Archive for the ‘Ecologia’ Category

A AVENTURA DA FARINHA DE MANDIOCA

outubro 1, 2016

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Dona Joana e Seu Tim moram numa casinha simples, na beira da estrada que leva para o Bairro do Raizeiro em São Luiz do Paraitinga SP. Uma estrada de terra, poeirenta no tempo seco e lisa que nem sabão no tempo das águas. Os dois nasceram na roça e dela nunca saíram. Os filhos foram todos para a cidade mas eles insistem na vida simples, praticando o que aprenderam com os pais, quase que imunes às modernidades que hoje invadiram a zona rural.

Conheci o casal quando procurava quem fizesse o tipiti, artefato de taquara que é usado para prensar a massa da mandioca ralada da qual vai ser feita a farinha. Gostei dos dois logo de cara, gente simples e hospitaleira que logo foi me fazendo sentir como se fossemos amigos de longa data. É assim com a maioria do povo da roça; quando percebem nossas boas intenções…

Fizemos então o tipiti, filmamos todo o processo, desde o corte do taquaruçú, toda a destalagem, secagem e trançamento do cestinho que acondiciona a massa da mandioca. Neste meio tempo, descobri que o casal ainda guardava o costume de fazer a farinha de modo bem artesanal, num terreno do outro lado do rio, onde estava a roça de mandioca. Vendo meu interesse, o casal me convidou para participar do processo da farinha, que dura dois dias do jeito que eles fazem. Avisaram que teríamos que posar na casa do outro lado do rio, com o que concordei imediatamente.

Marcamos o dia e pouco antes do meio dia atravessamos o rio para nossa pequena aventura. Lá chegando colhemos a mandioca, descascamos, ralamos e colocamos no tipiti para que a massa secasse durante a noite. As conversas foram todas em torno das coisas da roça, dos fazeres que estão se acabando por conta do povo comprar tudo pronto e ir esquecendo como se fazia antigamente…

Lá pelas tantas dona Joana me fala que a mãe dela fazia um bolinho com a massa crua da mandioca. De tanto que eu perguntei, Dona Joana deve ter pensado que eu ficaria aguado se não comesse o bolinho naquele dia e então, depois da janta preparou-nos uma boa fritada explicando passo-a-passo como ele é feito. Você pode assistir o video do bolinho aqui. Pra vocês terem uma idéia de como é gostoso este quitute, eu que sou de comer pouco, comi dois deles depois da janta!!!

No dia seguinte, o sol ainda nem tinha saído e os dois já estavam de pé. Seu Tim foi passar café e dona Joana lidar com os apreparos da farinha. A massa já estava seca na prensa de pau e pedra feita contra o barranco. Agora era tirar a massa do tipiti e peneirar no tacho de cobre, que eles chamam de forno; tacho é só quando vai cozinhar alguma coisa; para torrar farinha, o mesmo objeto chama-se forno.

Peneirada a farinha, seu Tim montou a tacuruva, um fogão de pedras improvisado no qual eles equilibram o forno, onde será despejada a massa peneirada a fim de que ela primeiro seque e depois torre. É um processo longo, demora mais ou menos 3 horas para fazer os 10 litros de farinha, que são o produto final dos mais de 30 kg de mandioca colhida no dia anterior.

Dona Joana brinca que ela chora toda vez que torra a farinha. Pudera, a tacuruva não tem chaminé e a fumaça castiga os olhos de quem está lidando com o forno… Mas vale a pena, diz ela, porque não tem comparação a farinha de pau que se encontra nos supermercados, com a que eles preparam artesanalmente. Eu confirmei isso ao degustar a farinha logo que ficou pronta; é um gosto que não dá pra descrever. Se você quiser saber um pouco mais de como eles prepararam esta farinha, clique aqui e assista o vídeo completo da aventura.

 

 

Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

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                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

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Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

COMO FAZER UM COVO DE PESCA COM BAMBÚ

abril 6, 2015

 

Seu Miguel é um piraquara que vive há 73 anos na beirinha do Rio Parahyba. Seu sustento ele tira do rio; o peixe ele pesca e nas margens faz roças de milho, feijão, abóbora e mandioca. Nunca parou de pescar, mesmo na época em que o rio ficou poluído e a maior parte dos pescadores acabou fichando nas fábricas. Ele sabia dos locais limpos, onde desaguavam os afluentes livres da água poluída pelas grandes indústrias e continuou pescando e entregando no Mercado Municipal todos os sábados.

Para quem não sabe, é possível pescar de diversas maneiras, não é só com rede ou vara que se tira peixes do rio. Existem armadilhas que podem ser fabricadas com bambú ou linha de pesca numa armação de cipó tingá. São os chamados covos de pesca, armadilhas compostas de uma armação externa, conhecida como “mãe”, por ser a maior e uma parte interna, o “filho”. Dentro do filho coloca-se uma isca, que pode ser pão amanhecido ou sardinha, joga-se dentro d’agua, prende-se bem com bambu ou corda e espera-se que os peixes entrem lá dentro para comer. Depois de uns 2 ou 3 dias, retira-se a armadilha da água e recolhe-se os peixes. Qualquer peixe pode ser pego com o covo.

O covo que seu Miguel faz é de bambu “tecido”. Usa bambú comum colhido no dia, abre as varas, destala com facão e depois dá início ao complicado e bonito processo de “tecer” o bambú. Se por acaso não utiliza todo o bambú cortado, é preciso manter o que sobrou dentro d’água, para que fique flexível e não se quebre durante o processo de tecer o covo. Antigamente usava o cipó tingá para ajudar a manter a armação, mas hoje uma cordinha de plástico fez as vezes do cipó. O covo que ele fez para demonstração é bem menor do que os que ele utilizava antigamente, que de pé eram maiores do que a altura de homem. Isso os covos de bambú, porque os de linha mediam até o dobro disso.

Seu Miguel não pesca mais com covo porque é um objeto muito trabalhoso de fazer e segundo ele, o pão está muito caro, ninguém mais dá pão de graça como antigamente. Assim, hoje ele só pesca mesmo na rede, mas nos meses que a lei permite, pois de novembro a março é a época da desova e a pesca está proibida. Neste dia em que fotografei, ele estava dando início ao covo que vai apresentar no Museu Vivo e por isso não está terminado. Ele finalizou o covo no Museu, para que as pessoas pudessem acompanhar pelo menos uma parte do processo.

O Registro feito em novembro de 2013, às margens do Rio Paraíba e no Parque da Cidade, em São José dos Campos SP.

Simpatia para curar bicha, inveja e mau-olhado

janeiro 11, 2015

 

 

Fiz este pequeno vídeo a pedido de Dona Maria, que gosta muito de ser filmada e mostrar o que aprendeu na roça, onde viveu até os seus 25 anos.

Ela quer deixar um registro para seus filhos e netos, pois sabe da importância do conhecimento que adquiriu com seus antepassados e também porque as pessoas não acreditam que ela foi e ainda é uma mulher que sabe lidar com a criação, monta a cavalo, conhece ervas medicinais, simpatias e mais um tanto de coisas que o pessoal da cidade só vê em filmes e livros.

O sítio onde ela morava na infância e adolescência foi desapropriado para construção da represa de Paraibuna e, desde então ela vive na cidade, sempre sonhando com sua roça natal.

Hoje ela mora em um pequeno terreno na periferia da cidade de São José dos Campos SP, no bairro do Buquirinha, onde cria galinhas, planta cana, milho, abóbora e mantém uma pequena horta para o gasto, tentando se aproximar da vida que ela tanto gosta.

As imagens do vídeo acima foram tomadas por ocasião de uma visita à fazenda de sua filha, zona rural de São José dos Campos SP.

Dona Cida e as Saúvas

maio 4, 2014

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No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em viagem de estudos pela América do Sul, teria ficado assustado diante do poder destrutivo deste inseto, o que o levou a afirmar que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

A saúva já foi considerada um dos maiores flagelos da agricultura brasileira, mas isso num tempo em que ainda não existiam os eficientes formicidas que hoje exterminam as colônias deste inseto como num passe de mágica.

As saúvas são capazes de pelar uma árvore em questão de horas, dependendo do tamanho da colônia. Por isso, quem tem um formigueiro no seu jardim ou lavoura, não pensa duas vezes. Vai a uma “casa rural”, escolhe um veneno qualquer e dá fim neste inseto que aos olhos da pessoa comum só causa estragos. Mas aos olhos de minha amiga Cida, as coisas se passam de uma maneira um pouco diferente. Dona Cida jamais mataria a saúva, muito pelo contrário, ela “planta” sauveiros!

Deixem-me explicar. Dona Cida mora na periferia da cidade de São José dos Campos, onde ainda tenta manter o modo de vida rural de sua infância e adolescência. Num terreno de 5000 m2 ela ainda cria galinhas, mantém uma horta, planta seus remédios, cuida de um pomar e tem uma pequena roça onde convivem pés de cana, abóbora e mandioca, tudo muito bem cuidadinho e limpo.

Da última vez que fui visitá-la, reparei que havia um pé de jaca muito judiado, quase sem folhas. Perguntei a ela se era a saúva a responsável pelo estrago na fruteira.

__É elas mesmo, Chico, eu deixo elas comerem as fôia da jaqueira.

__Mas dona Cida, a senhora vai deixar as formigas acabarem com o pé de jaca? Por que não mata elas?

__Matá as formiga? Deus que me livre! Eu tô é prantano elas! Enquanto que o povo qué acabá com elas eu semeio oiêro de saúva, pra modi elas não acabá!

__Como assim, dona Cida? Explica melhor essa história de “plantar saúva”. Saúva é bicho, não é de plantar!

__Ah, Chico, quando ocê pranta não faz um buraquinho e enfia a semente? Pois então, quando eu pranto a saúva é a mema coisa. Eu faço o buraquinho e coloco ali a tanajura, pra formá a casa delas.  

__E pra que a senhora quer semear uma praga que todo mundo quer acabar?

__Por que eu adoro comê içá, uai! E com esse povo todo matano as saúva, daqui a pouco elas vai sumi, então eu planto elas aqui no meu quintá… E dô di comê a elas com as fôia da jaqueira, que a jaca eu não posso com ela mêmo, então dêxa elas comê a árvi… 

A resposta de dona Cida me surpreendeu e me fez lembrar que a saúva é um inseto que está no planeta há muito mais tempo que o homem, um recém chegado de vista curta. Sem pensar na função ecológica que tem a saúva, sem falar que a própria formiga serve de alimento a muitas populações, queremos eliminá-la porque imaginamos que ela ameaça nosso modo de vida atual, nossa agricultura baseada na monocultura.

Mal sabem os que matam as saúvas, que estes insetos trabalham para a regeneração da flora e não o contrário, como pode parecer à primeira vista. Esta espécie, quando se reproduz, procura terrenos degradados para iniciar uma nova colônia. Revolvendo a terra e trazendo para a superfície o subsolo, ela acaba favorecendo o desenvolvimento de sementes que se tornarão plantas e árvores, as quais servirão de alimento para elas e para nós humanos também.

E mais, existem animais que vivem dos dejetos das saúvas e que também contribuem para a nitrogenação do solo, aumentando a fertilidade do mesmo. Ou seja, há toda uma intrincada cadeia de plantas e animais que dependem do trabalho das saúvas para continuarem existindo. Exatamente como fazem as abelhas e moscas polinizadoras, sem as quais não haveria os frutos que comemos, as formigas semeiam a vida no solo.

Dona Cida, com seu corpinho magro e ágil e forte como uma formiga, provavelmente não pensa em nada disso quando “semeia” sauveiros, mas talvez intua a importância que tem as saúvas para o equilíbrio do planeta.

Arrisco dizer que Saint-Hilaire estava equivocado em sua afirmação. Acabar com a saúva pode ser o mesmo que acabar com o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.

O Pinto do Boi, o Saci e a Bomba Atômica

agosto 6, 2013

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Estávamos nos preparando para sair quando minha amiga Teca soltou a pergunta:

__ E aí, Chico, o que você acha de eu levar o pinto do boi?

__Ótima idéia, Teca, tudo a ver, vai fazer sucesso! Bora levar esse pinto pra reunião!

Ela apanhou sua bolsa, o celular, o pinto seco do boi, que é um objeto cilíndrico de 60 cm de comprimento, parecendo feito de plástico reciclado, trancou a porta da casa, entramos os dois no carro e partimos em direção à cidade de Caçapava, onde nos esperava uma reunião do Núcleo Içá Bitú, o braço regional da Comissão Paulista de Folclore para o Vale do Paraíba.

A cada mês, um grupo de pessoas se reúne para discutir estratégias que visam a salvaguarda do folclore na região. O responsável por disparar os emails convidando a turma sou sempre eu. Contabilizo os que confirmam, a fim de que o dono da casa possa ter uma previsão do número de bocas que se farão presentes para o almoço, que é gentilmente oferecido pelo anfitrião.

Para esta reunião em Caçapava, uma das participantes, a minha amiga Lucia, que mantém o verdadeiro Sítio do Pica Pau Amarelo, cogitou da conveniência de levar à reunião, 4 japoneses que estavam passando férias em sua casa. A primeira coisa que me ocorreu foi querer saber se eles falavam o português. “Não, Chico, somente um deles fala o português e mesmo assim mal e má…”, foi a resposta que ela me deu. Não querendo contrariar minha amiga Lucia, uma virginiana arretada, eu disse que tudo bem, mas ela que cuidasse de entreter os seus japoneses, já que, certamente, eles não teriam muito o que fazer durante nosso encontro.

No caminho para Caçapava, fui discutindo com Teca o assunto dos 4 japoneses que nos aguardavam na reunião. Eu havia dito sim para a Lucia sem consultar o grupo, o que será que eles iam achar? Será que os japoneses iriam ficar sentados durante 3 horas olhando para nossas caras ou iriam interagir? Como seria pinto de boi em japonês? Numa tentativa de integrar os orientais, eu já estava bolando uma mímica sonora para que eles entendessem o que era o pinto do boi, quando me lembrei que nossa amiga Misae iria estar presente à reunião. Misae nasceu na ilha de Okinawa e sabe falar japonês, o que me deixou mais relaxado naquele momento. Pelo menos os japoneses não iriam se sentir deslocados…

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A casa da nossa anfitriã em Caçapava, a Darcy, é um misto de museu com loja de antigüidades. Ela foi juntando bonecos de pano, enfeites religiosos, imagens de santos, missais que o povo não quer mais e enfeitando com eles os cômodos da casa. É difícil achar um espaço livre, sem objetos, nas paredes daquela casa. Tudo chama o olhar, mas o que mais me interessou foi um santinho de Nossa Senhora Aparecida que na verdade é uma propaganda política de uma figura local. Disse a Darcy que, antigamente, os políticos patrocinavam romarias à cidade de Aparecida e forneciam os santinhos com seus nomes para as eleições vindouras. Descobri, assim, a origem do nome “santinho“, que é o panfleto que hoje em dia mostra o rosto dos políticos, mas que de santo mesmo não tem nada…

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Quando chegamos à casa da Darcy, os japoneses ainda não estavam lá. Mas já haviam chegado o seu João, um carreiro que no século XXI ainda lida com bois, e o Carajás, um senhor que também já mexeu com bois de carro na infância. A Teca, que também é da roça, segurando o pinto do boi nas mãos com a maior sem cerimônia do mundo, foi logo perguntando aos dois se eles sabiam do que se tratava. Eles, educadamente disseram que não… Claro que conheciam, mas preferiram não correr o risco de ferir susceptibilidades.

Não demorou muito e chegou uma senhora que eu não conhecia e que veio de carona com seu marido. Descobri que a Madalena não só era casada com um nissei, como também falava japonês. Muita coincidência! Nessas alturas eu relaxei de vez, com as duas falantes para servir de intérpretes. Mas o melhor estava ainda por acontecer.

Lúcia chegou com os seus 4 japoneses, três senhoras e um menino de 11 anos, depois de ficar perdida pela cidade. Essas pequenas localidades do Vale do Paraíba tem o dom de emaranhar o turista em suas ruelas estreitas e com sinalização precária. O aumento do numero de carros tem sido sempre mais rápido do que a necessária adequação das vias.

Pois bem, feitas as apresentações, deu-se início à nossa reunião e tão logo pode, Lucia tomou a palavra para apresentar seus amigos e disse que uma de suas amigas, a Yumiko, iria mostrar um trabalho sobre o saci. Saci? Será que eu tinha escutado bem? Uma japonesa do Japão mostrar um trabalho sobre o saci? Lucia não havia me falado nada sobre isso…

Yumiko, que já viveu um tempo no Brasil, é uma professora de português para filhos de brasileiros, os dekasseguis que voltaram para o Japão. Essas crianças nasceram no Japão e apesar de terem pais brasileiros, não tiveram contato com a cultura brasileira. Para ensiná-los, Yumiko usa os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, dos quais ela é fã. Tanto ela gosta da criação infantil de Monteiro Lobato que seus filhos japoneses foram criados com histórias de Dona Benta! Disse ela que isso proporcionou a eles uma grande liberdade e uma alternativa ao estrito comportamento japonês.

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O trabalho que Yumiko nos mostrou eram desenhos coloridos em cartolina, de uma história do saci, feitos por essas crianças, com legendas em português e japonês. Eu fiquei impressionado com o interesse de uma professora japonesa pela cultura brasileira. A outra japonesa, fiquei sabendo depois, faz bicos de pena pelos lugares que viaja. Havia um livro dela com desenhos de São Paulo, um primor de traço que retrata o Mercado Municipal, a igreja da Sé, o Pátio do Colégio e outros pontos conhecidos da cidade. Depois ela leva para o Japão e mostra o Brasil pelos olhos dela. Maravilha de se ver! Na pressa, acabei  não tirei fotos do livro, mas minha amiga Dóris Bonini foi mais cuidadosa e clicou o livro (grato Dóris!)

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Não me lembro como foi, mas o assunto do pinto do boi veio à tona e o mesmo correu as mãos de todos os presentes. Explicou-se que o objeto é usado como relho, um chicote feito para dar nos animais de montaria e quando os japoneses ficaram sabendo do que era feito, fizeram cara de espanto recatado mas depois caíram na risada. Alguém quis saber como se diz pinto em japonês e aí foi a vez dos brasileiros rirem. Pinto em japonês é tim tim, exatamente o mesmo que dizemos quando brindamos com bebidas! Pronto, os japoneses estavam integrados de vez.

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Num clima de festa, fomos comer o delicioso almoço preparado pela família da Darcy no fogão de lenha. Polenta, arroz, feijão, farofa, carne ensopada, frango assado, salada de rúcula com tomate, não teve quem não repetisse o prato! De sobremesa havia taiada, maria mole, sorvete e mais alguma coisa que não me lembro… Foi difícil parar de comer!

Lá pelas tantas, apareceu uma japonesa que eu ainda não tinha visto. Será que ela tinha ficado dormindo no carro e levantou para comer? Não, tratava-se da Noêmia, uma vizinha da Darcy que foi convidada justamente por causa da presença dos amigos da Lucia.

Dona Noêmia logo entabulou conversa com os outros japoneses. Curioso, eu tentava entender o que diziam e Yumiko, percebendo meu interesse, ia traduzindo para mim. Noêmia viera ao Brasil com 25 anos, para arrumar casamento com japoneses que tinham se fixado no país. Como a maioria dos imigrantes eram homens, era preciso importar mulheres do Japão para casarem-se com eles. Foi assim que Noêmia chegou à cidade de Caçapava, casou-se com um agricultor e ali ficou até hoje.

Noêmia contou também que escutou as explosões nucleares que deram fim à Segunda Guerra, três estouros assustadores que ficaram para sempre em sua memória. Não sei porque, naquele momento senti uma profunda reverência por aquela mulher, talvez pelo fato de ela haver presenciado um momento de grande dor da humanidade. Fiquei emocionado e em silêncio agradeci a Lucia por ter tido a idéia de trazer gente do outro lado do mundo para um encontro que em princípio deveria tratar da cultura local. Gente que com certeza valoriza muito mais nossa cultura que muitos de nós brasileiros.

Comentando com a amiga Misae sobre a coincidência de estarem reunidos ali tantos japoneses, ela me chama à atenção para o fato de que no dia seguinte, 06 de agosto, comemora-se o sexagésimo oitavo aniversário das bombas atômicas que caíram sobre o Japão determinando o fim da Segunda Guerra Mundial…

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Seu Genildo

maio 6, 2013

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Seu Genildo está pintando minha nova casa nas horas vagas. Chega lá pelas 5h e vai embora um pouco antes da novela das 9 na Globo, que ele não perde de jeito nenhum. Sua casa fica um pouco abaixo da minha, uns 300 metros pela esburacada estrada de terra. De shorts, sem camisa e uma surrada havaiana nos pés, quem olha seu Genildo não imagina que ele tem 5 carros semi novos na garagem de sua casa. Diz ele que tal fartura é para não ficar na mão na hora de sair; se um carro falhar, ainda tem mais 4…

Enquanto enche com massa corrida os buracos das paredes, este senhor de 49 anos vai me contando sua infância em Brasópolis.

__A vida hoje é muito boa, Chico. Essa molecada tem de tudo do bom e do melhó. É computador, é televisão, é vido gueime e ainda reclama. Sabe quando eu fui botar o meu primeiro sapato nos pé? Com 13 anos! Nóis andava era descalço memo. Dava dó de botá aquele sapato novinho de couro, naquele poerão da roça. Eu carregava ele na mão e só carçava quando chegava perto da cidade.

Outro dia me preparei um chá e levei para seu Genildo, que tomou de uma golada só e fez uma careta feia.

__Minha Nossa Senhora, o que é que ocê pôis nesse chá, Chico?

__É boldo, hortelã, erva doce, cidreira, manjericão e mastruço. Bom pro fígado e ainda espanta os vermes, Seu Genildo.

__Mas então isso é remédio, num é chá. E sem açúca, vixe que coisa ruim!

Seu Genildo tem os dentes todos falhados e diz que dentista só se for com anestesia geral, que ele morre de medo dessa gente de branco. De pequeno, quando tinha dor de dente, a mãe mandava botar leite de taiuveiro. Era tiro e queda, a dor passava, mas depois de alguns dias o dente ia rachando, pretejando e caindo aos pedaços até que só sobrava o buraco da raiz…

Numa das orelhas ele coloca o cigarro de palha apagado, na outra uma folha verde.

__Pra que serve essa folha na sua orelha, seu Genildo?

__Você que conhece pranta num sabe não? Isso é pra azia, Chico. Quarqué pranta  moiada serve.

__O que é pranta moiada, seu Genildo?

__Pranta moiada é dessas que ocê espreme e sai um cardo. Botô na orêia a azia some em 5 minuto

Seu Genildo toma uma pinga lascada, mas segundo ele agora tá controlado, bebe pouco em relação ao que bebia uns anos atrás. A culpa é da tal de Lei Seca. Antes ele bebia para poder relaxar e dirigir melhor. Se gaba de nunca ter tido um acidente, já que, por garantia, ele parava até em sinal verde… A esposa, segundo ele, não se incomoda com a cachaças que o marido toma, porque sabe que ele bebe com responsabilidade… Teve um ano que ele bebeu mais de 300 litros de pinga! Agora é menos, bebe só um litro por semana e só nas refeições…

Seu Genildo me mostra um dedo torto e conta que foi esmagado numa prensa, quando ele era jovem e tomava todas. Nesse tempo ele trabalhava de segurança em carro forte e não sabe como não virou bandido, porque o dinheiro que passava por suas mãos era muito.

__Nesse época do acidente eu bebia demais da conta. Eu tinha tanto arco no sangue que nem a nestresia num pegô. Foi preciso apricá a injeção mais forte que eles tinha no hospital, porque senão eu num guentava a dô.

A mulher de Genildo trabalha fora e quando ela não pode cozinhar ele se vira com um café e pão com mortadela. Mesmo que tenha comida na panela, ele não pega, fica mesmo é no pão com mortadela. Foi acostumado assim pela mãe, a ser servido. E com 26 anos de casado, ele nunca tirou comida da panela, quem faz seu prato é a mulher! O casal tem 4 filhos e a cada parto, durante o resguardo da mulher, a comida dele e dos filhos já nascidos sempre foi café com pão, que perto do fogão ele só chega para esquentar a água do café…

__Mas o senhor nunca morou sozinho, seu Genildo?

__Já morei, sim.

__E como o senhor fazia pra comer?

__Nesse tempo eu namorava uma menina de família até 10h da noite. Depois que ela ia embora eu abria a porta da casa e aquilo enchia de puta e travesti. Eles é que cozinhavam pra mim.

Nesse tempo ele aprontava com essa turma. Contou, se gabando, que até banho em caixa d’água de vizinho ele tomava, só de farra… Diz ele que os vizinhos sabiam mas não falavam nada…

__Antes o povo era mais bom, Chico. Vai fazer uma coisa dessas hoje…

Como eu tinha pressa de me mudar para a casa nova, seu Genildo trabalhou também no domingo, pra ver se me liberava um quarto pra eu enfiar minha mudança. Na hora do almoço ofereci um arroz com ovo pra ele, que recusou. Passou o dia todo na base do café frio e super doce, que ele trouxe numa gafarra pet. Café e cigarro de palha.

Quando foi lá pelas 4h da tarde ele se desculpou:

__Chico, eu não vou podê terminá o serviço hoje, mas amanhã eu prometo, esse seu quarto fica pronto.

__Tá cansado, seu Genildo, ou vai ver o jogo?

__Não, é que eu já atrasado pro Domingão do Faustão, o único programa que presta da gente  no domingo.

__Tudo bem, seu Genildo, mas antes de sair não se esqueça de fechar bem as janelas que o tempo tá virado pra chuva.

O Paraguay Que O Brasil Não Conhece

abril 21, 2013

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Em circunstancias normais, eu jamais pensaria em fazer turismo ou passear no Paraguay. Mas quando um casal amigo meu, Hamilton e Patrícia, me falaram que estavam de partida para este país vizinho com o propósito de ministrar um curso de Terapia Florestal, eu praticamente me convidei para ir com eles e seus dois filhos pequenos. Afinal, terapia é uma das minhas paixões nesta vida e como minha vida está de pernas para o ar, achei que valia a pena arriscar algo fora do comum.

Faz já alguns anos, Hamilton projetou e instalou todos os equipamentos de eco-aventura dentro daquela que é a primeira reserva florestal particular no país vizinho. A eco reserva de M’Batovi está localizada a 70 km da capital do país, Assunção, e é mantida pelo casal Jacinto e Marta, empresários paraguaios que resolveram inovar na área do turismo, com este empreendimento sustentável. Funcionando já há 7 anos com guias locais, rapazes e moças, os donos resolveram aprimorar os serviços oferecidos pelo parque e pediram a Hamilton e Patrícia, um curso de meditação e consciência ambiental para todos os que estão envolvidos com os trabalhos na eco-reserva.

Meus amigos não fizeram objeção à minha companhia e depois do sinal verde do pessoal do Paraguay, combinamos que eu iria com eles, de ônibus, enfrentar as 20h de viagem até Assunção. Jacinto e Marta são compadres de Hamilton e Patrícia e se tornaram muito amigos depois que começaram a trabalhar juntos.

Antes de partir para qualquer destino eu gosto de saber um pouco sobre o que vou encontrar à frente, de modo que escrevi para Marta e pedi que ela me sugerisse alguma leitura informativa sobre o Paraguay. Gostei da resposta dela, que não me indicou nada e simplesmente citou o slogan da Secretaria de Turismo paraguaya:

“Paraguay, tenés que sentirlo”

Apesar da sugestão daquela que seria minha anfitriã no Paraguay, não resisti e acabei dando uma busca aleatória na internet. Encontrei coisas muito interessantes.

Descobri que o Paraguay, com seus 406 750 km2, tem bem menos gente que o estado de São Paulo, com seus 248.209 km². Enquanto o estado brasileiro tem 41 252 160 habitantes, todo o território paraguaio abriga apenas pouco mais de 7 000 000 de almas! Seis vezes menos gente em praticamente o dobro da área! Isso fica muito evidente nas largas distancias entre as casas nas periferias das cidades e no baixíssimo numero de prédios de apartamentos na capital, Assunção, que tem bem menos de 1 000 000 de habitantes.

Numa rápida pesquisa sobre a língua que se fala naquele país, fiquei sabendo que desde o ano de 1992, quando foi promulgada a constituição democrática no Paraguay, o guarani, língua falada por 90% da população, foi elevado elevado à categoria de idioma oficial e além disso foi incluída a obrigatoriedade de seu ensino nas escolas. E que existe uma terceira língua, ou dialeto, como querem alguns, que é falada no dia a dia, uma mescla de espanhol e guarani, que se chama Jopará e quer dizer exatamente o que significa; mistura, mescla. Nas cidades, até por uma questão prática, já que muito do que existe hoje não existia nos tempos pré- colombianos, o Jopará é mais carregado de elementos do espanhol. Em contraposição, na zona rural, predominam os vocábulos em guarani, chegando ao ponto, em algumas regiões, de haver gente que só sabe falar o guarani.

Pelo lado mais prosaico, descobri que uma das comidas típicas do país, a sopa paraguaia, não tem nada a ver com sopa, mas trata-se de um gostoso bolo feito de milho verde, fubá, cebola, manteiga, queijo ralado e sal. Coisas do Paraguay…

E, finalmente, quando, por acaso, dei com um site da famosa Ciudad del Este, me lembrei que Paraguay é sinônimo de compras e me animei com a idéia de presentear-me com uma boa camera fotográfica. O que acabou não dando certo, já que o ônibus apenas passa por esta cidade e a exigüidade do tempo não nos permitiu nada mais além do que nosso objetivo inicial, ou seja, o curso de Terapia Florestal.

Depois de uma criteriosa avaliação, e muitas perguntas a amigos, gerentes de bancos e fóruns virtuais com gente que costuma viajar ao Paraguay, decidi que era melhor levar dinheiro vivo, reais e dólares e ir trocando por guaranis (moeda paraguaya) aos poucos, nas onipresentes casas de cambio.

Assim, no dia marcado para nossa partida, com duas mochilas às costas, uma dúzia de sanduíches com pão integral, especialmente preparados para a longa viagem e um certo friozinho na barriga, liguei para meus amigos, para saber onde nos encontraríamos na rodoviária. Surpresa! O celular deles (o casal só tem um celular) tinha ficado com o filho de Patrícia, que me informou que sua mamãe tinha viajado para o exterior e deixado o mesmo com ele!

__ Mas como assim? Eles não deixaram nenhum recado para mim? Eu sou o Chico Abelha, vou viajar com eles para o Paraguay!

__ Não, eles não me falaram nada.

__ …

O frio na barriga aumentou, transformou-se em um imenso abismo gelado! E agora? Será que eles já foram sem mim? Esqueceram de mim? Não podia acreditar que eles tivessem feito isso comigo. Havíamos deixado para comprar as passagens na última hora, na rodoviária de São Paulo, porque assim eles sempre fizeram e sempre havia lugares. Seria este um aviso para não viajar? Estaria eu fugindo de alguma coisa aqui no Brasil?

Toda sorte de pensamentos negativos passaram por minha cabeça. Eu deveria desistir ou dar uma de louco e ir sozinho, caso eles já tivessem partido? Mas como ir sozinho se eu não tinha ao menos o endereço ou telefone dos nossos anfitriões no Paraguay? E se meus amigos inconsciente e convenientemente, tivessem esquecido de mim? Vai saber…

Resolvi recorrer a quem sempre recorro nas horas de dúvida, o tarot! Costumo tirar apenas uma carta quando se trata de sim ou não. Saiu a Imperatriz, que considerei uma carta positiva. Senti um certo alívio, mas ainda não me dei por satisfeito e tirei mais uma, depois outra e outra ainda! Todas elas foram positivas, ou na pior das hipóteses, neutras. Mas a dúvida ainda persistia em meu coração e por isso tirei aquela que foi a última. Para minha alegria, saiu o Sol, eu podia colocar-me em movimento que tudo iria se esclarecer. E em movimento me pus, confiante agora e com a determinação de ir sozinho, em direção ao desconhecido, como o Louco do tarot, mesmo que eu não encontrasse meus amigos.

Deixei meu carro na casa de minha mãe e segui para a estação rodoviária de minha cidade. Comprei minha passagem para São Paulo e ainda estava guardando o troco no bolso quando avisto Hamilton e as duas crianças, sentados em uma pilha de mochilas cheias até a boca. Seu sorriso varreu qualquer sombra de ansiedade de que as coisas pudessem não dar certo. Nem questionei nosso desencontro, apenas contei sobre o tarot e a dúvida de momentos antes. Comentamos sobre sincronicidades, sobre silenciar a mente e fluir como o momento e eu entendi a importancia das coisas terem acontecido da maneira que aconteceram. Por causa do desencontro, pude fazer um questionamento e tive a certeza de que viajar ao Paraguay era a coisa certa, para mim, naquele momento.

Compradas as passagens, ônibus lotado, às 18 horas estávamos saindo de São Paulo, enfrentando os habituais congestionamentos deste horário. A viagem toda durou 20 horas e só tivemos uma parada de 20 minutos em Ciudad del Este, para limpeza do banheiro do ônibus, cujo estado pode-se bem imaginar…! Ao longo das 12 horas iniciais, não houve uma só parada e foi servida no ônibus uma refeição (meia boca) quente à noite e um café da manhã (um quarto de boca) logo cedo. Graças a Deus houve uma pane no sistema de video, não conseguiram passar nenhum filme e por isso pude conciliar o sono sem o incômodo daquela insuportável luz azulada e do ruído de tiros, gritaria e automóveis em fuga.

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Às 6h e 30min da manhã, chegamos a Ciudad del Este, onde baixaram os sacoleiros e o ônibus esvaziou-se quase que completamente. Esta cidade de fronteira, pelo menos por onde passamos de ônibus, se assemelha a um gigantesco shopping center a céu aberto, com as ruas coalhadas de camelôs. Tive arrepios só de me imaginar em meio àquela babel mercantil. Os cartazes e outdoors luminosos anunciavam todo tipo de coisa, desde eletrônicos sofisticados até roupa usada. O tipo físico predominante das pessoas que circulam pelas ruas é da raça dita amarela.

Da janela do ônibus, nas proximidades do terminal rodoviário, eu pude ver índios morando nas calçadas, em precárias barracas cobertas com plástico, pano e papelão, em meio a muita imundície. Durante a parada para limpeza do banheiro, a língua que se escutava era o guarani, cujo som me pareceu similar ao do chinês e tão incompreensível quanto a língua oriental, embora eu pudesse identificar alguma coisa parecida com o espanhol de vez em quando. Provavelmente, o que eu escutei foi o Jopará.

Os 400 km que separam Ciudad del Este da capital, Assunção, no outro extremo do país, foram percorridos em aproximadamente 6h. Trafega-se bem mais lentamente no Paraguay do que no Brasil, lá o tempo é outro. A sensação era de ter voltado atrás algumas décadas e fui acometido de uma gostosa nostalgia. Meus olhos, cansados da noite mal dormida, recusavam-se a fechar e comiam gulosamente a paisagem cheia de novidades. Minha camera Sony, velha de guerra, registrou bem umas 500 imagens nestas primeiras horas de Paraguay.

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Da janela do ônibus eu podia ver muitas pessoas sentadas nas calçadas sorvendo mate ou tererê de suas cuias, às quais eles chamam de guampas (que quer dizer chifre). Mal comparando, o mate equivale ao nosso cafezinho, com a grande diferença que tomar mate ou tererê envolve um ritual cheio de detalhes e nuances. O mate é tomado quente, enquanto que o tererê toma-se frio, com água bem gelada. Tanto a um como ao outro, pode-se adicionar ervas medicinais, que são chamadas de yuyos ou remédios (pronuncia-se djudjos). Abundam os vendedores de mate e tererê pelas ruas do país e invariavelmente, nos pontos de venda, há uma mesinha com uma grande quantidade de ervas, frescas ou secas. Há também muitas cuias e garrafas térmicas com água quente ou gelada à disposição do freguês e o vendedor conhece as propriedades de todas as ervas que vende, aconselhando o cliente, segundo as queixas e sintomas que este apresenta. Muitas vezes é o vendedor quem vai apanhar no mato ou cultiva os remédios em seu jardim. Claro que toma-se também o mate puro, que é digestivo, estimulante e diurético, pelo simples prazer de toma-lo.

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Dentre as ervas oferecidas para se tomar com o mate, reconheci algumas comuns aqui no Brasil. Há a losna, a erva cidreira, a cavalinha, a hortelã, a camomila, a alfavaca, o alecrim e o boldo, dentre muitas outras. Se o freguês vai tomar o mate ou tererê ali mesmo, o vendedor, munido de um pequeno pilão, transforma a erva fresca em uma pasta que é colocada na garrafa térmica com água gelada, com pedras de gelo mesmo, para o tererê. Ao mate, geralmente só se acrescentam ervas secas.

Tudo isso eu só fiquei sabendo mais tarde, depois de alguns dias de Paraguay, mas no primeiro dia, a caminho de Assunção, não pude deixar de reparar a grande quantidade de vendedores com suas mesinhas à beira da estrada.

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Outra presença constante no Paraguay são as chiperias e os vendedores ambulantes de chipas, uma deliciosa rosquinha típica paraguaya, muito parecida com o nosso pão de queijo. Basicamente são a mesma coisa, só que as chipas levam fubá e erva doce na receita. Um pouco antes de chegarmos a Assunção, o ônibus para em frente a uma grande chiperia, a Maria Ana. Não podemos descer mas sobem moças bem arrumadas e muito bonitas, vendendo cheirosas chipas quentinhas, recém saídas do forno. Impossível resistir a tal delícia. Pudera, já passava da hora do almoço e com certeza o horário da parada ali fora estratégicamente calculado para encontrar nossos estômagos roncando…

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Finalmente, depois de 20 horas de ônibus, chegamos à cidade de Assunção. Após um telefonema e uma espera de 15 minutos, aparece Jacinto, nosso anfitrião, com um carro grande o suficiente para acomodar os cinco brasileiros e suas mochilas. Jacinto é simpático, se espressa num portunhol facilmente compreensível e durante o trajeto me esclarece que Assunção é uma cidade com menos de um milhão de habitantes, mas que cresceu tanto que acabou abocanhando cidades vizinhas, formando um conglomerado urbano de mais de 2 milhões e meio de pessoas. A cidade tem muitos poucos prédios de apartamentos, não contei, mas arrisco dizer, depois de rodar pela cidade, que estão em torno de uma centena.

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O transito é lento em alguns pontos e Jacinto reclama que de uns tempos para cá, as coisas tem piorado muito, segundo ele, devido ao aumento no numero de veículos. Reparei que a sinalização de transito, principalmente a de solo, é praticamente inexistente. Lembrei-me de quando estive na India, país em que o ato de dirigir é muito mais comandado pelo instinto do que pela racionalidade.

Marta nos recebe efusivamente em sua casa, com uma comida quente, que se não era uma refeição paraguaia, como eu esperava, pelo menos saciou minha fome de leão, que vinha sendo (mal) enganada com porcarias durante a viagem. Todos tomamos banho e nos preparamos para a próxima etapa da viagem, ou seja os 85 km até a reserva de Mbatovi, na cidade de Paraguari, localizada a sudeste de Assunção. Por uma questão de logística, Hamilton, Patrícia e as crianças seguiram na frente e eu fiquei para ir mais tarde com Marta e Jacinto.

Pude então caminhar um pouco pelo centro da cidade, onde vi lojas que pareciam ser de 100 anos atrás, convivendo com shopping centers modernos, em nada diferentes dos que tenho visto pelo mundo afora. Naturalmente, a capital é bem mais ocidentalizada que a zona que eu acabara de percorrer de ônibus horas antes. Não havia vendedores de mate e tererê pelo centro da cidade, mas encontrei gente sorvendo mate de suas cuias nas praças que passei.

Caminhei sozinho, à noite, pelas ruas de Assunção e posso dizer que não tive receio nenhum de faze-lo. Ficou evidente que o nível da violencia, que evidentemente deve existir no Paraguay, não tem nada a ver com a das nossas cidades brasileiras. Por exemplo, não vi nenhum condomínio fechado em Assunção. Contudo, à beira da estrada, no percurso entre a capital e Ciudad del Este, pude ver, com muita tristeza, pelo menos duas grandes placas anunciando Barrios Cerrados, à frente de enormes terrenos ainda vazios. No pacote de importação desse país, que importa praticamente tudo que é industrializado, não poderia faltar este estilo de morar intramuros.

Senti fome e como eu estava sem dinheiro, resolvi tirar alguns guaranis de um caixa eletrônico do Banco Itaú. Eu já havia me informado no Brasil que esta operação era possível, fazendo uso do meu cartão de débito. Antes de finalizar a operação no terminal eletrônico, me foi dito que cobrariam uma taxa de 25.000 guaranis, o que daria 5% do valor que eu pretendia retirar. Acontece que quando confirmei o valor do saque, 500.000 guaranis, apareceu uma mensagem dizendo que eu não estava autorizado a sacar aquele valor. Optei por um valor mais baixo e houve nova recusa. O único valor que consegui tirar, foi 125.000 guaranis e a taxa da operação continuava a mesma, ou seja, me cobraram 20% do valor sacado! Um roubo! Ainda bem que eu tinha alguns dólares, que foi o que me salvou de ser assaltado ainda mais…

A viagem até Paraguari, onde se localiza a eco reserva, demorou mais do que eu esperava. Sair de Assunção não é fácil, mesmo para assuncenos. Presenciei Marta e Jacinto discutindo sobre o melhor caminho e quase metade do tempo da viagem foi gasto para sair da cidade. As estradas são boas, poucos buracos, mas ninguém corre como no Brasil. A impressão que tive é que não se tem pressa de chegar a lugar nenhum naquele país. O que não vale para Jacinto, que está mais para brasileiro do que para paraguaio…

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Chegamos à reserva já tarde da noite e nos esperava um lanche com suco de laranja. Os cítricos abundam no Paraguay e notei que eles são plantados como arborização urbana. Pode-se ver pés de mexerica, laranja, limão e pomelo com seus frutos coloridos enfeitando as ruas. Não vi ninguém colhendo-os, mas não posso imaginar que sejam apenas para enfeite e alimentação de pássaros. Encontrei variedades de laranjas muito diferentes das que estou acostumado a consumir no Brasil. O nosso limão cravo existe por lá também, mas com menos manchas de antracnose, sua casca sendo por isso mais lisa e a forma do fruto mais arredondada.

Uma grande quantidade das ervas medicinais silvestres que conheço aqui no sudeste do Brasil, encontrei-as também no Paraguay, com a diferença de que lá elas são mais exuberantes e de aparência mais saudável. Provavelmente o solo e o clima sejam os responsáveis por isso, já que lá há extremos de temperatura e o solo é mais vermelho. Às vezes, tamanha a diferença na aparência, eu tinha dúvidas se se tratava da mesma planta. Esmagar e cheirar foi o meu recurso para confirmar se eram as minhas velhas conhecidas aqui do Brasil. Encontrei o piracá, o picão, a macela (ou marcela), a erva-canudo e a pariparoba. Os nomes não são os mesmos, mas as propriedades sim, isso pude confirmar perguntando aos nativos. Com árvores a mesma coisa; vi muito ipê, paineira, guatambú, pau-pólvora e guapuruvú.

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Só dia seguinte pela manhã é que pude ter a noção de onde me encontrava, uma encosta de montanha orientada para o por do sol, com um visual deslumbrante. São 15 ha de floresta particular, que agora se integram à recém criada área de preservação da municipalidade de Paraguari.  Um pequena infraestrutura abriga a recepção, há alojamento para os guias, duas cozinhas, um kiosk e dois chalés que hospedam visitantes e os donos do empreendimento. Um lindo deck de madeira dá vista para o vale onde está a cidade de Paraguari, 15km abaixo. Há um gramado que separa a área construída da floresta e pode-se encontrar frutíferas espalhadas por todo canto.

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Aos poucos, os “alunos” do curso foram chegando. São jovens com menos de 30 anos, que quando começaram este trabalho de guias de eco turismo em Mbatovi eram ainda menores de idade e hoje estão casados e com filhos. Os homens são maioria. Foram recrutados entre os bomberos, que no Paraguay são jovens voluntários treinados para este fim. Sim, eles não ganham nada para fazer este serviço de utilidade pública. Isso existe aqui ao lado neste nosso país irmão! O estado apenas financia instalações, material e treinamento e todos os envolvidos trabalham sem receber um só centavo…

Alguns dos guias ainda mantém uma atividade paralela, já que os ganhos com turismo são irregulares e dependem de uma demanda incerta. Por isso, alguns deles são pedreiros, agricultores, cozinheiros e outros ainda trabalham como guias em outros empreendimentos de esporte de aventura.

Ve-se que nossa clientela é bastante heterogênea. Em um determinado momento eu tive dúvidas se os alunos iriam captar o que fôramos passar para eles, ou seja, consciencia ambiental e por conseqüência, de si mesmos, utilizando dinâmicas de grupo, ioga e meditação. Mas ao fim do curso, no momento da partilha, os depoimentos superaram minhas expectativas e muito!

Os relatos davam conta que nunca, em 7 anos de trabalho, os guias haviam percorrido as trilhas sem os pesados equipamentos de segurança e que quando tiveram oportunidade de faze-lo e em silencio absoluto, se deram conta de coisas que jamais haviam visto e vivenciado antes. Antes eles percorriam as trilhas a trabalho, agora, se transformaram em observadores, do entorno e de si mesmos.

Mas o mais impressionante foi que dois deles levaram as técnicas de respiração e meditação aprendidas no curso para seus familiares, com as quais praticaram e puderam ver os resultados positivos. Isso no dia seguinte em que as aprenderam! Foi emocionante perceber gente simples desprovida de preconceitos, descendentes diretos de índios, se beneficiando de técnicas orientais de meditação de respiração. Para mim, este foi o maior ganho da viagem. Perceber a inocencia e abertura do povo paraguaio.

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Eu confirmaria esta abertura quando visitei ao mercado em Paraguari, no dia seguinte ao encerramento do curso. Fiz questão de ir de ônibus e sozinho, para poder sentir um pouco mais da vida do paraguaio comum. Informado dos horários, fui para a estrada e me preparei para uma espera de 45 minutos. Para minha surpresa, 10 min se passaram e surgiu um ônibus bem velho, descendo a estrada a 20 km por hora. Fiz sinal e entrei por uma das portas abertas, já que não havia nenhuma indicação visível. Quis pagar a passagem ao condutor que me indicou um garoto que circulava pelo colectivo, cobrando os passageiros. Eu não tinha os 3.000 guaranis trocados, em minha carteira havia apenas notas de cem mil e duas moedas de 1000. O garoto me disse que 2.000 pagavam a passagem, e recolheu as moedas da minha mão. Tomei aquilo como um bom sinal.

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Uma vista d’olhos dentro do ônibus, me informou que ele devia ter pelo menos uns 50 anos. O chão era de madeira gasta, o forro do teto de duratex, o parabrisas tinha uma enorme rachadura, remendada com cinta scotch e a cadeira do motorista não era uma poltrona e sim uma cadeira mesmo, fixada ao chão com parafusos. Entendi a baixa velocidade do colectivo ao observar que o motorista não parava de virar o volante para um lado e para outro. Havia uma folga enorme na direção e todo cuidado era pouco para não deixar despencar o veículo pelos barrancos da serra…

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Chegamos à praça do mercado uma meia hora depois e dei graças a Deus quando baixei do ônibus, por ter chegado vivo e inteiro a Paraguari. Chamou-me a atenção a quantidade de vendedores de remédios com suas mesinhas repletas de ervas e para eles me dirigi. A primeira pessoa com quem conversei, dona Hermínia, já permitiu ser fotografada, filmada e entrevistada. Falava espanhol com facilidade e no papo com ela fiquei sabendo do nome e finalidade de cada uma das ervas em seu balcãozinho armado na calçada. Muitas das ervas é ela mesma quem planta ou coleta na natureza, outras, mais difíceis de serem encontradas, ela compra de quem se aventura a coletar em pedreiras íngremes e topos de árvores. Reclamou da dificuldade de encontrar certas ervas, pois o consumo está aumentando muito. Alguns remédios semi industrializados, embalados em papel e com um desenho colorido ilustrativo, são trazidos por vendedores de Assunção. Curam diabete, problemas na próstata, lombrigas, tosse, etc… De dona Hermínia comprei menta, losna, anis e alfavaca, para me preparar um chá, pois na eco reserva não havia uma horta com temperos e chás. Depois de uma semana longe de casa, eu já sentia muita falta do meu habitual cházinho matinal.

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O mercado de Paraguari vende de tudo. Além de funconar como terminal de ônibus, lá encontram-se à venda roupas, carnes, farinhas, pães, chipas, frutas, leite fresco em garrafas pet, eletrônicos e também muita comida pronta, para se comer na hora. Eram 8h da manhã e havia muita gente comendo bifes, ovos, empanadas, chipas e outras coisas de origem animal que não consegui identificar e não tive oportunidade de perguntar do que se tratava.

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Mas o que mais me espantou foi encontrar, bem no centro do mercado uma guarderia de niños, que vem a ser uma creche onde os pais podem deixar os filhos durante o dia todo, para poder trabalhar. Quem toma conta da guarderia é dona Ana Lia, que exerce a função há mais de 20 anos. Os 8 primeiros anos ela trabalhou como voluntária, mas um belo dia resolveu pedir ajuda à municipalidade que prontamente providenciou um salário. Hoje, ela e as professoras que ali trabalham, recebem uma pequena ajuda de custo.

É ela quem está na imagem abaixo, tomando seu mate com yerba de lucero (Pluchea sagittalis), remédio bom para a digestão, segundo ela. Dona Ana Lia conta que era católica, mas um dia, por acaso, ao assistir um programa na televisão, encontrou Jesus e nunca mais se separou dele, tornando-se evangélica à partir de então. Ela também deixou-se fotografar, com a condição de que eu não mostrasse as imagens para nenhuma criança, para não assusta-las…

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Dentro do mercado eu encontraria muitos produtores que vieram vender sua pequena produção agrícola. Trazem seus limões, mandioca, abóboras, feijões, milho, farinhas, leite e queijo. Todas as pessoas que abordei deixaram-se fotografar e conversaram comigo sem ao menos saber quem eu era e de onde vinha. Muitos me confundiam com um gringo perdido no interior do Paraguay ou com muita boa vontade, um periodista argentino. Só depois da conversa estabelecida é que eles queriam saber quem eu era e o que fazia ali. Isso me mostrou o quanto esse povo ainda mantém, de forma generalizada, uma boa-fé que aqui no Brasil anda tão difícil de se encontrar.

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Lá pelas tantas, depois de muitas fotos e entrevistas, me bateu uma fome de leão, mas uma fome específica, de tomar um suco de lima da pérsia e comer uma empanada de carne que eu já tinha visto num local. A empanada foi fácil de achar, mas o suco de lima ninguém tinha. Acabei comprando meia dúzia desta fruta em uma barraca e pedi a uma mulher que tinha um liquidificador que me batesse as limas descascadas. Ela gentilmente se dispôs a faze-lo, só que o liquidificador travou com as minhas limas dentro. O jeito foi acrescentar suco de laranja que ela já tinha espremido, mas contra minha vontade, porque eu não queria misturar as duas frutas. Tomei o suco, comi a empanada e fui pagar. A mulher se recusou, disse que não era nada e ainda me abriu um grande sorriso. Quer alimento melhor para a alma do que uma gentileza dessas? Se eu já estava gostando o Paraguay, passei agora a amar essa gente simples, disponível e sobretudo carinhosa com o forasteiro.

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No mercado, ainda comprei um pacote de mate de nome Curupi, que é uma mistura de erva mate com boldo e menta, uma ótima e refrescante combinação para um tererê. Levei também poroto manteca (favas), um pacotinho de poroto rojo e um macinho de coentro, muito utilizado na culinária local, tanto que tem até nome em guarani (kuratõ).

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Saí para as ruas e passei a fotografar um pouco da arquitetura de Paraguari. Encontrei muitas casas antigas e sem o cuidado que eu imagino que deveria se dispensar a construções que são evidentes documentos históricos, já que a cidade é cognominada de “berço da independencia nacional”. Surpreendi-me com a quantidade de cursos superiores que existem na cidade, tanto na área de humanas e exatas.

Quando me dei por satisfeito com as fotos e achei que era hora de voltar, olhei ao redor para me localizar e buscar um ônibus para voltar. Adivinhem quem vinha vindo com seu andar de tartaruga… Sim, o mesmo colectivo que eu tinha tomado na vinda, com o mesmo motorista e o mesmo cobrador, agora voltava no sentido contrário. Pensei duas, tres, quatro vezes e levantei o braço fazendo sinal para ele parar. O sol estava muito quente para eu ficar na beira da estrada esperando por outra alternativa…

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Ao chegar à eco reserva, a refeição que me aguardava era uma comida típica paraguaya, o bori bori, de longe a melhor e mais gostosa que comi no país. O que caracteriza o bori bori é que nele não podem faltar bolinhas feitas de fubá grosso e queijo, às quais pode-se adicionar caldos de legumes ou carnes a gosto do fregues. Saborear esta iguaria temperada com muito alho, cebola, cheiro verde e coentro é como receber um abraço por dentro… Na foto acima, pode-se ver Hamilton, Patrícia e as crianças e ao fundo, Marta à mesa e Jacinto ao computador.

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No dia seguinte, o ultimo que passaríamos em Mbatovi, houve uma atividade que eu não esperava e que muito me agradou ter participado. Convocou-se a municipalidade, os estudantes e o Comando de Artilleria, para um mutirão de coleta do lixo da beira da estrada que liga Paraguari a Mbatovi. Aproximadamente 100 pessoas se reuniram, receberam instrução minuciosa e, munidos de jalecos, luvas, água e sacos de plástico, encheram um caminhão de lixo em 3 horas de trabalho. Impressionante a quantidade de objetos que há na beira da estrada. De carro não se vê praticamente nada, mas quando se caminha à pé, saltam aos olhos garrafas de bebidas alcoolicas, latas, sacolas plásticas, pneus, partes de autos e o que mais me impressionou, uma enorme quantidade de fraldas descartáveis usadas. A pedido de Marta, registrei todo o evento e do material bruto preparei um extrato que está no video abaixo.

Durante a coleta do lixo, que abrangeu 1o km de estrada, encontrei muitas dessas “casinhas” que ficam à beira da estrada, em memória de falecidos em acidentes. É notável a quantidade desses pequenos monumentos, que eu já havia reparado desde que entrei no Paraguay. A beira das estradas é sempre muito espaçosa, algo como 30 metros de grama e nela pastam animais atados a uma corda. Além de um bonito paisagismo, essa é uma atitude inteligente, pois economiza dos dois lados; tanto para o poder público que não tem que roçar, como para o dono da animal, que tem o pasto à disposição.

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Vi também uma placa muito curiosa, onde se lia “Acá se cura de diabetis”. Claro que fui me informar. Encontrei o sr Jaime, reunido com sua familia, à beira da estrada, um costume que observei em muitas propriedades, esse de ficar tomando mate ou tererê, no largo espaço entre as moradias e o leito das estradas. O sr Jaime foi frio a princípio, mas acabou revelando que seu remédio é infalível e que vem gente de Argentina, Brasil e Estados Unidos para comprar sua garrafada, que ele chama de remédio. Interessado como sou sobre plantas medicinais, não pude segurar a pergunta de qual ou quais são as plantas que compõem esse milagroso remédio. O sr Jaime não titubeou e disse que não podia revelar o segredo, sob pena de que ele ia perder o poder. Ele havia recebido a receita diretamente de Deus, que a concedeu na condição de que ele jamais a revelasse… Para quem se interessar, é só ligar para o numero da placa; o código internacional do Paraguay é 595.

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Quando falei com o sr Jaime, estava acompanhado de um professor da faculdade de Economia de Paraguari, que escutou o minha conversa. Percebendo meu interesse, ele me contou que no Paraguay existem muitos médicos, que na verdade são benzedores, aos quais o povo recorre na precisão. De uma consulta com esses médicos, a pessoa sai com uma receita dada pelo mesmo, que não passam de tisanas que devem ser preparadas com ervas que o doente mesmo vai colher na natureza. Sabedor disso, passei a perguntar para as pessoas, que me confirmaram que esta prática é bastante comum no país.

O dia seguinte seria o último que passamos no Paraguay. Quando saí de Mbatovi, parecia que estava deixando minha casa, tal a afinidade que estabeleci com aquele lugar, nos 5 dias em que lá passei. No curto espaço de tempo em que fizemos as despedidas, houve tempo para conversar com alguns guias e o assunto foi lendas populares. Isso devido ao nome da erva Kurupi, que é o mesmo Curupira que existe no Brasil também. Me contaram de Jaci Jaterê ou YaciYatere, que seria o nosso Saci Parerê, que aqui, por ter sofrido influência africana, distanciou-se do original indígena. Outro que guarda semelhança, mas aí por influência européia, é o Luison, que nada mais é do que o nosso Lobisomem. O Luison é um misto cachorro, anta e macaco, que ataca as pessoas não só em noites de lua cheia, mas também nas tempestades. Infelizmente não houve tempo para nos aprofundarmos, mas isso e tudo o mais que vivi no Paraguay, me fez ter a certeza de que um dia voltarei, tamanha a riqueza de folclore e cordialidade que este povo carrega consigo.

No dia seguinte, Jacinto nos levaria até o Terminal de Omnibus de Asunción e depois de uma despedida emocionada, fomos fazer algumas compras de última hora, pois com a correria toda não tivemos tempo para tal. Na hora e meia que ainda tinhamos pela frente antes de embarcar, resolvi fazer como os paraguaios e pedi um tererê numa das mesinhas que vendem o produto. Até então, eu ainda não tinha me arriscado a tomar o mate, pois sei que é estimulante e diurético.

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Dona Silvia, à direita na foto acima, me ajudou a escolher entre as dezenas de yuyos à disposição. Meu fígado pediu e acabei escolhendo boldo com menta, que vem a ser o famoso Kurupi, do qual acabei comprando um pacote que trouxe para o Brasil. Enquanto dona Silvia, que vende mate há 23 anos no mesmo local, preparava meu tererê, apareceu um senhor pedindo remédio para sua pressão alta. Dona Silvia perguntou qual era o motivo de tal disturbio e se ele já havia consultado um médico. Diante da negativa do cliente, ela se recusou a servir qualquer remédio, alegando que não é prudente mascarar um sintoma desses, que normalmente é indicativo de  algum distúrbio mais grave. Fiquei fã de dona Silvia, tamanha a consciencia da mulher. Só não fiquei fã foi do tererê, pois me fez ir ao banheiro mais de uma duzia de vezes durante a viagem, ou seja, a cada duas horas eu tinha que me sujeitar ao exíguo e mal cheiroso toilette do ônibus, o que estragou minha noite de sono no ônibus…

Numa viagem longa, a gente sempre acaba entabulando conversa com outros passageiros, é inevitável. Reparei que uma mulher que parecia brasileira, pois falava portugues fluentemente, teve que descer na Policia Federal para dar entrada como estrangeira. Assim como quem não quer nada, perguntei se era estrangeira, o que ela confirmou. Daniela mora há muitos anos no Brasil, onde trabalha de empregada doméstica. Reparei que sua bagagem era muita, uma meia duzia de malas e sacolas e tive a certeza de que ela era uma sacoleira. Como ela fosse paraguaya, perguntei se ela conhecia os médicos. Num portugues claro e limpo ela respondeu:

__Claro que sim! Ontem mesmo minha irmã me levou num médico, porque eu tinha uma baita dor de cabeça!

O médico, contou ela, fez orações, colocou água num copo, jogou umas sementes de milho dentro e mandou que ela tomasse a água. Depois pegou um cigarro e esfregou-o nas costas de Daniela. Hoje ela nem se lembra mais que estava com dor. Toda sua família recorre aos médicos, disse ela.

Conversa vai, conversa vem, acabamos falando do motivo de sua viagem ao Paraguay. Ela tinha vindo visitar os pais, que por coincidencia, moram bem ao lado da reserva de Mbatovi, em Paraguari. E mais, descobrimos que ela tinha vindo do Brasil no mesmo ônibus que nós. Estabeleceu-se entre nos, um clima gostoso de confiança, ela acabou até dando bolachas, balas e brinquedos aos filhos de Hamilton e Patrícia. Nas sacolas, ela acabou nos contando, havia abóboras, mexericas, laranjas, limões, farinha de milho e mel. Tudo presente de seu pai, da produção de seu sítio em Paraguari. Ele, um senhor de 80 anos, fizera questão que a filha levasse os produtos para o Brasil e ela não conseguiu dizer não. Mais uma vez, agora em território brasileiro, o Paraguay me pegava pelo coração.

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Chegando em São Paulo, o corpo reclamando uma cama urgentemente, eu resolvo falar com um rapaz solitário, com traços fortes de índio que viera dormindo durante a viagem toda, sem conversar com ninguém. Descobri que ele era equatoriano e viera procurar trabalho no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde tinha parentes. Se eu estava cansado de ficar 20 horas num ônibus, imaginem o rapaz, que fazia uma semana que tinha saído do Equador, atravessando Perú, Bolívia e Paraguay para chegar a São Paulo em busca de um futuro melhor. Decidi que minha vida é um passeio pelo paraíso…

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