Archive for the ‘Fatia do dia’ Category

A AVENTURA DA FARINHA DE MANDIOCA

outubro 1, 2016

captura-de-tela-2016-10-01-as-08-09-09

 

Dona Joana e Seu Tim moram numa casinha simples, na beira da estrada que leva para o Bairro do Raizeiro em São Luiz do Paraitinga SP. Uma estrada de terra, poeirenta no tempo seco e lisa que nem sabão no tempo das águas. Os dois nasceram na roça e dela nunca saíram. Os filhos foram todos para a cidade mas eles insistem na vida simples, praticando o que aprenderam com os pais, quase que imunes às modernidades que hoje invadiram a zona rural.

Conheci o casal quando procurava quem fizesse o tipiti, artefato de taquara que é usado para prensar a massa da mandioca ralada da qual vai ser feita a farinha. Gostei dos dois logo de cara, gente simples e hospitaleira que logo foi me fazendo sentir como se fossemos amigos de longa data. É assim com a maioria do povo da roça; quando percebem nossas boas intenções…

Fizemos então o tipiti, filmamos todo o processo, desde o corte do taquaruçú, toda a destalagem, secagem e trançamento do cestinho que acondiciona a massa da mandioca. Neste meio tempo, descobri que o casal ainda guardava o costume de fazer a farinha de modo bem artesanal, num terreno do outro lado do rio, onde estava a roça de mandioca. Vendo meu interesse, o casal me convidou para participar do processo da farinha, que dura dois dias do jeito que eles fazem. Avisaram que teríamos que posar na casa do outro lado do rio, com o que concordei imediatamente.

Marcamos o dia e pouco antes do meio dia atravessamos o rio para nossa pequena aventura. Lá chegando colhemos a mandioca, descascamos, ralamos e colocamos no tipiti para que a massa secasse durante a noite. As conversas foram todas em torno das coisas da roça, dos fazeres que estão se acabando por conta do povo comprar tudo pronto e ir esquecendo como se fazia antigamente…

Lá pelas tantas dona Joana me fala que a mãe dela fazia um bolinho com a massa crua da mandioca. De tanto que eu perguntei, Dona Joana deve ter pensado que eu ficaria aguado se não comesse o bolinho naquele dia e então, depois da janta preparou-nos uma boa fritada explicando passo-a-passo como ele é feito. Você pode assistir o video do bolinho aqui. Pra vocês terem uma idéia de como é gostoso este quitute, eu que sou de comer pouco, comi dois deles depois da janta!!!

No dia seguinte, o sol ainda nem tinha saído e os dois já estavam de pé. Seu Tim foi passar café e dona Joana lidar com os apreparos da farinha. A massa já estava seca na prensa de pau e pedra feita contra o barranco. Agora era tirar a massa do tipiti e peneirar no tacho de cobre, que eles chamam de forno; tacho é só quando vai cozinhar alguma coisa; para torrar farinha, o mesmo objeto chama-se forno.

Peneirada a farinha, seu Tim montou a tacuruva, um fogão de pedras improvisado no qual eles equilibram o forno, onde será despejada a massa peneirada a fim de que ela primeiro seque e depois torre. É um processo longo, demora mais ou menos 3 horas para fazer os 10 litros de farinha, que são o produto final dos mais de 30 kg de mandioca colhida no dia anterior.

Dona Joana brinca que ela chora toda vez que torra a farinha. Pudera, a tacuruva não tem chaminé e a fumaça castiga os olhos de quem está lidando com o forno… Mas vale a pena, diz ela, porque não tem comparação a farinha de pau que se encontra nos supermercados, com a que eles preparam artesanalmente. Eu confirmei isso ao degustar a farinha logo que ficou pronta; é um gosto que não dá pra descrever. Se você quiser saber um pouco mais de como eles prepararam esta farinha, clique aqui e assista o vídeo completo da aventura.

 

 

Capelas da Santa Cruz Abandonadas

janeiro 24, 2016

 

Estas imagens de capelas abandonadas de Santa Cruz foram feitas durante um passeio pela periferia da cidade de São José dos Campos, região leste do estado de São Paulo, Bairros do Jaguari e do Caetê. Fui convidado para este passeio por um amigo, o Daniel Bueno Borges, que restaura imagens sacras aqui na minha cidade. Daniel conhece essas capelas pois gosta de visitá-las à procura de imagens sacras descartadas.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Uma das capelas foi abandonada porque o dono do terreno não permitiu mais seu uso e cercou-a com arame farpado. A outra foi menos e menos utilizada nos últimos anos, a ponto de ser tomada como moradia por andantes que acabaram por depreda-la. Segundo nos informou um morador que a conhece a 43 anos, ainda acendem uma vela na sexta-feira maior. Tentaram colocar uma porta para impedir que bêbados e desocupados invadissem o recinto mas não funcionou, eles entram de qualquer maneira.

Não consegui saber a origem da construção de nenhuma das duas. Geralmente essas capelas surgem por pagamento de promessa ou em homenagem a alguém de morreu naquele mesmo local. Cria-se então, à partir da construção da capela, que geralmente acontece em beira de estrada, um calendário de rituais de rezas e festas comuns a todas as capelas da Santa Cruz.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Há cada vez menos capelas da Santa Cruz na periferia da cidade pois a especulação imobiliária é impiedosa e não perdoa a fé do povo comum. Para se encontrar essas capelas é preciso, mais e mais, embrenhar-se nas estradas de terra nas zonas rurais.

A tradição existe também em vários países da América Espanhola, onde, normalmente (como também aqui) as imagens que se quebram acidentalmente são depositadas especialmente nos cruzeiros de cemitérios, onde seguem recebendo culto – chamadas, em alguns lugares, carinhosamente, de “quebraítos” – corruptela de “quebraditos”.

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

IMG_7664.jpg

 

Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

Captura de Tela 2015-11-09 às 08.49.40

Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

A VIA SACRA DO BAIRRO DO SERRANO – SBS

abril 6, 2015

IMG_1914

Sabendo do meu interesse pela tradição e o folclore, minha amiga Heloisa Barros, moradora do Bairro do Serrano, zona rural de São Bento do Sapucaí SP, me convidou para conhecer e registrar em vídeo a Via Sacra organizada pelos moradores do bairro há 10 anos. O Bairro do Serrano já foi zona rural; hoje conta com um pequeno núcleo urbano, em cujo entorno se misturam as roças dos moradores mais antigos e as propriedades dos moradores ocasionais, gente da cidade que vem exercer seu laser no ambiente rural. Há também alguns urbanóides que trocaram a cidade pela roça e lá se instalaram, mas são gatos pingados.

Heloísa é nascida na roça, a mesma roça onde mora até hoje com sua mãe. Minha amiga vive a tradição no seu dia a dia, mas tem facebook e celular, ou seja, é uma caipira antenada, com o coração no passado, os pés no presente e os olhos no futuro. Por ser uma figura sui generis, desde que a conheci venho tentando entrevista-la, para que o mundo possa conhecer este exemplo de aculturação bem sucedida. Mas ela se nega, alegando os mais diversos motivos, desde timidez, falta de tempo ou porque está muito desarrumada para aparecer diante de uma câmera. Tímida eu sei que ela não é, pois se expressa muito bem e toma a frente de várias iniciativas de interesse do bairro e da cidade de São Bento. Falta de tempo a gente até perdoa, porque a gente sabe que na roça o serviço não termina nunca.

O fato é que há tempos eu venho mendigando uma entrevista e até agora ela tem conseguido me enrolar direitinho e nunca me concedeu uma palavra sequer, pelo menos não diante da câmera…

Voltando à Via Sacra, ela acontece na manhã da Sexta Feira Santa, saindo às 5h da madrugada da casa do Paulo e da Vicentina, o casal encarregado da organização, subindo uma puxada íngreme de quase 3 km até chegar no cruzeiro fincado no alto da Pedra da Balança, bem na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Existe toda uma logística que acontece nos dias que antecedem a procissão; é preciso roçar a trilha, fincar as cruzes das 14 estações e preparar o lanche que é servido na volta, na casa de dona Vicentina, esposa do Paulo.

11062420_10152660598856607_4276978465118301027_n

A logística também aconteceu de minha parte. Cheguei um dia antes ao bairro, me acomodei em casa de amigos, filmei uma entrevista com o Paulo e me informei do necessário para enfrentar as 3 horas de subida até o cruzeiro. Desnecessário dizer que Heloísa, mesmo tendo sido uma das idealizadoras da Via Sacra, negou-se mais uma vez a falar…

Voltei para casa depois da entrevista com o Paulo e tratei de deitar cedo, pois no dia seguinte o despertador iria me acordar às 3 e meia. Graças a Deus, na casa onde eu estava, não havia sinal de internet nem de celular para prolongarem minha vigília e assim, 9h da noite eu já estava na cama embalado pelo suave som do riacho que corre ao lado da casa onde me instalei.

Dia seguinte, 4 e pouco da manhã, lá estava eu na casa do Paulo, com as câmeras e o meu almoço na mochila, que eu não sou de confiar em promessa de lanche, inda mais tendo uma caminhada dessa pela frente! Não estava frio e havia pouca gente esperando do lado de fora da casa.

IMG_1651

Na sala da pequena casa de roça, a cruz estava de pé sobre uma mesa encostada na parede, dividindo o espaço com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, as duas tochas que acompanhariam a cruz e um livro de presença, que as pessoas iam assinando à medida que chegavam. Ano passado foram 108 assinaturas, este ano esperava-se mais gente, pois só no facebook quase 200 pessoas confirmaram presença.

Muitos vieram à pé mas não vi ninguém chegar montado. As camionetes, fuscas e motos foram chegando, o povo se aglomerando em torno da casa e às 5h em ponto o Paulo chama os presentes, faz um discurso de abertura com informações práticas e cantando um hino em louvor à santa cruz damos início à longa e lenta caminhada em direção ao cruzeiro.

Bendita e louvada seja No céu a divina luz E nós também cá na terra Louvemos a Santa Cruz

Nos céus cantam a vitória De Nosso Senhor Jesus Cantemos também na terra Louvores à Santa Cruz

(estribilho)

Sustenta gloriosamente Nos braços o bom Jesus Sinal de esperança e vida No lenho da Santa Cruz

(estribilho)

IMG_1683

À frente da procissão, cortando o breu da noite sem lua, seguem a cruz e duas tochas de vela, que trocarão de mãos muitas vezes durante o percurso. Alguns metros à frente da cruz sigo eu, com a missão impossível de capturar cada detalhe do espetáculo, caminhando de costas no escuro e procurando não perder o equilíbrio nos buracos e pedras da estrada de terra. Não foi fácil e neste momento sugeri a mim mesmo que diminuísse as expectativas para algo bem abaixo da perfeição, para não comprometer minha integridade física. Houve um momento, logo na primeira estação em que busquei o chão atrás de mim e não encontrei nada, só um vazio e quase me desequilibrei. Naquele momento estava escuro, não pude ver o que era, mas na volta pude ver que se tratava de uma boca de lobo de cimento de mais de um metro de profundidade… Agradeci meu santo por ter me livrado desse acidente…

 A procissão seguia devagar, havia idosos, velhos, crianças, mulheres, gente de 8 a 80 anos. A princípio todos seguiam atrás da cruz mas a cada estação a criançada ia ficando mais impaciente e acabou tomando a dianteira.

IMG_1744

Foi só lá pela terceira estação que começou a clarear e meu trabalho foi então facilitado. Mas se havia mais luz, mais coisas eu via para filmar e fotografar, o que acabou me dando mais canseira porque eu me deslocava o tempo todo, ora ficando à frente, ora atrás da procissão.

IMG_1702

Para “facilitar” um pouco mais meu trabalho, a enorme quantidade de celulares pipocando flashes e disputando os melhores ângulos. Hoje em dia não há evento em que isso não aconteça, todos tem uma câmera, todos querem registrar o evento ou fazer uma selfie.

IMG_1772

A cada uma das estações parava-se, alguém anunciava a passagem correspondente, lia-se um trecho do livrinho que passou a ser fornecido todos os anos pela Campanha da Fraternidade da CNBB. Finalmente rezava-se o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai e cantando seguiam em direção à próxima estação. Assim foi até a 15ª estação, o cruzeiro no alto do morro de pedra.

IMG_1858

Foi cansativo subir; é verdade que paramos 14 vezes, mas foram 3 horas de subida puxada, por estrada de terra, trilha na mata e “trio” de gado no meio do pasto. Finalmente, quando meu fôlego já estava na reserva me dei conta que estávamos ao pé do cruzeiro, um lugar muito alto com vista deslumbrante das montanhas. Era a última estação.

10609410_10152660617026607_6086078188320962960_n

Todos se deram as mãos e eu tive que decidir entre filmar ou rezar junto com o povo. Escolhi me entregar, alcancei as mãos mais próximas e peguei carona na egrégora de fé que se estabeleceu naquele momento. Rezar foi impossível, não que eu não conhecesse as palavras da oração, mas a garganta estava apertada, fui arrebatado por algo maior e agradeci o privilégio de estar ali naquele momento, simplesmente fazendo parte daquela corrente em direção ao alto.

IMG_2026

O beijamento da cruz encerrou nossa jornada ao cume. Abriram-se as mochilas e passou-se aos comes e bebes. Eu comi minha sopa de arroz integral com lentilha, enquanto o povo se deliciava com pastéis, broas, biscoitos, sanduíches, café e refrigerantes.

DSC03188

O ditado diz que para baixo todo santo ajuda, mas ou eu estava muito fora de forma ou então, talvez os santos estivessem de folga por ser uma Sexta Feira Santa… O fato é que eu cansei mais descendo do que subindo e meus joelhos ficaram em frangalhos…

Ainda bem na descida contei com a companhia do seu Barrinha me contado causos e me esclarecendo sobre a história da região. Ele me contou que a Pedra da Balança tem este nome porque ali havia uma balança de pesar gado, já que o local é divisa de estado e decerto pesavam e cobravam algum imposto ou conferiam se a papelada estava nos conformes. Contou também que antigamente as procissões para o cruzeiro aconteciam na época da Santa Cruz, todo começo de maio subiam para rezar o terço lá em cima. Naquela época, mais de 50 anos atrás, a cruz era feita de madeira, de cedro rosa. Naturalmente, ela foi apodrecendo e chegou a cair. Vendo aquilo, um certo Benedito Candinho teria feito a promessa de restaurar o cruzeiro, erigindo desta vez uma cruz em cimento armado, em troca de arrumar casamento. Segundo seu Barrinha ele foi bem sucedido, pois meses depois já estava muito bem casado.

Depois de passar na casa de dona Vicentina e comer uma broa de milho assada na folha de bananeira, fui agradecer minha amiga Heloísa. Ao chegar vejo-a sentada na varanda, tranquila e bem arrumada, já que ela tinha se vestido para a procissão. Achei que desta vez ela não me escapava, eu ia entrevista-la finalmente! Mas qual o que, ela se saiu com essa!…

___ Ô Chico, hoje é sexta-feira santa, hoje é dia de oração e prece, aqui na roça “nóis” não trabalha nesse dia não, “ocê me discurpe”, mas vai “tê” que “ficá pruma” outra “veiz”! – E ela caiu na risada…

Mas deixa estar que um dia ainda pego esse bagre liso…

IMG_1953

COMPANHIA DOS TRES REIS DO ORIENTE

dezembro 27, 2014

IMG_6355

Os foliões vão chegando aos poucos na casa do seu Orlando, na Vila Terezinha. É de lá que sai a bandeira e é para lá que ela volta, depois das visitas da folia aos presépios. Os palhaços se enfiam em suas fantasias, os músicos afinam os instrumentos. O calor é forte, há previsão de chuva e cada folião leva consigo um guarda chuva. Vão visitar os presépios nas casas, faça sol ou faça chuva. Os integrantes desta folia são migrantes. Vieram de Minas Gerais, Paraná e interior de São Paulo. Aqui se juntaram, há mais de 30 anos retomaram uma tradição de seus locais de origem, a Folia de Reis. Com poucas adaptações, a manifestação é a mesma que eles viram e participaram quando crianças.

IMG_6507

Orlando estoura os rojões, anunciando a saída da folia. As pessoas saem às janelas para ver o ruidoso cortejo. Alguns aplaudem, outros dão vivas a “Santo Reis”. As crianças se aproximam, entre curiosas e assustadas com os palhaços (também chamados de marungos). As visitas são combinadas de antemão. No portão um marungo chama o dono da casa, pergunta se ele quer receber a folia. É passada a bandeira ao morador que atende a porta, vão todos para a frente do presépio e iniciam-se as loas. Às vezes a folia recebe uma doação, dada sempre nas mãos do marungo. Na folia do Orlando, as doações são encaminhadas para a Igreja do bairro. Às vezes os devotos amarram fitas na bandeira, com pedidos ou agradecimentos às graças alcançadas. Às vezes serve-se um lanche para os foliões, café ou refrigerante com bolo ou pão com carne. A cada vez há fé, emoção e derramamento de lágrimas.

IMG_6706

Até mesmo alguns evangélicos pedem a visita das folias, dizem que tem saudade do tempo que eram crianças e saíam correndo de medo dos marungos. Claro que os pastores não podem saber disso… A última casa vamos visitar, é de uma senhora que está há mais de 10 anos numa cama, sem movimentos nas pernas. Desde que adoeceu ela pede a “Santo Reis” para que diminuam suas dores na coluna.

Captura de Tela 2014-12-26 às 23.43.17

Entram todos os foliões no minúsculo quarto, a senhora deitada na cama está visivelmente emocionada. Ela busca a mão de um dos palhaços e a aperta com toda força de sua devoção, enquanto a folia, na voz do mestre, pede pela saúde da senhora e de todos que moram naquela casa. Alguém me oferece um banquinho para que eu possa filmar a cena do alto. Minha vista se turva diante da cena, eu não consigo focar, mudo para o foco automático e esqueço que estou filmando, me deixando levar pela emoção. Na saída da folia pergunto à Ana, neta da senhora doente se posso colocar as cenas no facebook e no YouTube. Espantada, ela diz com veemência: __Claro que sim! Pra confirmar a força dos Santos Reis, claro que o senhor pode colocar! E me dê seu cartão, por favor, é para o meu avô, para ele poder ver as fotos! O avô dela é o Argemiro, um senhor de 85 anos, que todos os dias vai ao computador para, segundo ele, diminuir a distância entre seus netos e ele.

PIRACÁ, SACI E NOVOS AMIGOS

setembro 2, 2014

 

IMG_5016

 

Uma das coisas mais gostosas da vida do pesquisador de campo é quando brota uma amizade à partir do inevitável convívio entre invasor e invadido. Foi o caso com a família do casal Agenor e Nilza, dois menestréis da nossa música caipira que moram ao lado da linha do trem, na quase rural Vila Teresinha.

Conheci os dois ano passado, ao fazer as fotos para o 23º Caderno de Folclore, editado pelo Museu do Folclore de São José dos Campos. Neste primeiro encontro já nos gostamos e houve convite para uma outra visita sem cunho profissional. Ensaiei várias vezes ir à casa deles mas sempre aparecia um contratempo de última hora. Quando nos encontrávamos em eventos da cultura, o convite era refeito e eu me sentia em falta com eles.

Semana passada recebi uma intimação de dona Nilza por telefone, que me jogou uma isca irresistível. Estava visitando sua casa uma irmã septuagenária, dona Zilda, que tinha histórias do arco da velha para me contar. Sim, se eu quisesse poderia gravar tudo e ela ainda nos receberia com um café da roça e um bolo de fubá sem farinha de trigo, pois ela sabe que minha esposa é alérgica a glúten.

A Vila Teresinha é uma pequena ilha de casas, situada entre a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil e o banhado do Rio Paraíba. As moradias são simples e cada vez que vou ao bairro, a impressão que tenho é a de cheguei num oásis, um lugar que resolveu descansar da correria da moderna São José dos Campos. São casas antigas

A maioria das casas do bairro tem seu jardim ou vasos com plantas medicinais. É um boldo, um guaco, um capim-limão, um bálsamo, um piracá, essas coisas que não faltam na casa de gente que ainda ontem estava na roça. Até na praça do bairro há plantas de chá e eu mesmo já fui até lá com a única finalidade de colher alguns galhos do alumã, também conhecido por boldo baiano, ótimo para o fígado.

Na casa de Agenor e Nilza, além dos chás, há também uma pequena horta de 10mX1m onde eles plantam até milho e feijão!

__”A gente pranta porque gosta, de teimoso, porque a produção mêmo é poca…”, diz seu Agenor.

Às 14h chegamos à casa dos amigos e só conseguimos sair de lá às 18h. Não vimos o tempo passar. Foram quatro horas com muita música, contação de causos, lendas e depoimentos da vida sofrida que eles tiveram na infância e adolescência.

Dona Zilda nos contou que aos 13 anos de idade teve que fugir de casa para ir ao encontro do grande amor de sua vida. O pai já havia arranjado o casamento da filha com outro pretendente e não admitia ser contrariado. A notícia do desaparecimento correu mundo, deu até na rádio e não demorou, Seu João, um matuto que andava sempre armado, foi resgatar a filha em Pindamonhangaba, dentro do quartel, que era onde estava Agostinho, o soldado que havia mexido com o coração da menina. O encontro foi tenso, mas graças ao bom senso do rapaz, que também estava armado, não houve derramamento de sangue. Os dois se entenderam, o soldado entregou a menina intacta e quatro anos mais tarde casavam-se Zilda e Agostinho.

Cada ato de desobediência era seguido de chicotadas, que nunca impediram que os filhos continuassem desacatando as ordens do pai. Certa feita, a menina Zilda resolveu comer escondido as bananas verdolengas que amadureciam dependuradas sobre o fogão de lenha e por azar o cacho todo veio ao chão. A punição paterna foi que a menina comesse todo o cacho, incluído o talo central…

Os irmãos todos tinham que ajudar nas lidas da casa e sofriam mais que os vizinhos, que pelo menos aos domingos e dias santos tinham folga para divertirem-se. Os pais de Zilda e Nilza não professavam nenhuma religião e assim, cada dia era igual a todos os outros, ou seja de muito trabalho. Levantavam sempre de madrugada e só iam descansar no colchão de palha de milho quando tivessem cumprido todos os deveres. O único momento em que se relaxava era quando seu João resolvia tocar sua sanfona ou viola. Todos cantavam, acompanhando o pai, o tempo parava, o velho amolecia o coração e se esquecia momentaneamente do seu papel de carrasco.

Parece que a música estava no sangue desse povo pois todos vieram a se tornar músicos quando adultos. O casal Nilza e Agenor se conheceu através da música e isso os une até hoje. Apresentam-se em programas de rádio e eventos de música sertaneja, tocam e cantam pelo prazer de tocar. Com orgulho, nos mostraram diversas gravações dos programas que tem feito pela cidade e Vale do Paraíba. Quando descobriram que minha esposa toca e canta, mandaram pegar um violão e quiseram ouvi-la. Daí por diante foi uma festa só, o violão só descansou quando os pasteizinhos ficaram prontos e fomos para a cozinha comer…

 

Captura de Tela 2014-09-02 às 10.01.15

 

Quando Zilda se casou e foi morar em outra cidade, as tarefas da casa passaram a ser da Nilza, já que dona Virgínia, a mãe, também trabalhava na Tecelagem e não tinha tempo de cuidar de nada. Conta ela que quando foi destroncar o primeiro frango, seus bracinhos eram tão pequenos que não conseguiram realizar a tarefa. Ela tentou até enforcar o bicho com as mãos, o sangue jorrava pelos olhos mas nada de ele morrer. Só foi conseguir matá-lo quando teve a ideia de colocar o pescoço da pobre ave debaixo de um cabo de vassoura sobre o qual ela deu vários pulos…

Dona Virgínia era mulher exigente com a roupa, que também sobrou para Nilza lavar. O processo era demorado e complicado naqueles tempos. Era preciso esfregar cada peça com melão de são caetano, uma planta trepadeira que ajuda a limpar o tecido. A roupa fica toda verde quando se esfrega com essa trepadeira, mas basta uma enxaguada e ela fica livre da sujeira mais renitente. Antes da última lavada se colocava o anil, um pozinho azul que era diluído na água e punha-se as roupas no sol para quarar. Dona Virginia tinha olhos de lince e se não estivesse a contento dela, fazia a filha repetir todo o processo, lavando tudo novamente…

Num dado momento a conversa pendeu para o lado das histórias de assombração. Segundo Agenor, naquele tempo era comum ver essas coisas que o povo acha que é lenda ou invencionice dos velhos. Ele mesmo já viu lobisomem, saci, espíritos que sobrevoam as pessoas que passeiam depois da meia noite, mas conta que nunca teve medo, que se acostumou a conviver com isso…

__”Quando a gente conta essas histórias hoje, a juventude pensa que é mentira, invenção do povo mais velho, eles dão risada… mas eu agaranto que era verdade, a gente convivia com essas coisa… Ocê já ouviu o assovio do saci? É um barulho insuportável quando eles fica tudu muntuado na pontinha do bambuzeiro, esperando os cavalo passa pra eles amuntá. Dia seguinte pode oiá, as crina dos animá tá tudo trançada pela sacizada… Uma trança que ninguém consegue distinguí como que foi feito… O saci é danado… ”

Captura de Tela 2014-09-02 às 10.02.56

 

 

Quando Agenor já tinha esgotado seu estoque de causos de assombração, Nilza comentou que quem tinha histórias boas era dona Virgínia, sua mãe. Pela idade das filhas, imaginei que dona Virgínia já não estivesse entre nós e perguntei se as filhas não poderiam contar o que lembrassem. Nilza arregalou os olhos e disse se eu quisesse podia ouvir da boca da mãe. Na hora me veio à mente uma sessão espírita, mas nem deu tempo de completar o quadro em minha mente, pois Nilza explicou que a mãe estava no quarto dos fundos e só não estava ali com a gente porque quebrara o fêmur dias atrás.

As filhas foram, então, chamar a mãe. Dona Virgínia saiu do quarto com seu andador e foi até o sofá da sala. Muito arrumada, cabelos penteados e unhas feitas, nota-se que foi e ainda é uma mulher que não quer passar despercebida. Pergunta quem somos nós, o que fazemos, onde moramos, se interessa por tudo que acontece. Às nossas perguntas sobre histórias de assombração ela responde contando da vida das filhas. Nilza e Zilda se entreolham e me cochicham que a mãe está “azeda”, talvez um outro dia saia alguma história, hoje ela não está para responder perguntas, não… Mas eu tinha uma pergunta ainda, que não queria calar. Qual a idade de dona Virgínia? Perguntei diretamente para ela, que abriu as duas mãos em frente ao meu rosto.

__”Cem anos, faz dois mês que eu completei 100…”

 Fiquei espantado com a vitalidade da anciã. A mente podia não estar 100% mas era evidente que à minha frente estava uma pessoa que transbordava vida. Perguntei se ela tinha alguma doença se tomava algum remédio, ao que as filhas responderam:

__”Toma nada, essa aí tá melhó qui nóis. A médica vem toma a pressão dela, tá 12 por 8… as doença ela deixou tudu prá nóis, não ficou com nenhuma…” e deram risada dá má sorte delas!

 

IMG_5425

 

Zilda propõe então nos mostrar a varanda onde ela ficava esperando Agostinho passar de trem, nos fins de semana. O soldado acenava com o bibico nas mãos e o seu coraçãozinho de adolescente batia mais forte no peito. Zilda começa a desfiar memórias daquele tempo e eu aproveito para tirar fotos das irmãs sentadas ao lado de minha esposa que também embarca na nostalgia.

 

IMG_5442

 

Ao lado do banco onde as mulheres estavam sentadas, há um pé de piracá. Eu peguei uma folha, amassei e cheirei. Nilza então disse:

Tomá remédio a mãe num toma, mas esse é um chá que a mãe usa todo santo dia sem faiá…”

__Ela faz chá com piracá? Não sabia que era de tomar também, pensei que fosse só pra passar no corpo…

__”Nada, a mãe mastiga umas foia de piracá, ela come memo…

Não pensei duas vezes, apanhei uma folhas e coloquei na boca. Mal não pode fazer, pois se dona Virgínia que tem cem anos come todos os dias… Um gosto amargo, mas não desagradável, encheu minha boca. Um pensamento amargo e desagradável perpassou minha idéia. Essa mulher só está forte e rija porque não toma nenhum remédio… Vou providenciar um pé de piracá para poder mastigar umas folhas todos os dias…

 

Vernonia scorpioides 7147

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

maio 20, 2014

DSC05011

 

Semana passada estivemos visitando a charmosa São Bento do Sapucaí, uma pequena cidade do estado de São Paulo que é praticamente um enclave paulista em Minas Gerais, já que não se chega até lá pelo asfalto sem antes cruzar o solo mineiro.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, ruas com calçamento de paralelepípedos, muitos casarões ainda preservados, charretes e cavalos trafegando livremente, a cidade tem uma atmosfera pacata e deliciosamente interiorana.

A visita deveu-se a um convite que nos foi feito, à minha esposa e eu, para entrevistar um lavrador octogenário, que aos 75 anos passou a frequentar o Mobral e com muito esforço se alfabetizou, porque tinha uma vontade imensa de ler os “foiêto da missa”. Seu Tião Tino não é apenas lavrador. Enquanto prepara suas roças de milho, feijão e abóbora, vai compondo versos em sua cabeça e tem até um livro editado com seus poemas.

 

IMG_5735

 

Feliz coincidência, ficamos sabemos que nos dias de nossa estada em São Bento, haveria uma tradicional Congada no Bairro do Quilombo, na região rural da cidade. Dois pratos cheios para um pesquisador!

Ao chegarmos à cidade, instalamo-nos numa pousadinha perto da Igreja Matriz e partimos para o reduto de seu Tião Tino, onde ele vive com sua filha, genro e netos. Chegamos juntos à sua casinha na encosta de um morro muito íngreme, nós motorizados e ele à cavalo. Ele tinha ido à cidade buscar sal para o cavalo e não pareceu nem um pouco cansado de ter feito os 6km debaixo de um sol forte.

Mal apeou ele já desandou a falar; sobre a seca brava que está assolando a região; sobre o cultivo  orgânico que ele pratica; sobre as sementes que ele vem preservando; sobre suas devoções, a Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião e principalmente sobre os poemas que ele faz quando Deus o inspira.

 

IMG_1029

 

Ficamos mais de 3 horas com este homem e ele passou praticamente este tempo todo de pé, respondendo nossas perguntas. Mostrou tudo que pode em seu sítio, pegou na enxada para que eu o filmasse e ainda matou um frango para a janta que sua filha Carmen nos preparou. Um arroz com feijão, salada da horta e o frango caipira daqueles que quem não tem bons dentes não consegue comer…

Teríamos ficado horas conversando com seu Tião, ele inclusive nos convidou para pousar, mas o trabalho do dia seguinte nos obrigou a voltar naquela noite mesmo. De lembrança do nosso encontro trouxe algumas sementes de feijão “espírito santo” que ganhei de seu Tião, um curioso grão branco que tem estampado um desenho em vermelho do Divino Espírito Santo e do qual eu nunca tinha ouvido falar.

 

feijao_IvanDiasAE

 

Já na pousada, depois de descarregarmos as imagens e recarregarmos as baterias, resolvemos sair para dar uma olhada na Festa de Santo Expedito que estava acontecendo na praça da Matriz. Que decepção! Esperávamos doces e comidas da região, mas só encontramos à venda uns tristes cachorros quentes, anêmicos churros, um desenxabido bolo floresta negra e um mais que comum pudim de leite condensado. O que teria acontecido com as comidas tradicionais? Não pudemos nem perguntar, pois vindo de enorme palco que ocupava metade da praça, um evangelizador pagode funkado invadiu nossos delicados ouvidos e nos expulsou dali…

Fiquei imaginando como poderiam dormir os pobres mortais,  vizinhos deste mega evento…

Dia seguinte partimos para o Bairro do Quilombo, cuja história ainda não consegui apurar ao certo. Parece que o local teria sido um quilombo e que depois a Igreja, proprietária das terras, entrou em acordo com os moradores que hoje lá habitam mas não são os donos.

 

IMG_1576

 

Nosso contato era dona Luzia, uma simpatissíssima senhora de 82 anos, descendente de escravos, que nos recebeu e contou que a Festa do 13 de Maio, na qual acontece a Congada, era feita por sua avó, que passou para a mãe de dona Luzia e hoje quem organiza tudo é ela.

 

IMG_6051

 

Segundo dona Luzia, a festa que acontece nos dias de hoje não difere em nada dos tempos que ela era criança. Há as novenas nos 9 dias que antecedem a festa, as celebrações e a missa na Igreja da Imaculada Conceição, a procissão com as bandeiras, os Moçambiques e as Congadas, o almoço, a distribuição de doces caseiros e finalmente o forró na parte da noite.

Tudo isso é organizado por dona Luzia, que recebe as doações de carne, mandioca, frango, farinha e as frutas para os diversos doces, todos preparados de maneira tradicional, no fogão de lenha em sua casa. O que é recebido de graça é dado de graça no dia da festa, não se cobra um tostão por nada do que é distribuído.

Não é uma logística simples, preparar comida para as mais de 1000 pessoas que formam fila com seus pratos e potes de plástico trazidos de casa. O cuidado e o carinho na preparação ficaram evidente na qualidade da comida e dos doces. Minha esposa e eu comemos de tudo um pouco e posso dizer que estava tudo muito saboroso.

Impossível não comparar esta Festa do 13 de Maio com a festa de Santo Expedito que acontecia no centro da cidade. Na roça tudo se distribui de graça enquanto que na cidade tudo é pago. Esta se contaminou com comidas e músicas alienígenas, enquanto que aquela faz questão de preservar a tradição. Numa eu vejo a beleza da humildade e da devoção enquanto que na outra há a frieza do dinheiro e do poder, ao usar de maneira impositiva a praça pública.

 

IMG_6071

 

Foi emocionante ver a Congada de Gonçalves MG, tocar dentro da igreja, louvando São Benedito e Nossa Senhora de Fátima e o povo beijando com muito respeito as bandeiras em frente ao altar. Os cânticos das congadas louvam também a Princesa Isabel, que teria sido a redentora dos escravos. Esta festa é justamente para comemorar o fim da escravatura.

Embalado pelo clima da festa, estava achando tudo maravilhoso, me achando no melhor dos mundos, que havia realmente uma libertação sendo comemorada, quando vejo a rainha de um dos congados ostentando orgulhosamente uma camiseta com os seguintes dizeres: MEU PAI, UM PRETO COM ALMA DE BRANCO. O pai que os dizeres da camiseta faziam referencia foi o fundador da Congada de Gonçalves.

Fomos embora tiritando de frio, depois do balde água fria.

 

Captura de Tela 2014-05-19 às 22.43.44

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSEIO NA ROÇA

maio 11, 2014

 

1907980_883703184979918_5750449563114531582_n (1)

 

Saímos, minha esposa e eu, a passear sem rumo certo, pelas estradas de terra no entorno da pousada em que estávamos hospedados em Soledade de Minas MG.
Não andamos mais que 1km quando uma casa sombria, cercada por ciprestes e com ar de abandono nos atraiu a atenção. Passamos pelo portão de madeira, que estava aberto e passamos a explorar a casa pelo lado de fora.

Pelas vidraças pudemos ver que havia móveis, fogão, geladeira e algumas caixas de papelão empilhadas. Tudo indicava ser uma casa de campo utilizada esporadicamente por gente da cidade. Sentamo-nos na varanda, que dava para um bosque e nos imaginamos morando ali. Soprava um vento fresco. De olhos fechados e em silêncio, permanecemos um tempo que pareceu infinito.

O bosque em frente à varanda nos convidou para um passeio. Atendemos o chamado e descobrimos um caminho bem cuidado na parte mais baixa do bosque. Um caminho pede para ser percorrido, foi o que fizemos.

Não muito longe havia outra casa sem morador. À frente da casa um imenso gramado. No meio do gramado uma pirâmide de bambú. O local era mágico. Sem pensar, nos colocamos debaixo da pirâmide e nos energizamos. Havia magia no ar. Voltamos para a estrada principal.

Duzentos metros mais à frente, mais uma casa que parecia sem morador. Desta vez era evidente que se tratava de uma casa de gente da roça, pelo tipo de plantas no jardim, pelo paiolzinho esburacado e pela falta de árvores no pasto contíguo.
Já estávamos planejando entrar quando apareceu uma mulher caminhando pela estrada. Tratava-se da dona da casa. Conversa vai, conversa vem, ficamos sabendo que a mulher, dona Anésia, faz artesanato de palha de milho. Ficou encantada ao saber do meu interesse em fazer um video com o registro de seu trabalho. Gostou tanto da idéia que desmarcou um compromisso e agendamos a filmagem para o dia seguinte.

Seguimos adiante e avistamos uma porteira com uma placa com os dizeres: VENDE-SE ESTE SÍTIO. Batemos palmas e enquanto não nos atendiam, fizemos planos de nos mudar para o sítio. Veio até a porteira um senhor de seus 70 anos acompanhado de dois cachorros.Ele nos informou que o sítio não era aquele, mas sim terreno a alguns quilômetros dali. Enquanto eu assuntava com o velho, minha esposa foi ao pomar e apanhou laranjas azedas que estavam caídas ao pé da laranjeira. O velho ficou contente que alguém tivesse apanhado as laranjas, disse que estavam perdendo mesmo.

Seguimos um pouco mais adiante e minha esposa disse que queria voltar porque estava com vontade de fazer xixi. Eu apontei o mato da beira da estrada. Ela me disse que nunca havia feito xixi no mato e eu, muito surpreso por saber que uma pessoa de 52 anos nunca tinha feito xixi no mato, respondi que sempre existe a primeira vez. Ela me disse que tinha medo de cobra. Eu disse que ficava perto dela e a protegeria das cobras enquanto ela fazia xixi.

Fomos até um bambuzeiro e ela se agachou mas nada de sair o xixi. Ela falou que não ia conseguir, tinha que voltar para casa. Eu tive a idéia de que se ela se sentasse em minhas pernas, como se estivesse em um vaso sanitário, poderia relaxar e soltar o liquido. Deu certo, ela conseguiu nesta posição.

Continuamos o caminho mais algumas centenas de metros, mas o sol forte do meio do dia nos intimou a dar meia volta.

O ar estava abafado, era época da Quaresma e eu falei sem pensar que era bem provável que encontrássemos uma cobra em nosso caminho. Dito e feito, não deu 5 minutos e se não fosse eu agarrar e puxar os braços de minha esposa, ela teria pisado em cima de uma boipeva de mais de metro de comprimento.

Minha esposa deu um berro e grudou em mim. Eu pedi que ela se afastasse para não assustar a cobra e passei a tirar fotos com uma câmera do celular dela. Um cachorro que nos acompanhava, sem mostrar medo, acabou tocando a cobra que fugiu para o mato em frente da casa dos ciprestes.

A boipeva não é uma cobra venenosa, mas assusta e quando se vê acuada ela dobra de volume e se achata no solo, parecendo muito maior do que é. Decerto é algum mecanismo de defesa. Minha esposa me perguntou como é que eu sabia que íamos encontrar a cobra. Eu disse que não sabia, apenas senti que ela ia aparecer e ela apareceu. Minha esposa passou a usar botas depois deste encontro com a cobra.

IMG_4238

 

No dia seguinte fomos à casa de dona Anésia fazer o vídeo. Havia muitos parentes dela, talvez informados que a TV faria filmagens. Dona Anésia serviu café de coador, bolo de fubá caseiro e todos os parentes dela ficaram olhando a entrevista muito comportados. Foi um momento importante na vida deles e na nossa. É sempre emocionante presenciar a inocência e pureza das pessoas da roça, principalmente quando se sentem valorizadas pelas pessoas da cidade.

Fizemos um video didático sobre o trabalho de dona Anésia e prometemos voltar à casa dela para entregar um DVD com o filme. Ficamos sabendo por intermédio um amigo, o dono da pousada, que dona Anésia até já comprou um aparelho de DVD para assistir ao video.

 

 

 

Dona Cida e as Saúvas

maio 4, 2014

monstros_formiga

 

No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em viagem de estudos pela América do Sul, teria ficado assustado diante do poder destrutivo deste inseto, o que o levou a afirmar que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

A saúva já foi considerada um dos maiores flagelos da agricultura brasileira, mas isso num tempo em que ainda não existiam os eficientes formicidas que hoje exterminam as colônias deste inseto como num passe de mágica.

As saúvas são capazes de pelar uma árvore em questão de horas, dependendo do tamanho da colônia. Por isso, quem tem um formigueiro no seu jardim ou lavoura, não pensa duas vezes. Vai a uma “casa rural”, escolhe um veneno qualquer e dá fim neste inseto que aos olhos da pessoa comum só causa estragos. Mas aos olhos de minha amiga Cida, as coisas se passam de uma maneira um pouco diferente. Dona Cida jamais mataria a saúva, muito pelo contrário, ela “planta” sauveiros!

Deixem-me explicar. Dona Cida mora na periferia da cidade de São José dos Campos, onde ainda tenta manter o modo de vida rural de sua infância e adolescência. Num terreno de 5000 m2 ela ainda cria galinhas, mantém uma horta, planta seus remédios, cuida de um pomar e tem uma pequena roça onde convivem pés de cana, abóbora e mandioca, tudo muito bem cuidadinho e limpo.

Da última vez que fui visitá-la, reparei que havia um pé de jaca muito judiado, quase sem folhas. Perguntei a ela se era a saúva a responsável pelo estrago na fruteira.

__É elas mesmo, Chico, eu deixo elas comerem as fôia da jaqueira.

__Mas dona Cida, a senhora vai deixar as formigas acabarem com o pé de jaca? Por que não mata elas?

__Matá as formiga? Deus que me livre! Eu tô é prantano elas! Enquanto que o povo qué acabá com elas eu semeio oiêro de saúva, pra modi elas não acabá!

__Como assim, dona Cida? Explica melhor essa história de “plantar saúva”. Saúva é bicho, não é de plantar!

__Ah, Chico, quando ocê pranta não faz um buraquinho e enfia a semente? Pois então, quando eu pranto a saúva é a mema coisa. Eu faço o buraquinho e coloco ali a tanajura, pra formá a casa delas.  

__E pra que a senhora quer semear uma praga que todo mundo quer acabar?

__Por que eu adoro comê içá, uai! E com esse povo todo matano as saúva, daqui a pouco elas vai sumi, então eu planto elas aqui no meu quintá… E dô di comê a elas com as fôia da jaqueira, que a jaca eu não posso com ela mêmo, então dêxa elas comê a árvi… 

A resposta de dona Cida me surpreendeu e me fez lembrar que a saúva é um inseto que está no planeta há muito mais tempo que o homem, um recém chegado de vista curta. Sem pensar na função ecológica que tem a saúva, sem falar que a própria formiga serve de alimento a muitas populações, queremos eliminá-la porque imaginamos que ela ameaça nosso modo de vida atual, nossa agricultura baseada na monocultura.

Mal sabem os que matam as saúvas, que estes insetos trabalham para a regeneração da flora e não o contrário, como pode parecer à primeira vista. Esta espécie, quando se reproduz, procura terrenos degradados para iniciar uma nova colônia. Revolvendo a terra e trazendo para a superfície o subsolo, ela acaba favorecendo o desenvolvimento de sementes que se tornarão plantas e árvores, as quais servirão de alimento para elas e para nós humanos também.

E mais, existem animais que vivem dos dejetos das saúvas e que também contribuem para a nitrogenação do solo, aumentando a fertilidade do mesmo. Ou seja, há toda uma intrincada cadeia de plantas e animais que dependem do trabalho das saúvas para continuarem existindo. Exatamente como fazem as abelhas e moscas polinizadoras, sem as quais não haveria os frutos que comemos, as formigas semeiam a vida no solo.

Dona Cida, com seu corpinho magro e ágil e forte como uma formiga, provavelmente não pensa em nada disso quando “semeia” sauveiros, mas talvez intua a importância que tem as saúvas para o equilíbrio do planeta.

Arrisco dizer que Saint-Hilaire estava equivocado em sua afirmação. Acabar com a saúva pode ser o mesmo que acabar com o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 


%d blogueiros gostam disto: