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Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

nilton renno

                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

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ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

O CAIPIRA ASSUMIDO

julho 18, 2015

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Seu Geraldo tem 64 anos e “pita” desde os 3, quando o pai enrolou e deu ao filho seu primeiro cigarro de palha. Assim lhe contou a mãe. Seu pai era fumeiro, plantava e processava o tabaco como atividade secundaria. Antigamente o fumo era barato, ninguém vivia só de plantar fumo.

Estar com seu Geraldo, é vê-lo enrolar e acender um cigarro de palha atrás do outro. Ele pacientemente alisa a palha do milho, corta-a no tamanho certo, passa uma saliva que diz que é para ficar mais “legal”, corta o fumo com um canivete surrado, coloca-o entre as palmas das mãos e num movimento circular que ele chama de “misgaiar”, reduz os pedaços a um pó grosseiro que finalmente vai enrolar na palha. Depois de enrolado, acende o cigarro com um isqueiro a gás e começa a pitar.

Nas duas horas que estive com ele, uns bons 4 cigarros de palha foram enrolados na palha do milho que ele mesmo planta e reserva para esta finalidade. Fumo ele não planta mais, compra de quem planta ou do comércio mesmo.

Este caipira assumido mora no mesmo lugar em que nasceu, no Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP e nunca passou pela cabeça sair dali. Sua esposa, a dona Cacilda é da mesma opinião.

Sua saúde vai bem, obrigado. Ele não tem doença nenhuma, não toma remédio e quando pega uma gripe ou tem dor de barriga recorre aos matos que encontra em volta da casa.

Aposentado, ele ainda planta para o gasto e gosta de ajudar os amigos quando é chamado. Para matar um porco, destalar fumo, arrumar uma cerca, essas coisas que só se faz ainda na roça.

Nos bancos escolares ele sentou por três meses, quando tinha 17 anos; foi pouco mas aprendeu o suficiente para o gasto. Sabe assinar o nome e fazer contas mais rápido do que muita gente formada.

Segundo ele, antigamente ninguém dava bola para os caipiras. Hoje as pessoas tratam o pessoal da roça com mais respeito e reconhecem o valor da vida no campo. Haja vista a quantidade de gente da cidade que está vindo morar na vizinhança… Antigamente ninguém queria morar na roça, as terras não tinham valor. Hoje, os que venderam suas terras choram arrependidos… Assista o vídeo abaixo, que começa, justamente, com um comentário sobre o caboclo que vendeu o sítio e foi morar na cidade…

A VIDA NA ROÇA

maio 31, 2015

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Dona Maria é uma mulher de fibra, uma fibra que está em extinção na natureza de hoje em dia. Magrinha, ela está sempre em movimento, é daquelas pessoas que a gente nunca vê paradas. Dá conta do serviço, qualquer serviço, como se fosse um homem, mas também sabe bordar e cozinhar muito bem. Viúva, ela mora sozinha e cuida de um bando de cachorros, galinhas e tem uma horta espremida no seu terreno de 250 m2, além de usar uma área pública onde planta desde couve até cana pra fazer garapa.

Fiz este pequeno vídeo a pedido de Dona Maria, que gosta muito de ser filmada e mostrar o que aprendeu na roça, onde viveu até os seus 25 anos.

Com o vídeo ela quer deixar um registro para seus filhos e netos, pois sabe da importância do conhecimento que adquiriu com seus antepassados e também porque as pessoas não acreditam que ela foi e ainda é uma mulher que sabe lidar com a criação, monta a cavalo, conhece ervas medicinais, simpatias e mais um tanto de coisas que o pessoal da cidade só vê em filmes e livros.

O sítio onde ela morava na infância e adolescência foi desapropriado para construção da represa de Paraibuna e, desde então ela vive na cidade, sempre sonhando com sua roça natal.

Hoje ela mora em um pequeno terreno na periferia da cidade de São José dos Campos SP, no bairro do Buquirinha, onde cria galinhas, planta cana, milho, abóbora e mantém uma pequena horta para o gasto, tentando se aproximar da vida que tanto gosta.

As imagens do vídeo foram feitas no sitio onde mora sua filha, na zona rural de São José dos Campos SP

A Incansável Dona Teresa

abril 16, 2015

Conheci dona Teresa nas minhas andanças pela cidade de São José dos Campos, como pesquisador de folclore. Esta senhora me surpreendeu e encantou já desde o primeiro encontro. Sua vitalidade, aos 84 anos, é contagiante. Inquieta, ou está ocupada com os afazeres domésticos ou batendo um papo, contando suas histórias. Nunca a vi parada. Lúcida e atenta, ela não perde nada do que acontece ao seu redor.

Dona Teresa é o folclore vivo.

No falar, no trajar e no fazer, ela é, na essência, a mesma pessoa que deixou sua roça faz bem uns 40 anos. Daqueles idos tempos ela traz consigo as plantas de remédio e de comer, as quais cultiva no estreito corredor da casa onde mora hoje, no Parque Industrial em São José dos Campos. Os termos que ela usa para se expressar, as roupas que veste e seu jeitão acolhedor nos transportam para tempo que já não existe mais, mas que esta capricorniana teimosa insiste em querer dar uma sobrevida.

Há 60 anos ela faz acontecer uma festa junina para os 3 santos, Antonio, Pedro e João; uma festa que ela insiste que seja à moda antiga, fiel à tradição, do mesmo jeito que ela e seu marido faziam, no sertão do Cantagalo SP, com direito a broa de milho, mastro, rojão e uma bela fogueira que ela manda acender no meio do asfalto mesmo.

Posso dizer, sem medo de errar, que a razão da vida desta mulher é sua família, são os seus 10 filhos, todos criados e maiores de idade, mas que ela, ainda hoje, cuida como se fossem crianças. Os filhos de dona Teresa tem verdadeira adoração pela mãe e a cada fim de semana vem pedir a benção a esta fortaleza em forma de mulher. Dona Teresa, feliz com a prole ao seu redor, recebe-os com quitutes caipiras, que faz questão de preparar ela mesma. É frango caipira, quirerinha, broa de milho, biscoito polvilho, doces de frutas, receitas deliciosas que ela traz do tempo em que viveu na roça, lá para as bandas de Paraisópolis, nas Minas Gerais…

Por ter sofrido um AVC há alguns anos, sua fala não é muito clara e nas entrevistas eu me esforço ao máximo para não perder uma palavra do que ela diz, dada a riqueza de detalhes e importancia folclórica de seus relatos. Suas histórias são tantas e tão interessantes que resolvi fazer com elas um livro inteiro, para que todo mundo possa se deliciar com as peripécias desta senhora; o que vocês vão ler aqui é um aperitivo, uma entrada para o prato principal, mas uma entrada deliciosa, posso garantir!

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O barrigão de seis meses e meio que Maria Teresa de Jesus carregava não atrapalhou em nada o vai e vem da enxadinha bem encabada e que ia deitando o picão, a tiririca e a guanxuma, no roçado de arroz ao lado da casa onde vivia com o marido, João Batista de Morais. Naquele 19 de janeiro de 1928, ela havia passado o dia todo debaixo de um sol escaldante, mas não sentiu nada de diferente, nada que pudesse denunciar o que viria acontecer nas próximas horas. Para ela, aquele foi um dia comum, quente e abafado, como costumam ser todos os janeiros chuvosos em Campo do Meio, zona rural situada entre Paraisópolis e Conceição dos Ouros, MG.

No horário de costume, quando o sol se escondeu por trás do pinheiral da serra, Maria Teresa deu por encerrada sua tarefa na roça e recolheu-se à casa. No fogão de lenha, botou um pouco de banha de porco numa frigideira de ferro e preparou um virado com o feijão que havia sobrado do almoço, picou uma couve e serviu com arroz para o marido. Comeu ela também e depois apanhou um pouco de água quente da chaleira que vivia em cima da chapa do fogão, para temperar um banho rápido que ela tomou numa bacia de metal. Esfregou-se com uma bucha e sabão de cinza que ela mesma fazia, lavou-se, secou-se, vestiu a camisola e dirigiu-se à cama, já antecipando seu merecido descanso. O marido já estava deitado do outro lado da cama, os homens sempre se aprontam mais rápido que as mulheres. Ajeitou com as mãos o seu lado do colchão de palha de milho, levantou os lençóis e ia deitar-se, quando sentiu um “quente” escorrendo pelas pernas. Olhou para o chão e viu o liquido escorrendo, formando uma poça no soalho. Com toda calma do mundo, sem se alterar, mas já sabendo do que se tratava, ela dirigiu-se ao marido.

__João, manda chamar a mãe que a bolsa estourou. Nossa Senhora do Bom Parto que me ajude, mas acho que essa criança eu já perdi.

João Batista já estava quase dormindo, cansado da viagem a cavalo que fizera a Paraisópolis, onde tinha ido fazer compras para abastecer o armazém que ele a esposa tocavam. Teve que fazer um esforço enorme para se levantar, vestir uma calça, calçar as botas, colocar o chapéu na cabeça e sair correndo em direção à casa da sogra, que ficava a um quarto de légua de onde eles moravam.

Quando João voltou com a sogra, Maria Teresa já estava segurando no colo um diminuto ser do sexo feminino, pesando apenas meio kilo, o quinto filho de uma série de doze que ela viria dar à luz. É verdade que o bebe chorava forte, de arder os ouvidos dos presentes, mas nos olhares que trocaram os tres adultos naquele quarto, estava subentendido que ninguém acreditava que aquela menina, saida do ventre da mãe dois meses e meio antes do tempo, fosse sobreviver. Nem mamar a criança conseguia, foi preciso que Maria Teresa espremesse o peito e deixasse cair o colostro na boca da menina, para que ela se acalmasse e todos pudessem dormir um pouco.

Na manhã seguinte, contrariando todas as expectativas, a criança estava bem viva. Mandaram, então, chamar o padre em Paraísópolis, pois era preciso batizar urgentemente a criança. Se ela não recebesse o sacramento nas 24 horas depois de chegada ao mundo, corria o risco de ficar para sempre com os olhos irritados e cheios de água.

Maria Teresa e o bebê permaneceram encerradas no quarto durante 41 dias. Era o costume naqueles tempos, as mulheres que dessem à luz tinham que fazer a dieta, ou seja, permanecer reclusas no escuro do quarto, sem banho, comendo tudo separado e bebendo cerveja preta, que era pra garantir uma boa quantidade de leite para a recém nascida.

Vencida a quarentena e apesar do tamanho diminuto e da fragilidade da criança, que ainda não tinha nome, todos passaram a considerar a possibilidade daquele frágil serzinho vingar. João, cuidadoso, forrou com algodão uma caixa de sapatos e lá colocou sua filha, que durante o dia permanecia numa prateleira da venda, enquanto a mãe lidava com a roça e a casa. Escondido de todos, depois que baixava as portas da venda, o pai molhava o cabo de uma colher com vinho do porto e pingava na boca da criança. Mais tarde, ele teria contado à filha que esta lambia os beiços ao ingerir a bebida e que se não fosse pelo vinho, ela, com certeza, não teria sobrevivido. Dizem que quando João levava a criança de volta para a mãe, fazia-o carregando-a dentro do bolso do paletó, de tão pequenina que ela era…

Quando ficou claro que aquele pedacinho de gente queria mesmo tentar sua sorte entre os vivos, a avó, que era também a madrinha de batismo, resolveu registra-la em Paraisópolis. Perguntou a Maria Teresa qual o nome que ela queria para a menina.

__Ponha o nome que a senhora quiser, mamãe. Para mim não faz diferença.

E lá a foi a avó para Paraisópolis, registrar a neta, sem saber ao certo que nome responder quando o cartorário fizesse a pergunta. Ao chegar na cidade, como fazia a cada vez, entrou na igreja e ajoelhada fez sua prece de agradecimento pela viagem bem sucedida. Terminada a oração, levantou os olhos para o altar e o que viu foi a imagem de Santa Teresinha. Diz ela que viu uma semelhança enorme da santa com a neta e, assim, a menina ganhou o nome da santa padroeira dos missionários.

Teresinha cresceu rápido e logo pegou peso e tamanho. Não se via diferença entre ela e outras crianças nascidas na mesma época. A menina era esperta e inteligente e logo que pode passou a ajudar a mãe em pequenas tarefas na cozinha. Ia buscar água na mina, uma cebolinha verde na horta ou apanhar galha de pinheiro pra acender o fogo.

Na roça, para brincar, as crianças tinham que se virar com o que havia à mão. Além dos tradicionais passa-anel, cabra-cega e pegador, Teresinha gostava de brincar sozinha no terreiro, onde passava horas a fio, cozinhado os lambaris que ela mesma pescava no corgüinho da mina d’água. Seu brinquedo preferido, ou melhor, o único brinquedo que ela jamais teve na vida, foi uma panelinha de barro que pai lhe deu de presente, uma lembrança que João arrematou pensando na filha, num leilão de uma festa da Santa Cruz em Paraisópolis.

Com os irmãos, Teresinha saia pelo mato, à caça de lagartos e tatús, os quais traziam para casa, para que a mãe os preparasse assados com batatas ou mandioca. Caçavam também coelhos, mas estes tinham que ser moqueados às escondidas, bem longe de casa, pois a mãe tinha nojo dos bichinhos e proibia que os mesmos entrassem em sua cozinha.

Aos quatro anos, Teresinha já sabia montar a cavalo e com isso passou a  apartar as vacas no pasto, junto com os irmãos mais velhos. Ajudava-os também a pastorear cabritos pelos pastos da redondeza e um dia, enquanto olhava os bichinhos mais os irmãos, resolveu brincar numa balança que havia debaixo de uma mangueira velha. Para se mostrar, balançou mais alto do que de costume e acabou se soltando e caindo de costas numa raiz da árvore e desmaiou. Os irmãos, apavorados ao verem a irmã imóvel no chão, correram para casa dos pais, avisar que Teresinha estava morta. O pai saiu imediatamente em busca da filha, trouxe-a para casa, fe-la cheirar um lenço embebido em canfora e, para grande alívio de todos, a menina voltou a si. Deste episódio, além da “ponta do rabinho” que ficou torta para sempre, restou um medo de altura e de roda gigante, que ela não passa perto por nada neste mundo…

Não demorou e Teresinha também já estava ordenhando vacas, como se fosse gente grande. Ela mesma laçava a vaca, amarrava as pernas e fazia espumar o leite no balde. Nos dias em que todos estavam ocupados, a menina, sozinha, tirava leite de 25 vacas. É verdade que o gado era zebuzado, davam menos de 10 litros cada uma, mas mesmo assim, era um feito para uma menina que ainda não tinha os seus 10 anos.

O pai, percebendo que a filha era esperta, passou a leva-la junto com os camaradas, nos trabalhos de roçada e preparo da terra. No início a menina apenas acompanhava a turma e ia apanhar água nas minas, para que os trabalhadores não precisassem parar. Mas, curiosa que era, a menina acabou pegando no penado e começou a roçar junto com os homens. Logo já estava tirando tarefa, fazia metade do trabalho de um adulto.

Escola ela nunca teve quando criança. Não se esperava de uma mulher, naqueles idos tempos e remotas plagas, que fosse instruída. O valor de uma esposa não se media em erudição, mas sim em sua capacidade de trabalho, obediência e dedicação ao marido. Já com os homens era diferente. Um dia, um andante apareceu por aquelas bandas e João o contratou para ensinar as letras e os números aos filhos homens. Claro que Teresinha se interessou pela novidade e quando o homem dava as lições ela se sentava à mesa, toda ouvidos, junto com os irmãos. O pai não aprovou a iniciativa e acabou dissuadindo a menina, que muito triste, foi forçada a se privar do prazer de folhear livros com imagens coloridas que enchiam os olhos da pequena Teresa, mostrando um mundo fascinante, até então totalmente desconhecido para ela.

O pouco que Teresinha e seus irmãos conheciam, além do seu cotidiano da roça, era devido às raras idas da família à cidade, Paraisópolis ou Conceição dos Ouros, nas datas religiosas, Semana Santa ou Natal. Afora isso, só ficavam sabendo do que acontecia no mundo através de passantes esporádicos, algum mascate ou trabalhador avulso oferecendo trabalho. Mas havia também um senhor falante, um fiscal do governo que vinha conferir os selos das garrafas de bebidas, para saber se o imposto estava sendo devidamente recolhido. Este ultimo vinha nas horas mais inconvenientes. Assim, naquela fria manhã de agosto de 1932, quando dona Maria Teresa escutou um barulho de motor lá para os lados da estrada, achou que era o tal fiscal e mandou as crianças esconderem às pressas as garrafas que, naturalmente, estavam todas sem o selo do imposto. Foi um corre-corre danado e  parecia que dessa vez não iam conseguir enganar o fiscal, pois o barulho do carro já se fazia ouvir muito alto, ele entraria pela porta da venda a qualquer instante. No meio da confusão, Teresinha olhou de relance pela janela e gritou:

__Nossa Mãe do Céu, não é o fiscal que vem vindo, não! É um passarão que tá gritando lá de cima dos eucaliptos! E saíram à rua, para ver que tipo de pássaro seria aquele que fazia tanto barulho. Encontraram outras pessoas que também tinham saído de suas casas, intrigadas com o barulho acima das árvores. De repente, surgiu de lá de trás dos eucaliptos um avião Waco, vermelho vivo, das forças legalistas da Revolução de 32, voando rasante, não muito acima de suas cabeças. Foi um deus-nos-acuda! Ninguém naquelas paragens jamais havia visto um avião. Persignando-se e invocando ajuda de Nossa Senhora e do Pai Eterno, entraram todos em suas casas, buscando proteção debaixo de camas, mesas e dentro de guarda-roupas. Uma mulher foi vista segurando uma peneira sobre sua cabeça, decerto acreditando que a cruz desenhada (*) na mesma iria protege-la daquela ameaça que com certeza era coisa do diabo…

Maria Teresa, que nesta ocasião estava grávida, ficou muito assustada com a confusão e pediu para uma vizinha ir buscar um ramo de arruda, com o que preparou um remédio infalível para sistema nervoso. Conhecido como queimado de arruda, o medicamento caseiro consistia em açúcar queimado, arruda e pinga misturados num prato, aos quais se acrescentava um pouco de água morna e tomava-se tudo de uma só vez. Se o remédio a acalmou, não impediu que horas mais tarde ela viesse dar à luz a mais uma criança prematura.

Durante dias, o comentário em Campo do Meio foi o misterioso pássaro vermelho que havia sobrevoado o povoado. Alguns falavam em fim dos tempos, enquanto outros juravam ter visto a cauda do demo no rabo do pássaro. O mistério só foi desvendado semanas mais tarde, quando o padre veio de Paraisópolis para celebrar um batizado e explicou do que se tratava e que seus fiéis não precisavam ter medo dessa nova arma de guerra…

Quando Teresinha tinha lá seus 11 anos, o pai comprou terras mais férteis e maiores, agora no estado de São Paulo, numa região chamada Cantagalo, distante uns 25km de Campo do Meio. Mudaram-se todos para lá, João abriu um novo comércio mas o modo de vida da família continuou praticamente o mesmo. O Cantagalo era tão isolado do mundo urbano quanto o Campo do Meio.

A vida da menina Teresa não ia muito além da lida diária, ajudando o pai com a criação e a roça, e os afazeres domésticos, ajudando sua mãe com cozinha e costura. O que acabava quebrando a rotina eram as mortes, batizados e dias santos, quando o povo parava tudo, se reunia e celebrava em Campo do Meio. Mas também havia as missas de Natal e Páscoa, que o pessoal ia assistir na igreja em Paraisópolis. No dia da Missa do Galo, já de noite, saiam à pé de Campo do Meio um grupo grande de fiéis, percorrendo em silêncio os 18km até Paraisópolis. Quando chegavam na altura da Fazenda do Mogiano, antes de descer a serra, ao avistarem a torre da igreja toda iluminada, os homens tiravam os chapéus e cantavam com voz grave:

AVISTEI A CASA SANTA, ONDE DEUS FEZ A MORADA

LÁ MORA O CALIX BENTO E A HÓSTIA CONSAGRADA

Repetiam 3 vezes estas duas frases e prosseguiam viagem em silêncio. A menina Teresa ficava emocionada nessas ocasiões, eram momentos muito especiais, cheios de religiosidade e respeito. Mas naquele Natal de 1940, ela teria um motivo a mais para ficar emocionada. Acompanhando o cortejo silencioso, estava também o Salomão, um rapaz por quem ela, já há algum tempo, nutria um interesse especial. Pelos olhares que eles trocaram, Teresinha soube que o rapaz também ficou interessado por ela, mas não podiam ir além dessa comunicação platônica, sob pena de serem repreendidos pela moralidade vigente.

Durante anos, só se encontrando aos domingos e sem jamais terem falado um com o outro, mantiveram este vínculo apaixonado, até que um dia, por intermédio de terceiros, Teresinha ficou sabendo que Salomão ia embora para São Paulo. Ele se alistara no exército e iria morar na casa do tio, que era tenente. Isso abalou profundamente a adolescente, que pensou – “Meu Deus, ele vai para o fim do mundo, e agora?”. Não compartilhou com ninguém a sua dor e lamentou muito o fato de ser analfabeta, pois se ao menos soubesse escrever, poderia ter enviado um bilhete para o rapaz, expressando o seu amor… Quem sabe, assim, ele não tivesse mudado de idéia?

Salomão foi em busca de seu destino em São Paulo e, no coração de Teresinha, virou chama uma brasa que ela mantinha acesa desde criança, a de entrar para um convento e ser como aquelas imponentes mulheres de hábito escuro que ela via nas missas em Paraisópolis. Mas a idéia durou pouco, pois ao comentar seu interesse com a mãe, mudou de idéia tão logo esta lhe assegurou que todas as freiras tinham que raspar a cabeça. Teresinha não gostou da idéia de perder seus lindos cabelos compridos e com tempo acabou esquecendo do projeto.

Não muito depois da partida de Salomão para São Paulo, chegou na região uma equipe de serradores, para tirar tábuas das florestas de araucárias do Cantagalo. Entre os rapazes da turma havia um de nome João Fraga, que se encantou com Teresinha à primeira vista, ao conhecer a moça no velório de um anjinho. João Fraga não era de perder tempo e no dia seguinte mandou um bilhete dizendo que queria falar com o pai daquela que havia enchido seus olhos e inflado seu coração.

De acordo com o pedido, João recebeu o pretendente na sala de sua casa e Teresinha que não era boba nem nada, ficou atrás da porta escutando tudo. João entendeu que aquele moço sentado à sua frente e que estava há apenas 3 semanas trabalhando no Cantagalo, era um bom pretendente para sua filha e deu sua permissão para que João Fraga se casasse com ela. Teresinha, de dentro do quarto, sentiu um frio subir pela barriga e as pernas amolecerem. Ela nunca havia contrariado seu pai e não seria agora que iria faze-lo, mesmo que este tal de João Fraga não tivesse conquistado um unico milímetro do seu coração. Isso aconteceu no mes de janeiro e o casamento foi marcado para dia 2 de junho.

Todo esses meses Teresinha sofreu calada, mas tocou sua vida como se nada houvesse acontecido. Decidiu que era melhor casar mesmo, pois para ela, mais importante que tudo era ver o pai satisfeito. Aqueles não eram tempos em que a mulher tinha voz nem vez…

Os preparativos para o casamento Teresinha fez a contragosto, empurrada pela mãe. Foram a Paraisópolis e escolheram o melhor traje que encontraram, um vestido de seda patu, de cauda; se ela não estava feliz por dentro, por fora, ao menos, ela ia mostrar-se deslumbrante. Escolheram os melhores animais e na véspera do casório as duas mataram e prepararam 2 boas leitoas e 12 frangos bem cevados, para a janta que seria servida depois do casório, a ser realizado na igreja de Nossa Senhora de Santa Maria, na praça central do Cantagalo.

No dia do casamento, Teresinha sumiu da vista de todos e passou horas sozinha, rodando pelo pomar, pensando naquela pessoa que há alguns anos tinha ido para São Paulo se alistar; bem que ele podia aparecer antes do padre perguntar se ela aceitava João Fraga como seu legítimo esposo e mudar definitivamente o rumo de sua vida. Ainda dava tempo… Mas ele não veio e ela teve que encarar a dura realidade de se casar com um homem que não escolhera. Às lágrimas, com o coração saindo à boca, ela caminhou para a casa de uma amiga, que ajudou-a com o penteado e o vestido. Às 3h da tarde, quando o pai a conduziu ao altar, ela se sentiu caminhando em direção ao cadafalso…

Terminada a cerimonia na igreja, foram todos para a casa dos pais da noiva, onde foi servido um jantar simples; arroz, feijão, virado, frango ensopado e leitoa assada, tudo regado a suco de laranja, que nenhuma bebida alcoólica foi autorizada por João, para evitar brigas e confusões. Presente de casamento, Teresinha ganhou apenas uma panela de ferro, de sua irmã e uma máquina de costura Singer, do pai, evidenciando bem o que se esperava dela como esposa. Lua de Mel era algo impensável, dadas as condições austeras que eles viviam. Como agrado, os recém-casados puderam passar a primeira noite na cama de casal dos pais da noiva e foi na casa destes que viveram os dois anos seguintes.

Os pais de Teresinha abriram uma outra venda no Cantagalo, para lá mudaram-se e deixaram a filha e o genro morando em sua antiga casa e cuidando da fazenda. Com o casamento, a vida de Teresinha não mudou grande coisa, sua rotina era praticamente a mesma e ela continuava trabalhando igual a um homem. Só que agora, como esposa, ela tinha mais tarefas e mais responsabilidades, isto sem falar na nova vida que carregava em seu ventre. Seu primeiro filho, o Zito, veio ao mundo um ano e 4 dias depois do casamento, pesando 5kg e deu muito trabalho para nascer, foi preciso a ajuda de duas parteiras para que o menino saísse da barriga de Teresinha. Como sua mãe, ela seguiu à risca o costume de manter o recém nascido por 7 dias no escuro do quarto, sem tomarem banho, ela e o nenê, e guardou também a dieta de 41 dias, tendo comido um frango por dia durante este período, que ela mesma se dava o trabalho de matar e preparar.

Teresinha logo se deu conta de que seu marido era muito ciumento. João Fraga não gostava que sua esposa conversasse com ninguém. Isso era muito difícil para uma mulher como Teresinha, comunicativa e que gostava de negociar a venda da produção da fazenda. O clima entre os recém-casados não era nada bom. João nunca estava satisfeito e um dia chegou a levantar a voz com Teresinha, ao reclamar de um botão que estava faltando em sua camisa. Teresinha foi até o armário e pegou uma pilha de camisas limpas e passadas e botou em cima da cama, como quem diz: “Se nesta falta um botão, aqui tem uma dúzia de camisas perfeitas”. João não pensou duas vezes, pegou a pilha toda e jogou pela janela. Teresinha ficou vermelha de raiva, mas não disse nada, ela jamais proferiu um palavrão em toda sua vida, só de pensar em nome feio sentia um gosto ruim de sabão em sua boca. Mas com o pensamento ela amaldiçoou aquele homem com quem era obrigada a dividir o leito todas as noites. Nessas horas difíceis ela recorria à Mãe de Deus, a quem orava pedindo paciência e forças para seguir em frente.

Dois anos haviam se passado do casamento de Teresinha com João quando Salomão, vindo de São Paulo, entrou na cozinha da casa de Maria Teresa e anunciou que voltara ao Cantagalo para casar-se com Teresinha. Maria Teresa, com sua habitual frieza, respondeu:

__O senhor chegou atrasado. Teresinha já está a caminho do segundo filho. Passar bem!

Teresinha desmanchou-se em lágrimas quando ficou sabendo que seu antigo amor voltara ao Cantagalo, mas como era do seu feitio, sofreu em silêncio. Um sofrimento que se renovava todas as vezes que ela olhava pela janela da sua cozinha. É que Salomão fora morar com parentes, justamente numa casa que podia ser avistada da cozinha de Teresinha. Ela ainda pensou de fugir com o Salomão, mas teve muita vergonha do que o povo ia pensar e acabou desistindo da aventura…

Os filhos foram se sucedendo e, surpreendentemente, para um bebê que nascera tão fragilizado, Teresinha tinha muito leite para alimenta-los. Ela jamais preparou uma mamadeira para seus filhos e chegou mesmo a fornecer leite para bebes cujas mães não tinham o suficiente. Aos 21 anos, a saúde de Teresinha parecia melhor do que nunca. Mas um dia, depois de comer uma banana, uma dorzinha surgiu e foi crescendo do lado esquerdo de sua barriga, até crescer tanto que derrubou-a no chão. As crises foram ficando cada vez mais freqüentes e depois de um ano tentando combate-las com chazinhos de ervas, ela achou por bem ir a Paraisópolis consultar um médico. Lá, o médico chegou à conclusão de que era problema de vesícula e o tratamento recomendado foi a retirada de todos os dentes da doente. Não vendo outra saída, Teresinha fez o que o médico recomendou e ao cabo de um mes não restava um só dente em sua boca. Mas as dores continuaram, o que não impedia que ela continuasse trabalhando como sempre trabalhou.

Mais filhos foram chegando e Teresinha ia colocando-os para dormir na mesma cama em que ela e João dormiam, até para facilitar as mamadas. É preciso dizer que Teresinha não desmamava um filho quando nascia outro. O comum era que eles mamassem até 4 ou 5 anos, sendo que a mais nova mamou até os seus 9 anos. O marido, incomodado com o barulho que fazia a pequena multidão instalada em sua cama, passou a dormir em quarto separado e este arranjo não mudaria até sua morte.

Lá pelo terceiro filho, João Fraga achou que sua prole estava de bom tamanho e resolveu comprar, na vizinha Paraisópolis, uma novidade vinda dos Estados Unidos; as recém inventadas camisas-de-venus feitas de látex. Como se fosse um presente, entregou o pacote para Teresinha, que indignada com a idéia do marido, de interferir nos desígnios divinos, atirou as camisinhas no ribeirão que passava nos fundos da casa. Ao menos nesta questão, Teresinha é quem tinha a última palavra.

Se fosse por João Fraga, a família teria permanecido para sempre no Cantagalo, vivendo da terra. Mas Teresinha tinha planos, era ambiciosa e queria conhecer o mundo além da sua roça natal. Depois de muita insistencia e contrariando o marido, que a queria bem quieta e desempenhando o papel de dona de casa, eles acabaram abrindo uma venda no asfalto, a 20km do Cantagalo e para lá se mudaram. Os negócios não foram muito bem e João aceitou um convite de amigos, para ser administrador de uma fazenda em Piracuama, um bairro de Pindamonhangaba SP.

Piracuama não era longe de onde eles moravam, mas a mudança foi muito penosa, principalmente para Teresinha, que devido à vesícula ainda doente, enjoou muito no caminhão que fez a mudança. As estradas eram todas de terra e muito ruins nos idos anos 50. Nos trechos mais íngrimes das serras, era preciso descer e caminhar, pois era grande o risco do caminhão despencar da ribanceira.

Em Piracuama, o casal abriu uma outra venda e Teresinha é quem cuidava dos negócios, mas sempre sob supervisão do marido. Como de hábito, ela não parava nunca. Além de ficar no balcão, dava também conta da casa, mantinha uma horta grande nos fundos, costurava para fora, fazia salgadinhos, estava amamentando sempre dois ou tres filhos de cada vez (afora o leite que fornecia para os bebes de outras mulheres) e continuava fazendo filhos um atrás do outro. O ritmo era tão alucinante que quando se deu conta de que estava grávida de seu sétimo filho, este já estava há cinco meses em sua barriga! Teresinha nunca fez uma cesárea, todos os seus filhos, afora o primeiro, escorregaram para fora dela que nem se fossem feitos de sabão…

Depois de seis anos em Piracuama, tiveram que sair de lá por causa um desentendimento entre João e o patrão. Foram tentar a sorte numa beira de estrada, onde João construiu uma casa às pressas, nas cercanias de São Bento do Sapucaí. Lá botaram venda, mas desta vez nada deu certo. As crianças não tinha escola, Teresinha continuava com as crises da vesícula e os negócios de mal a pior; o que vendiam não dava nem para pagar os impostos e as contas.

Por esta época, quando a dor a derrubava, Teresinha fazia viagens para se tratar em São José dos Campos e nestas ocasiões se hospedava com os pais, que há anos tinham se mudado da roça no Cantagalo e viviam numa casa na Vila Rossi. Os confortos da cidade e a proximidade do atendimento médico especializado, certamente exerceram alguma influencia em Teresinha, que um belo dia declarou ao marido que não queria mais morar na roça e que se ele quisesse que ficasse lá morando sozinho. Dito e feito, ele lá e ela cá com os filhos, inauguraram uma nova fase no relacionamento do casal.

Se por um lado Teresinha se cercou de conforto, por outro não diminuiu seu ritmo de trabalho. Morando com os pais, continuou com as costuras e salgadinhos e abriu uma nova frente, “importando” frangos caipiras para vender nas feiras livres e no Mercado Municipal. João despachava os galináceos de madrugada, pelo caminhão do leite, ela os recebia em São José e os vendia com ajuda da filha Tita. Fazia gosto ver aquela mulher baixinha, carregando pelos pés meia dúzia de frangos em cada braço, acompanhada de uma menina que ia recebendo o dinheiro e fazendo troco.

Foi por essa época que ganhou fama de milagreiro em São José dos Campos, um tal Padre Rodolfo Komorek, que morrera recentemente de tuberculose. Compadecendo-se da filha, que volta e meia ia parar no Hospital Pio XII ou na Santa Casa, acometida de violentas crises de vesícula, João Batista insistiu que a filha fizesse um voto para o padre, pediu que ela fosse visitar as relíquias do padre ali no centro da cidade. Já havia muitos casos de curas atribuídas ao cura polaco, por que não tentar?

Teresinha, esgotada pelas idas e vindas aos hospitais e enjoada dos litros e litros de chá de picão que ela consumia no lugar do café, resolveu que não custava nada fazer a vontade do pai. Fez uma visita às relíquias e ofereceu uma novena ao padre, na intenção de obter a cura para a enfermidade que a afligia há mais de década. Se não obteve a cura total, depois disso seu estomago passou a aceitar comida sem vomitar e as crises deram uma trégua. Mas ela ainda iria penar por mais algum tempo, antes de se submeter a uma operação pelo INPS, que extirparia sua vesícula, pondo fim a vinte e um anos de sofrimento.

O arranjo do casal vivendo separado durou apenas alguns meses. Movido pela solidão e pela saudade, João cedeu à esposa e reuniu-se à família em São José dos Campos, onde foram todos morar numa casinha alugada na Vila Sinhá. Foram tempos eram difíceis para quem conheceu a abundância da vida na roça. João arrumou serviço como pedreiro avulso e o orçamento familiar era apertado e instável. Essa não era a vida que Teresinha sonhava para sua família. De modo que quando ela ficou sabendo que abriram um loteamento barato lá para as bandas do Alto da Ponte, juntou suas economias, pediu ajuda às duas filhas que já estavam trabalhando em fábricas e financiou dois terrenos que totalizavam 500 m2.

A prioridade passou a ser a construção de uma casa, para fugir do aluguel o mais depressa possível. A primeira coisa que fizeram no terreno recém comprado foi furar um poço, que por sorte deu água com poucos metros, já que o terreno ficava não muito longe da beira do rio Buquira. Com água farta e barro à vontade, fizeram uma tantada de tijolos de adobe, ela e o marido, e, num instante levantaram uma casinha de 3 cômodos, para onde se mudaram os 13 membros da família, tão logo o piso ficou pronto. Quem gostou da mudança foram as crianças, que ganharam largueza para seus folguedos. Naquela época, esta região era praticamente rural, não havia muros e o rio ficava ali nos fundos da casa, um pequeno paraíso para os petizes, com suas goiabeiras, araçazeiros e maracujazeiros daquele tipo que dá frutinho roxo, doce que só ele!

Não demorou muito e os Fraga foram ganhando novos vizinhos. A recente onda de industrialização da região fez a cidade inchar muito rápidamente e atraiu uma mão de obra de todos os cantos do Brasil. Muitos chegavam sozinhos e precisavam de apenas um quarto para se arranjarem, enquanto não conseguiam trazer a família toda. Teresinha, percebendo esta demanda, teve a brilhante idéia de construir alojamentos e alugar para esta gente. João não gostou muito da idéia, mas desta vez Teresinha se impôs e logo o casal início à construção do que viriam a ser sete apartamentos independentes. Sim, porque Teresinha não queria nenhum inquilino usando o banheiro da casa dela. De manhã, Teresinha despachava as crianças para a escola, cuidava do almoço e tão logo terminava o serviço da casa, ia ajudar o marido a assentar tijolo, fazer massa, desempenar parede, o serviço que fosse ela não enjeitava.

Os apartamentos iam sendo alugados à medida que ficavam prontos e, finalmente, a situação financeira da família logo começou a melhorar. A família viveu anos de relativo sossego, com todos contribuindo à sua maneira. Desde os maiores, que trabalhavam em fábricas, até os pequenos, que já com 10 anos de idade se empregavam como balconistas nas lojas do centro da cidade, num tempo em que ainda era permitido às crianças, trabalhar para complementar o orçamento familiar.

No ano de 1979, a infra estrutura do bairro do Alto da Ponte ainda era muito precária. Não havia asfalto nas ruas, o esgoto era a céu aberto e nem todos tinham dinheiro para pagar uma instalação de energia elétrica. Teresinha e João eram dos poucos que conseguiram uma ligação da Eletropaulo e forneciam energia para os vizinhos, através de gambiarras. Não era muito fácil medir a luz fornecida e isso era sempre motivo de confusão na hora de receber, o que fez com que João se enchesse das picuinhas dos vizinhos e desse fim ao arranjo, cortando os fios das gambiarras.

Na surdina e por vingança, os vizinhos obstruíram com cimento a passagem por onde escoava a água do terreno de João e Teresinha. Era época das chuvas e com a primeira tempestade ocorreu a tragédia: formou-se uma represa e as águas invadiram todas as casas que estavam dentro do terreno murado, estragando móveis e utensílios. Nas casas atingidas, pensou-se que a inundação era devida a uma tromba d’água ou coisa que o valha, jamais imaginaram o que os vizinhos tinham aprontado com eles. Como a água demorasse a baixar, foram procurar a causa e descobriram a maldade. Terezinha ficou possessa e armando-se de uma picareta, investiu contra o muro e foi quebrando até conseguir fazer toda a água vazar. Imediatamente, a vizinhança mandou chamar a polícia, para deter aquela senhora maluca que estava destruindo o muro a picaretadas. Foi um quiprocó. Baixou polícia, imprensa e o bando de curiosos que sempre aparecem nessas horas. Formou-se uma confusão tão grande que o incidente acabou virando matéria de primeira página no jornal Valeparaibano, com direito à fotografia de Teresinha, com cara de vitoriosa, empunhando sua picareta e apontando o buraco no muro! No final das contas, o poder público entendeu que os vizinhos estavam errados e os obrigou a consertarem o estrago…

João nunca se adaptou muito bem à vida na cidade e passou a beber mais do que seria aceitável para um pai de família. Não demorou muito ele caiu doente e ficou impossibilitado de trabalhar. Aposentou-se por invalidez e passava a maior parte do tempo em casa, na cama. Por esta época, Teresinha decidiu, mais um vez, que era hora de mudar de casa, pois os vizinhos nunca mais a deixaram em paz depois do episódio do buraco no muro. Por isso, venderam o local onde moravam, inclusive os cômodos de aluguel, conseguiram uma casa ainda por acabar no Parque Industrial, do outro lado da cidade e para lá se mudaram.

Já fazia tempo que Teresinha estava ensaiando aprender a ler e escrever,  mas o marido, ciumento, sempre encontrava um meio de demove-la da idéia. Contudo, agora que João estava acamado e sem forças, ela se sentiu livre para frequentar um curso noturno de alfabetização do Mobral. Assim, aos 57 anos, Teresinha entra, pela primeira vez em sua vida, numa sala de aula. Foram 3 anos estudando com afinco e ao final do curso, toda orgulhosa, recebeu o diploma das mãos do prefeito Robson Marinho, que à partir de então passou a ser incluído nas preces que ela fazia à Santa Terezinha, todas as noites antes de se dormir. O primeiro e único livro que ela jamais leu, foi a Vida de São Camilo de Lélis, pois logo depois de ter pego o diploma ela foi acometida por um derrame cerebral que faria com que ela esquecesse tudo que aprendeu durante os 3 anos de Mobral! Como se isso fosse pouco, morre-lhe o marido, seu companheiro de mais de 40 anos de estrada.

Mas Teresinha não é mulher de esmorecer. Há que tocar o barco, a vida continua! Resolvida a reaver o que o AVC lhe tomou, conseguiu uma cartilha infantil e convocou o seu netinho de 10 anos, o João, para que nas horas vagas ele a ensine a ler e escrever novamente. O próximo projeto é computador, que ela quer começar a aprender tão logo consiga decifrar as letrinhas do teclado.

Aos 84 anos, planeja viver até os 105 ou 110 anos, quando calcula que já terá feito o suficiente e possa passar para o lado de lá com a sensação de missão cumprida. Diz ela que se encontrasse um homem forte e saudável, ainda queria fazer mais filhos, mas, segundo Teresinha, este tipo de homem está em falta no mercado…

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No texto, chamei dona Teresa de Teresinha, para não confundir com sua avó e mãe, que também tinham Teresa em seus nomes.

Para redigir esta pequena biografia, tive que voltar muitas vezes à casa de dona Teresa e acabei me afeiçoando por ela e sua grande família. Foi um grande prazer realizar as gravações com esta mulher tão divertida e cheia de vida. Sua casa é um grande coração, que além de acolher os filhos de sangue, tem sede de adotar aqueles que não fazem questão de ter mais de uma mãe neste mundo, entre os quais eu me incluo.

Cada vez que saio de sua casa, carrego comigo um presente, que não advém somente do prazer do encontro, mas se materializa num biscoito polvilho, num tempero pronto, numa coxinha que ela mesma prepara e faz questão que eu leve para minha casa.

Dona Teresa faz troça do fato de eu recusar o seu café, não por ser o dela, mas por causa da cafeína que me ataca os nervos. Na roça isso é considerado uma desfeita! E em vez de café ela pergunta se o “nene” quer tomar um chazinho… Quando eu aceito, lá vai ela apanhar um macinho de hortelã, no exíguo corredor ao lado da casa onde cultiva seus temperos, couves e até algumas frutas de árvore. O mesmo corredor em que ela faz subir, no mes de julho, um mastro enorme com uma bandeira tripla espetada lá em cima, em homenagem a Santo Antonio, São João e São Pedro, do mesmo jeito que ela fazia com o marido João, na sua saudosa Cantagalo, 60 anos atrás.

A festa de Dona Teresa é no mes de julho e não em junho, como manda a tradição. Se você quiser saber o motivo, leia esta história abaixo, que escrevi quando do meu primeiro encontro com ela.

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             Festa Junina da Dona Teresa

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens de sua festa, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

 Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos a um festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

 

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.

Obrigado, pai!

janeiro 3, 2015

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Meu pai se foi faz menos de um mês. Apesar de ter convivido com ele por 57 anos, foi só depois de sua morte que me dei conta, em conversas com irmãos, amigos e folheando álbuns de fotos, de que havia muitos aspectos sua vida que me eram estranhos. O que eu menos conhecia dele era seu lado militar e o peso que isso teve em sua vida.

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Na verdade, eu entendo que meu pai foi um artista que se reprimiu, traiu seu sonho e preferiu atender o desejo de seus pais ou do meio em que viveu. Foi ser engenheiro, mas não escolheu qualquer escola, foi cursar a melhor na época e formou-se na segunda turma do ITA.

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Talvez ele pensou que como artista não fosse fazer dinheiro para sustentar uma família ou não teria o reconhecimento que almejava para si… não sei. O fato é que ele sempre tirou fotos muito boas tecnicamente, tinha um olhar particular, mas sempre para registrar em imagens, ou sua carreira profissional ou a vida familiar. Vivia construindo objetos sem função e fazia troça de si mesmo, depreciando sua própria expressão artística. Projetou brinquedos e até chegou a montá-los em série na sua fábrica em São Paulo.

Enfim, foram as escolhas que ele fez.

Mas eu, como filho, nunca vi nele um pai engenheiro, um pai militar ou empresário que montou uma fábrica de peças para aviação, logo que terminou o ITA. Eu vi sempre o homem, o artista, o caipira que fazia horta no fundo do quintal de nossa casa em São Paulo. Quando ele assumia seu lado engenheiro, era como se deixasse de existir, ficava invisível para mim e assim foi até sua morte.

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Hoje, folheando seu álbum de fotos, vejo como ele se orgulhou da curta carreira militar e de tudo que envolvesse a indústria aeronáutica. Percebo, também, o quanto minha vida foi determinada pelas escolhas dele e o quanto eu aprendi com ele. Não fosse sua ligação com o CTA, eu não teria tido o privilégio de morar nesta ilha da fantasia, que tantos horizontes me abriu. Não fosse a fotografia, sempre presente em nossa vida familiar, com Leicas, Nikons e Yashicas, eu talvez não tivesse despertado tão facilmente para a arte que hoje é o meu ganha pão e me realiza.

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De modo que, Wilson Ruiz, onde quer que você esteja, agradeço você ter sido a pessoa que foi, exatamente do jeito que foi, pois me permitiu ser o que eu sou, exatamente como eu sou, hoje. Porque, por mais engenheiro que você fosse, eu só conseguia ver o artista e sua arte…

Obrigado, pai!

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Dona Anita

novembro 6, 2013

Quando minha mãe comentou de uma amiga dela com 100 anos e que ainda dirige seu carro, não tive dúvidas, intimei-a no ato:

__Mãe, quero conhecer esta mulher!

__Quando você quiser, meu filho, nós vamos lá.

Ela passou a mão no telefone, marcou uma hora e lá fomos nós para o apartamento de dona Anita, no centro da cidade de São José dos Campos, onde moram ela e uma acompanhante. Uma senhora ereta, impecavelmente vestida, penteada, maquiada e com as unhas pintadas, nos recebeu em sua sala de visitas com uma maravilhosa vista para o banhado, a várzea inundável do Rio Paraíba.

Sentaram-se ela e minha mãe em um sofá e eu numa poltrona ao lado de dona Anita. Nas primeiras palavras que trocamos já percebi que dona Anita não escuta muito bem e minha mãe, que estava mais perto, tinha que repetir o que eu falava. Sem a menor cerimônia, a centenária senhora me indicou que sentasse na mesinha de centro e ficasse exatamente em frente dela. Ponto pra ela!

A voz de dona Anita é de uma mulher de 50 anos, firme, fluida e com um timbre que ao telefone jamais denunciaria sua idade. Foi esta voz que, me encarando de frente perguntou:

__Então, Francisco, o que você quer saber?

__Eu quero saber de tudo, dona Anita e para isso gostaria de filmar a senhora, fazer um video com seu depoimento, tudo bem?

__Ah, não! Você pode filmar tudo que quiser aqui desta sala, menos eu!

Ela foi tão veemente na negativa que eu não insisti. Peguei o gravador e perguntei se podia registrar somente a voz. Outra negativa, o que me deixou com a alternativa do bloquinho de notas, que foi o que gerou este texto, que ela liberou com a condição de que eu usasse um nome fictício. Negócio fechado, ela passou a responder minhas perguntas.

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Sanatório Vicentina Aranha

Dona Anita chegou à cidade de São José dos Campos em 1934, para casar-se com Mário, um ex-tuberculoso que já era seu namorado há anos. Para quem chegava de São Paulo, como ela, a provinciana São José dos Campos era um desafio enorme, que somente um grande amor poderia vencer. Amiga mesmo, só a esposa do médico que tratara de seu marido. Segundo ela, havia muito preconceito com quem vinha de fora e não foi nada fácil integrar-se à vida social da cidade. Sua amiga e confidente era a esposa do médico que cuidara do marido. Assim, a jovem Anita passava suas horas costurando, lendo, cuidando da casa e esperando o primeiro filho.

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Mercado Municipal de São José dos Campos

Quando saia da casa que alugaram na Praça Afonso Pena, era para ir ao mercado comprar frutas, legumes e verduras, muitas vezes pegando carona no carro de bois do seu Argemiro, que vinha 3 vezes por semana trazer lenha que abastecia o fogão de lenha da casa. Era madeira que saía do desmatamento da Vargem Grande, beira do Rio Paraíba, para abertura de novos pastos e campos de cultura. Quando não ia de carro de bois ela pegava a Rua Sete, andando pela estreita calçada de pedras chatas e irregulares, evitando caminhar pelo leito da rua, para não sujar seus sapatos de terra…

Mais tarde, ela aprendeu a andar de bicicleta e dava seus passeios na poeirenta Praça Afonso Pena, que na época era pelada de tudo. A bicicleta, os veículos de tração animal e as pernas, era o que as pessoas usavam naquela época para se locomover. O primeiro automóvel que dona Anita e seu Mário compraram foi somente depois da II Guerra, quando a cidade começou a crescer, com a chegada das industrias, e a abertura de novos bairros.

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Carro de bois em São José dos Campos, usado para transporte de mercadorias antes do automóvel

A diversão de Anita, afora a missa dos domingos, na Igreja de São Benedito, eram os circos, as cavalhadas e as festas que tinham lugar na mesma Praça Afonso Pena. Às vezes, nos fins de semana, o casal era convidado para almoçar na casa de gente importante da cidade e foi com eles que Anita começou a expandir seu círculo de amizades. O cinema só apareceu mais tarde, com a abertura do cine Paratodos e Anita não perdia um filme. Quando queriam fazer algum programa diferente, a opção era Jacareí que na época era um núcleo urbano bem mais desenvolvido que São José dos Campos.

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Praça Afonso Pena, com circo armado, década de 1930

O marido, pouco tempo tinha para ela, já que ficava o dia todo por conta da farmácia da qual era o dono. E à noite ainda tinha que sair para atender chamados de médicos e pacientes que não podiam esperar o dia seguinte para uma injeção ou o que fosse. Quando ficou bem conhecido na cidade, dr Mário, como era chamado, candidatou-se a vereador e exerceu o mandato por 16 anos, numa época em os edis não ganhavam um centavo de salário, pelo contrário, tinham que pagar a maior parte das despesas com dinheiro do próprio bolso.

Dona Anita ia levando a vida doméstica, cuidando da casa e dos 4 filhos, penando com as empregadas muito chucras que ela e dr Mario arrumavam na roça. Era preciso ensinar tudo, desde higiene pessoal até os pratos finos que dona Anita servia para os convidados. Dentre as pessoas que recebeu em sua casa, estão figuras do quilate de um Assis Chateaubriand e um Ademar de Barros. Ela tem fotos que tirou ao lado deles, mas estão numa caixa em cima do guarda roupas, quem sabe em outra oportunidade me mostra…

A menção das fotos faz a emoção brotar, lembra do marido que se foi há mais de 20 anos. Dele não guarda nem a aliança, já que a mesma foi doada na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, logo depois do golpe militar de 1964. Com os cofres públicos vazios, foi lançada pelos Diários Associados uma campanha nacional para arrecadar jóias da população. Em troca, ganhava-se uma aliança de latão e um diploma com os dizeres: “Dei ouro para o bem do Brasil”. Nesta brincadeira, foram-se as alianças do casal e alguns preciosos presentes de casamento…

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Depois que o marido se foi, vítima de um AVC, dona Anita passou a cuidar um pouco mais de si. Viajou pelo mundo e fez tudo aquilo que os compromissos do esposo não permitiam, na época. Acontece com muitas mulheres que viveram em função do marido, de desabrocharem para a vida depois da partida do companheiro. Mas ao mesmo tempo que ela fala disso, detecto uma certa tristeza em seu olhar. Ela se antecipa à minha pergunta e afirma:

__Mas hoje, quem sobrou da minha turma? O pessoal todo se foi, só fiquei eu, sozinha aqui neste apartamento, esperando a minha hora.

__Não fala isso, não, dona Anita. Dá pra ver que a senhora está forte, bonita, mais firme que muita mulher com metade de sua idade!

__Ah, Francisco, eu conheci 7 gerações, desde meus avós até meus tataranetos. Mas me sinto muito solitária aqui, só saio para fazer as compras da casa e o meu remédio da pressão, que é o único que eu tomo. Mas a pressão não incomoda nada, não me impede de fazer o que eu tenho que fazer, não!

__Surpreendente para uma mulher uma pessoa de sua idade, dona Anita. O que a senhora come para manter esta saúde toda?

__Bom, eu rezo o terço todos os dias, isso é o alimento da alma, que pra mim é o mais importante e já faz vinte anos que como frango cozido com tomate, arroz e uns legumes cozidos. O que? Coisa crua? Deus que me livre! De tarde eu tomo um chazinho com bolo e margarina. Mas eu nunca fumei e nunca bebi, acho que isso ajuda, não é?

Fica pensativa, o silêncio instala-se na sala por um tempo.

__Acho que meu problema é não ter problema. Vejo essas mulheres do povo brigando, discutindo, sofrendo naqueles ônibus horríveis. Tenho inveja delas…

Resolvi não continuar o assunto, pois na verdade estou de pleno acordo com dona Anita, uma vida sem desafios fica triste, carece de sentido. Me veio a curiosidade de saber como ela ocupava seu tempo, sozinha naquele apartamento e perguntei:

__Mas além do terço, dona Anita, o que a senhora faz o resto do dia aqui sozinha? – a resposta me surpreendeu…

__Ah, eu fico no computador!

__Uma pessoa da sua idade, que bacana! E o que a senhora vê na internet?

__Ah, meu filho, tudo que eu tenho direito, vejo de tudo!

__E o que é esse tudo, dona Anita?

__Tudo que você quiser imaginar…

Com esta resposta evasiva ela me calou e nos convidou para tomarmos um chá com bolo e margarina, na cozinha. Ela se levanta sozinha do sofá, recusa e faz cara feia quando faço menção de ajudar. Também não gosta de ser servida, ela mesma verte o chá em sua xícara e nos serve do bolo que também foi assado por ela. A empregada, que escuta nossa conversa se intromete e diz que ela mesma pinta as unhas e corta o cabelo, nunca foi a um salão de beleza!

De repente dona Anita para de falar e fica contemplativa, olhando pela janela.

__O que foi, dona Anita, lembrou de alguma coisa que quer me contar?

__Lembrei sim, de uma coisa muito importante que eu tenho imenso prazer de fazer.

__O que é dona Anita?

Ela então nos leva para perto da janela e mostra umas arvores e pergunta:

__Vocês estão vendo?

__Vendo o que, dona Anita?

__Os dois gatinhos ali em cima da copa das árvores. Elas formam dois gatinhos se beijando, não estão vendo?

Finalmente entendi que os gatos não eram de carne e osso, e sim as copas das árvores que, com um pouco de imaginação deixam ver um casal de gatos se beijando.

__Aquele da esquerda é o Mário e a gatinha sou eu…

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Este é o retrato aproximado de uma centenária senhora que vive escondida em nossa cidade. Quantas mais haverão como ela, esperando um pesquisador curioso? Não me canso de escavar estes tesouros, alguns mais escondidos, outros à flor da terra. Ficou evidente que ela gostou da entrevista, mesmo sendo uma pessoa reservada. Dona Anita me deixou as portas abertas e eu prometi voltar tão logo ela tire as fotos de cima do armário e resolva mostrá-las.

Antes de irmos embora, ainda deu tempo de perguntar à dona Anita se ela não tinha problemas para renovar a carteira de motorista, dada a idade avançada. Ao que ela respondeu:

__Mas eles não tem motivo nenhum para me negar a renovação. Eu enxergo bem, tenho coordenação motora e outro dia esteve aqui um médico gerontologista que veio estudar o “meu caso”. Ele colocou aqueles eletrodos na minha cabeça, fez um monte de perguntas e ontem chegou o resultado, diz que eu tenho o cérebro de uma jovem de 20 anos! Ai deles se me me negarem esse direito! – e deu uma boa risada!

Dona Anita pode não ser perfeita, mas é um exemplo de perseverança e amor à vida.

A Ferradura De Burro Com 7 Furos

julho 6, 2013

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Leite ferrado é um antigo remédio caseiro que se fazia na roça e que era usado no combate aos vermes. Hoje em dia, com a invasão das panacéias dos gigantes da indústria farmacêutica, estas receitas praticamente cairam no esquecimento. Quem é que vai se dar o trabalho de juntar picão, duas qualidades de hortelã, erva-de-bicho, erva-de-santa-maria, ruibarbo, raspas de chifre de carneiro, colocar tudo isso numa panela de ferro, adicionar leite e jogar dentro uma ferradura em brasa, quando se pode comprar um vermífugo ou vermicida genérico por um par de reais na farmácia da esquina? Mesmo eu, que sou fã das receitas tradicionais, nunca me animei a juntar todos esses ingredientes e preparar a tal poção.

Meu interesse por remédios contra vermes vai além da curiosidade de pesquisador de folclore. Como eu tenho uma horta e estou sempre com as mãos na terra e no esterco, pelo uma vez por semana tomo um chàzinho de erva de santa maria com boldo e hortelã, para expulsar algum possível intruso instalado em minhas entranhas. De modo que quando fiquei sabendo que minha vizinha, a dona Vicentina, costumava dar o leite ferrado para seus netinhos, mais que depressa fui falar com ela, perguntar quando seria o próximo preparo do remédio.

Encontrei dona Vicentina no terreiro, dando de comer às galinhas, calça jeans por baixo da saia, botinão de couro, sua cabeca branquinha se destacando contra o azul-celeste da parede. Na roça costuma-se pintar as paredes com a cor do céu, dizem que espanta as moscas. Fico imaginando se não espantasse…

__Bom dia, dona Vicentina! Quando é que vamos ter frango na idade de ir pra panela?

__Mais uns dois mês, meu fio, que bicho criado só no milho, sem hormônico e tibiótico é mais demorado mezz.

Enquanto joga o milho ela ralha com um cachorro policial branco, que fica atentando as pobres aves.

__Passa daqui, seu fio duma égua! Vou ter que acabar prendendo esse sem vergonha, senão ele come os frango tudu antes di nóis. Ocê tá quereno frango pra hoje? Cumpadi Bastião me falô inda onti que tava quereno dá fim nos dele

__Não dona Vicentina, eu vim é por causa do leite ferrado, que eu fiquei sabendo que a senhora faz para os seus netos.

__Fazia, Chico, hoje não tenho mais como.

__E por que isso? Falta alguma planta? Eu arrumo, vou atrás e arrumo pra senhora.

__Não é planta, não, Chico, o que tá fartano é a ferradura. Perdi a ferradura da úrtima veiz que mudemo de casa e nunca mais fiz. Tô usano o remédio do postinho memo, que a dotôra receitô pras criança

__Mas não seja por isso! Amanhã mesmo eu arrumo uma ferradura pra senhora e tá resolvido!

__Aí é que , não pode quarqué ferradura. Tem que ser ferradura de burro e com sete furo!

Eu, na minha santa ignorância perguntei:

__E ferradura de burro é diferente da de cavalo, dona Vicentina? E por que de 7 furos?

__Mai craro que é diferente! A de burro é de burro e a de cavalo é de cavalo, uai! E só dá certo com sete furo, se  com mais ou com meno furo é trabaio pirdido

Confiante de encontrar o que ela me pediu, disse a ela que em breve voltaria com a tal ferradura de burro com sete furos.

__E se eu encontrar a ferradura do jeitinho que a senhora pediu vamos ter de novo o leite ferrado? A senhora promete?

__Tá prumitidu. É um remédio gostoso dimais da conta, as criançadinha adora e inté os mais véio tóma. Ocê trazeno nóis fáis.

Durante meses eu procurei pela tal ferradura, mas minhas buscas foram infrutíferas. Todas as que encontrei tinham de 6 ou 8 furos, porque os cravos são colocados no casco do animal aos pares, simètricamente. Sómente quando o animal é defeituoso é que se faz um número ímpar de furos. Fui a antiquários, brechós, feiras do rolo, todos me diziam que era muito difícil encontrar uma ferradura de 7 furos e ainda mais de burro! Comecei a desconfiar que ferradura de burro com 7  furos era uma lenda e que dona Vicentina inventou essa história apenas para se livrar de mim e não ter que preparar o leite ferrado, que dá um trabalhão danado…

Mais de ano se passou, eu já havia desistido de encontrar a tal ferradura. Um belo dia, minha mestra na pesquisa de folclore, dona Angela, me sugeriu procurar o povo ligado ao tropeirismo em nossa cidade. Não por causa da ferradura, que ela nem sabia dessa minha busca. Ela apenas achava este aspecto de nossa cultura andava um tanto quanto negligenciado pelo saber oficial nos últimos tempos.

A princípio não me animei muito não, pois, para mim, tropeirismo era algo do passado, morto e enterrado depois do advento dos caminhos de ferro e mais tarde os de asfalto. Se havia interessados nele, seria por puro saudosismo, assim eu imaginava. Ledo engano.

Assuntando com amigos, descobri que o tropeiro, figura chave no transporte de mercadorias desde fins do século XVII até meados do século passado, sobrevive ainda hoje “encostando lenha” ou transportando a produção agrícola em lugares onde não há estradas ou que o trator não consegue chegar. “Encostar” ou “puxar” lenha, na linguagem deles, quer dizer adentrar uma plantação de eucalipto com burros e mulas, carregá-los até a beira da estrada onde está o caminhão que vai levar a madeira para ser utilizada para papel, lenha para queimar ou construção civil.

Não são muitos estes que trabalham desta maneira ainda hoje, mas todos que conversei tem orgulho do que fazem e o fazem por opção; dentre estes, alguns são jovens com menos e 20 anos.

Em torno desta atividade, existe todo um mundo de fazedores que suprem a demanda dos tropeiros, fazendo toda sorte de material de uso deste ofício. E foi justamente um destes que fui procurar, o Daniel muladeiro, que comercia com muares e trabalha com couro de maneira artesanal.

Daniel tem um rancho situado a dez minutos de carro do centro da cidade, um verdadeiro baluarte da cultura muar e eqüina, que concentra pessoas interessadas em tudo que diz respeito à cultura tropeirista. Acabei ficando amigo do Daniel, que percebendo meu interesse, sempre me convida para uma breganha ou cavalgada.

Numa das visitas ao rancho, Daniel me apresentou o Reinaldo, um rapaz que se dedica à arte de fazer ferraduras. Reinaldo, mais conhecido como Gordo Ferreiro, estava lá com seu carro-oficina para ferrar duas mulas. As ferraduras que Gordo faz são sob medida, para que se adaptem adequadamente aos cascos dos animais, coisa chique! Já chegou a fazer até ferraduras ortopédicas para um cavalo que teve os tendões da mão rompidos.

Pois bem, Gordo retirou a parafernália do carro e montou sua oficina instantânea. Uma forja à gás, uma bigorna de 60 kg, martelos, marretas, pinças, torquesas, grosas e mais um tanto de ferramentas que não guardei o nome. Pedi licença para filmar e fui bombardeando o rapaz com perguntas, um defeito de todo pesquisador… Enquanto limpava e cortava os cascos, ele ia me contando que aprendeu a ferrar animais com o pai, tomou gosto pela coisa e decidiu que era isso que ia fazer pelo resto da vida. Fez vários cursos de especialização e do seu trabalho como ferrador tira o sustento de sua família.

Lá pelas tantas me deu um estalo e lembrei da ferradura de burro com sete furos, perguntei ao Gordo se ele já tinha visto alguma na vida.

__Olha, Chico, o certo é um numero par de furos. A gente só faz numero ímpar se o animal tiver o casco com defeito.

__Mas você já viu alguma na vida? É que eu preciso de uma ferradura dessas para fazer um remédio caseiro, já faz tempo que estou procurando…

__Ver mesmo eu nunca vi, mas a gente pode fazer. É dois palito!

Mas é claro, o cara era ferrador e fazedor de ferraduras! Eu até agora esperava topar com a lendária ferradura por acaso, nunca que alguém a confeccionasse! Em menos de 5 minutos o Gordo me colocou nas mãos, já devidamente resfriada, o objeto de desejo que eu passara mais de ano procurando. Dona Vicentina que me aguarde! Enquanto isso ela fica pendurada atrás da porta de entrada de casa, que é pra ver se minha sorte melhora…

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Quatro meses mais tarde, marquei com dona Vicentina e num sábado de manhã fizemos o esperado leite ferrado, na versão dela.

 

A Revolta do Pedreiro

junho 20, 2013

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Seu Amaro é uma pessoa pacata, casado, tres filhos, mineiro do sul do estado, há uns trinta e poucos anos que mora em São José dos Campos. A esposa trabalha de motorista e ele como pedreiro, são tidos como exemplo de respeitabilidade no bairro. São meus vizinhos, moram no caminho de casa e sempre que posso dou um dedo de prosa com ele ou com ela; política da boa vizinhança por um lado e por outro fico sabendo do que rola no bairro.

Ontem, dia de jogo da seleção brasileira, eu voltava pra casa e vi o Seu Amaro em frente de casa, sentado em frente ao portão, o olhar no infinito. Estranhei. Primeiro que nunca vi seu Amaro sentado, ele é um serelepe, não para nunca. E outra pelo horário, era muito cedo pra ele já ter voltado do serviço. De dentro do carro gritei pra ele:

__E aí, seu Amaro, tá tudo bem? To estranhando ver o senhor sentado uma hora dessas.

Ele tirou o cigarro da boca

__To preocupado dimais, meu filho, essas badernage que o povo deu de fazê urtimamente. Isso é coisa de desocupado, tinha logo que mandá prendê essa cambada.

Eu sabia que ele se referia às manifestações que estavam pipocando por todo país, devido ao aumento das passagens de ônibus.

__Mas seu Amaro, isso é a voz do povo, não é coisa de desocupado não. Tem estudante, dona de casa, trabalhador, em algumas cidades até os policiais estão apoiando o movimento!

__Que nada, isso é coisa de filhinho de papai, deu no noticiário de onte à noite. Tudus ele tem carro, uai! Pra que ficá fazeno arruaça por causa de preço de passage de bondão! 

__A manifestação vai ser pacífica, seu Amaro, mas é claro que sempre aparecem uns infiltrados pra desmoralizar o movimento…

Seu Amaro ficou vermelho, nunca o vi tão inflamado:

__Nos tempo que eu vim pra cá pra São José não tinha essas coisa, não. Mas quem é que mandava? Os militar! Ocê ligava o rádio e não tinha notícia de assalto, de droga e bagunça nas rua. Tava bom deles dá um górpe que nem em 64 pra botá orde na casa travêis.

Eu ainda tentei argumentar mas ele não escutava nada:

__Eu queria é que eles ia em Brasília, tirava a Dilma de lá, chamava esse povo dos direitos humano, os juiz e perguntava pra eles: “Cêis tão do nosso lado ou não?”. Se estivesse a favor muito que bem, se estivesse contra mandava tudus ele pra outros país, exilado. Chegava nas passeata, passava fogo numa meia dúzia, prendia o resto num estádio e ia fazendo uma triagem pra vê quem era quem… E pra garantir o sossego, todo mundo pra dentro de casa depois das 10 da noite, que gente decente não sai depois dessas hora…

Nessas alturas eu desisti de argumentar com ele, não tinha mais o que dizer, era muito radicalismo. E que ele não ficasse sabendo que eu iria ao centro da cidade no dia seguinte, participar do Ato Pela Redução da Tarifa de Ônibus, que no fim vai acabar beneficiando ele mesmo… Ainda bem que nessa hora estouraram rojões, ele se lembrou do jogo e seu discurso mudou  como num passe de mágica!

__Ai meu deus, o jogo já começou e eu nem me dei conta…

Ele saiu correndo e me deixou pensando sozinho, no medo que as pessoas tem das mudanças, mesmo aquelas que vão beneficiar suas vidas. De longe, antes de sair, eu ainda escutei a som da voz do Galvão Bueno e sua voz pasteurizada, típica do padrão Globo de locução…

Seu Genildo

maio 6, 2013

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Seu Genildo está pintando minha nova casa nas horas vagas. Chega lá pelas 5h e vai embora um pouco antes da novela das 9 na Globo, que ele não perde de jeito nenhum. Sua casa fica um pouco abaixo da minha, uns 300 metros pela esburacada estrada de terra. De shorts, sem camisa e uma surrada havaiana nos pés, quem olha seu Genildo não imagina que ele tem 5 carros semi novos na garagem de sua casa. Diz ele que tal fartura é para não ficar na mão na hora de sair; se um carro falhar, ainda tem mais 4…

Enquanto enche com massa corrida os buracos das paredes, este senhor de 49 anos vai me contando sua infância em Brasópolis.

__A vida hoje é muito boa, Chico. Essa molecada tem de tudo do bom e do melhó. É computador, é televisão, é vido gueime e ainda reclama. Sabe quando eu fui botar o meu primeiro sapato nos pé? Com 13 anos! Nóis andava era descalço memo. Dava dó de botá aquele sapato novinho de couro, naquele poerão da roça. Eu carregava ele na mão e só carçava quando chegava perto da cidade.

Outro dia me preparei um chá e levei para seu Genildo, que tomou de uma golada só e fez uma careta feia.

__Minha Nossa Senhora, o que é que ocê pôis nesse chá, Chico?

__É boldo, hortelã, erva doce, cidreira, manjericão e mastruço. Bom pro fígado e ainda espanta os vermes, Seu Genildo.

__Mas então isso é remédio, num é chá. E sem açúca, vixe que coisa ruim!

Seu Genildo tem os dentes todos falhados e diz que dentista só se for com anestesia geral, que ele morre de medo dessa gente de branco. De pequeno, quando tinha dor de dente, a mãe mandava botar leite de taiuveiro. Era tiro e queda, a dor passava, mas depois de alguns dias o dente ia rachando, pretejando e caindo aos pedaços até que só sobrava o buraco da raiz…

Numa das orelhas ele coloca o cigarro de palha apagado, na outra uma folha verde.

__Pra que serve essa folha na sua orelha, seu Genildo?

__Você que conhece pranta num sabe não? Isso é pra azia, Chico. Quarqué pranta  moiada serve.

__O que é pranta moiada, seu Genildo?

__Pranta moiada é dessas que ocê espreme e sai um cardo. Botô na orêia a azia some em 5 minuto

Seu Genildo toma uma pinga lascada, mas segundo ele agora tá controlado, bebe pouco em relação ao que bebia uns anos atrás. A culpa é da tal de Lei Seca. Antes ele bebia para poder relaxar e dirigir melhor. Se gaba de nunca ter tido um acidente, já que, por garantia, ele parava até em sinal verde… A esposa, segundo ele, não se incomoda com a cachaças que o marido toma, porque sabe que ele bebe com responsabilidade… Teve um ano que ele bebeu mais de 300 litros de pinga! Agora é menos, bebe só um litro por semana e só nas refeições…

Seu Genildo me mostra um dedo torto e conta que foi esmagado numa prensa, quando ele era jovem e tomava todas. Nesse tempo ele trabalhava de segurança em carro forte e não sabe como não virou bandido, porque o dinheiro que passava por suas mãos era muito.

__Nesse época do acidente eu bebia demais da conta. Eu tinha tanto arco no sangue que nem a nestresia num pegô. Foi preciso apricá a injeção mais forte que eles tinha no hospital, porque senão eu num guentava a dô.

A mulher de Genildo trabalha fora e quando ela não pode cozinhar ele se vira com um café e pão com mortadela. Mesmo que tenha comida na panela, ele não pega, fica mesmo é no pão com mortadela. Foi acostumado assim pela mãe, a ser servido. E com 26 anos de casado, ele nunca tirou comida da panela, quem faz seu prato é a mulher! O casal tem 4 filhos e a cada parto, durante o resguardo da mulher, a comida dele e dos filhos já nascidos sempre foi café com pão, que perto do fogão ele só chega para esquentar a água do café…

__Mas o senhor nunca morou sozinho, seu Genildo?

__Já morei, sim.

__E como o senhor fazia pra comer?

__Nesse tempo eu namorava uma menina de família até 10h da noite. Depois que ela ia embora eu abria a porta da casa e aquilo enchia de puta e travesti. Eles é que cozinhavam pra mim.

Nesse tempo ele aprontava com essa turma. Contou, se gabando, que até banho em caixa d’água de vizinho ele tomava, só de farra… Diz ele que os vizinhos sabiam mas não falavam nada…

__Antes o povo era mais bom, Chico. Vai fazer uma coisa dessas hoje…

Como eu tinha pressa de me mudar para a casa nova, seu Genildo trabalhou também no domingo, pra ver se me liberava um quarto pra eu enfiar minha mudança. Na hora do almoço ofereci um arroz com ovo pra ele, que recusou. Passou o dia todo na base do café frio e super doce, que ele trouxe numa gafarra pet. Café e cigarro de palha.

Quando foi lá pelas 4h da tarde ele se desculpou:

__Chico, eu não vou podê terminá o serviço hoje, mas amanhã eu prometo, esse seu quarto fica pronto.

__Tá cansado, seu Genildo, ou vai ver o jogo?

__Não, é que eu já atrasado pro Domingão do Faustão, o único programa que presta da gente  no domingo.

__Tudo bem, seu Genildo, mas antes de sair não se esqueça de fechar bem as janelas que o tempo tá virado pra chuva.


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