Bento do Sapucaí SP, me convidou para conhecer e registrar em vídeo a Via Sacra organizada pelos moradores do bairro há 10 anos. O Bairro do Serrano já foi zona rural; hoje conta com um pequeno núcleo urbano, em cujo entorno se misturam as roças dos moradores mais antigos e as propriedades dos moradores ocasionais, gente da cidade que vem exercer seu laser no ambiente rural. Há também alguns urbanóides que trocaram a cidade pela roça e lá se instalaram, mas são gatos pingados.

Heloísa é nascida na roça, a mesma roça onde mora até hoje com sua mãe. Minha amiga vive a tradição no seu dia a dia, mas tem facebook e celular, ou seja, é uma caipira antenada, com o coração no passado, os pés no presente e os olhos no futuro. Por ser uma figura sui generis, desde que a conheci venho tentando entrevista-la, para que o mundo possa conhecer este exemplo de aculturação bem sucedida. Mas ela se nega, alegando os mais diversos motivos, desde timidez, falta de tempo ou porque está muito desarrumada para aparecer diante de uma câmera. Tímida eu sei que ela não é, pois se expressa muito bem e toma a frente de várias iniciativas de interesse do bairro e da cidade de São Bento. Falta de tempo a gente até perdoa, porque a gente sabe que na roça o serviço não termina nunca.

O fato é que há tempos eu venho mendigando uma entrevista e até agora ela tem conseguido me enrolar direitinho e nunca me concedeu uma palavra sequer, pelo menos não diante da câmera…

Voltando à Via Sacra, ela acontece na manhã da Sexta Feira Santa, saindo às 5h da madrugada da casa do Paulo e da Vicentina, o casal encarregado da organização, subindo uma puxada íngreme de quase 3 km até chegar no cruzeiro fincado no alto da Pedra da Balança, bem na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Existe toda uma logística que acontece nos dias que antecedem a procissão; é preciso roçar a trilha, fincar as cruzes das 14 estações e preparar o lanche que é servido na volta, na casa de dona Vicentina, esposa do Paulo.

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A logística também aconteceu de minha parte. Cheguei um dia antes ao bairro, me acomodei em casa de amigos, filmei uma entrevista com o Paulo e me informei do necessário para enfrentar as 3 horas de subida até o cruzeiro. Desnecessário dizer que Heloísa, mesmo tendo sido uma das idealizadoras da Via Sacra, negou-se mais uma vez a falar…

Voltei para casa depois da entrevista com o Paulo e tratei de deitar cedo, pois no dia seguinte o despertador iria me acordar às 3 e meia. Graças a Deus, na casa onde eu estava, não havia sinal de internet nem de celular para prolongarem minha vigília e assim, 9h da noite eu já estava na cama embalado pelo suave som do riacho que corre ao lado da casa onde me instalei.

Dia seguinte, 4 e pouco da manhã, lá estava eu na casa do Paulo, com as câmeras e o meu almoço na mochila, que eu não sou de confiar em promessa de lanche, inda mais tendo uma caminhada dessa pela frente! Não estava frio e havia pouca gente esperando do lado de fora da casa.

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Na sala da pequena casa de roça, a cruz estava de pé sobre uma mesa encostada na parede, dividindo o espaço com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, as duas tochas que acompanhariam a cruz e um livro de presença, que as pessoas iam assinando à medida que chegavam. Ano passado foram 108 assinaturas, este ano esperava-se mais gente, pois só no facebook quase 200 pessoas confirmaram presença.

Muitos vieram à pé mas não vi ninguém chegar montado. As camionetes, fuscas e motos foram chegando, o povo se aglomerando em torno da casa e às 5h em ponto o Paulo chama os presentes, faz um discurso de abertura com informações práticas e cantando um hino em louvor à santa cruz damos início à longa e lenta caminhada em direção ao cruzeiro.

Bendita e louvada seja No céu a divina luz E nós também cá na terra Louvemos a Santa Cruz

Nos céus cantam a vitória De Nosso Senhor Jesus Cantemos também na terra Louvores à Santa Cruz

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Sustenta gloriosamente Nos braços o bom Jesus Sinal de esperança e vida No lenho da Santa Cruz

(estribilho)

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À frente da procissão, cortando o breu da noite sem lua, seguem a cruz e duas tochas de vela, que trocarão de mãos muitas vezes durante o percurso. Alguns metros à frente da cruz sigo eu, com a missão impossível de capturar cada detalhe do espetáculo, caminhando de costas no escuro e procurando não perder o equilíbrio nos buracos e pedras da estrada de terra. Não foi fácil e neste momento sugeri a mim mesmo que diminuísse as expectativas para algo bem abaixo da perfeição, para não comprometer minha integridade física. Houve um momento, logo na primeira estação em que busquei o chão atrás de mim e não encontrei nada, só um vazio e quase me desequilibrei. Naquele momento estava escuro, não pude ver o que era, mas na volta pude ver que se tratava de uma boca de lobo de cimento de mais de um metro de profundidade… Agradeci meu santo por ter me livrado desse acidente…

 A procissão seguia devagar, havia idosos, velhos, crianças, mulheres, gente de 8 a 80 anos. A princípio todos seguiam atrás da cruz mas a cada estação a criançada ia ficando mais impaciente e acabou tomando a dianteira.

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Foi só lá pela terceira estação que começou a clarear e meu trabalho foi então facilitado. Mas se havia mais luz, mais coisas eu via para filmar e fotografar, o que acabou me dando mais canseira porque eu me deslocava o tempo todo, ora ficando à frente, ora atrás da procissão.

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Para “facilitar” um pouco mais meu trabalho, a enorme quantidade de celulares pipocando flashes e disputando os melhores ângulos. Hoje em dia não há evento em que isso não aconteça, todos tem uma câmera, todos querem registrar o evento ou fazer uma selfie.

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A cada uma das estações parava-se, alguém anunciava a passagem correspondente, lia-se um trecho do livrinho que passou a ser fornecido todos os anos pela Campanha da Fraternidade da CNBB. Finalmente rezava-se o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai e cantando seguiam em direção à próxima estação. Assim foi até a 15ª estação, o cruzeiro no alto do morro de pedra.

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Foi cansativo subir; é verdade que paramos 14 vezes, mas foram 3 horas de subida puxada, por estrada de terra, trilha na mata e “trio” de gado no meio do pasto. Finalmente, quando meu fôlego já estava na reserva me dei conta que estávamos ao pé do cruzeiro, um lugar muito alto com vista deslumbrante das montanhas. Era a última estação.

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Todos se deram as mãos e eu tive que decidir entre filmar ou rezar junto com o povo. Escolhi me entregar, alcancei as mãos mais próximas e peguei carona na egrégora de fé que se estabeleceu naquele momento. Rezar foi impossível, não que eu não conhecesse as palavras da oração, mas a garganta estava apertada, fui arrebatado por algo maior e agradeci o privilégio de estar ali naquele momento, simplesmente fazendo parte daquela corrente em direção ao alto.

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O beijamento da cruz encerrou nossa jornada ao cume. Abriram-se as mochilas e passou-se aos comes e bebes. Eu comi minha sopa de arroz integral com lentilha, enquanto o povo se deliciava com pastéis, broas, biscoitos, sanduíches, café e refrigerantes.

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O ditado diz que para baixo todo santo ajuda, mas ou eu estava muito fora de forma ou então, talvez os santos estivessem de folga por ser uma Sexta Feira Santa… O fato é que eu cansei mais descendo do que subindo e meus joelhos ficaram em frangalhos…

Ainda bem na descida contei com a companhia do seu Barrinha me contado causos e me esclarecendo sobre a história da região. Ele me contou que a Pedra da Balança tem este nome porque ali havia uma balança de pesar gado, já que o local é divisa de estado e decerto pesavam e cobravam algum imposto ou conferiam se a papelada estava nos conformes. Contou também que antigamente as procissões para o cruzeiro aconteciam na época da Santa Cruz, todo começo de maio subiam para rezar o terço lá em cima. Naquela época, mais de 50 anos atrás, a cruz era feita de madeira, de cedro rosa. Naturalmente, ela foi apodrecendo e chegou a cair. Vendo aquilo, um certo Benedito Candinho teria feito a promessa de restaurar o cruzeiro, erigindo desta vez uma cruz em cimento armado, em troca de arrumar casamento. Segundo seu Barrinha ele foi bem sucedido, pois meses depois já estava muito bem casado.

Depois de passar na casa de dona Vicentina e comer uma broa de milho assada na folha de bananeira, fui agradecer minha amiga Heloísa. Ao chegar vejo-a sentada na varanda, tranquila e bem arrumada, já que ela tinha se vestido para a procissão. Achei que desta vez ela não me escapava, eu ia entrevista-la finalmente! Mas qual o que, ela se saiu com essa!…

___ Ô Chico, hoje é sexta-feira santa, hoje é dia de oração e prece, aqui na roça “nóis” não trabalha nesse dia não, “ocê me discurpe”, mas vai “tê” que “ficá pruma” outra “veiz”! – E ela caiu na risada…

Mas deixa estar que um dia ainda pego esse bagre liso…

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4 Respostas to “A VIA SACRA DO BAIRRO DO SERRANO – SBS”

  1. Cidinha Says:

    Lindo!!! Muito lindo!!!

    • Amber Says:

      ce lipsita de…. macar propria anatomie s-o stii, draga mea. ca din cauza astora de-alde tine se scot bancuri cu si despre femei. cum adica e “galeata”, mai, preastramto? E UN MUSCHI, in papadia mea! Se dilata, se contracta, revine la forma initiala. Tu ti-ai analizat vreodata partile corpului sau crezi ca e un lucru “necurat” si numai &#s2e0;neserioa82le” fac asta si femeile care zic ca “mai, de cand daca faci sex oral nu mai esti zana”?

  2. B Says:

    QUANDO FOREM ME CHAMEM!

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