A Incansável Dona Teresa

Conheci dona Teresa nas minhas andanças pela cidade de São José dos Campos, como pesquisador de folclore. Esta senhora me surpreendeu e encantou já desde o primeiro encontro. Sua vitalidade, aos 84 anos, é contagiante. Inquieta, ou está ocupada com os afazeres domésticos ou batendo um papo, contando suas histórias. Nunca a vi parada. Lúcida e atenta, ela não perde nada do que acontece ao seu redor.

Dona Teresa é o folclore vivo.

No falar, no trajar e no fazer, ela é, na essência, a mesma pessoa que deixou sua roça faz bem uns 40 anos. Daqueles idos tempos ela traz consigo as plantas de remédio e de comer, as quais cultiva no estreito corredor da casa onde mora hoje, no Parque Industrial em São José dos Campos. Os termos que ela usa para se expressar, as roupas que veste e seu jeitão acolhedor nos transportam para tempo que já não existe mais, mas que esta capricorniana teimosa insiste em querer dar uma sobrevida.

Há 60 anos ela faz acontecer uma festa junina para os 3 santos, Antonio, Pedro e João; uma festa que ela insiste que seja à moda antiga, fiel à tradição, do mesmo jeito que ela e seu marido faziam, no sertão do Cantagalo SP, com direito a broa de milho, mastro, rojão e uma bela fogueira que ela manda acender no meio do asfalto mesmo.

Posso dizer, sem medo de errar, que a razão da vida desta mulher é sua família, são os seus 10 filhos, todos criados e maiores de idade, mas que ela, ainda hoje, cuida como se fossem crianças. Os filhos de dona Teresa tem verdadeira adoração pela mãe e a cada fim de semana vem pedir a benção a esta fortaleza em forma de mulher. Dona Teresa, feliz com a prole ao seu redor, recebe-os com quitutes caipiras, que faz questão de preparar ela mesma. É frango caipira, quirerinha, broa de milho, biscoito polvilho, doces de frutas, receitas deliciosas que ela traz do tempo em que viveu na roça, lá para as bandas de Paraisópolis, nas Minas Gerais…

Por ter sofrido um AVC há alguns anos, sua fala não é muito clara e nas entrevistas eu me esforço ao máximo para não perder uma palavra do que ela diz, dada a riqueza de detalhes e importancia folclórica de seus relatos. Suas histórias são tantas e tão interessantes que resolvi fazer com elas um livro inteiro, para que todo mundo possa se deliciar com as peripécias desta senhora; o que vocês vão ler aqui é um aperitivo, uma entrada para o prato principal, mas uma entrada deliciosa, posso garantir!

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O barrigão de seis meses e meio que Maria Teresa de Jesus carregava não atrapalhou em nada o vai e vem da enxadinha bem encabada e que ia deitando o picão, a tiririca e a guanxuma, no roçado de arroz ao lado da casa onde vivia com o marido, João Batista de Morais. Naquele 19 de janeiro de 1928, ela havia passado o dia todo debaixo de um sol escaldante, mas não sentiu nada de diferente, nada que pudesse denunciar o que viria acontecer nas próximas horas. Para ela, aquele foi um dia comum, quente e abafado, como costumam ser todos os janeiros chuvosos em Campo do Meio, zona rural situada entre Paraisópolis e Conceição dos Ouros, MG.

No horário de costume, quando o sol se escondeu por trás do pinheiral da serra, Maria Teresa deu por encerrada sua tarefa na roça e recolheu-se à casa. No fogão de lenha, botou um pouco de banha de porco numa frigideira de ferro e preparou um virado com o feijão que havia sobrado do almoço, picou uma couve e serviu com arroz para o marido. Comeu ela também e depois apanhou um pouco de água quente da chaleira que vivia em cima da chapa do fogão, para temperar um banho rápido que ela tomou numa bacia de metal. Esfregou-se com uma bucha e sabão de cinza que ela mesma fazia, lavou-se, secou-se, vestiu a camisola e dirigiu-se à cama, já antecipando seu merecido descanso. O marido já estava deitado do outro lado da cama, os homens sempre se aprontam mais rápido que as mulheres. Ajeitou com as mãos o seu lado do colchão de palha de milho, levantou os lençóis e ia deitar-se, quando sentiu um “quente” escorrendo pelas pernas. Olhou para o chão e viu o liquido escorrendo, formando uma poça no soalho. Com toda calma do mundo, sem se alterar, mas já sabendo do que se tratava, ela dirigiu-se ao marido.

__João, manda chamar a mãe que a bolsa estourou. Nossa Senhora do Bom Parto que me ajude, mas acho que essa criança eu já perdi.

João Batista já estava quase dormindo, cansado da viagem a cavalo que fizera a Paraisópolis, onde tinha ido fazer compras para abastecer o armazém que ele a esposa tocavam. Teve que fazer um esforço enorme para se levantar, vestir uma calça, calçar as botas, colocar o chapéu na cabeça e sair correndo em direção à casa da sogra, que ficava a um quarto de légua de onde eles moravam.

Quando João voltou com a sogra, Maria Teresa já estava segurando no colo um diminuto ser do sexo feminino, pesando apenas meio kilo, o quinto filho de uma série de doze que ela viria dar à luz. É verdade que o bebe chorava forte, de arder os ouvidos dos presentes, mas nos olhares que trocaram os tres adultos naquele quarto, estava subentendido que ninguém acreditava que aquela menina, saida do ventre da mãe dois meses e meio antes do tempo, fosse sobreviver. Nem mamar a criança conseguia, foi preciso que Maria Teresa espremesse o peito e deixasse cair o colostro na boca da menina, para que ela se acalmasse e todos pudessem dormir um pouco.

Na manhã seguinte, contrariando todas as expectativas, a criança estava bem viva. Mandaram, então, chamar o padre em Paraísópolis, pois era preciso batizar urgentemente a criança. Se ela não recebesse o sacramento nas 24 horas depois de chegada ao mundo, corria o risco de ficar para sempre com os olhos irritados e cheios de água.

Maria Teresa e o bebê permaneceram encerradas no quarto durante 41 dias. Era o costume naqueles tempos, as mulheres que dessem à luz tinham que fazer a dieta, ou seja, permanecer reclusas no escuro do quarto, sem banho, comendo tudo separado e bebendo cerveja preta, que era pra garantir uma boa quantidade de leite para a recém nascida.

Vencida a quarentena e apesar do tamanho diminuto e da fragilidade da criança, que ainda não tinha nome, todos passaram a considerar a possibilidade daquele frágil serzinho vingar. João, cuidadoso, forrou com algodão uma caixa de sapatos e lá colocou sua filha, que durante o dia permanecia numa prateleira da venda, enquanto a mãe lidava com a roça e a casa. Escondido de todos, depois que baixava as portas da venda, o pai molhava o cabo de uma colher com vinho do porto e pingava na boca da criança. Mais tarde, ele teria contado à filha que esta lambia os beiços ao ingerir a bebida e que se não fosse pelo vinho, ela, com certeza, não teria sobrevivido. Dizem que quando João levava a criança de volta para a mãe, fazia-o carregando-a dentro do bolso do paletó, de tão pequenina que ela era…

Quando ficou claro que aquele pedacinho de gente queria mesmo tentar sua sorte entre os vivos, a avó, que era também a madrinha de batismo, resolveu registra-la em Paraisópolis. Perguntou a Maria Teresa qual o nome que ela queria para a menina.

__Ponha o nome que a senhora quiser, mamãe. Para mim não faz diferença.

E lá a foi a avó para Paraisópolis, registrar a neta, sem saber ao certo que nome responder quando o cartorário fizesse a pergunta. Ao chegar na cidade, como fazia a cada vez, entrou na igreja e ajoelhada fez sua prece de agradecimento pela viagem bem sucedida. Terminada a oração, levantou os olhos para o altar e o que viu foi a imagem de Santa Teresinha. Diz ela que viu uma semelhança enorme da santa com a neta e, assim, a menina ganhou o nome da santa padroeira dos missionários.

Teresinha cresceu rápido e logo pegou peso e tamanho. Não se via diferença entre ela e outras crianças nascidas na mesma época. A menina era esperta e inteligente e logo que pode passou a ajudar a mãe em pequenas tarefas na cozinha. Ia buscar água na mina, uma cebolinha verde na horta ou apanhar galha de pinheiro pra acender o fogo.

Na roça, para brincar, as crianças tinham que se virar com o que havia à mão. Além dos tradicionais passa-anel, cabra-cega e pegador, Teresinha gostava de brincar sozinha no terreiro, onde passava horas a fio, cozinhado os lambaris que ela mesma pescava no corgüinho da mina d’água. Seu brinquedo preferido, ou melhor, o único brinquedo que ela jamais teve na vida, foi uma panelinha de barro que pai lhe deu de presente, uma lembrança que João arrematou pensando na filha, num leilão de uma festa da Santa Cruz em Paraisópolis.

Com os irmãos, Teresinha saia pelo mato, à caça de lagartos e tatús, os quais traziam para casa, para que a mãe os preparasse assados com batatas ou mandioca. Caçavam também coelhos, mas estes tinham que ser moqueados às escondidas, bem longe de casa, pois a mãe tinha nojo dos bichinhos e proibia que os mesmos entrassem em sua cozinha.

Aos quatro anos, Teresinha já sabia montar a cavalo e com isso passou a  apartar as vacas no pasto, junto com os irmãos mais velhos. Ajudava-os também a pastorear cabritos pelos pastos da redondeza e um dia, enquanto olhava os bichinhos mais os irmãos, resolveu brincar numa balança que havia debaixo de uma mangueira velha. Para se mostrar, balançou mais alto do que de costume e acabou se soltando e caindo de costas numa raiz da árvore e desmaiou. Os irmãos, apavorados ao verem a irmã imóvel no chão, correram para casa dos pais, avisar que Teresinha estava morta. O pai saiu imediatamente em busca da filha, trouxe-a para casa, fe-la cheirar um lenço embebido em canfora e, para grande alívio de todos, a menina voltou a si. Deste episódio, além da “ponta do rabinho” que ficou torta para sempre, restou um medo de altura e de roda gigante, que ela não passa perto por nada neste mundo…

Não demorou e Teresinha também já estava ordenhando vacas, como se fosse gente grande. Ela mesma laçava a vaca, amarrava as pernas e fazia espumar o leite no balde. Nos dias em que todos estavam ocupados, a menina, sozinha, tirava leite de 25 vacas. É verdade que o gado era zebuzado, davam menos de 10 litros cada uma, mas mesmo assim, era um feito para uma menina que ainda não tinha os seus 10 anos.

O pai, percebendo que a filha era esperta, passou a leva-la junto com os camaradas, nos trabalhos de roçada e preparo da terra. No início a menina apenas acompanhava a turma e ia apanhar água nas minas, para que os trabalhadores não precisassem parar. Mas, curiosa que era, a menina acabou pegando no penado e começou a roçar junto com os homens. Logo já estava tirando tarefa, fazia metade do trabalho de um adulto.

Escola ela nunca teve quando criança. Não se esperava de uma mulher, naqueles idos tempos e remotas plagas, que fosse instruída. O valor de uma esposa não se media em erudição, mas sim em sua capacidade de trabalho, obediência e dedicação ao marido. Já com os homens era diferente. Um dia, um andante apareceu por aquelas bandas e João o contratou para ensinar as letras e os números aos filhos homens. Claro que Teresinha se interessou pela novidade e quando o homem dava as lições ela se sentava à mesa, toda ouvidos, junto com os irmãos. O pai não aprovou a iniciativa e acabou dissuadindo a menina, que muito triste, foi forçada a se privar do prazer de folhear livros com imagens coloridas que enchiam os olhos da pequena Teresa, mostrando um mundo fascinante, até então totalmente desconhecido para ela.

O pouco que Teresinha e seus irmãos conheciam, além do seu cotidiano da roça, era devido às raras idas da família à cidade, Paraisópolis ou Conceição dos Ouros, nas datas religiosas, Semana Santa ou Natal. Afora isso, só ficavam sabendo do que acontecia no mundo através de passantes esporádicos, algum mascate ou trabalhador avulso oferecendo trabalho. Mas havia também um senhor falante, um fiscal do governo que vinha conferir os selos das garrafas de bebidas, para saber se o imposto estava sendo devidamente recolhido. Este ultimo vinha nas horas mais inconvenientes. Assim, naquela fria manhã de agosto de 1932, quando dona Maria Teresa escutou um barulho de motor lá para os lados da estrada, achou que era o tal fiscal e mandou as crianças esconderem às pressas as garrafas que, naturalmente, estavam todas sem o selo do imposto. Foi um corre-corre danado e  parecia que dessa vez não iam conseguir enganar o fiscal, pois o barulho do carro já se fazia ouvir muito alto, ele entraria pela porta da venda a qualquer instante. No meio da confusão, Teresinha olhou de relance pela janela e gritou:

__Nossa Mãe do Céu, não é o fiscal que vem vindo, não! É um passarão que tá gritando lá de cima dos eucaliptos! E saíram à rua, para ver que tipo de pássaro seria aquele que fazia tanto barulho. Encontraram outras pessoas que também tinham saído de suas casas, intrigadas com o barulho acima das árvores. De repente, surgiu de lá de trás dos eucaliptos um avião Waco, vermelho vivo, das forças legalistas da Revolução de 32, voando rasante, não muito acima de suas cabeças. Foi um deus-nos-acuda! Ninguém naquelas paragens jamais havia visto um avião. Persignando-se e invocando ajuda de Nossa Senhora e do Pai Eterno, entraram todos em suas casas, buscando proteção debaixo de camas, mesas e dentro de guarda-roupas. Uma mulher foi vista segurando uma peneira sobre sua cabeça, decerto acreditando que a cruz desenhada (*) na mesma iria protege-la daquela ameaça que com certeza era coisa do diabo…

Maria Teresa, que nesta ocasião estava grávida, ficou muito assustada com a confusão e pediu para uma vizinha ir buscar um ramo de arruda, com o que preparou um remédio infalível para sistema nervoso. Conhecido como queimado de arruda, o medicamento caseiro consistia em açúcar queimado, arruda e pinga misturados num prato, aos quais se acrescentava um pouco de água morna e tomava-se tudo de uma só vez. Se o remédio a acalmou, não impediu que horas mais tarde ela viesse dar à luz a mais uma criança prematura.

Durante dias, o comentário em Campo do Meio foi o misterioso pássaro vermelho que havia sobrevoado o povoado. Alguns falavam em fim dos tempos, enquanto outros juravam ter visto a cauda do demo no rabo do pássaro. O mistério só foi desvendado semanas mais tarde, quando o padre veio de Paraisópolis para celebrar um batizado e explicou do que se tratava e que seus fiéis não precisavam ter medo dessa nova arma de guerra…

Quando Teresinha tinha lá seus 11 anos, o pai comprou terras mais férteis e maiores, agora no estado de São Paulo, numa região chamada Cantagalo, distante uns 25km de Campo do Meio. Mudaram-se todos para lá, João abriu um novo comércio mas o modo de vida da família continuou praticamente o mesmo. O Cantagalo era tão isolado do mundo urbano quanto o Campo do Meio.

A vida da menina Teresa não ia muito além da lida diária, ajudando o pai com a criação e a roça, e os afazeres domésticos, ajudando sua mãe com cozinha e costura. O que acabava quebrando a rotina eram as mortes, batizados e dias santos, quando o povo parava tudo, se reunia e celebrava em Campo do Meio. Mas também havia as missas de Natal e Páscoa, que o pessoal ia assistir na igreja em Paraisópolis. No dia da Missa do Galo, já de noite, saiam à pé de Campo do Meio um grupo grande de fiéis, percorrendo em silêncio os 18km até Paraisópolis. Quando chegavam na altura da Fazenda do Mogiano, antes de descer a serra, ao avistarem a torre da igreja toda iluminada, os homens tiravam os chapéus e cantavam com voz grave:

AVISTEI A CASA SANTA, ONDE DEUS FEZ A MORADA

LÁ MORA O CALIX BENTO E A HÓSTIA CONSAGRADA

Repetiam 3 vezes estas duas frases e prosseguiam viagem em silêncio. A menina Teresa ficava emocionada nessas ocasiões, eram momentos muito especiais, cheios de religiosidade e respeito. Mas naquele Natal de 1940, ela teria um motivo a mais para ficar emocionada. Acompanhando o cortejo silencioso, estava também o Salomão, um rapaz por quem ela, já há algum tempo, nutria um interesse especial. Pelos olhares que eles trocaram, Teresinha soube que o rapaz também ficou interessado por ela, mas não podiam ir além dessa comunicação platônica, sob pena de serem repreendidos pela moralidade vigente.

Durante anos, só se encontrando aos domingos e sem jamais terem falado um com o outro, mantiveram este vínculo apaixonado, até que um dia, por intermédio de terceiros, Teresinha ficou sabendo que Salomão ia embora para São Paulo. Ele se alistara no exército e iria morar na casa do tio, que era tenente. Isso abalou profundamente a adolescente, que pensou – “Meu Deus, ele vai para o fim do mundo, e agora?”. Não compartilhou com ninguém a sua dor e lamentou muito o fato de ser analfabeta, pois se ao menos soubesse escrever, poderia ter enviado um bilhete para o rapaz, expressando o seu amor… Quem sabe, assim, ele não tivesse mudado de idéia?

Salomão foi em busca de seu destino em São Paulo e, no coração de Teresinha, virou chama uma brasa que ela mantinha acesa desde criança, a de entrar para um convento e ser como aquelas imponentes mulheres de hábito escuro que ela via nas missas em Paraisópolis. Mas a idéia durou pouco, pois ao comentar seu interesse com a mãe, mudou de idéia tão logo esta lhe assegurou que todas as freiras tinham que raspar a cabeça. Teresinha não gostou da idéia de perder seus lindos cabelos compridos e com tempo acabou esquecendo do projeto.

Não muito depois da partida de Salomão para São Paulo, chegou na região uma equipe de serradores, para tirar tábuas das florestas de araucárias do Cantagalo. Entre os rapazes da turma havia um de nome João Fraga, que se encantou com Teresinha à primeira vista, ao conhecer a moça no velório de um anjinho. João Fraga não era de perder tempo e no dia seguinte mandou um bilhete dizendo que queria falar com o pai daquela que havia enchido seus olhos e inflado seu coração.

De acordo com o pedido, João recebeu o pretendente na sala de sua casa e Teresinha que não era boba nem nada, ficou atrás da porta escutando tudo. João entendeu que aquele moço sentado à sua frente e que estava há apenas 3 semanas trabalhando no Cantagalo, era um bom pretendente para sua filha e deu sua permissão para que João Fraga se casasse com ela. Teresinha, de dentro do quarto, sentiu um frio subir pela barriga e as pernas amolecerem. Ela nunca havia contrariado seu pai e não seria agora que iria faze-lo, mesmo que este tal de João Fraga não tivesse conquistado um unico milímetro do seu coração. Isso aconteceu no mes de janeiro e o casamento foi marcado para dia 2 de junho.

Todo esses meses Teresinha sofreu calada, mas tocou sua vida como se nada houvesse acontecido. Decidiu que era melhor casar mesmo, pois para ela, mais importante que tudo era ver o pai satisfeito. Aqueles não eram tempos em que a mulher tinha voz nem vez…

Os preparativos para o casamento Teresinha fez a contragosto, empurrada pela mãe. Foram a Paraisópolis e escolheram o melhor traje que encontraram, um vestido de seda patu, de cauda; se ela não estava feliz por dentro, por fora, ao menos, ela ia mostrar-se deslumbrante. Escolheram os melhores animais e na véspera do casório as duas mataram e prepararam 2 boas leitoas e 12 frangos bem cevados, para a janta que seria servida depois do casório, a ser realizado na igreja de Nossa Senhora de Santa Maria, na praça central do Cantagalo.

No dia do casamento, Teresinha sumiu da vista de todos e passou horas sozinha, rodando pelo pomar, pensando naquela pessoa que há alguns anos tinha ido para São Paulo se alistar; bem que ele podia aparecer antes do padre perguntar se ela aceitava João Fraga como seu legítimo esposo e mudar definitivamente o rumo de sua vida. Ainda dava tempo… Mas ele não veio e ela teve que encarar a dura realidade de se casar com um homem que não escolhera. Às lágrimas, com o coração saindo à boca, ela caminhou para a casa de uma amiga, que ajudou-a com o penteado e o vestido. Às 3h da tarde, quando o pai a conduziu ao altar, ela se sentiu caminhando em direção ao cadafalso…

Terminada a cerimonia na igreja, foram todos para a casa dos pais da noiva, onde foi servido um jantar simples; arroz, feijão, virado, frango ensopado e leitoa assada, tudo regado a suco de laranja, que nenhuma bebida alcoólica foi autorizada por João, para evitar brigas e confusões. Presente de casamento, Teresinha ganhou apenas uma panela de ferro, de sua irmã e uma máquina de costura Singer, do pai, evidenciando bem o que se esperava dela como esposa. Lua de Mel era algo impensável, dadas as condições austeras que eles viviam. Como agrado, os recém-casados puderam passar a primeira noite na cama de casal dos pais da noiva e foi na casa destes que viveram os dois anos seguintes.

Os pais de Teresinha abriram uma outra venda no Cantagalo, para lá mudaram-se e deixaram a filha e o genro morando em sua antiga casa e cuidando da fazenda. Com o casamento, a vida de Teresinha não mudou grande coisa, sua rotina era praticamente a mesma e ela continuava trabalhando igual a um homem. Só que agora, como esposa, ela tinha mais tarefas e mais responsabilidades, isto sem falar na nova vida que carregava em seu ventre. Seu primeiro filho, o Zito, veio ao mundo um ano e 4 dias depois do casamento, pesando 5kg e deu muito trabalho para nascer, foi preciso a ajuda de duas parteiras para que o menino saísse da barriga de Teresinha. Como sua mãe, ela seguiu à risca o costume de manter o recém nascido por 7 dias no escuro do quarto, sem tomarem banho, ela e o nenê, e guardou também a dieta de 41 dias, tendo comido um frango por dia durante este período, que ela mesma se dava o trabalho de matar e preparar.

Teresinha logo se deu conta de que seu marido era muito ciumento. João Fraga não gostava que sua esposa conversasse com ninguém. Isso era muito difícil para uma mulher como Teresinha, comunicativa e que gostava de negociar a venda da produção da fazenda. O clima entre os recém-casados não era nada bom. João nunca estava satisfeito e um dia chegou a levantar a voz com Teresinha, ao reclamar de um botão que estava faltando em sua camisa. Teresinha foi até o armário e pegou uma pilha de camisas limpas e passadas e botou em cima da cama, como quem diz: “Se nesta falta um botão, aqui tem uma dúzia de camisas perfeitas”. João não pensou duas vezes, pegou a pilha toda e jogou pela janela. Teresinha ficou vermelha de raiva, mas não disse nada, ela jamais proferiu um palavrão em toda sua vida, só de pensar em nome feio sentia um gosto ruim de sabão em sua boca. Mas com o pensamento ela amaldiçoou aquele homem com quem era obrigada a dividir o leito todas as noites. Nessas horas difíceis ela recorria à Mãe de Deus, a quem orava pedindo paciência e forças para seguir em frente.

Dois anos haviam se passado do casamento de Teresinha com João quando Salomão, vindo de São Paulo, entrou na cozinha da casa de Maria Teresa e anunciou que voltara ao Cantagalo para casar-se com Teresinha. Maria Teresa, com sua habitual frieza, respondeu:

__O senhor chegou atrasado. Teresinha já está a caminho do segundo filho. Passar bem!

Teresinha desmanchou-se em lágrimas quando ficou sabendo que seu antigo amor voltara ao Cantagalo, mas como era do seu feitio, sofreu em silêncio. Um sofrimento que se renovava todas as vezes que ela olhava pela janela da sua cozinha. É que Salomão fora morar com parentes, justamente numa casa que podia ser avistada da cozinha de Teresinha. Ela ainda pensou de fugir com o Salomão, mas teve muita vergonha do que o povo ia pensar e acabou desistindo da aventura…

Os filhos foram se sucedendo e, surpreendentemente, para um bebê que nascera tão fragilizado, Teresinha tinha muito leite para alimenta-los. Ela jamais preparou uma mamadeira para seus filhos e chegou mesmo a fornecer leite para bebes cujas mães não tinham o suficiente. Aos 21 anos, a saúde de Teresinha parecia melhor do que nunca. Mas um dia, depois de comer uma banana, uma dorzinha surgiu e foi crescendo do lado esquerdo de sua barriga, até crescer tanto que derrubou-a no chão. As crises foram ficando cada vez mais freqüentes e depois de um ano tentando combate-las com chazinhos de ervas, ela achou por bem ir a Paraisópolis consultar um médico. Lá, o médico chegou à conclusão de que era problema de vesícula e o tratamento recomendado foi a retirada de todos os dentes da doente. Não vendo outra saída, Teresinha fez o que o médico recomendou e ao cabo de um mes não restava um só dente em sua boca. Mas as dores continuaram, o que não impedia que ela continuasse trabalhando como sempre trabalhou.

Mais filhos foram chegando e Teresinha ia colocando-os para dormir na mesma cama em que ela e João dormiam, até para facilitar as mamadas. É preciso dizer que Teresinha não desmamava um filho quando nascia outro. O comum era que eles mamassem até 4 ou 5 anos, sendo que a mais nova mamou até os seus 9 anos. O marido, incomodado com o barulho que fazia a pequena multidão instalada em sua cama, passou a dormir em quarto separado e este arranjo não mudaria até sua morte.

Lá pelo terceiro filho, João Fraga achou que sua prole estava de bom tamanho e resolveu comprar, na vizinha Paraisópolis, uma novidade vinda dos Estados Unidos; as recém inventadas camisas-de-venus feitas de látex. Como se fosse um presente, entregou o pacote para Teresinha, que indignada com a idéia do marido, de interferir nos desígnios divinos, atirou as camisinhas no ribeirão que passava nos fundos da casa. Ao menos nesta questão, Teresinha é quem tinha a última palavra.

Se fosse por João Fraga, a família teria permanecido para sempre no Cantagalo, vivendo da terra. Mas Teresinha tinha planos, era ambiciosa e queria conhecer o mundo além da sua roça natal. Depois de muita insistencia e contrariando o marido, que a queria bem quieta e desempenhando o papel de dona de casa, eles acabaram abrindo uma venda no asfalto, a 20km do Cantagalo e para lá se mudaram. Os negócios não foram muito bem e João aceitou um convite de amigos, para ser administrador de uma fazenda em Piracuama, um bairro de Pindamonhangaba SP.

Piracuama não era longe de onde eles moravam, mas a mudança foi muito penosa, principalmente para Teresinha, que devido à vesícula ainda doente, enjoou muito no caminhão que fez a mudança. As estradas eram todas de terra e muito ruins nos idos anos 50. Nos trechos mais íngrimes das serras, era preciso descer e caminhar, pois era grande o risco do caminhão despencar da ribanceira.

Em Piracuama, o casal abriu uma outra venda e Teresinha é quem cuidava dos negócios, mas sempre sob supervisão do marido. Como de hábito, ela não parava nunca. Além de ficar no balcão, dava também conta da casa, mantinha uma horta grande nos fundos, costurava para fora, fazia salgadinhos, estava amamentando sempre dois ou tres filhos de cada vez (afora o leite que fornecia para os bebes de outras mulheres) e continuava fazendo filhos um atrás do outro. O ritmo era tão alucinante que quando se deu conta de que estava grávida de seu sétimo filho, este já estava há cinco meses em sua barriga! Teresinha nunca fez uma cesárea, todos os seus filhos, afora o primeiro, escorregaram para fora dela que nem se fossem feitos de sabão…

Depois de seis anos em Piracuama, tiveram que sair de lá por causa um desentendimento entre João e o patrão. Foram tentar a sorte numa beira de estrada, onde João construiu uma casa às pressas, nas cercanias de São Bento do Sapucaí. Lá botaram venda, mas desta vez nada deu certo. As crianças não tinha escola, Teresinha continuava com as crises da vesícula e os negócios de mal a pior; o que vendiam não dava nem para pagar os impostos e as contas.

Por esta época, quando a dor a derrubava, Teresinha fazia viagens para se tratar em São José dos Campos e nestas ocasiões se hospedava com os pais, que há anos tinham se mudado da roça no Cantagalo e viviam numa casa na Vila Rossi. Os confortos da cidade e a proximidade do atendimento médico especializado, certamente exerceram alguma influencia em Teresinha, que um belo dia declarou ao marido que não queria mais morar na roça e que se ele quisesse que ficasse lá morando sozinho. Dito e feito, ele lá e ela cá com os filhos, inauguraram uma nova fase no relacionamento do casal.

Se por um lado Teresinha se cercou de conforto, por outro não diminuiu seu ritmo de trabalho. Morando com os pais, continuou com as costuras e salgadinhos e abriu uma nova frente, “importando” frangos caipiras para vender nas feiras livres e no Mercado Municipal. João despachava os galináceos de madrugada, pelo caminhão do leite, ela os recebia em São José e os vendia com ajuda da filha Tita. Fazia gosto ver aquela mulher baixinha, carregando pelos pés meia dúzia de frangos em cada braço, acompanhada de uma menina que ia recebendo o dinheiro e fazendo troco.

Foi por essa época que ganhou fama de milagreiro em São José dos Campos, um tal Padre Rodolfo Komorek, que morrera recentemente de tuberculose. Compadecendo-se da filha, que volta e meia ia parar no Hospital Pio XII ou na Santa Casa, acometida de violentas crises de vesícula, João Batista insistiu que a filha fizesse um voto para o padre, pediu que ela fosse visitar as relíquias do padre ali no centro da cidade. Já havia muitos casos de curas atribuídas ao cura polaco, por que não tentar?

Teresinha, esgotada pelas idas e vindas aos hospitais e enjoada dos litros e litros de chá de picão que ela consumia no lugar do café, resolveu que não custava nada fazer a vontade do pai. Fez uma visita às relíquias e ofereceu uma novena ao padre, na intenção de obter a cura para a enfermidade que a afligia há mais de década. Se não obteve a cura total, depois disso seu estomago passou a aceitar comida sem vomitar e as crises deram uma trégua. Mas ela ainda iria penar por mais algum tempo, antes de se submeter a uma operação pelo INPS, que extirparia sua vesícula, pondo fim a vinte e um anos de sofrimento.

O arranjo do casal vivendo separado durou apenas alguns meses. Movido pela solidão e pela saudade, João cedeu à esposa e reuniu-se à família em São José dos Campos, onde foram todos morar numa casinha alugada na Vila Sinhá. Foram tempos eram difíceis para quem conheceu a abundância da vida na roça. João arrumou serviço como pedreiro avulso e o orçamento familiar era apertado e instável. Essa não era a vida que Teresinha sonhava para sua família. De modo que quando ela ficou sabendo que abriram um loteamento barato lá para as bandas do Alto da Ponte, juntou suas economias, pediu ajuda às duas filhas que já estavam trabalhando em fábricas e financiou dois terrenos que totalizavam 500 m2.

A prioridade passou a ser a construção de uma casa, para fugir do aluguel o mais depressa possível. A primeira coisa que fizeram no terreno recém comprado foi furar um poço, que por sorte deu água com poucos metros, já que o terreno ficava não muito longe da beira do rio Buquira. Com água farta e barro à vontade, fizeram uma tantada de tijolos de adobe, ela e o marido, e, num instante levantaram uma casinha de 3 cômodos, para onde se mudaram os 13 membros da família, tão logo o piso ficou pronto. Quem gostou da mudança foram as crianças, que ganharam largueza para seus folguedos. Naquela época, esta região era praticamente rural, não havia muros e o rio ficava ali nos fundos da casa, um pequeno paraíso para os petizes, com suas goiabeiras, araçazeiros e maracujazeiros daquele tipo que dá frutinho roxo, doce que só ele!

Não demorou muito e os Fraga foram ganhando novos vizinhos. A recente onda de industrialização da região fez a cidade inchar muito rápidamente e atraiu uma mão de obra de todos os cantos do Brasil. Muitos chegavam sozinhos e precisavam de apenas um quarto para se arranjarem, enquanto não conseguiam trazer a família toda. Teresinha, percebendo esta demanda, teve a brilhante idéia de construir alojamentos e alugar para esta gente. João não gostou muito da idéia, mas desta vez Teresinha se impôs e logo o casal início à construção do que viriam a ser sete apartamentos independentes. Sim, porque Teresinha não queria nenhum inquilino usando o banheiro da casa dela. De manhã, Teresinha despachava as crianças para a escola, cuidava do almoço e tão logo terminava o serviço da casa, ia ajudar o marido a assentar tijolo, fazer massa, desempenar parede, o serviço que fosse ela não enjeitava.

Os apartamentos iam sendo alugados à medida que ficavam prontos e, finalmente, a situação financeira da família logo começou a melhorar. A família viveu anos de relativo sossego, com todos contribuindo à sua maneira. Desde os maiores, que trabalhavam em fábricas, até os pequenos, que já com 10 anos de idade se empregavam como balconistas nas lojas do centro da cidade, num tempo em que ainda era permitido às crianças, trabalhar para complementar o orçamento familiar.

No ano de 1979, a infra estrutura do bairro do Alto da Ponte ainda era muito precária. Não havia asfalto nas ruas, o esgoto era a céu aberto e nem todos tinham dinheiro para pagar uma instalação de energia elétrica. Teresinha e João eram dos poucos que conseguiram uma ligação da Eletropaulo e forneciam energia para os vizinhos, através de gambiarras. Não era muito fácil medir a luz fornecida e isso era sempre motivo de confusão na hora de receber, o que fez com que João se enchesse das picuinhas dos vizinhos e desse fim ao arranjo, cortando os fios das gambiarras.

Na surdina e por vingança, os vizinhos obstruíram com cimento a passagem por onde escoava a água do terreno de João e Teresinha. Era época das chuvas e com a primeira tempestade ocorreu a tragédia: formou-se uma represa e as águas invadiram todas as casas que estavam dentro do terreno murado, estragando móveis e utensílios. Nas casas atingidas, pensou-se que a inundação era devida a uma tromba d’água ou coisa que o valha, jamais imaginaram o que os vizinhos tinham aprontado com eles. Como a água demorasse a baixar, foram procurar a causa e descobriram a maldade. Terezinha ficou possessa e armando-se de uma picareta, investiu contra o muro e foi quebrando até conseguir fazer toda a água vazar. Imediatamente, a vizinhança mandou chamar a polícia, para deter aquela senhora maluca que estava destruindo o muro a picaretadas. Foi um quiprocó. Baixou polícia, imprensa e o bando de curiosos que sempre aparecem nessas horas. Formou-se uma confusão tão grande que o incidente acabou virando matéria de primeira página no jornal Valeparaibano, com direito à fotografia de Teresinha, com cara de vitoriosa, empunhando sua picareta e apontando o buraco no muro! No final das contas, o poder público entendeu que os vizinhos estavam errados e os obrigou a consertarem o estrago…

João nunca se adaptou muito bem à vida na cidade e passou a beber mais do que seria aceitável para um pai de família. Não demorou muito ele caiu doente e ficou impossibilitado de trabalhar. Aposentou-se por invalidez e passava a maior parte do tempo em casa, na cama. Por esta época, Teresinha decidiu, mais um vez, que era hora de mudar de casa, pois os vizinhos nunca mais a deixaram em paz depois do episódio do buraco no muro. Por isso, venderam o local onde moravam, inclusive os cômodos de aluguel, conseguiram uma casa ainda por acabar no Parque Industrial, do outro lado da cidade e para lá se mudaram.

Já fazia tempo que Teresinha estava ensaiando aprender a ler e escrever,  mas o marido, ciumento, sempre encontrava um meio de demove-la da idéia. Contudo, agora que João estava acamado e sem forças, ela se sentiu livre para frequentar um curso noturno de alfabetização do Mobral. Assim, aos 57 anos, Teresinha entra, pela primeira vez em sua vida, numa sala de aula. Foram 3 anos estudando com afinco e ao final do curso, toda orgulhosa, recebeu o diploma das mãos do prefeito Robson Marinho, que à partir de então passou a ser incluído nas preces que ela fazia à Santa Terezinha, todas as noites antes de se dormir. O primeiro e único livro que ela jamais leu, foi a Vida de São Camilo de Lélis, pois logo depois de ter pego o diploma ela foi acometida por um derrame cerebral que faria com que ela esquecesse tudo que aprendeu durante os 3 anos de Mobral! Como se isso fosse pouco, morre-lhe o marido, seu companheiro de mais de 40 anos de estrada.

Mas Teresinha não é mulher de esmorecer. Há que tocar o barco, a vida continua! Resolvida a reaver o que o AVC lhe tomou, conseguiu uma cartilha infantil e convocou o seu netinho de 10 anos, o João, para que nas horas vagas ele a ensine a ler e escrever novamente. O próximo projeto é computador, que ela quer começar a aprender tão logo consiga decifrar as letrinhas do teclado.

Aos 84 anos, planeja viver até os 105 ou 110 anos, quando calcula que já terá feito o suficiente e possa passar para o lado de lá com a sensação de missão cumprida. Diz ela que se encontrasse um homem forte e saudável, ainda queria fazer mais filhos, mas, segundo Teresinha, este tipo de homem está em falta no mercado…

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No texto, chamei dona Teresa de Teresinha, para não confundir com sua avó e mãe, que também tinham Teresa em seus nomes.

Para redigir esta pequena biografia, tive que voltar muitas vezes à casa de dona Teresa e acabei me afeiçoando por ela e sua grande família. Foi um grande prazer realizar as gravações com esta mulher tão divertida e cheia de vida. Sua casa é um grande coração, que além de acolher os filhos de sangue, tem sede de adotar aqueles que não fazem questão de ter mais de uma mãe neste mundo, entre os quais eu me incluo.

Cada vez que saio de sua casa, carrego comigo um presente, que não advém somente do prazer do encontro, mas se materializa num biscoito polvilho, num tempero pronto, numa coxinha que ela mesma prepara e faz questão que eu leve para minha casa.

Dona Teresa faz troça do fato de eu recusar o seu café, não por ser o dela, mas por causa da cafeína que me ataca os nervos. Na roça isso é considerado uma desfeita! E em vez de café ela pergunta se o “nene” quer tomar um chazinho… Quando eu aceito, lá vai ela apanhar um macinho de hortelã, no exíguo corredor ao lado da casa onde cultiva seus temperos, couves e até algumas frutas de árvore. O mesmo corredor em que ela faz subir, no mes de julho, um mastro enorme com uma bandeira tripla espetada lá em cima, em homenagem a Santo Antonio, São João e São Pedro, do mesmo jeito que ela fazia com o marido João, na sua saudosa Cantagalo, 60 anos atrás.

A festa de Dona Teresa é no mes de julho e não em junho, como manda a tradição. Se você quiser saber o motivo, leia esta história abaixo, que escrevi quando do meu primeiro encontro com ela.

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             Festa Junina da Dona Teresa

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens de sua festa, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

 Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos a um festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

 

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.

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2 Respostas to “A Incansável Dona Teresa”

  1. brancadeneve01 Says:

    #luto

  2. catarina Says:

    uma grande mulher, uma guerreira

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