Archive for the ‘Reflexões’ Category

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

A VIA SACRA DO BAIRRO DO SERRANO – SBS

abril 6, 2015

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Sabendo do meu interesse pela tradição e o folclore, minha amiga Heloisa Barros, moradora do Bairro do Serrano, zona rural de São Bento do Sapucaí SP, me convidou para conhecer e registrar em vídeo a Via Sacra organizada pelos moradores do bairro há 10 anos. O Bairro do Serrano já foi zona rural; hoje conta com um pequeno núcleo urbano, em cujo entorno se misturam as roças dos moradores mais antigos e as propriedades dos moradores ocasionais, gente da cidade que vem exercer seu laser no ambiente rural. Há também alguns urbanóides que trocaram a cidade pela roça e lá se instalaram, mas são gatos pingados.

Heloísa é nascida na roça, a mesma roça onde mora até hoje com sua mãe. Minha amiga vive a tradição no seu dia a dia, mas tem facebook e celular, ou seja, é uma caipira antenada, com o coração no passado, os pés no presente e os olhos no futuro. Por ser uma figura sui generis, desde que a conheci venho tentando entrevista-la, para que o mundo possa conhecer este exemplo de aculturação bem sucedida. Mas ela se nega, alegando os mais diversos motivos, desde timidez, falta de tempo ou porque está muito desarrumada para aparecer diante de uma câmera. Tímida eu sei que ela não é, pois se expressa muito bem e toma a frente de várias iniciativas de interesse do bairro e da cidade de São Bento. Falta de tempo a gente até perdoa, porque a gente sabe que na roça o serviço não termina nunca.

O fato é que há tempos eu venho mendigando uma entrevista e até agora ela tem conseguido me enrolar direitinho e nunca me concedeu uma palavra sequer, pelo menos não diante da câmera…

Voltando à Via Sacra, ela acontece na manhã da Sexta Feira Santa, saindo às 5h da madrugada da casa do Paulo e da Vicentina, o casal encarregado da organização, subindo uma puxada íngreme de quase 3 km até chegar no cruzeiro fincado no alto da Pedra da Balança, bem na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Existe toda uma logística que acontece nos dias que antecedem a procissão; é preciso roçar a trilha, fincar as cruzes das 14 estações e preparar o lanche que é servido na volta, na casa de dona Vicentina, esposa do Paulo.

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A logística também aconteceu de minha parte. Cheguei um dia antes ao bairro, me acomodei em casa de amigos, filmei uma entrevista com o Paulo e me informei do necessário para enfrentar as 3 horas de subida até o cruzeiro. Desnecessário dizer que Heloísa, mesmo tendo sido uma das idealizadoras da Via Sacra, negou-se mais uma vez a falar…

Voltei para casa depois da entrevista com o Paulo e tratei de deitar cedo, pois no dia seguinte o despertador iria me acordar às 3 e meia. Graças a Deus, na casa onde eu estava, não havia sinal de internet nem de celular para prolongarem minha vigília e assim, 9h da noite eu já estava na cama embalado pelo suave som do riacho que corre ao lado da casa onde me instalei.

Dia seguinte, 4 e pouco da manhã, lá estava eu na casa do Paulo, com as câmeras e o meu almoço na mochila, que eu não sou de confiar em promessa de lanche, inda mais tendo uma caminhada dessa pela frente! Não estava frio e havia pouca gente esperando do lado de fora da casa.

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Na sala da pequena casa de roça, a cruz estava de pé sobre uma mesa encostada na parede, dividindo o espaço com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, as duas tochas que acompanhariam a cruz e um livro de presença, que as pessoas iam assinando à medida que chegavam. Ano passado foram 108 assinaturas, este ano esperava-se mais gente, pois só no facebook quase 200 pessoas confirmaram presença.

Muitos vieram à pé mas não vi ninguém chegar montado. As camionetes, fuscas e motos foram chegando, o povo se aglomerando em torno da casa e às 5h em ponto o Paulo chama os presentes, faz um discurso de abertura com informações práticas e cantando um hino em louvor à santa cruz damos início à longa e lenta caminhada em direção ao cruzeiro.

Bendita e louvada seja No céu a divina luz E nós também cá na terra Louvemos a Santa Cruz

Nos céus cantam a vitória De Nosso Senhor Jesus Cantemos também na terra Louvores à Santa Cruz

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Sustenta gloriosamente Nos braços o bom Jesus Sinal de esperança e vida No lenho da Santa Cruz

(estribilho)

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À frente da procissão, cortando o breu da noite sem lua, seguem a cruz e duas tochas de vela, que trocarão de mãos muitas vezes durante o percurso. Alguns metros à frente da cruz sigo eu, com a missão impossível de capturar cada detalhe do espetáculo, caminhando de costas no escuro e procurando não perder o equilíbrio nos buracos e pedras da estrada de terra. Não foi fácil e neste momento sugeri a mim mesmo que diminuísse as expectativas para algo bem abaixo da perfeição, para não comprometer minha integridade física. Houve um momento, logo na primeira estação em que busquei o chão atrás de mim e não encontrei nada, só um vazio e quase me desequilibrei. Naquele momento estava escuro, não pude ver o que era, mas na volta pude ver que se tratava de uma boca de lobo de cimento de mais de um metro de profundidade… Agradeci meu santo por ter me livrado desse acidente…

 A procissão seguia devagar, havia idosos, velhos, crianças, mulheres, gente de 8 a 80 anos. A princípio todos seguiam atrás da cruz mas a cada estação a criançada ia ficando mais impaciente e acabou tomando a dianteira.

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Foi só lá pela terceira estação que começou a clarear e meu trabalho foi então facilitado. Mas se havia mais luz, mais coisas eu via para filmar e fotografar, o que acabou me dando mais canseira porque eu me deslocava o tempo todo, ora ficando à frente, ora atrás da procissão.

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Para “facilitar” um pouco mais meu trabalho, a enorme quantidade de celulares pipocando flashes e disputando os melhores ângulos. Hoje em dia não há evento em que isso não aconteça, todos tem uma câmera, todos querem registrar o evento ou fazer uma selfie.

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A cada uma das estações parava-se, alguém anunciava a passagem correspondente, lia-se um trecho do livrinho que passou a ser fornecido todos os anos pela Campanha da Fraternidade da CNBB. Finalmente rezava-se o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai e cantando seguiam em direção à próxima estação. Assim foi até a 15ª estação, o cruzeiro no alto do morro de pedra.

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Foi cansativo subir; é verdade que paramos 14 vezes, mas foram 3 horas de subida puxada, por estrada de terra, trilha na mata e “trio” de gado no meio do pasto. Finalmente, quando meu fôlego já estava na reserva me dei conta que estávamos ao pé do cruzeiro, um lugar muito alto com vista deslumbrante das montanhas. Era a última estação.

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Todos se deram as mãos e eu tive que decidir entre filmar ou rezar junto com o povo. Escolhi me entregar, alcancei as mãos mais próximas e peguei carona na egrégora de fé que se estabeleceu naquele momento. Rezar foi impossível, não que eu não conhecesse as palavras da oração, mas a garganta estava apertada, fui arrebatado por algo maior e agradeci o privilégio de estar ali naquele momento, simplesmente fazendo parte daquela corrente em direção ao alto.

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O beijamento da cruz encerrou nossa jornada ao cume. Abriram-se as mochilas e passou-se aos comes e bebes. Eu comi minha sopa de arroz integral com lentilha, enquanto o povo se deliciava com pastéis, broas, biscoitos, sanduíches, café e refrigerantes.

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O ditado diz que para baixo todo santo ajuda, mas ou eu estava muito fora de forma ou então, talvez os santos estivessem de folga por ser uma Sexta Feira Santa… O fato é que eu cansei mais descendo do que subindo e meus joelhos ficaram em frangalhos…

Ainda bem na descida contei com a companhia do seu Barrinha me contado causos e me esclarecendo sobre a história da região. Ele me contou que a Pedra da Balança tem este nome porque ali havia uma balança de pesar gado, já que o local é divisa de estado e decerto pesavam e cobravam algum imposto ou conferiam se a papelada estava nos conformes. Contou também que antigamente as procissões para o cruzeiro aconteciam na época da Santa Cruz, todo começo de maio subiam para rezar o terço lá em cima. Naquela época, mais de 50 anos atrás, a cruz era feita de madeira, de cedro rosa. Naturalmente, ela foi apodrecendo e chegou a cair. Vendo aquilo, um certo Benedito Candinho teria feito a promessa de restaurar o cruzeiro, erigindo desta vez uma cruz em cimento armado, em troca de arrumar casamento. Segundo seu Barrinha ele foi bem sucedido, pois meses depois já estava muito bem casado.

Depois de passar na casa de dona Vicentina e comer uma broa de milho assada na folha de bananeira, fui agradecer minha amiga Heloísa. Ao chegar vejo-a sentada na varanda, tranquila e bem arrumada, já que ela tinha se vestido para a procissão. Achei que desta vez ela não me escapava, eu ia entrevista-la finalmente! Mas qual o que, ela se saiu com essa!…

___ Ô Chico, hoje é sexta-feira santa, hoje é dia de oração e prece, aqui na roça “nóis” não trabalha nesse dia não, “ocê me discurpe”, mas vai “tê” que “ficá pruma” outra “veiz”! – E ela caiu na risada…

Mas deixa estar que um dia ainda pego esse bagre liso…

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Simpatia para curar bicha, inveja e mau-olhado

janeiro 11, 2015

 

 

Fiz este pequeno vídeo a pedido de Dona Maria, que gosta muito de ser filmada e mostrar o que aprendeu na roça, onde viveu até os seus 25 anos.

Ela quer deixar um registro para seus filhos e netos, pois sabe da importância do conhecimento que adquiriu com seus antepassados e também porque as pessoas não acreditam que ela foi e ainda é uma mulher que sabe lidar com a criação, monta a cavalo, conhece ervas medicinais, simpatias e mais um tanto de coisas que o pessoal da cidade só vê em filmes e livros.

O sítio onde ela morava na infância e adolescência foi desapropriado para construção da represa de Paraibuna e, desde então ela vive na cidade, sempre sonhando com sua roça natal.

Hoje ela mora em um pequeno terreno na periferia da cidade de São José dos Campos SP, no bairro do Buquirinha, onde cria galinhas, planta cana, milho, abóbora e mantém uma pequena horta para o gasto, tentando se aproximar da vida que ela tanto gosta.

As imagens do vídeo acima foram tomadas por ocasião de uma visita à fazenda de sua filha, zona rural de São José dos Campos SP.

COMPANHIA DOS TRES REIS DO ORIENTE

dezembro 27, 2014

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Os foliões vão chegando aos poucos na casa do seu Orlando, na Vila Terezinha. É de lá que sai a bandeira e é para lá que ela volta, depois das visitas da folia aos presépios. Os palhaços se enfiam em suas fantasias, os músicos afinam os instrumentos. O calor é forte, há previsão de chuva e cada folião leva consigo um guarda chuva. Vão visitar os presépios nas casas, faça sol ou faça chuva. Os integrantes desta folia são migrantes. Vieram de Minas Gerais, Paraná e interior de São Paulo. Aqui se juntaram, há mais de 30 anos retomaram uma tradição de seus locais de origem, a Folia de Reis. Com poucas adaptações, a manifestação é a mesma que eles viram e participaram quando crianças.

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Orlando estoura os rojões, anunciando a saída da folia. As pessoas saem às janelas para ver o ruidoso cortejo. Alguns aplaudem, outros dão vivas a “Santo Reis”. As crianças se aproximam, entre curiosas e assustadas com os palhaços (também chamados de marungos). As visitas são combinadas de antemão. No portão um marungo chama o dono da casa, pergunta se ele quer receber a folia. É passada a bandeira ao morador que atende a porta, vão todos para a frente do presépio e iniciam-se as loas. Às vezes a folia recebe uma doação, dada sempre nas mãos do marungo. Na folia do Orlando, as doações são encaminhadas para a Igreja do bairro. Às vezes os devotos amarram fitas na bandeira, com pedidos ou agradecimentos às graças alcançadas. Às vezes serve-se um lanche para os foliões, café ou refrigerante com bolo ou pão com carne. A cada vez há fé, emoção e derramamento de lágrimas.

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Até mesmo alguns evangélicos pedem a visita das folias, dizem que tem saudade do tempo que eram crianças e saíam correndo de medo dos marungos. Claro que os pastores não podem saber disso… A última casa vamos visitar, é de uma senhora que está há mais de 10 anos numa cama, sem movimentos nas pernas. Desde que adoeceu ela pede a “Santo Reis” para que diminuam suas dores na coluna.

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Entram todos os foliões no minúsculo quarto, a senhora deitada na cama está visivelmente emocionada. Ela busca a mão de um dos palhaços e a aperta com toda força de sua devoção, enquanto a folia, na voz do mestre, pede pela saúde da senhora e de todos que moram naquela casa. Alguém me oferece um banquinho para que eu possa filmar a cena do alto. Minha vista se turva diante da cena, eu não consigo focar, mudo para o foco automático e esqueço que estou filmando, me deixando levar pela emoção. Na saída da folia pergunto à Ana, neta da senhora doente se posso colocar as cenas no facebook e no YouTube. Espantada, ela diz com veemência: __Claro que sim! Pra confirmar a força dos Santos Reis, claro que o senhor pode colocar! E me dê seu cartão, por favor, é para o meu avô, para ele poder ver as fotos! O avô dela é o Argemiro, um senhor de 85 anos, que todos os dias vai ao computador para, segundo ele, diminuir a distância entre seus netos e ele.

PIRACÁ, SACI E NOVOS AMIGOS

setembro 2, 2014

 

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Uma das coisas mais gostosas da vida do pesquisador de campo é quando brota uma amizade à partir do inevitável convívio entre invasor e invadido. Foi o caso com a família do casal Agenor e Nilza, dois menestréis da nossa música caipira que moram ao lado da linha do trem, na quase rural Vila Teresinha.

Conheci os dois ano passado, ao fazer as fotos para o 23º Caderno de Folclore, editado pelo Museu do Folclore de São José dos Campos. Neste primeiro encontro já nos gostamos e houve convite para uma outra visita sem cunho profissional. Ensaiei várias vezes ir à casa deles mas sempre aparecia um contratempo de última hora. Quando nos encontrávamos em eventos da cultura, o convite era refeito e eu me sentia em falta com eles.

Semana passada recebi uma intimação de dona Nilza por telefone, que me jogou uma isca irresistível. Estava visitando sua casa uma irmã septuagenária, dona Zilda, que tinha histórias do arco da velha para me contar. Sim, se eu quisesse poderia gravar tudo e ela ainda nos receberia com um café da roça e um bolo de fubá sem farinha de trigo, pois ela sabe que minha esposa é alérgica a glúten.

A Vila Teresinha é uma pequena ilha de casas, situada entre a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil e o banhado do Rio Paraíba. As moradias são simples e cada vez que vou ao bairro, a impressão que tenho é a de cheguei num oásis, um lugar que resolveu descansar da correria da moderna São José dos Campos. São casas antigas

A maioria das casas do bairro tem seu jardim ou vasos com plantas medicinais. É um boldo, um guaco, um capim-limão, um bálsamo, um piracá, essas coisas que não faltam na casa de gente que ainda ontem estava na roça. Até na praça do bairro há plantas de chá e eu mesmo já fui até lá com a única finalidade de colher alguns galhos do alumã, também conhecido por boldo baiano, ótimo para o fígado.

Na casa de Agenor e Nilza, além dos chás, há também uma pequena horta de 10mX1m onde eles plantam até milho e feijão!

__”A gente pranta porque gosta, de teimoso, porque a produção mêmo é poca…”, diz seu Agenor.

Às 14h chegamos à casa dos amigos e só conseguimos sair de lá às 18h. Não vimos o tempo passar. Foram quatro horas com muita música, contação de causos, lendas e depoimentos da vida sofrida que eles tiveram na infância e adolescência.

Dona Zilda nos contou que aos 13 anos de idade teve que fugir de casa para ir ao encontro do grande amor de sua vida. O pai já havia arranjado o casamento da filha com outro pretendente e não admitia ser contrariado. A notícia do desaparecimento correu mundo, deu até na rádio e não demorou, Seu João, um matuto que andava sempre armado, foi resgatar a filha em Pindamonhangaba, dentro do quartel, que era onde estava Agostinho, o soldado que havia mexido com o coração da menina. O encontro foi tenso, mas graças ao bom senso do rapaz, que também estava armado, não houve derramamento de sangue. Os dois se entenderam, o soldado entregou a menina intacta e quatro anos mais tarde casavam-se Zilda e Agostinho.

Cada ato de desobediência era seguido de chicotadas, que nunca impediram que os filhos continuassem desacatando as ordens do pai. Certa feita, a menina Zilda resolveu comer escondido as bananas verdolengas que amadureciam dependuradas sobre o fogão de lenha e por azar o cacho todo veio ao chão. A punição paterna foi que a menina comesse todo o cacho, incluído o talo central…

Os irmãos todos tinham que ajudar nas lidas da casa e sofriam mais que os vizinhos, que pelo menos aos domingos e dias santos tinham folga para divertirem-se. Os pais de Zilda e Nilza não professavam nenhuma religião e assim, cada dia era igual a todos os outros, ou seja de muito trabalho. Levantavam sempre de madrugada e só iam descansar no colchão de palha de milho quando tivessem cumprido todos os deveres. O único momento em que se relaxava era quando seu João resolvia tocar sua sanfona ou viola. Todos cantavam, acompanhando o pai, o tempo parava, o velho amolecia o coração e se esquecia momentaneamente do seu papel de carrasco.

Parece que a música estava no sangue desse povo pois todos vieram a se tornar músicos quando adultos. O casal Nilza e Agenor se conheceu através da música e isso os une até hoje. Apresentam-se em programas de rádio e eventos de música sertaneja, tocam e cantam pelo prazer de tocar. Com orgulho, nos mostraram diversas gravações dos programas que tem feito pela cidade e Vale do Paraíba. Quando descobriram que minha esposa toca e canta, mandaram pegar um violão e quiseram ouvi-la. Daí por diante foi uma festa só, o violão só descansou quando os pasteizinhos ficaram prontos e fomos para a cozinha comer…

 

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Quando Zilda se casou e foi morar em outra cidade, as tarefas da casa passaram a ser da Nilza, já que dona Virgínia, a mãe, também trabalhava na Tecelagem e não tinha tempo de cuidar de nada. Conta ela que quando foi destroncar o primeiro frango, seus bracinhos eram tão pequenos que não conseguiram realizar a tarefa. Ela tentou até enforcar o bicho com as mãos, o sangue jorrava pelos olhos mas nada de ele morrer. Só foi conseguir matá-lo quando teve a ideia de colocar o pescoço da pobre ave debaixo de um cabo de vassoura sobre o qual ela deu vários pulos…

Dona Virgínia era mulher exigente com a roupa, que também sobrou para Nilza lavar. O processo era demorado e complicado naqueles tempos. Era preciso esfregar cada peça com melão de são caetano, uma planta trepadeira que ajuda a limpar o tecido. A roupa fica toda verde quando se esfrega com essa trepadeira, mas basta uma enxaguada e ela fica livre da sujeira mais renitente. Antes da última lavada se colocava o anil, um pozinho azul que era diluído na água e punha-se as roupas no sol para quarar. Dona Virginia tinha olhos de lince e se não estivesse a contento dela, fazia a filha repetir todo o processo, lavando tudo novamente…

Num dado momento a conversa pendeu para o lado das histórias de assombração. Segundo Agenor, naquele tempo era comum ver essas coisas que o povo acha que é lenda ou invencionice dos velhos. Ele mesmo já viu lobisomem, saci, espíritos que sobrevoam as pessoas que passeiam depois da meia noite, mas conta que nunca teve medo, que se acostumou a conviver com isso…

__”Quando a gente conta essas histórias hoje, a juventude pensa que é mentira, invenção do povo mais velho, eles dão risada… mas eu agaranto que era verdade, a gente convivia com essas coisa… Ocê já ouviu o assovio do saci? É um barulho insuportável quando eles fica tudu muntuado na pontinha do bambuzeiro, esperando os cavalo passa pra eles amuntá. Dia seguinte pode oiá, as crina dos animá tá tudo trançada pela sacizada… Uma trança que ninguém consegue distinguí como que foi feito… O saci é danado… ”

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Quando Agenor já tinha esgotado seu estoque de causos de assombração, Nilza comentou que quem tinha histórias boas era dona Virgínia, sua mãe. Pela idade das filhas, imaginei que dona Virgínia já não estivesse entre nós e perguntei se as filhas não poderiam contar o que lembrassem. Nilza arregalou os olhos e disse se eu quisesse podia ouvir da boca da mãe. Na hora me veio à mente uma sessão espírita, mas nem deu tempo de completar o quadro em minha mente, pois Nilza explicou que a mãe estava no quarto dos fundos e só não estava ali com a gente porque quebrara o fêmur dias atrás.

As filhas foram, então, chamar a mãe. Dona Virgínia saiu do quarto com seu andador e foi até o sofá da sala. Muito arrumada, cabelos penteados e unhas feitas, nota-se que foi e ainda é uma mulher que não quer passar despercebida. Pergunta quem somos nós, o que fazemos, onde moramos, se interessa por tudo que acontece. Às nossas perguntas sobre histórias de assombração ela responde contando da vida das filhas. Nilza e Zilda se entreolham e me cochicham que a mãe está “azeda”, talvez um outro dia saia alguma história, hoje ela não está para responder perguntas, não… Mas eu tinha uma pergunta ainda, que não queria calar. Qual a idade de dona Virgínia? Perguntei diretamente para ela, que abriu as duas mãos em frente ao meu rosto.

__”Cem anos, faz dois mês que eu completei 100…”

 Fiquei espantado com a vitalidade da anciã. A mente podia não estar 100% mas era evidente que à minha frente estava uma pessoa que transbordava vida. Perguntei se ela tinha alguma doença se tomava algum remédio, ao que as filhas responderam:

__”Toma nada, essa aí tá melhó qui nóis. A médica vem toma a pressão dela, tá 12 por 8… as doença ela deixou tudu prá nóis, não ficou com nenhuma…” e deram risada dá má sorte delas!

 

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Zilda propõe então nos mostrar a varanda onde ela ficava esperando Agostinho passar de trem, nos fins de semana. O soldado acenava com o bibico nas mãos e o seu coraçãozinho de adolescente batia mais forte no peito. Zilda começa a desfiar memórias daquele tempo e eu aproveito para tirar fotos das irmãs sentadas ao lado de minha esposa que também embarca na nostalgia.

 

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Ao lado do banco onde as mulheres estavam sentadas, há um pé de piracá. Eu peguei uma folha, amassei e cheirei. Nilza então disse:

Tomá remédio a mãe num toma, mas esse é um chá que a mãe usa todo santo dia sem faiá…”

__Ela faz chá com piracá? Não sabia que era de tomar também, pensei que fosse só pra passar no corpo…

__”Nada, a mãe mastiga umas foia de piracá, ela come memo…

Não pensei duas vezes, apanhei uma folhas e coloquei na boca. Mal não pode fazer, pois se dona Virgínia que tem cem anos come todos os dias… Um gosto amargo, mas não desagradável, encheu minha boca. Um pensamento amargo e desagradável perpassou minha idéia. Essa mulher só está forte e rija porque não toma nenhum remédio… Vou providenciar um pé de piracá para poder mastigar umas folhas todos os dias…

 

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VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

maio 20, 2014

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Semana passada estivemos visitando a charmosa São Bento do Sapucaí, uma pequena cidade do estado de São Paulo que é praticamente um enclave paulista em Minas Gerais, já que não se chega até lá pelo asfalto sem antes cruzar o solo mineiro.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, ruas com calçamento de paralelepípedos, muitos casarões ainda preservados, charretes e cavalos trafegando livremente, a cidade tem uma atmosfera pacata e deliciosamente interiorana.

A visita deveu-se a um convite que nos foi feito, à minha esposa e eu, para entrevistar um lavrador octogenário, que aos 75 anos passou a frequentar o Mobral e com muito esforço se alfabetizou, porque tinha uma vontade imensa de ler os “foiêto da missa”. Seu Tião Tino não é apenas lavrador. Enquanto prepara suas roças de milho, feijão e abóbora, vai compondo versos em sua cabeça e tem até um livro editado com seus poemas.

 

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Feliz coincidência, ficamos sabemos que nos dias de nossa estada em São Bento, haveria uma tradicional Congada no Bairro do Quilombo, na região rural da cidade. Dois pratos cheios para um pesquisador!

Ao chegarmos à cidade, instalamo-nos numa pousadinha perto da Igreja Matriz e partimos para o reduto de seu Tião Tino, onde ele vive com sua filha, genro e netos. Chegamos juntos à sua casinha na encosta de um morro muito íngreme, nós motorizados e ele à cavalo. Ele tinha ido à cidade buscar sal para o cavalo e não pareceu nem um pouco cansado de ter feito os 6km debaixo de um sol forte.

Mal apeou ele já desandou a falar; sobre a seca brava que está assolando a região; sobre o cultivo  orgânico que ele pratica; sobre as sementes que ele vem preservando; sobre suas devoções, a Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião e principalmente sobre os poemas que ele faz quando Deus o inspira.

 

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Ficamos mais de 3 horas com este homem e ele passou praticamente este tempo todo de pé, respondendo nossas perguntas. Mostrou tudo que pode em seu sítio, pegou na enxada para que eu o filmasse e ainda matou um frango para a janta que sua filha Carmen nos preparou. Um arroz com feijão, salada da horta e o frango caipira daqueles que quem não tem bons dentes não consegue comer…

Teríamos ficado horas conversando com seu Tião, ele inclusive nos convidou para pousar, mas o trabalho do dia seguinte nos obrigou a voltar naquela noite mesmo. De lembrança do nosso encontro trouxe algumas sementes de feijão “espírito santo” que ganhei de seu Tião, um curioso grão branco que tem estampado um desenho em vermelho do Divino Espírito Santo e do qual eu nunca tinha ouvido falar.

 

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Já na pousada, depois de descarregarmos as imagens e recarregarmos as baterias, resolvemos sair para dar uma olhada na Festa de Santo Expedito que estava acontecendo na praça da Matriz. Que decepção! Esperávamos doces e comidas da região, mas só encontramos à venda uns tristes cachorros quentes, anêmicos churros, um desenxabido bolo floresta negra e um mais que comum pudim de leite condensado. O que teria acontecido com as comidas tradicionais? Não pudemos nem perguntar, pois vindo de enorme palco que ocupava metade da praça, um evangelizador pagode funkado invadiu nossos delicados ouvidos e nos expulsou dali…

Fiquei imaginando como poderiam dormir os pobres mortais,  vizinhos deste mega evento…

Dia seguinte partimos para o Bairro do Quilombo, cuja história ainda não consegui apurar ao certo. Parece que o local teria sido um quilombo e que depois a Igreja, proprietária das terras, entrou em acordo com os moradores que hoje lá habitam mas não são os donos.

 

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Nosso contato era dona Luzia, uma simpatissíssima senhora de 82 anos, descendente de escravos, que nos recebeu e contou que a Festa do 13 de Maio, na qual acontece a Congada, era feita por sua avó, que passou para a mãe de dona Luzia e hoje quem organiza tudo é ela.

 

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Segundo dona Luzia, a festa que acontece nos dias de hoje não difere em nada dos tempos que ela era criança. Há as novenas nos 9 dias que antecedem a festa, as celebrações e a missa na Igreja da Imaculada Conceição, a procissão com as bandeiras, os Moçambiques e as Congadas, o almoço, a distribuição de doces caseiros e finalmente o forró na parte da noite.

Tudo isso é organizado por dona Luzia, que recebe as doações de carne, mandioca, frango, farinha e as frutas para os diversos doces, todos preparados de maneira tradicional, no fogão de lenha em sua casa. O que é recebido de graça é dado de graça no dia da festa, não se cobra um tostão por nada do que é distribuído.

Não é uma logística simples, preparar comida para as mais de 1000 pessoas que formam fila com seus pratos e potes de plástico trazidos de casa. O cuidado e o carinho na preparação ficaram evidente na qualidade da comida e dos doces. Minha esposa e eu comemos de tudo um pouco e posso dizer que estava tudo muito saboroso.

Impossível não comparar esta Festa do 13 de Maio com a festa de Santo Expedito que acontecia no centro da cidade. Na roça tudo se distribui de graça enquanto que na cidade tudo é pago. Esta se contaminou com comidas e músicas alienígenas, enquanto que aquela faz questão de preservar a tradição. Numa eu vejo a beleza da humildade e da devoção enquanto que na outra há a frieza do dinheiro e do poder, ao usar de maneira impositiva a praça pública.

 

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Foi emocionante ver a Congada de Gonçalves MG, tocar dentro da igreja, louvando São Benedito e Nossa Senhora de Fátima e o povo beijando com muito respeito as bandeiras em frente ao altar. Os cânticos das congadas louvam também a Princesa Isabel, que teria sido a redentora dos escravos. Esta festa é justamente para comemorar o fim da escravatura.

Embalado pelo clima da festa, estava achando tudo maravilhoso, me achando no melhor dos mundos, que havia realmente uma libertação sendo comemorada, quando vejo a rainha de um dos congados ostentando orgulhosamente uma camiseta com os seguintes dizeres: MEU PAI, UM PRETO COM ALMA DE BRANCO. O pai que os dizeres da camiseta faziam referencia foi o fundador da Congada de Gonçalves.

Fomos embora tiritando de frio, depois do balde água fria.

 

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Dona Cida e as Saúvas

maio 4, 2014

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No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em viagem de estudos pela América do Sul, teria ficado assustado diante do poder destrutivo deste inseto, o que o levou a afirmar que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

A saúva já foi considerada um dos maiores flagelos da agricultura brasileira, mas isso num tempo em que ainda não existiam os eficientes formicidas que hoje exterminam as colônias deste inseto como num passe de mágica.

As saúvas são capazes de pelar uma árvore em questão de horas, dependendo do tamanho da colônia. Por isso, quem tem um formigueiro no seu jardim ou lavoura, não pensa duas vezes. Vai a uma “casa rural”, escolhe um veneno qualquer e dá fim neste inseto que aos olhos da pessoa comum só causa estragos. Mas aos olhos de minha amiga Cida, as coisas se passam de uma maneira um pouco diferente. Dona Cida jamais mataria a saúva, muito pelo contrário, ela “planta” sauveiros!

Deixem-me explicar. Dona Cida mora na periferia da cidade de São José dos Campos, onde ainda tenta manter o modo de vida rural de sua infância e adolescência. Num terreno de 5000 m2 ela ainda cria galinhas, mantém uma horta, planta seus remédios, cuida de um pomar e tem uma pequena roça onde convivem pés de cana, abóbora e mandioca, tudo muito bem cuidadinho e limpo.

Da última vez que fui visitá-la, reparei que havia um pé de jaca muito judiado, quase sem folhas. Perguntei a ela se era a saúva a responsável pelo estrago na fruteira.

__É elas mesmo, Chico, eu deixo elas comerem as fôia da jaqueira.

__Mas dona Cida, a senhora vai deixar as formigas acabarem com o pé de jaca? Por que não mata elas?

__Matá as formiga? Deus que me livre! Eu tô é prantano elas! Enquanto que o povo qué acabá com elas eu semeio oiêro de saúva, pra modi elas não acabá!

__Como assim, dona Cida? Explica melhor essa história de “plantar saúva”. Saúva é bicho, não é de plantar!

__Ah, Chico, quando ocê pranta não faz um buraquinho e enfia a semente? Pois então, quando eu pranto a saúva é a mema coisa. Eu faço o buraquinho e coloco ali a tanajura, pra formá a casa delas.  

__E pra que a senhora quer semear uma praga que todo mundo quer acabar?

__Por que eu adoro comê içá, uai! E com esse povo todo matano as saúva, daqui a pouco elas vai sumi, então eu planto elas aqui no meu quintá… E dô di comê a elas com as fôia da jaqueira, que a jaca eu não posso com ela mêmo, então dêxa elas comê a árvi… 

A resposta de dona Cida me surpreendeu e me fez lembrar que a saúva é um inseto que está no planeta há muito mais tempo que o homem, um recém chegado de vista curta. Sem pensar na função ecológica que tem a saúva, sem falar que a própria formiga serve de alimento a muitas populações, queremos eliminá-la porque imaginamos que ela ameaça nosso modo de vida atual, nossa agricultura baseada na monocultura.

Mal sabem os que matam as saúvas, que estes insetos trabalham para a regeneração da flora e não o contrário, como pode parecer à primeira vista. Esta espécie, quando se reproduz, procura terrenos degradados para iniciar uma nova colônia. Revolvendo a terra e trazendo para a superfície o subsolo, ela acaba favorecendo o desenvolvimento de sementes que se tornarão plantas e árvores, as quais servirão de alimento para elas e para nós humanos também.

E mais, existem animais que vivem dos dejetos das saúvas e que também contribuem para a nitrogenação do solo, aumentando a fertilidade do mesmo. Ou seja, há toda uma intrincada cadeia de plantas e animais que dependem do trabalho das saúvas para continuarem existindo. Exatamente como fazem as abelhas e moscas polinizadoras, sem as quais não haveria os frutos que comemos, as formigas semeiam a vida no solo.

Dona Cida, com seu corpinho magro e ágil e forte como uma formiga, provavelmente não pensa em nada disso quando “semeia” sauveiros, mas talvez intua a importância que tem as saúvas para o equilíbrio do planeta.

Arrisco dizer que Saint-Hilaire estava equivocado em sua afirmação. Acabar com a saúva pode ser o mesmo que acabar com o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

Dona Maria Luiza

abril 15, 2014

 

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Dona Maria Luiza é incansável, está sempre em movimento, as mãos sempre ocupadas e tem sempre uma boa história para contar.

Esta senhora de 67 anos é guardiã de tesouros. Sabe tecer qualquer coisa em bambú, desde covos de pesca, que ela ainda usa para pegar peixes no rio, até bercinhos minúsculos para as mães darem nos chás de bebês. E o melhor de tudo é que ela adora ensinar e é dona de uma didática toda dela.

Na cozinha é um azougue, faz bolos e bolinhos, paçoça no pilão, feijoada de pobre (termo que ela criou), todo tipo de doce da roça, não tem o que essa mulher não saiba fazer. Se não souber ela inventa. Diz ela que quando não sabe, ela dorme e de noite sua cabeça ensina tudinho como tem que ser feito! E olha que deve ser uma aula rápida, que ela dorme apenas 3 horas por noite, para desespero do seu Ivair, o esposo.

Dona Maria Luiza não conta para todo mundo, mas sabe fazer alguns remédios com plantas, os quais ela só prepara na hora da precisão mesmo, para parentes e amigos. “Essas coisa é milhor não fazê propaganda, senão o povo vai forma fila na minha porta e acabô meu sossego.”

Um dia desses em sua casa na periferia de São José, entre um papo e outro, ela falou que ia subir no pé de abacate para pegar goiaba para a gente comer. Eu cá comigo pensei: – “Será que a mulher endoidou? Apanhar goiaba em abacateiro?” – Mas que nada, é que um galho mais fino da goiabeira entrava pelo pé abacate e para apanhar as frutas era mais seguro subir neste último.

Aliás, subir em pé de fruta não é problema para esta elétrica senhora magricela. Diz ela que se Deus botou as frutas no mundo Ele tinha que dar um meio da gente ir lá em cima pegar as melhores, que são as que pegam mais sol. O que Deus fez? “Armô uma escadinha de gáio em cada árvi pra facilitá nossa vida. A escadinha tá lá, só não enxerga quem não qué!”

Ah, esqueci de dizer que estamos convidados, minha esposa e eu,  para uma feijoada de pobre que ela vai nos preparar. Adivinha quem vai matar e limpar o porco! Sim, ela mesma, dona Maria Luiza!

Eita muié sacudida essa dona Maria Luiza!

Abaixo, um vídeo instrutivo feito com dona Maria Luiza, para quem quiser aprender fazer uma peneira com taquaruçú.

 

Dona Maria da Luz

março 21, 2014

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Se perguntada, dona Maria da Luz vai dizer que é católica e que escuta a voz de Nossa Senhora Aparecida falando com ela, mas que não freqüenta missa, “que hoje em dia as missa muito baruienta, não tem mais aquelas música bonita de antigamente. Como dizia minha avó, a verdadeira fé a gente exerce entre quatro parede…”

“Já ajudei muita gente na hora da precisão, mas só ajudo quando Nossa Senhora me assopra no ouvido… “Vai, Maria, vai que ocê pode ajudá tar e tar pessoa. Ela fala no meu ouvido e então eu faço uma prece e uma promessa e as coisa se resorve por meio do poder dela.”

“Uma vez ela me falou que eu podia ajudá no acidente do Ulisses Guimarães, que eu podia salvá o seu Severo Gome, mas eu fiquei com vergonha de acharem que eu era doida, daí eu fiquei quieta. Mas só dessa vez eu não ajudei…”

“Eu ajudo de noite também, saio do corpo, esse corpo magrelo que ocêis tão veno, e vôo por aí atendendo quem precisa. Tem uns que não tem nem como ajudá, esses eu deixo pra lá, mas quem tem condição eu ajudo. Eu não falo com as pessoa, elas não me vê, mas eu entro na cabeça delas e elas faz o que eu digo pra elas fazê e elas pensa que foi um anjo quem ajudô, mas era eu…”

“Tem veiz que eu escuto os pensamento das pessoa. Elas tão dizeno uma coisa com a boca, mas para mim elas conta otra, compretamente diferente. Mas eu não posso falá nada, tenho que que nem um padre, escutá e ficá quieta”.

Um dia, quando jovem, a mãe ficou furiosa com a filha e a chamou de Maria Louca, porque ela, por caridade, dera um saco de 60kg de mandioca para uma família que apareceu pedindo na estrada. O pai, vendo o desespero da filha com a repreensão, chamou-a num canto e explicou que eles eram descendentes de D. João VI e que a mãe de Maria da Luz tinha certeza que ela era a encarnação da mãe de D. João VI e mais, que eles eram descendentes do monarca. Mas que ela não comentasse isso com ninguém, sob risco de ser ridicularizada, pois quem acreditaria que uns pés rapados como eles poderiam ter alguma ligação com a nobreza portuguesa?

Isso tudo eu escutei da boca da própria dona Maria, na cozinha de sua casa, em companhia de minha esposa. Tínhamos ido buscar um balaio que havíamos encomendado e ela, com sua conversa cativante, foi nos envolvendo e acabamos ficando horas ouvindo suas histórias. O que aqui relato é apenas uma parte do que ouvimos.

Dona Maria da Luz é muito prendada, sabe fazer de tudo que se faz na roça, tanto serviço de homem como de mulher. Faz qualquer objeto de taquaruçú, sabe domar um boi, matar um porco e pega na enxada e na foice como se fosse um peão. Hoje ela mora na cidade e, entre outras coisas, faz artesanato para sobreviver, que a aposentadoria do marido não dá para o gasto. O artesanato que ela faz é evidentemente coisa da cidade e eu perguntei com quem ela aprendeu, se tinha sido em algum curso.

“Comigo mesma, aprendi sozinha!”

“Mas viu alguém fazendo e fez igual?”

“Não, seu Chico, eu aprendi comigo mesma! De noite a minha cabeça me ensina e de dia eu faço o que ela me ensinô!”

Fantástico, pensei comigo mesmo! Essa mulher é um fenômeno da natureza!

Dona Maria da Luz nos serviu um café e nos fez degustar um broto de bambú que ela mesma havia preparado. O café, apesar do exagero de açúcar, estava surpreendentemente muito gostoso e o broto de bambú, apesar de salgado demais, estava tenro e saboroso. Perguntei a ela se não ia nos acompanhar no café.

“Não, meu filho, eu não posso comê quase nada, se eu comê eu estufo que nem um sapo boi. Quarqué coisa que cai na minha barriga explode.”

“Como assim, dona Maria? O que a senhora come, então?”

“Ah, de vez em quando eu como um salgadinho, tem que ser comida que não foi cozinhada com água. Se bem sequinha eu posso comê, mas tem que sê poco, senão explode, eu boto tudo pra fora. Às veiz eu fico sem comê uns dois, três dia, que nada me apetece.”

Eu fiquei pensando com os meus botões, de onde viria a energia daquela mulher, que durante as horas que passamos ali, não se sentou por um segundo sequer e tampouco parou de falar, nos maravilhando com suas histórias?

Maria da Luz, este nome não é o dela por acaso…

Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.


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