O “FUMÁ” DO SEU LUÍS DO NHOCA

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O cultivo do fumo na região de São Bento de Sapucaí SP já não tem a força de antigamente, quando sustentava famílias inteiras, que tinham nesta matéria prima sua maior fonte de renda. Era um tempo em que as propriedades eram praticamente autossuficientes e produziam quase tudo que necessitavam, dependendo apenas do sal e do querosene que eram comprados nas cidades.

Seu Luís aprendeu a lidar com fumo desde criança e hoje cultiva o processa a planta mais por saudosismo, já que não depende dessa renda para viver. Planta porque gosta e mesmo tendo terras, até arrenda uma pequena gleba de terra do vizinho, onde faz o seu “fumá”, que é o nome que eles usam aqui para se referir à roça de fumo.

A cadeia de produção de fumo de corda, ou de rolo, envolve várias etapas, explica seu Luís. No mês de novembro ele coloca na terra as sementes, que são sempre tiradas da cultura do ano passado, num processo que se repete desde seu avô. Ou seja, a linhagem das sementes que ele usa tem pelo menos 100 anos. Quando as mudas estão com uns 20 cm ele as transplanta para o “fumá”. Antigamente não havia pragas que atacavam o fumo, mas hoje, ele não sabe o que houve, muitas folhas amarelam e apodrecem, tornando-se inúteis para a produção.

Adubo ele não usa, a terra escura é muito boa. Veneno também não. Uma vez ele usou um produto que era para matar árvore, para ver se funcionava contra essa praga que apodrece as folhas, mas o que ele consegui foi matar todas suas plantas… Depois disso nunca mais!

As mudinhas já transplantadas, é preciso capinar sempre, pois o fumo não suporta concorrência. Precisa de muita luz e arejamento, senão ele sai mirrado. Em média ele faz 3 capinas a cada ciclo.

Quando a planta ameaça florir, é preciso fazer a “desóia”, que vem a ser a retirada dos brotos. São feitas de 3 a 4 “desóias” a cada cultura. Se a planta florir ela começa a morrer e para de crescer.

Os maiores inimigos da plantação de fumo são a geada e o granizo, ambos fatais. Às vezes, quando se suspeita de geada, é melhor colher o fumo antes da hora e ter um produto de menor qualidade do que não ter nada, explica seu Luis.

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Quando as folhas começam a pintar, lá pelo 3º ou 4º mês de vida na terra, está na hora de colher e deixar murchar, para algumas horas depois pendurar no andaime de bambu ou varas de pau. Lá elas ficam durante uma semana, quando então é feita a “destala”, o processo de tirar o talo para logo em seguida começar a encordoar as folhas.

A destala envolve várias pessoas. Antigamente participavam a família e os amigos, era um acontecimentos social que varava a noite e só terminava com o sol já acima do horizonte. Hoje, seu Luís vivendo sozinho, quem aparece para ajudar são amigos e alguns parentes.

Depois de destalado, o fumo é encordoado no cambito, e depois passa para o bacamarte, que trabalha em conjunto com a cambota. São todas peças artesanais de madeira, construídas para o fim específico a que se destinam.

O fumo deve ser mudado de posição várias vezes para tomar ar por igual e ser apertado, mais ou menos, para faze-lo suar, ou não, dependendo do grau de “forteza” que se deseja. Se ele suar demais, vai ficar preto e fraco, se suar de menos, fica amarelo e mais forte. Este processo pode durar semanas até que se atinja o ponto desejado.

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O fumo pronto, seu Luís vende para o mercado da cidade ou quem aparecer para comprar.

Uma vez ele, de teimoso, com dó de jogar fora seu trabalho, enrolou um fumo cujas folhas já estavam passadas. Ele sabia que seria um fumo ruim mas fez mesmo assim. Terminado o processo, nem experimentou do produto, deixou num canto do paiol, esqueceu dele. Um dia apareceu um comprador e ele não tinha fumo. O comprador era curioso e achou os quase 10 kg de fumo enrolados no paiol. Seu Luis avisou que era produto de baixa qualidade mas que se ele quisesse, que levasse um quilo para experimentar. E fez um preço bem abaixo do mercado pois sabia que o produto não era bom.

Dias depois o comprador voltou e queria comprar tudo. Disse que este fumo “estragado” era melhor do que o melhor que ele tinha na sua loja! Seu Luís ficou contente, vendeu os outros 9 kg e com o dinheiro comprou uma calça no valor de 53 reais, um canivete por 30 e remédio para o gado por 80 reais. Tudo isso com um rolo de fumo estragado que ele só não tinha jogado fora porque tinha espaço no seu paiol…

Seu Luís me contou essa história, e também outras que espero depois relatar, com orgulho que tem aquelas pessoas que amam o que fazem. Este homem vive integrado ao seu ambiente. De manhã tira um leite para o gasto, às vezes faz um queijo e se não precisa deixa para o bezerro engordar. Faz sua própria comida depois que a esposa se foi e espera que Deus lhe dê saúde para que possa seguir trabalhando até que chegue sua hora.

Seu Luís gosta das coisas de antigamente. Não suporta esse tal de celular, que faz as pessoas andarem de cabeça baixa, como que evitando os que estão ao seu redor, um absurdo a seu ver! Também não entende porque o pessoal parou de plantar fumo e se dedica a engordar gado. Pelas contas dele o fumo dá muito mais! Senão, vejamos; uma arroba de fumo vale 5 vezes mais que uma arroba de boi e gasta 5 vezes menos tempo! O pessoal não quer é trabalhar, isso sim, diz ele! Porque o fumo dá um trabalhinho, mas rende muito mais no final…

Estou fazendo um vídeo com seu Luis, para mostrar todo o processo do fumo e tenho ido ao “fumá” por diversas vezes. Me ofereço para ajudar e assim entendo melhor o que vou registrar. Nessas horas saem as melhores conversas e eu me sinto integrado a uma cultura que agoniza e que sobrevive apenas pelas mãos e corações dos mais velhos, já que os jovens são todos sugados pelo mercado de trabalho urbano. Hoje, por uma feliz coincidência, estava ajudando a colher as folhas maduras de fumo, o neto de seu Luís, o Vinícius. Vinícius tem 15 anos e matou aula para ajudar o avô. Conversando com o rapaz, ele me adianta que se pagarem bem ele ficha num trabalho qualquer na cidade. Este tem sido o movimento há décadas nesta região e imagino que em todo interior brasileiro.

Nosso papo hoje era sobre cobras. Estamos em maio, já faz bastante frio. Perguntei se no verão aparecem muitas cobras e seu Luís disse que não. Mas que mês passado ele matou uma cascavel no bambuzal e que semana passada tinha uma no terreiro da casa. Vinícius entrou na conversa e contou que matou uma cascavel que saiu do pasto, ali na altura da igreja da Sagrada Família.

Tentando não dar um tom de reprovação à pergunta, quis saber do rapaz o por que dele matar a cobra. Ele não titubeou;

__ As cobras a gente tem que matar pra elas não matar a gente e nem a criação.

E arrematou…

__ Outro dia o vô matou uma cobra com o gancho e voou leite pra todo lado.

Eu não entendi… leite? Ele vendo minha cara de espanto, explicou;

__ A cobra mama na vaca e rouba o leite do bezerro, aquela devia ter acabado de mamar, “tava” até gorda de tanto leite!

Na roça existe esta crença, de que as cobras mamam, não só dos úberes das vacas, mas também dos seios das mulheres que amamentam e prejudicando os bebês que são privados de seu único alimento.

O pai de Vinicius também estava dando uma força para o sogro hoje no “fumá”. Ele tem saudade dos tempos em que os vizinhos se ajudavam e quase não se mexia em dinheiro, havia muita troca dos excedentes da produção. Na verdade foi ele que puxou o assunto dizendo que antes só compravam sal e querosene, o resto todo era produção própria. Seus olhos brilhavam enquanto discorria sobre os bons tempos passados, mas quando perguntei se queria que seu filho ficasse na roça ele disse que não, que aqui só fica quem não teve oportunidade de estudar…

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6 Respostas to “O “FUMÁ” DO SEU LUÍS DO NHOCA”

  1. Thiago Gabriel Silva Teixeira Says:

    Olá! Boa tarde! Trabalho com fabricação de cigarros de palha e gostaria de conhecer o produto (Fumo de cora do Seu Luis)! Como faço para adquirir?

  2. Bia Sette Says:

    Seu texto me fez chorar,rs
    Meu grande avô, dono dos olhos azuis mais lindos do mundo!
    Sou orgulhosa dessa garra que ele possui!

  3. chicoabelha Says:

    Grato pelo comentário, Ednéia. Você se lembra de alguma história interessante de sua avó em relação ao cultivo do fumo?

  4. Edinéia Says:

    Parabéns pela matéria! Esse é meu avô! Puro orgulho da família… Só faltou a vó, com seu cigarrinho de “paia”… Que Deus a tenha.

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