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Vera, a enfermeira do meu pai

outubro 7, 2017

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Vera é daquele tipo de pessoa que não faz cerimônia, não gosta de passar desapercebida e é com total naturalidade que ocupa o espaço à sua volta. O olhar direto, a voz firme e os gestos decididos, ela me conquistou logo no primeiro encontro. Sem papas na língua, essa piauiense de Piripiri, baixinha e com sotaque carregado, diz o que lhe vem à cabeça, franqueza é a sua marca registrada.

Conheci Vera quando ela cuidava de meu pai, paciente de Alzheimer. Ela é uma das muitas profissionais que se revezaram no trabalho de dar banho, passar creminho, trocar fraldas e entreter meu pai, nessa fase surreal em que alguns velhos resolvem voltar a ser crianças. Nossa conversa engatou muito fácil, foi só eu começar a perguntar e ela desfiou sua vida todinha, ali mesmo, ao lado do leito do doente. Meu pai, como se fosse um bebê que se deixa embalar por uma história de ninar, escutou atento o relato da saga dessa nordestina que baixou ao sul maravilha em busca de uma vida melhor…

__Posso botar no livro tudo isso que você falou, Vera? Do jeitinho que você contou?

__Mas não tenha dúvida, Chico, eu sou mulher de palavra! Não me arrependo de nada do que digo nem do que faço, pode botar tudo, lógico que sim!

E tudo eu botei!

________

 

Aos 19 de agosto de 1961, nascia Vera, a segunda filha de Vicente Erasmo da Silva e Isabel Pacífico da Silva. Nesta época, Seu Vicente já tinha deixado a roça e trabalhava como eletricista, contratado que tinha sido pelo Batalhão de Engenharia da Construção, órgão subordinado ao Exército, criado para implementar a infra-estrutura viária no Piauí. Dona Isabel era do lar, cuidava dos filhos e apesar da canícula nordestina, fazia questão de sempre plantar uma horta caseira, da qual tirava alface, couve, tomate e temperos, em cada uma das diferentes cidades pelas quais a família passou. Viviam trocando de cidade, pois o trabalho de Seu Vicente exigia constantes deslocamentos pelos diversos trechos da malha ferroviária do estado.

Vera desde menina foi opiniosa, mesmo que isso lhe custasse pesadas surras, à base de cinta e chicote, desferidas por um pai autoritário e rígido como pau-ferro. À noite, de volta do trabalho no Batalhão de Engenharia da Construção, seu Vicente não se conformava de ver sua filha brincando na rua; lugar de criança era dentro de casa, dizia ele. Como é que a mulher não via isso? As ordens de Seu Vicente eram muito claras: as crianças saiam de casa para a escola e tinham que voltar para casa olhando para a frente, sem virar a cabeça para o lado e ai de quem o fizesse! É claro que Vera não obedecia, o mundo lá fora sempre a atraiu muito mais do que as quatro paredes do lar.

A rua não ajudou Vera nas notas, tanto que acabou repetindo o 3º ano. O pai, para estimulá-la a passar de ano, prometeu um premio irresistível para a filha: uma viagem. Ela se esforçou, estudou muito e acabou passando de ano. E foi com a idade de 9 anos que Vera foi levada a Parnaíba, para conhecer uma coisa da qual ela nunca tinha ouvido falar: o mar. Ao avistar de longe aquela imensidão de água, perguntou:

__E esse rio não tem fim? Onde é que tá a outra margem dele? – Depois, ao entrar na mar, ser derrubada por uma onda mais forte e engolir muita água, exclamou indignada:

__Quem foi o imbecil que botou sal nessa água toda?

Na infância, enquanto sonhava um dia ser médica, Vera brincava de bonecas de pano, confeccionadas pela mãe, pulava corda, jogava amarelinha, mas se entediava de passar as tardes com os dois irmãos apenas. Queria mesmo é ir para a rua, onde havia mais gente, movimento! Na rua, na casa de vizinhos, Vera descobriu a televisão, que no dizer do povo era um rádio em que se podia ver as pessoas falando… Cinema só foi conhecer bem mais velha, com 13 anos. Os filmes românticos não a interessavam, achava sem graça, gostava mesmo era de filmes de muita ação, tipo Rambo e Bang Bang (esse último ela teria assistido uma meia dúzia de vezes!).

Curiosa que era, Vera acabou experimentando o cigarro e gostou, tanto que fuma até hoje, com 50 anos. Mas na época tinha seus 15 anos e o pai continuava ainda no seu pé. Foi questão de tempo para que ele a flagrasse pitando um Continental sem filtro, que segundo ela tinha a preferência, pois era mais chique que o Clássicos. E dessa vez, quando Seu Vicente a flagrou no delito, além da tradicional surra, houve um requinte na maldade. Fez ela fumar o maço todinho até o último, e entre um cigarro e outro, era uma lambada que descia nas costas da coitada da menina. Não satisfeito, pegou todas as guimbas, colocou numa jarra com água, botou umas colheradas de açúcar e obrigou a pobrezinha a beber o fétido chá adoçado! Ela bebeu, enojada, até a última gota, mas de nada adiantou a punição, Vera continuou fumando e desafiando o pai…

Para manter o vício do cigarro e poder continuar comprando suas roupas, Vera começou a fazer enfeites de fita. Teve, assim, o gosto da liberdade, através do primeiro dinheiro ganho com seu próprio trabalho. Por essa época, permitiu que um rapaz mais velho se aproximasse e tomasse algumas liberdades, mas não gostou e acabou dando o sinal vermelho para ele. Achou que o cabra anunciava bem o produto mas a propaganda era enganosa, ele não era lá essas coisas não, e dispensou-o sumariamente. Só aos 17 é que deixou de ser moça e aí foi demais para seu Vicente, que não encontrou outra saída, teve que expulsa-la de casa. Vera não pensou duas vezes, fez sua trouxa, largou família e amigos, chutou o namorado e se mandou para o Ceará, onde tinha o contato de algumas conhecidas de seu pai.

Lá chegando, não foi difícil arrumar trabalho. Despachada como só ela, Vera foi bater na fazenda de Seu Raimundo, um latifundiário que mantinha uma escola rural e estava mesmo à procura de uma professora. O problema é que ela só tinha a 8ª série, será que ia dar conta?

__Seu Raimundo, eu quero muito esse trabalho, mas verdade seja dita, eu só tenho até a 8ª série. Como ficamos, o senhor me aceita mesmo assim?

__Olhe, Vera, se você ensinar esses meus empregados e mais uns gatos pingados da cidade a escreverem o nome deles, é o que me basta.

__Disso eu dou conta, mas não é pouco, ensinar esses caboclo a escrever só o nome deles?

__O que eu preciso é que eles consigam assinar o nome na frente do mesário, pois assim eles podem votar em mim e me eleger vereador daqui a dois anos. Aceita?

Vera não titubeou, no dia seguinte lá estava ela na sala de aula, a ensinar o ABC para os 35 marmanjos, dentre amigos e matutos do Seu Raimundo, todos eles mais velhos do que ela, com idades que variavam de 18 a 55 anos. Com status especial, era tratada como uma rainha. Ganhou uma suite só para ela na casa grande, onde gozava de todas as mordomias. Comia do bom e do melhor, tinha roupa lavada e passada e tempo para namorar um dos alunos, o mais bonito deles, com o qual acabou se casando dali a dois meses…

Vera não perdia tempo! Numa quarta feira passou a mão em Jacinto, foi à igreja e ao cartório e oficializou a união com aquele que viria a ser o pai de seus tres filhos. Sem festa, sem vestido de noiva e de sandália de dedo mesmo, que o dinheiro não dava para luxo naqueles tempos. Mudaram-se para a cidadezinha próxima à fazenda, alugaram uma casa e botaram nela tudo que tinham: duas redes e um pote de água, que ficava ao lado da trempe, no comodo que servia de cozinha. As panelas e talheres só compraria dias depois. Jacinto abriu uma bodega, que é como eles chamam o bar lá no nordeste. Lá ele vendia pinga, que os fregueses bebiam enquanto jogavam sinuca. Vera, que continuava dando aulas na fazenda, resolveu abrir um mercadinho para se ocupar nas horas vagas. No fim do dia, pegava uma bicicleta e ia até a fazenda ensinar o povo a assinar o nome. Continuou fazendo isso durante dois anos, até que seu Raimundo foi eleito e ela teve que separar dos alunos, que por esse tempo, além de assinar o nome, até já estavam sabendo fazer umas aritméticas de somar e subtrair…

O primeiro filho a nascer foi Francisco Jones. Jones em homenagem ao personagem do filme de Hollywood, Indiana Jones, e Francisco em pagamento a uma promessa que Vera fez, temendo complicações no parto, que foi diagnosticado de risco pelo médico que a assistiu: se o filho nascesse vivo, não importa quantos filhos ela viesse a ter, que fossem 100, todos teriam Francisco no nome, inclusive as mulheres. Logo em seguida veio Francisca Jaqueline e o casal foi tocando a vida numa paz relativa, sem muitos aperreios, até que Vera ficou grávida de Francisca Aline, a última dos filhos.

Jacinto não bebia nem fumava, mas baralho era com ele mesmo. Recusado por Vera, que abusava (enjoava – no falar nordestino) por causa da gravidez, afundou-se no jogo e acabou perdendo todas suas economias. Mas só as dele, que Vera era mulher previdente, guardava sua parte em separado. Envergonhada da situação, Vera contatou os pais que a aceitaram de volta, com marido, dois filhos e grávida de Aline. Venderam a bodega e foram todos se arranchar debaixo das asas de Seu Vicente e Dona Isabel.

Mas foi por pouco tempo. A Jacinto, a familia de Vera ofereceu trabalho. Não foi um nem dois, mas muitos, e todos ele recusou. Só queria saber de baralho e bola. Pronto, isso irritou Vera, que se sentiu na obrigação de, mais uma vez, dar o pé na bunda de um homem que não prestava. Pegou metade do dinheiro da venda da bodega, botou na mão de Jacinto e apontou a porta da rua. Ele ainda tentou ameaçar:

__Presta atenção, mulher. Tem certeza que é isso mesmo que tu quer? Por que se for, fique sabendo, que enquanto o mundo for mundo, eu nunca mais vou te procurar!!!

Isso foi pouco para comover Vera, ela já estava decidida, deu as costas e deixou o marido falando sozinho… Preferiu enfrentar a oposição da família, que achou um absurdo ela chutar o marido e passou a hostiliza-la. Fizeram de tudo para ela voltar atrás, mas nada, Vera não queria mais o vagabundo, condição que, segundo ela, foi confirmado pelo próprio. Ao se despedir de Jones, então com 5 anos, ele abraçou-o e teria dito:

__Cresça e seja um homem, não um vagabundo como o seu pai…!

Não fosse a gravidez avançada, Vera teria partido imediatamente, pois que o clima na casa dos pais estava muito pesado demais. Já estava decidida a cair fora, mas somente depois de dar à luz ao bebe. Passou mais de ano no ostracismo, todos viravam a cara, como se ela não existisse. Mulher sem homem não vale nada, inda mais carregando dois filhos e o terceiro no buxo! Foi terrível para Vera, nem na maternidade sua mãe foi visitar a neta recém nascida! Desgostosa e triste, não agüentando a pressão, raspou da poupança o pouco dinheiro que sobrou da sua parte da venda da bodega, pegou os filhos e se mandou para a rodoviária. Lá chegando, sem saber exatamente pra onde ir mas com toda certeza do mundo que o que tinha de fazer era sair correndo daquele lugar, dirigiu-se ao balcão da Itapemirim e comprou duas passagens para São Paulo. Uma poltrona para ela e Aline, que tinha ano e meio e a outra para os dois meninos, Jones e Jaqueline. O ônibus era o famoso poeirinha, pois ia com as janelas abertas, já que não contava com ar condicionado.

São Paulo era uma luz bem fraquinha no fim do túnel, apenas uma possibilidade que ela tinha ouvido rodando na boca do povo. Dizia-se que lá o povo era frio, mas que trabalho não faltava e que se ganhava muito bem. Quem sabe lá ela não encontrava o sossego que nunca encontrou junto aos seus? Nas 48 horas de viagem, Vera foi sonhando com uma vida melhor, um futuro decente para aqueles tres seres, que agora dependiam inteiramente dela. Nas paradas, o pessoal ajudava Vera, ficando com as crianças enquanto ela ia ao banheiro. Foi assim que ela acabou puxando conversa com Seu José, que trabalhava em São Paulo, e que por conhecer muito bem a megalópole, desaconselhava que Vera arriscasse a sorte naquele inferno de pedra. Fosse pra São Paulo, o risco era grande que terminasse mendigando ou se prostituindo. Como alternativa, sugeriu que ela saltasse antes, numa cidade mais pacata e hospitaleira, ele indicava até uma pensão, que era de uma amiga dele, Dona Linda, que com certeza ia dar uma força para eles nos primeiros dias. Vera confiou desconfiando, quando estivessem chegando ela ia decidir. Ainda faltava uma boa pernada de viagem, que no todo é de longas 48 horas…

O mês era julho, mal sabiam aqueles 4 retirantes o que os esperava pela frente, eles, que a vida toda nunca tinham vestido uma blusa… Quando passaram por Minas Gerais, na região serrana, já no último quarto da viagem, a coisa ficou preta. Primeiro foi Jaqueline, depois Jones que reclamou da friagem.

__Mãe, to com frio, não consigo dormir!

Vera ficou desesperada, chegou os tres meninos contra seu corpo, formaram uma massa humana, mas não foi suficiente, o frio era demais. O que fazer? Restava pedir ajuda aos passageiros. Ela levantou-se e falou alto, para o ônibus todo escutar:

__Por amor de Nossa Senhora, tenho aqui 3 meninos tremendo de frio, será que alguém pode me fazer a caridade de doar um agasalho pra eles se protegerem dessa friagem? É doado mesmo, não é emprestado, que eu sei que não vou poder devolver.

Num passe de mágica apareceram agasalhos, não só para as 3 crianças, como também para Vera.

Já perto do fim da viagem, bem depois de Aparecida, Seu José lembrou Vera que se ela tinha que se decidir. Se quisesse ir para a pensão de Dona Linda, tinha que descer em São José dos Campos, logo ali à frente. Ela resolveu confiar, Seu José parecia uma boa pessoa. Juntou os pertences, os filhos, e pediu ao motorista que parasse em São José dos Campos. Naquela manhã fria e ventosa, ele deixou os 4 em frente ao Shopping Center Vale. Num misto de profecia e pensamento positivo para dar força a si mesma, olhou Jones nos olhos e disse:

__Jones, é aqui que nós vamos morar, essa é a nossa cidade, é aqui que vamos construir nossa casa!

Com o endereço de Dona Linda escrito num pedaço de papel, pediu informação para o primeiro que viu num ponto de ônibus.

__Sabe onde é a Rua Sebastião Hummel, moço?

__Pegue esse ônibus que vem vindo e pergunte ao cobrador, ele indica para a senhora o lugar certo de descer.

__Mas se for de pés fica em que direção essa tal rua?

__É pra lá, dona, mas é muito longe e a senhora tá com essas crianças…

Vera não terminou de ouvir o que dizia o homem, desceu até a avenida Nelson d’Avila e percorreu os quase 4 km, até a pousada de Dona Linda, na Sebastião Hummel. Lá chegando, foi recebida por uma paranaense muito simpática, que viria a desempenhar o papel de anjo da guarda, pai e mãe adotivos, lhe ajudando como pode, a construir do zero a vida dessa piauiense de fibra.

Dona Linda cedeu a ela uma suite, é verdade que muito simples, não contava nem com um guarda roupas, mas tinha cama de casal, onde dormiam os 4 juntinhos, com um banheiro muito limpinho à disposição. Como sempre, Vera foi muito rápida e no mesmo dia da chegada, antes de anoitecer, já estava empregada como ajudante de cozinha! E foi Dona Linda quem ficou cuidando das crianças, enquanto Vera pegava firme na lanchonete de Seu Jorge, na Galeria Rossi, seu primeiro emprego em São José dos Campos. Durante 5 anos Vera morou de aluguel com Dona Linda, que sempre a socorria nas dificuldades. Como na vez em que Vera foi atingida por uma bala perdida e por pouco não morreu. Vera teve que passar 15 dias se recuperando no hospital e quem ficou cuidando das crianças foi Dona Linda.

Vera foi juntando dinheiro, e com 4 anos de São José dos Campos, já deu entrada num terreno no Jardim Pararangaba. Um ano depois, terminava um comodo e se livrava do aluguel. E era um comodo mesmo, nem chegava a ser uma edícula. O dinheiro deu somente para as paredes e o teto, nem muro em volta do terreno havia. Água e luz ela pegava com o vizinho. Quando se mudaram para o comodo, Vera já sabia, São José dos Campos era seu novo lar, aqui se sentiu totalmente integrada e acolhida. No Piauí tinham dito que o povo do sul era frio, distante e calado, mas nada disso ela encontrou nesta cidade. Sobre isso, Vera filosofa:

__A gente atrai as pessoas certas, as que combinam com a gente…

Enquanto juntava o dinheiro para o terreno, Vera fez questão de garantir a educação dos filhos, e não só a deles, mas a dela também. Deu-se o luxo de contratar uma babá, que Dona Linda não podia ficar sempre com as crianças, e terminou o ensino médio. Mais tarde, fez um curso de enfermagem e ainda sonha com Medicina ou Enfermagem.

__Enquanto tá vivo, tá valendo! – diz ela com esperança.

Os filhos ela criou com marcação cerrada, mas sem a rudeza do pai. Ela sempre tinha que saber onde estava cada um deles e já teve de sair atrás de menino, tarde da noite, pra encontrar-lo numa festa e arranca-lo de lá no tapa!

__Filho meu não dá mole pra bandidagem, onde se viu ficar dando sopa solto pela noite?

Criar as meninas foi mais fácil, elas eram mais dóceis. Mas Francisco Jones era inquieto, desde os 10 anos vivia insistindo com mãe, que queria porque queria encontrar novamente o pai. Vera enrolou como pode. Prometeu que quando Francisca Aline, a mais nova, completasse 21 anos, ela diria a ele sobre o paradeiro do pai. E o menino não se esqueceu da promessa. Um mes antes da menina fazer 21 ele começou a rodear a mãe e assuntar sobre a data exata do aniversário. A mãe lembrou-se da promessa e disse a ele que ficasse sossegado, que no data prometida ela revelaria o paradeiro. O que ela não contou é que não tinha a mínima idéia de onde andava o pai das crianças, um homem que ela queria mais era esquecer… Mas ela ia ter que se virar, afinal, não havia prometido ao menino?

O que fazer? Como descobrir o endereço de uma pessoa que ela nunca mais tinha ouvido falar? Sem muita esperança, mais porque havia prometido ao filho, deu um tiro no escuro, ligou para o 102 e perguntou qual era o telefone do cartório em que Jacinto e ela haviam se casado. De posse da informação, conseguiu falar com a cartorária da cidade de Ipueiras e pediu que enviassem uma 2ª via da certidão de casamento. Para que não se sabe, mas ela achava que a certidão ia ajudar a encontrar o ex-marido. E o pior é que ela estava certa! Ipueiras é a sede do distrito de Livramento, que é onde o casamento havia sido realizado de fato. E naquele momento mesmo em que Vera ligava, estava ali escutando a conversa a cartorária de Livramento, que por um desses acasos do destino, conhecia muito bem a mãe de Jacinto. Achada a mãe, achou-se o filho.

Foram mais de 100 reais gastos em ligações, um dinherão na época, mas a promessa ia ser paga. No dia do aniversário da irmã, Francisco Jones recebeu da mãe um papelzinho onde estava escrito o endereço do pai. Pediu as contas na firma onde trabalhava, esperou vencer o mes de aviso prévio e partiu para o encontro com o pai, na cidade de Poranga, no interior do Ceará, onde veio a se casar e de onde nunca mais saiu! Mas o encontro com o pai não foi fácil, bem que a mãe tinha avisado que naquele lago não tinha peixe. Ele foi bem recebido, mas só no primeiro dia, depois virou a cara, não quis saber de conversa com o filho. Quando nasceu o primeiro filho de Jones, Vera e as duas filhas foram ao Ceará ver a criança, mas houve troca de farpas entre Jacinto e a ex-família, ele não permitiu nem ser fotografado com a família. Vera nem chegou a ve-lo e com Francisca Aline não teria passado de um frio aperto de mão.

Hoje, além de sua casa no Jardim Pararangaba, Vera tem mais outras 2 que estão alugadas. Sua meta agora é tirar carteira de motorista, que um carrinho, segundo ela, ia facilitar muito a vida. Só está esperando o ex-marido conceder o divórcio pra liberar a papelada, diz ela que a burocracia exige isso. Adora a cidade que a acolheu, tem orgulho do que conquistou materialmente, mas sua realização foi ter dado educação aos filhos e ver que eles estão trabalhando no que gostam. Jones é pedreiro, Jaqueline e Aline são formadas em Enfermagem.

A saúde vai bem, obrigada, mas carrega ainda o vício que foi motivo da ira do pai na adolescência. Jura que quer se livrar do cigarro, e como é devota de São Judas Tadeu, acredita no impossível! Vai a Aparecida quase todo mês, onde assiste missa e pagar as promessas feitas. Se Deus quiser, pretende ser enterrada em São José dos Campos. O que lhe dá mais prazer hoje em dia, depois dos filhos, são os velhinhos que ela cuida e pretende cuidar até quando a saúde permitir.

Com o pai ela se reconciliou na terceira viagem que fez ao Nordeste, numa festa de aniversário do velho Vicente. Vera chamou-o num canto e se abriu com ele, agradecida por ele lhe ter dado a vida. Seu Vicente ficou tão contente com a atitude da filha, que ao cortar o bolo concedeu-lhe o primeiro pedaço. Houve muita choradeira e puderam dar-se, finalmente, o primeiro abraço, que conforme a Vera, pai não dava abraço em filho naquele tempo, isso era coisa que não existia…

______________

 

Uma das últimas perguntas que fiz a Vera, foi sobre sua religiosidade. Ela então falou de São Judas Tadeu, de seu sonho de ir a Portugal conhecer Fátima,  de suas viagens a Aparecida e de uma parada obrigatória que ela fazia em Roseira, para visitar o santuário de Nossa Senhora das Cabeças, onde está exposta a santa, ou melhor, onde está a cabeça da santa. Estranhei, pois nunca ouvira falar dessa santa.

__Vera, e essa santa é padroeira de quem?

__Das pessoas com problema mental.

__E você tem alguém com problema mental na família, algum amigo?

__Tenho, é o traste que mora comigo agora, um folgado que não quer assumir a mulher que tem. Nem o dinheiro ele quer misturar com o meu. É por causa dele que eu vou lá.

__E vocês não se amam?

__Olha, amor eu só tenho pelos meus filhos, aliás, esse é o único amor que existe: da mãe para o filho e do filho para a mãe.

__Mas se você diz que ele é um traste, pra que serve um homem na sua vida, pra que você quer ter um homem?

__Pois pra que eu quero um homem? Ora, Chico, o homem é uma boa companhia pra brigar com a mulher!

Essa é a Vera…

 

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A AVENTURA DA FARINHA DE MANDIOCA

outubro 1, 2016

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Dona Joana e Seu Tim moram numa casinha simples, na beira da estrada que leva para o Bairro do Raizeiro em São Luiz do Paraitinga SP. Uma estrada de terra, poeirenta no tempo seco e lisa que nem sabão no tempo das águas. Os dois nasceram na roça e dela nunca saíram. Os filhos foram todos para a cidade mas eles insistem na vida simples, praticando o que aprenderam com os pais, quase que imunes às modernidades que hoje invadiram a zona rural.

Conheci o casal quando procurava quem fizesse o tipiti, artefato de taquara que é usado para prensar a massa da mandioca ralada da qual vai ser feita a farinha. Gostei dos dois logo de cara, gente simples e hospitaleira que logo foi me fazendo sentir como se fossemos amigos de longa data. É assim com a maioria do povo da roça; quando percebem nossas boas intenções…

Fizemos então o tipiti, filmamos todo o processo, desde o corte do taquaruçú, toda a destalagem, secagem e trançamento do cestinho que acondiciona a massa da mandioca. Neste meio tempo, descobri que o casal ainda guardava o costume de fazer a farinha de modo bem artesanal, num terreno do outro lado do rio, onde estava a roça de mandioca. Vendo meu interesse, o casal me convidou para participar do processo da farinha, que dura dois dias do jeito que eles fazem. Avisaram que teríamos que posar na casa do outro lado do rio, com o que concordei imediatamente.

Marcamos o dia e pouco antes do meio dia atravessamos o rio para nossa pequena aventura. Lá chegando colhemos a mandioca, descascamos, ralamos e colocamos no tipiti para que a massa secasse durante a noite. As conversas foram todas em torno das coisas da roça, dos fazeres que estão se acabando por conta do povo comprar tudo pronto e ir esquecendo como se fazia antigamente…

Lá pelas tantas dona Joana me fala que a mãe dela fazia um bolinho com a massa crua da mandioca. De tanto que eu perguntei, Dona Joana deve ter pensado que eu ficaria aguado se não comesse o bolinho naquele dia e então, depois da janta preparou-nos uma boa fritada explicando passo-a-passo como ele é feito. Você pode assistir o video do bolinho aqui. Pra vocês terem uma idéia de como é gostoso este quitute, eu que sou de comer pouco, comi dois deles depois da janta!!!

No dia seguinte, o sol ainda nem tinha saído e os dois já estavam de pé. Seu Tim foi passar café e dona Joana lidar com os apreparos da farinha. A massa já estava seca na prensa de pau e pedra feita contra o barranco. Agora era tirar a massa do tipiti e peneirar no tacho de cobre, que eles chamam de forno; tacho é só quando vai cozinhar alguma coisa; para torrar farinha, o mesmo objeto chama-se forno.

Peneirada a farinha, seu Tim montou a tacuruva, um fogão de pedras improvisado no qual eles equilibram o forno, onde será despejada a massa peneirada a fim de que ela primeiro seque e depois torre. É um processo longo, demora mais ou menos 3 horas para fazer os 10 litros de farinha, que são o produto final dos mais de 30 kg de mandioca colhida no dia anterior.

Dona Joana brinca que ela chora toda vez que torra a farinha. Pudera, a tacuruva não tem chaminé e a fumaça castiga os olhos de quem está lidando com o forno… Mas vale a pena, diz ela, porque não tem comparação a farinha de pau que se encontra nos supermercados, com a que eles preparam artesanalmente. Eu confirmei isso ao degustar a farinha logo que ficou pronta; é um gosto que não dá pra descrever. Se você quiser saber um pouco mais de como eles prepararam esta farinha, clique aqui e assista o vídeo completo da aventura.

 

 

Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

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                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

Capelas da Santa Cruz Abandonadas

janeiro 24, 2016

 

Estas imagens de capelas abandonadas de Santa Cruz foram feitas durante um passeio pela periferia da cidade de São José dos Campos, região leste do estado de São Paulo, Bairros do Jaguari e do Caetê. Fui convidado para este passeio por um amigo, o Daniel Bueno Borges, que restaura imagens sacras aqui na minha cidade. Daniel conhece essas capelas pois gosta de visitá-las à procura de imagens sacras descartadas.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Uma das capelas foi abandonada porque o dono do terreno não permitiu mais seu uso e cercou-a com arame farpado. A outra foi menos e menos utilizada nos últimos anos, a ponto de ser tomada como moradia por andantes que acabaram por depreda-la. Segundo nos informou um morador que a conhece a 43 anos, ainda acendem uma vela na sexta-feira maior. Tentaram colocar uma porta para impedir que bêbados e desocupados invadissem o recinto mas não funcionou, eles entram de qualquer maneira.

Não consegui saber a origem da construção de nenhuma das duas. Geralmente essas capelas surgem por pagamento de promessa ou em homenagem a alguém de morreu naquele mesmo local. Cria-se então, à partir da construção da capela, que geralmente acontece em beira de estrada, um calendário de rituais de rezas e festas comuns a todas as capelas da Santa Cruz.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Há cada vez menos capelas da Santa Cruz na periferia da cidade pois a especulação imobiliária é impiedosa e não perdoa a fé do povo comum. Para se encontrar essas capelas é preciso, mais e mais, embrenhar-se nas estradas de terra nas zonas rurais.

A tradição existe também em vários países da América Espanhola, onde, normalmente (como também aqui) as imagens que se quebram acidentalmente são depositadas especialmente nos cruzeiros de cemitérios, onde seguem recebendo culto – chamadas, em alguns lugares, carinhosamente, de “quebraítos” – corruptela de “quebraditos”.

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

FORNALHA MINEIRA

novembro 18, 2015

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Renato Barros se lembra do pai construindo fornalhas para assar broas e biscoitos e foi vendo o pai construir que ele aprendeu a fazer.

– Antigamente todo mundo tinha uma fornalha em casa; era como liquidificador, televisão e microondas nas casas de hoje – comenta Heloisa, irmã de Renato.

A fornalha é construída sobre uma cama de bambus, na qual se faz uma caixa com tijolos que será preenchida com areia, material isolante, para ajudar manter o calor. Acima da camada de areia vão os tijolos que serão o piso da fornalha.

Construir a abóbada da fornalha é uma arte e Renato diz que ele mesmo não entende muito bem como a coisa acontece, porque numa determinada fase os tijolos são assentados praticamente a prumo e não caem!

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É preciso fazer uma chaminé no alto e um respiradouro lateral para retirar as cinzas.

Outra arte é regular a temperatura da fornalha para assar , carnes, bolos, pães e biscoitos. Primeiro é preciso fazer fogo, muito fogo dentro da fornalha. Quando se formou bastante brasa, ela tem que ser bem espalhada. Só então mede-se a temperatura usando farinha de trigo e palha de milho. Conforme o estado da farinha, se queimou ou apenas amarelou, sabe-se se a temperatura está adequada para assar o bolo. A palha do milho é usada para saber a temperatura quando vai se assar carne. A palha tem que apenas pretejar, sem pegar fogo. Se pretejar está bom para assar, mas se queimar está quente demais e vai queimar tbm a carne.

Esta fornalha foi feita para assar roscas para a festa de São José do Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP.

Fiz um um video que conta passo a passo a construção da fornalha, desde o corte da madeira até o revestimento com tabatinga, um barro branco que é usado para vedar as rachaduras e também para boniteza da fornalha.

 

PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

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Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

TABATINGA, BISCOITO POLVILHO E SOLIDARIEDADE, UMA COMBINAÇÃO PERFEITA!

setembro 8, 2015

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Numa gostosa tarde de agosto, num meio de uma semana qualquer, no Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí, um grupo de mulheres foi convidado para rebocar um rancho de pau a pique com tabatinga, um revestimento de barro branco que dá o efeito de caiação.

Desde a saída para a procura do barro no meio do pasto, o clima era de festa. Ninguém usava tabatinga naquelas vizinhanças há muitos anos, isso era coisa do passado e por isso seu Joaquim Santana não deu certeza da mina onde a terra branca era retirada. Mas os formigueiros com terra clara deram a dica e a turma retirou em dois pesados sacos, tudo o que precisava pra rebocar o rancho.

Como é tradição nesses trabalhos coletivos, sempre há comes e bebes. Desta vez as donas da casa, a dona Maria e a dona Rosana, serviram café e biscoito polvilho e farinha de milho feito segundo uma receita de dona Josefina, uma senhora de 91 anos que acompanhou o processo para ter certeza de que sairia a contento.


Com tantas mulheres reunidas as histórias foram muitas, mas por sorte fui dos poucos homens convidados e lá estava para registrar tudo com minha câmera. No video abaixo,  o registro dos momentos mágicos deste dia…

O “FUMÁ” DO SEU LUÍS DO NHOCA

maio 28, 2015

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O cultivo do fumo na região de São Bento de Sapucaí SP já não tem a força de antigamente, quando sustentava famílias inteiras, que tinham nesta matéria prima sua maior fonte de renda. Era um tempo em que as propriedades eram praticamente autossuficientes e produziam quase tudo que necessitavam, dependendo apenas do sal e do querosene que eram comprados nas cidades.

Seu Luís aprendeu a lidar com fumo desde criança e hoje cultiva o processa a planta mais por saudosismo, já que não depende dessa renda para viver. Planta porque gosta e mesmo tendo terras, até arrenda uma pequena gleba de terra do vizinho, onde faz o seu “fumá”, que é o nome que eles usam aqui para se referir à roça de fumo.

A cadeia de produção de fumo de corda, ou de rolo, envolve várias etapas, explica seu Luís. No mês de novembro ele coloca na terra as sementes, que são sempre tiradas da cultura do ano passado, num processo que se repete desde seu avô. Ou seja, a linhagem das sementes que ele usa tem pelo menos 100 anos. Quando as mudas estão com uns 20 cm ele as transplanta para o “fumá”. Antigamente não havia pragas que atacavam o fumo, mas hoje, ele não sabe o que houve, muitas folhas amarelam e apodrecem, tornando-se inúteis para a produção.

Adubo ele não usa, a terra escura é muito boa. Veneno também não. Uma vez ele usou um produto que era para matar árvore, para ver se funcionava contra essa praga que apodrece as folhas, mas o que ele consegui foi matar todas suas plantas… Depois disso nunca mais!

As mudinhas já transplantadas, é preciso capinar sempre, pois o fumo não suporta concorrência. Precisa de muita luz e arejamento, senão ele sai mirrado. Em média ele faz 3 capinas a cada ciclo.

Quando a planta ameaça florir, é preciso fazer a “desóia”, que vem a ser a retirada dos brotos. São feitas de 3 a 4 “desóias” a cada cultura. Se a planta florir ela começa a morrer e para de crescer.

Os maiores inimigos da plantação de fumo são a geada e o granizo, ambos fatais. Às vezes, quando se suspeita de geada, é melhor colher o fumo antes da hora e ter um produto de menor qualidade do que não ter nada, explica seu Luis.

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Quando as folhas começam a pintar, lá pelo 3º ou 4º mês de vida na terra, está na hora de colher e deixar murchar, para algumas horas depois pendurar no andaime de bambu ou varas de pau. Lá elas ficam durante uma semana, quando então é feita a “destala”, o processo de tirar o talo para logo em seguida começar a encordoar as folhas.

A destala envolve várias pessoas. Antigamente participavam a família e os amigos, era um acontecimentos social que varava a noite e só terminava com o sol já acima do horizonte. Hoje, seu Luís vivendo sozinho, quem aparece para ajudar são amigos e alguns parentes.

Depois de destalado, o fumo é encordoado no cambito, e depois passa para o bacamarte, que trabalha em conjunto com a cambota. São todas peças artesanais de madeira, construídas para o fim específico a que se destinam.

O fumo deve ser mudado de posição várias vezes para tomar ar por igual e ser apertado, mais ou menos, para faze-lo suar, ou não, dependendo do grau de “forteza” que se deseja. Se ele suar demais, vai ficar preto e fraco, se suar de menos, fica amarelo e mais forte. Este processo pode durar semanas até que se atinja o ponto desejado.

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O fumo pronto, seu Luís vende para o mercado da cidade ou quem aparecer para comprar.

Uma vez ele, de teimoso, com dó de jogar fora seu trabalho, enrolou um fumo cujas folhas já estavam passadas. Ele sabia que seria um fumo ruim mas fez mesmo assim. Terminado o processo, nem experimentou do produto, deixou num canto do paiol, esqueceu dele. Um dia apareceu um comprador e ele não tinha fumo. O comprador era curioso e achou os quase 10 kg de fumo enrolados no paiol. Seu Luis avisou que era produto de baixa qualidade mas que se ele quisesse, que levasse um quilo para experimentar. E fez um preço bem abaixo do mercado pois sabia que o produto não era bom.

Dias depois o comprador voltou e queria comprar tudo. Disse que este fumo “estragado” era melhor do que o melhor que ele tinha na sua loja! Seu Luís ficou contente, vendeu os outros 9 kg e com o dinheiro comprou uma calça no valor de 53 reais, um canivete por 30 e remédio para o gado por 80 reais. Tudo isso com um rolo de fumo estragado que ele só não tinha jogado fora porque tinha espaço no seu paiol…

Seu Luís me contou essa história, e também outras que espero depois relatar, com orgulho que tem aquelas pessoas que amam o que fazem. Este homem vive integrado ao seu ambiente. De manhã tira um leite para o gasto, às vezes faz um queijo e se não precisa deixa para o bezerro engordar. Faz sua própria comida depois que a esposa se foi e espera que Deus lhe dê saúde para que possa seguir trabalhando até que chegue sua hora.

Seu Luís gosta das coisas de antigamente. Não suporta esse tal de celular, que faz as pessoas andarem de cabeça baixa, como que evitando os que estão ao seu redor, um absurdo a seu ver! Também não entende porque o pessoal parou de plantar fumo e se dedica a engordar gado. Pelas contas dele o fumo dá muito mais! Senão, vejamos; uma arroba de fumo vale 5 vezes mais que uma arroba de boi e gasta 5 vezes menos tempo! O pessoal não quer é trabalhar, isso sim, diz ele! Porque o fumo dá um trabalhinho, mas rende muito mais no final…

Estou fazendo um vídeo com seu Luis, para mostrar todo o processo do fumo e tenho ido ao “fumá” por diversas vezes. Me ofereço para ajudar e assim entendo melhor o que vou registrar. Nessas horas saem as melhores conversas e eu me sinto integrado a uma cultura que agoniza e que sobrevive apenas pelas mãos e corações dos mais velhos, já que os jovens são todos sugados pelo mercado de trabalho urbano. Hoje, por uma feliz coincidência, estava ajudando a colher as folhas maduras de fumo, o neto de seu Luís, o Vinícius. Vinícius tem 15 anos e matou aula para ajudar o avô. Conversando com o rapaz, ele me adianta que se pagarem bem ele ficha num trabalho qualquer na cidade. Este tem sido o movimento há décadas nesta região e imagino que em todo interior brasileiro.

Nosso papo hoje era sobre cobras. Estamos em maio, já faz bastante frio. Perguntei se no verão aparecem muitas cobras e seu Luís disse que não. Mas que mês passado ele matou uma cascavel no bambuzal e que semana passada tinha uma no terreiro da casa. Vinícius entrou na conversa e contou que matou uma cascavel que saiu do pasto, ali na altura da igreja da Sagrada Família.

Tentando não dar um tom de reprovação à pergunta, quis saber do rapaz o por que dele matar a cobra. Ele não titubeou;

__ As cobras a gente tem que matar pra elas não matar a gente e nem a criação.

E arrematou…

__ Outro dia o vô matou uma cobra com o gancho e voou leite pra todo lado.

Eu não entendi… leite? Ele vendo minha cara de espanto, explicou;

__ A cobra mama na vaca e rouba o leite do bezerro, aquela devia ter acabado de mamar, “tava” até gorda de tanto leite!

Na roça existe esta crença, de que as cobras mamam, não só dos úberes das vacas, mas também dos seios das mulheres que amamentam e prejudicando os bebês que são privados de seu único alimento.

O pai de Vinicius também estava dando uma força para o sogro hoje no “fumá”. Ele tem saudade dos tempos em que os vizinhos se ajudavam e quase não se mexia em dinheiro, havia muita troca dos excedentes da produção. Na verdade foi ele que puxou o assunto dizendo que antes só compravam sal e querosene, o resto todo era produção própria. Seus olhos brilhavam enquanto discorria sobre os bons tempos passados, mas quando perguntei se queria que seu filho ficasse na roça ele disse que não, que aqui só fica quem não teve oportunidade de estudar…

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A Incansável Dona Teresa

abril 16, 2015

Conheci dona Teresa nas minhas andanças pela cidade de São José dos Campos, como pesquisador de folclore. Esta senhora me surpreendeu e encantou já desde o primeiro encontro. Sua vitalidade, aos 84 anos, é contagiante. Inquieta, ou está ocupada com os afazeres domésticos ou batendo um papo, contando suas histórias. Nunca a vi parada. Lúcida e atenta, ela não perde nada do que acontece ao seu redor.

Dona Teresa é o folclore vivo.

No falar, no trajar e no fazer, ela é, na essência, a mesma pessoa que deixou sua roça faz bem uns 40 anos. Daqueles idos tempos ela traz consigo as plantas de remédio e de comer, as quais cultiva no estreito corredor da casa onde mora hoje, no Parque Industrial em São José dos Campos. Os termos que ela usa para se expressar, as roupas que veste e seu jeitão acolhedor nos transportam para tempo que já não existe mais, mas que esta capricorniana teimosa insiste em querer dar uma sobrevida.

Há 60 anos ela faz acontecer uma festa junina para os 3 santos, Antonio, Pedro e João; uma festa que ela insiste que seja à moda antiga, fiel à tradição, do mesmo jeito que ela e seu marido faziam, no sertão do Cantagalo SP, com direito a broa de milho, mastro, rojão e uma bela fogueira que ela manda acender no meio do asfalto mesmo.

Posso dizer, sem medo de errar, que a razão da vida desta mulher é sua família, são os seus 10 filhos, todos criados e maiores de idade, mas que ela, ainda hoje, cuida como se fossem crianças. Os filhos de dona Teresa tem verdadeira adoração pela mãe e a cada fim de semana vem pedir a benção a esta fortaleza em forma de mulher. Dona Teresa, feliz com a prole ao seu redor, recebe-os com quitutes caipiras, que faz questão de preparar ela mesma. É frango caipira, quirerinha, broa de milho, biscoito polvilho, doces de frutas, receitas deliciosas que ela traz do tempo em que viveu na roça, lá para as bandas de Paraisópolis, nas Minas Gerais…

Por ter sofrido um AVC há alguns anos, sua fala não é muito clara e nas entrevistas eu me esforço ao máximo para não perder uma palavra do que ela diz, dada a riqueza de detalhes e importancia folclórica de seus relatos. Suas histórias são tantas e tão interessantes que resolvi fazer com elas um livro inteiro, para que todo mundo possa se deliciar com as peripécias desta senhora; o que vocês vão ler aqui é um aperitivo, uma entrada para o prato principal, mas uma entrada deliciosa, posso garantir!

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O barrigão de seis meses e meio que Maria Teresa de Jesus carregava não atrapalhou em nada o vai e vem da enxadinha bem encabada e que ia deitando o picão, a tiririca e a guanxuma, no roçado de arroz ao lado da casa onde vivia com o marido, João Batista de Morais. Naquele 19 de janeiro de 1928, ela havia passado o dia todo debaixo de um sol escaldante, mas não sentiu nada de diferente, nada que pudesse denunciar o que viria acontecer nas próximas horas. Para ela, aquele foi um dia comum, quente e abafado, como costumam ser todos os janeiros chuvosos em Campo do Meio, zona rural situada entre Paraisópolis e Conceição dos Ouros, MG.

No horário de costume, quando o sol se escondeu por trás do pinheiral da serra, Maria Teresa deu por encerrada sua tarefa na roça e recolheu-se à casa. No fogão de lenha, botou um pouco de banha de porco numa frigideira de ferro e preparou um virado com o feijão que havia sobrado do almoço, picou uma couve e serviu com arroz para o marido. Comeu ela também e depois apanhou um pouco de água quente da chaleira que vivia em cima da chapa do fogão, para temperar um banho rápido que ela tomou numa bacia de metal. Esfregou-se com uma bucha e sabão de cinza que ela mesma fazia, lavou-se, secou-se, vestiu a camisola e dirigiu-se à cama, já antecipando seu merecido descanso. O marido já estava deitado do outro lado da cama, os homens sempre se aprontam mais rápido que as mulheres. Ajeitou com as mãos o seu lado do colchão de palha de milho, levantou os lençóis e ia deitar-se, quando sentiu um “quente” escorrendo pelas pernas. Olhou para o chão e viu o liquido escorrendo, formando uma poça no soalho. Com toda calma do mundo, sem se alterar, mas já sabendo do que se tratava, ela dirigiu-se ao marido.

__João, manda chamar a mãe que a bolsa estourou. Nossa Senhora do Bom Parto que me ajude, mas acho que essa criança eu já perdi.

João Batista já estava quase dormindo, cansado da viagem a cavalo que fizera a Paraisópolis, onde tinha ido fazer compras para abastecer o armazém que ele a esposa tocavam. Teve que fazer um esforço enorme para se levantar, vestir uma calça, calçar as botas, colocar o chapéu na cabeça e sair correndo em direção à casa da sogra, que ficava a um quarto de légua de onde eles moravam.

Quando João voltou com a sogra, Maria Teresa já estava segurando no colo um diminuto ser do sexo feminino, pesando apenas meio kilo, o quinto filho de uma série de doze que ela viria dar à luz. É verdade que o bebe chorava forte, de arder os ouvidos dos presentes, mas nos olhares que trocaram os tres adultos naquele quarto, estava subentendido que ninguém acreditava que aquela menina, saida do ventre da mãe dois meses e meio antes do tempo, fosse sobreviver. Nem mamar a criança conseguia, foi preciso que Maria Teresa espremesse o peito e deixasse cair o colostro na boca da menina, para que ela se acalmasse e todos pudessem dormir um pouco.

Na manhã seguinte, contrariando todas as expectativas, a criança estava bem viva. Mandaram, então, chamar o padre em Paraísópolis, pois era preciso batizar urgentemente a criança. Se ela não recebesse o sacramento nas 24 horas depois de chegada ao mundo, corria o risco de ficar para sempre com os olhos irritados e cheios de água.

Maria Teresa e o bebê permaneceram encerradas no quarto durante 41 dias. Era o costume naqueles tempos, as mulheres que dessem à luz tinham que fazer a dieta, ou seja, permanecer reclusas no escuro do quarto, sem banho, comendo tudo separado e bebendo cerveja preta, que era pra garantir uma boa quantidade de leite para a recém nascida.

Vencida a quarentena e apesar do tamanho diminuto e da fragilidade da criança, que ainda não tinha nome, todos passaram a considerar a possibilidade daquele frágil serzinho vingar. João, cuidadoso, forrou com algodão uma caixa de sapatos e lá colocou sua filha, que durante o dia permanecia numa prateleira da venda, enquanto a mãe lidava com a roça e a casa. Escondido de todos, depois que baixava as portas da venda, o pai molhava o cabo de uma colher com vinho do porto e pingava na boca da criança. Mais tarde, ele teria contado à filha que esta lambia os beiços ao ingerir a bebida e que se não fosse pelo vinho, ela, com certeza, não teria sobrevivido. Dizem que quando João levava a criança de volta para a mãe, fazia-o carregando-a dentro do bolso do paletó, de tão pequenina que ela era…

Quando ficou claro que aquele pedacinho de gente queria mesmo tentar sua sorte entre os vivos, a avó, que era também a madrinha de batismo, resolveu registra-la em Paraisópolis. Perguntou a Maria Teresa qual o nome que ela queria para a menina.

__Ponha o nome que a senhora quiser, mamãe. Para mim não faz diferença.

E lá a foi a avó para Paraisópolis, registrar a neta, sem saber ao certo que nome responder quando o cartorário fizesse a pergunta. Ao chegar na cidade, como fazia a cada vez, entrou na igreja e ajoelhada fez sua prece de agradecimento pela viagem bem sucedida. Terminada a oração, levantou os olhos para o altar e o que viu foi a imagem de Santa Teresinha. Diz ela que viu uma semelhança enorme da santa com a neta e, assim, a menina ganhou o nome da santa padroeira dos missionários.

Teresinha cresceu rápido e logo pegou peso e tamanho. Não se via diferença entre ela e outras crianças nascidas na mesma época. A menina era esperta e inteligente e logo que pode passou a ajudar a mãe em pequenas tarefas na cozinha. Ia buscar água na mina, uma cebolinha verde na horta ou apanhar galha de pinheiro pra acender o fogo.

Na roça, para brincar, as crianças tinham que se virar com o que havia à mão. Além dos tradicionais passa-anel, cabra-cega e pegador, Teresinha gostava de brincar sozinha no terreiro, onde passava horas a fio, cozinhado os lambaris que ela mesma pescava no corgüinho da mina d’água. Seu brinquedo preferido, ou melhor, o único brinquedo que ela jamais teve na vida, foi uma panelinha de barro que pai lhe deu de presente, uma lembrança que João arrematou pensando na filha, num leilão de uma festa da Santa Cruz em Paraisópolis.

Com os irmãos, Teresinha saia pelo mato, à caça de lagartos e tatús, os quais traziam para casa, para que a mãe os preparasse assados com batatas ou mandioca. Caçavam também coelhos, mas estes tinham que ser moqueados às escondidas, bem longe de casa, pois a mãe tinha nojo dos bichinhos e proibia que os mesmos entrassem em sua cozinha.

Aos quatro anos, Teresinha já sabia montar a cavalo e com isso passou a  apartar as vacas no pasto, junto com os irmãos mais velhos. Ajudava-os também a pastorear cabritos pelos pastos da redondeza e um dia, enquanto olhava os bichinhos mais os irmãos, resolveu brincar numa balança que havia debaixo de uma mangueira velha. Para se mostrar, balançou mais alto do que de costume e acabou se soltando e caindo de costas numa raiz da árvore e desmaiou. Os irmãos, apavorados ao verem a irmã imóvel no chão, correram para casa dos pais, avisar que Teresinha estava morta. O pai saiu imediatamente em busca da filha, trouxe-a para casa, fe-la cheirar um lenço embebido em canfora e, para grande alívio de todos, a menina voltou a si. Deste episódio, além da “ponta do rabinho” que ficou torta para sempre, restou um medo de altura e de roda gigante, que ela não passa perto por nada neste mundo…

Não demorou e Teresinha também já estava ordenhando vacas, como se fosse gente grande. Ela mesma laçava a vaca, amarrava as pernas e fazia espumar o leite no balde. Nos dias em que todos estavam ocupados, a menina, sozinha, tirava leite de 25 vacas. É verdade que o gado era zebuzado, davam menos de 10 litros cada uma, mas mesmo assim, era um feito para uma menina que ainda não tinha os seus 10 anos.

O pai, percebendo que a filha era esperta, passou a leva-la junto com os camaradas, nos trabalhos de roçada e preparo da terra. No início a menina apenas acompanhava a turma e ia apanhar água nas minas, para que os trabalhadores não precisassem parar. Mas, curiosa que era, a menina acabou pegando no penado e começou a roçar junto com os homens. Logo já estava tirando tarefa, fazia metade do trabalho de um adulto.

Escola ela nunca teve quando criança. Não se esperava de uma mulher, naqueles idos tempos e remotas plagas, que fosse instruída. O valor de uma esposa não se media em erudição, mas sim em sua capacidade de trabalho, obediência e dedicação ao marido. Já com os homens era diferente. Um dia, um andante apareceu por aquelas bandas e João o contratou para ensinar as letras e os números aos filhos homens. Claro que Teresinha se interessou pela novidade e quando o homem dava as lições ela se sentava à mesa, toda ouvidos, junto com os irmãos. O pai não aprovou a iniciativa e acabou dissuadindo a menina, que muito triste, foi forçada a se privar do prazer de folhear livros com imagens coloridas que enchiam os olhos da pequena Teresa, mostrando um mundo fascinante, até então totalmente desconhecido para ela.

O pouco que Teresinha e seus irmãos conheciam, além do seu cotidiano da roça, era devido às raras idas da família à cidade, Paraisópolis ou Conceição dos Ouros, nas datas religiosas, Semana Santa ou Natal. Afora isso, só ficavam sabendo do que acontecia no mundo através de passantes esporádicos, algum mascate ou trabalhador avulso oferecendo trabalho. Mas havia também um senhor falante, um fiscal do governo que vinha conferir os selos das garrafas de bebidas, para saber se o imposto estava sendo devidamente recolhido. Este ultimo vinha nas horas mais inconvenientes. Assim, naquela fria manhã de agosto de 1932, quando dona Maria Teresa escutou um barulho de motor lá para os lados da estrada, achou que era o tal fiscal e mandou as crianças esconderem às pressas as garrafas que, naturalmente, estavam todas sem o selo do imposto. Foi um corre-corre danado e  parecia que dessa vez não iam conseguir enganar o fiscal, pois o barulho do carro já se fazia ouvir muito alto, ele entraria pela porta da venda a qualquer instante. No meio da confusão, Teresinha olhou de relance pela janela e gritou:

__Nossa Mãe do Céu, não é o fiscal que vem vindo, não! É um passarão que tá gritando lá de cima dos eucaliptos! E saíram à rua, para ver que tipo de pássaro seria aquele que fazia tanto barulho. Encontraram outras pessoas que também tinham saído de suas casas, intrigadas com o barulho acima das árvores. De repente, surgiu de lá de trás dos eucaliptos um avião Waco, vermelho vivo, das forças legalistas da Revolução de 32, voando rasante, não muito acima de suas cabeças. Foi um deus-nos-acuda! Ninguém naquelas paragens jamais havia visto um avião. Persignando-se e invocando ajuda de Nossa Senhora e do Pai Eterno, entraram todos em suas casas, buscando proteção debaixo de camas, mesas e dentro de guarda-roupas. Uma mulher foi vista segurando uma peneira sobre sua cabeça, decerto acreditando que a cruz desenhada (*) na mesma iria protege-la daquela ameaça que com certeza era coisa do diabo…

Maria Teresa, que nesta ocasião estava grávida, ficou muito assustada com a confusão e pediu para uma vizinha ir buscar um ramo de arruda, com o que preparou um remédio infalível para sistema nervoso. Conhecido como queimado de arruda, o medicamento caseiro consistia em açúcar queimado, arruda e pinga misturados num prato, aos quais se acrescentava um pouco de água morna e tomava-se tudo de uma só vez. Se o remédio a acalmou, não impediu que horas mais tarde ela viesse dar à luz a mais uma criança prematura.

Durante dias, o comentário em Campo do Meio foi o misterioso pássaro vermelho que havia sobrevoado o povoado. Alguns falavam em fim dos tempos, enquanto outros juravam ter visto a cauda do demo no rabo do pássaro. O mistério só foi desvendado semanas mais tarde, quando o padre veio de Paraisópolis para celebrar um batizado e explicou do que se tratava e que seus fiéis não precisavam ter medo dessa nova arma de guerra…

Quando Teresinha tinha lá seus 11 anos, o pai comprou terras mais férteis e maiores, agora no estado de São Paulo, numa região chamada Cantagalo, distante uns 25km de Campo do Meio. Mudaram-se todos para lá, João abriu um novo comércio mas o modo de vida da família continuou praticamente o mesmo. O Cantagalo era tão isolado do mundo urbano quanto o Campo do Meio.

A vida da menina Teresa não ia muito além da lida diária, ajudando o pai com a criação e a roça, e os afazeres domésticos, ajudando sua mãe com cozinha e costura. O que acabava quebrando a rotina eram as mortes, batizados e dias santos, quando o povo parava tudo, se reunia e celebrava em Campo do Meio. Mas também havia as missas de Natal e Páscoa, que o pessoal ia assistir na igreja em Paraisópolis. No dia da Missa do Galo, já de noite, saiam à pé de Campo do Meio um grupo grande de fiéis, percorrendo em silêncio os 18km até Paraisópolis. Quando chegavam na altura da Fazenda do Mogiano, antes de descer a serra, ao avistarem a torre da igreja toda iluminada, os homens tiravam os chapéus e cantavam com voz grave:

AVISTEI A CASA SANTA, ONDE DEUS FEZ A MORADA

LÁ MORA O CALIX BENTO E A HÓSTIA CONSAGRADA

Repetiam 3 vezes estas duas frases e prosseguiam viagem em silêncio. A menina Teresa ficava emocionada nessas ocasiões, eram momentos muito especiais, cheios de religiosidade e respeito. Mas naquele Natal de 1940, ela teria um motivo a mais para ficar emocionada. Acompanhando o cortejo silencioso, estava também o Salomão, um rapaz por quem ela, já há algum tempo, nutria um interesse especial. Pelos olhares que eles trocaram, Teresinha soube que o rapaz também ficou interessado por ela, mas não podiam ir além dessa comunicação platônica, sob pena de serem repreendidos pela moralidade vigente.

Durante anos, só se encontrando aos domingos e sem jamais terem falado um com o outro, mantiveram este vínculo apaixonado, até que um dia, por intermédio de terceiros, Teresinha ficou sabendo que Salomão ia embora para São Paulo. Ele se alistara no exército e iria morar na casa do tio, que era tenente. Isso abalou profundamente a adolescente, que pensou – “Meu Deus, ele vai para o fim do mundo, e agora?”. Não compartilhou com ninguém a sua dor e lamentou muito o fato de ser analfabeta, pois se ao menos soubesse escrever, poderia ter enviado um bilhete para o rapaz, expressando o seu amor… Quem sabe, assim, ele não tivesse mudado de idéia?

Salomão foi em busca de seu destino em São Paulo e, no coração de Teresinha, virou chama uma brasa que ela mantinha acesa desde criança, a de entrar para um convento e ser como aquelas imponentes mulheres de hábito escuro que ela via nas missas em Paraisópolis. Mas a idéia durou pouco, pois ao comentar seu interesse com a mãe, mudou de idéia tão logo esta lhe assegurou que todas as freiras tinham que raspar a cabeça. Teresinha não gostou da idéia de perder seus lindos cabelos compridos e com tempo acabou esquecendo do projeto.

Não muito depois da partida de Salomão para São Paulo, chegou na região uma equipe de serradores, para tirar tábuas das florestas de araucárias do Cantagalo. Entre os rapazes da turma havia um de nome João Fraga, que se encantou com Teresinha à primeira vista, ao conhecer a moça no velório de um anjinho. João Fraga não era de perder tempo e no dia seguinte mandou um bilhete dizendo que queria falar com o pai daquela que havia enchido seus olhos e inflado seu coração.

De acordo com o pedido, João recebeu o pretendente na sala de sua casa e Teresinha que não era boba nem nada, ficou atrás da porta escutando tudo. João entendeu que aquele moço sentado à sua frente e que estava há apenas 3 semanas trabalhando no Cantagalo, era um bom pretendente para sua filha e deu sua permissão para que João Fraga se casasse com ela. Teresinha, de dentro do quarto, sentiu um frio subir pela barriga e as pernas amolecerem. Ela nunca havia contrariado seu pai e não seria agora que iria faze-lo, mesmo que este tal de João Fraga não tivesse conquistado um unico milímetro do seu coração. Isso aconteceu no mes de janeiro e o casamento foi marcado para dia 2 de junho.

Todo esses meses Teresinha sofreu calada, mas tocou sua vida como se nada houvesse acontecido. Decidiu que era melhor casar mesmo, pois para ela, mais importante que tudo era ver o pai satisfeito. Aqueles não eram tempos em que a mulher tinha voz nem vez…

Os preparativos para o casamento Teresinha fez a contragosto, empurrada pela mãe. Foram a Paraisópolis e escolheram o melhor traje que encontraram, um vestido de seda patu, de cauda; se ela não estava feliz por dentro, por fora, ao menos, ela ia mostrar-se deslumbrante. Escolheram os melhores animais e na véspera do casório as duas mataram e prepararam 2 boas leitoas e 12 frangos bem cevados, para a janta que seria servida depois do casório, a ser realizado na igreja de Nossa Senhora de Santa Maria, na praça central do Cantagalo.

No dia do casamento, Teresinha sumiu da vista de todos e passou horas sozinha, rodando pelo pomar, pensando naquela pessoa que há alguns anos tinha ido para São Paulo se alistar; bem que ele podia aparecer antes do padre perguntar se ela aceitava João Fraga como seu legítimo esposo e mudar definitivamente o rumo de sua vida. Ainda dava tempo… Mas ele não veio e ela teve que encarar a dura realidade de se casar com um homem que não escolhera. Às lágrimas, com o coração saindo à boca, ela caminhou para a casa de uma amiga, que ajudou-a com o penteado e o vestido. Às 3h da tarde, quando o pai a conduziu ao altar, ela se sentiu caminhando em direção ao cadafalso…

Terminada a cerimonia na igreja, foram todos para a casa dos pais da noiva, onde foi servido um jantar simples; arroz, feijão, virado, frango ensopado e leitoa assada, tudo regado a suco de laranja, que nenhuma bebida alcoólica foi autorizada por João, para evitar brigas e confusões. Presente de casamento, Teresinha ganhou apenas uma panela de ferro, de sua irmã e uma máquina de costura Singer, do pai, evidenciando bem o que se esperava dela como esposa. Lua de Mel era algo impensável, dadas as condições austeras que eles viviam. Como agrado, os recém-casados puderam passar a primeira noite na cama de casal dos pais da noiva e foi na casa destes que viveram os dois anos seguintes.

Os pais de Teresinha abriram uma outra venda no Cantagalo, para lá mudaram-se e deixaram a filha e o genro morando em sua antiga casa e cuidando da fazenda. Com o casamento, a vida de Teresinha não mudou grande coisa, sua rotina era praticamente a mesma e ela continuava trabalhando igual a um homem. Só que agora, como esposa, ela tinha mais tarefas e mais responsabilidades, isto sem falar na nova vida que carregava em seu ventre. Seu primeiro filho, o Zito, veio ao mundo um ano e 4 dias depois do casamento, pesando 5kg e deu muito trabalho para nascer, foi preciso a ajuda de duas parteiras para que o menino saísse da barriga de Teresinha. Como sua mãe, ela seguiu à risca o costume de manter o recém nascido por 7 dias no escuro do quarto, sem tomarem banho, ela e o nenê, e guardou também a dieta de 41 dias, tendo comido um frango por dia durante este período, que ela mesma se dava o trabalho de matar e preparar.

Teresinha logo se deu conta de que seu marido era muito ciumento. João Fraga não gostava que sua esposa conversasse com ninguém. Isso era muito difícil para uma mulher como Teresinha, comunicativa e que gostava de negociar a venda da produção da fazenda. O clima entre os recém-casados não era nada bom. João nunca estava satisfeito e um dia chegou a levantar a voz com Teresinha, ao reclamar de um botão que estava faltando em sua camisa. Teresinha foi até o armário e pegou uma pilha de camisas limpas e passadas e botou em cima da cama, como quem diz: “Se nesta falta um botão, aqui tem uma dúzia de camisas perfeitas”. João não pensou duas vezes, pegou a pilha toda e jogou pela janela. Teresinha ficou vermelha de raiva, mas não disse nada, ela jamais proferiu um palavrão em toda sua vida, só de pensar em nome feio sentia um gosto ruim de sabão em sua boca. Mas com o pensamento ela amaldiçoou aquele homem com quem era obrigada a dividir o leito todas as noites. Nessas horas difíceis ela recorria à Mãe de Deus, a quem orava pedindo paciência e forças para seguir em frente.

Dois anos haviam se passado do casamento de Teresinha com João quando Salomão, vindo de São Paulo, entrou na cozinha da casa de Maria Teresa e anunciou que voltara ao Cantagalo para casar-se com Teresinha. Maria Teresa, com sua habitual frieza, respondeu:

__O senhor chegou atrasado. Teresinha já está a caminho do segundo filho. Passar bem!

Teresinha desmanchou-se em lágrimas quando ficou sabendo que seu antigo amor voltara ao Cantagalo, mas como era do seu feitio, sofreu em silêncio. Um sofrimento que se renovava todas as vezes que ela olhava pela janela da sua cozinha. É que Salomão fora morar com parentes, justamente numa casa que podia ser avistada da cozinha de Teresinha. Ela ainda pensou de fugir com o Salomão, mas teve muita vergonha do que o povo ia pensar e acabou desistindo da aventura…

Os filhos foram se sucedendo e, surpreendentemente, para um bebê que nascera tão fragilizado, Teresinha tinha muito leite para alimenta-los. Ela jamais preparou uma mamadeira para seus filhos e chegou mesmo a fornecer leite para bebes cujas mães não tinham o suficiente. Aos 21 anos, a saúde de Teresinha parecia melhor do que nunca. Mas um dia, depois de comer uma banana, uma dorzinha surgiu e foi crescendo do lado esquerdo de sua barriga, até crescer tanto que derrubou-a no chão. As crises foram ficando cada vez mais freqüentes e depois de um ano tentando combate-las com chazinhos de ervas, ela achou por bem ir a Paraisópolis consultar um médico. Lá, o médico chegou à conclusão de que era problema de vesícula e o tratamento recomendado foi a retirada de todos os dentes da doente. Não vendo outra saída, Teresinha fez o que o médico recomendou e ao cabo de um mes não restava um só dente em sua boca. Mas as dores continuaram, o que não impedia que ela continuasse trabalhando como sempre trabalhou.

Mais filhos foram chegando e Teresinha ia colocando-os para dormir na mesma cama em que ela e João dormiam, até para facilitar as mamadas. É preciso dizer que Teresinha não desmamava um filho quando nascia outro. O comum era que eles mamassem até 4 ou 5 anos, sendo que a mais nova mamou até os seus 9 anos. O marido, incomodado com o barulho que fazia a pequena multidão instalada em sua cama, passou a dormir em quarto separado e este arranjo não mudaria até sua morte.

Lá pelo terceiro filho, João Fraga achou que sua prole estava de bom tamanho e resolveu comprar, na vizinha Paraisópolis, uma novidade vinda dos Estados Unidos; as recém inventadas camisas-de-venus feitas de látex. Como se fosse um presente, entregou o pacote para Teresinha, que indignada com a idéia do marido, de interferir nos desígnios divinos, atirou as camisinhas no ribeirão que passava nos fundos da casa. Ao menos nesta questão, Teresinha é quem tinha a última palavra.

Se fosse por João Fraga, a família teria permanecido para sempre no Cantagalo, vivendo da terra. Mas Teresinha tinha planos, era ambiciosa e queria conhecer o mundo além da sua roça natal. Depois de muita insistencia e contrariando o marido, que a queria bem quieta e desempenhando o papel de dona de casa, eles acabaram abrindo uma venda no asfalto, a 20km do Cantagalo e para lá se mudaram. Os negócios não foram muito bem e João aceitou um convite de amigos, para ser administrador de uma fazenda em Piracuama, um bairro de Pindamonhangaba SP.

Piracuama não era longe de onde eles moravam, mas a mudança foi muito penosa, principalmente para Teresinha, que devido à vesícula ainda doente, enjoou muito no caminhão que fez a mudança. As estradas eram todas de terra e muito ruins nos idos anos 50. Nos trechos mais íngrimes das serras, era preciso descer e caminhar, pois era grande o risco do caminhão despencar da ribanceira.

Em Piracuama, o casal abriu uma outra venda e Teresinha é quem cuidava dos negócios, mas sempre sob supervisão do marido. Como de hábito, ela não parava nunca. Além de ficar no balcão, dava também conta da casa, mantinha uma horta grande nos fundos, costurava para fora, fazia salgadinhos, estava amamentando sempre dois ou tres filhos de cada vez (afora o leite que fornecia para os bebes de outras mulheres) e continuava fazendo filhos um atrás do outro. O ritmo era tão alucinante que quando se deu conta de que estava grávida de seu sétimo filho, este já estava há cinco meses em sua barriga! Teresinha nunca fez uma cesárea, todos os seus filhos, afora o primeiro, escorregaram para fora dela que nem se fossem feitos de sabão…

Depois de seis anos em Piracuama, tiveram que sair de lá por causa um desentendimento entre João e o patrão. Foram tentar a sorte numa beira de estrada, onde João construiu uma casa às pressas, nas cercanias de São Bento do Sapucaí. Lá botaram venda, mas desta vez nada deu certo. As crianças não tinha escola, Teresinha continuava com as crises da vesícula e os negócios de mal a pior; o que vendiam não dava nem para pagar os impostos e as contas.

Por esta época, quando a dor a derrubava, Teresinha fazia viagens para se tratar em São José dos Campos e nestas ocasiões se hospedava com os pais, que há anos tinham se mudado da roça no Cantagalo e viviam numa casa na Vila Rossi. Os confortos da cidade e a proximidade do atendimento médico especializado, certamente exerceram alguma influencia em Teresinha, que um belo dia declarou ao marido que não queria mais morar na roça e que se ele quisesse que ficasse lá morando sozinho. Dito e feito, ele lá e ela cá com os filhos, inauguraram uma nova fase no relacionamento do casal.

Se por um lado Teresinha se cercou de conforto, por outro não diminuiu seu ritmo de trabalho. Morando com os pais, continuou com as costuras e salgadinhos e abriu uma nova frente, “importando” frangos caipiras para vender nas feiras livres e no Mercado Municipal. João despachava os galináceos de madrugada, pelo caminhão do leite, ela os recebia em São José e os vendia com ajuda da filha Tita. Fazia gosto ver aquela mulher baixinha, carregando pelos pés meia dúzia de frangos em cada braço, acompanhada de uma menina que ia recebendo o dinheiro e fazendo troco.

Foi por essa época que ganhou fama de milagreiro em São José dos Campos, um tal Padre Rodolfo Komorek, que morrera recentemente de tuberculose. Compadecendo-se da filha, que volta e meia ia parar no Hospital Pio XII ou na Santa Casa, acometida de violentas crises de vesícula, João Batista insistiu que a filha fizesse um voto para o padre, pediu que ela fosse visitar as relíquias do padre ali no centro da cidade. Já havia muitos casos de curas atribuídas ao cura polaco, por que não tentar?

Teresinha, esgotada pelas idas e vindas aos hospitais e enjoada dos litros e litros de chá de picão que ela consumia no lugar do café, resolveu que não custava nada fazer a vontade do pai. Fez uma visita às relíquias e ofereceu uma novena ao padre, na intenção de obter a cura para a enfermidade que a afligia há mais de década. Se não obteve a cura total, depois disso seu estomago passou a aceitar comida sem vomitar e as crises deram uma trégua. Mas ela ainda iria penar por mais algum tempo, antes de se submeter a uma operação pelo INPS, que extirparia sua vesícula, pondo fim a vinte e um anos de sofrimento.

O arranjo do casal vivendo separado durou apenas alguns meses. Movido pela solidão e pela saudade, João cedeu à esposa e reuniu-se à família em São José dos Campos, onde foram todos morar numa casinha alugada na Vila Sinhá. Foram tempos eram difíceis para quem conheceu a abundância da vida na roça. João arrumou serviço como pedreiro avulso e o orçamento familiar era apertado e instável. Essa não era a vida que Teresinha sonhava para sua família. De modo que quando ela ficou sabendo que abriram um loteamento barato lá para as bandas do Alto da Ponte, juntou suas economias, pediu ajuda às duas filhas que já estavam trabalhando em fábricas e financiou dois terrenos que totalizavam 500 m2.

A prioridade passou a ser a construção de uma casa, para fugir do aluguel o mais depressa possível. A primeira coisa que fizeram no terreno recém comprado foi furar um poço, que por sorte deu água com poucos metros, já que o terreno ficava não muito longe da beira do rio Buquira. Com água farta e barro à vontade, fizeram uma tantada de tijolos de adobe, ela e o marido, e, num instante levantaram uma casinha de 3 cômodos, para onde se mudaram os 13 membros da família, tão logo o piso ficou pronto. Quem gostou da mudança foram as crianças, que ganharam largueza para seus folguedos. Naquela época, esta região era praticamente rural, não havia muros e o rio ficava ali nos fundos da casa, um pequeno paraíso para os petizes, com suas goiabeiras, araçazeiros e maracujazeiros daquele tipo que dá frutinho roxo, doce que só ele!

Não demorou muito e os Fraga foram ganhando novos vizinhos. A recente onda de industrialização da região fez a cidade inchar muito rápidamente e atraiu uma mão de obra de todos os cantos do Brasil. Muitos chegavam sozinhos e precisavam de apenas um quarto para se arranjarem, enquanto não conseguiam trazer a família toda. Teresinha, percebendo esta demanda, teve a brilhante idéia de construir alojamentos e alugar para esta gente. João não gostou muito da idéia, mas desta vez Teresinha se impôs e logo o casal início à construção do que viriam a ser sete apartamentos independentes. Sim, porque Teresinha não queria nenhum inquilino usando o banheiro da casa dela. De manhã, Teresinha despachava as crianças para a escola, cuidava do almoço e tão logo terminava o serviço da casa, ia ajudar o marido a assentar tijolo, fazer massa, desempenar parede, o serviço que fosse ela não enjeitava.

Os apartamentos iam sendo alugados à medida que ficavam prontos e, finalmente, a situação financeira da família logo começou a melhorar. A família viveu anos de relativo sossego, com todos contribuindo à sua maneira. Desde os maiores, que trabalhavam em fábricas, até os pequenos, que já com 10 anos de idade se empregavam como balconistas nas lojas do centro da cidade, num tempo em que ainda era permitido às crianças, trabalhar para complementar o orçamento familiar.

No ano de 1979, a infra estrutura do bairro do Alto da Ponte ainda era muito precária. Não havia asfalto nas ruas, o esgoto era a céu aberto e nem todos tinham dinheiro para pagar uma instalação de energia elétrica. Teresinha e João eram dos poucos que conseguiram uma ligação da Eletropaulo e forneciam energia para os vizinhos, através de gambiarras. Não era muito fácil medir a luz fornecida e isso era sempre motivo de confusão na hora de receber, o que fez com que João se enchesse das picuinhas dos vizinhos e desse fim ao arranjo, cortando os fios das gambiarras.

Na surdina e por vingança, os vizinhos obstruíram com cimento a passagem por onde escoava a água do terreno de João e Teresinha. Era época das chuvas e com a primeira tempestade ocorreu a tragédia: formou-se uma represa e as águas invadiram todas as casas que estavam dentro do terreno murado, estragando móveis e utensílios. Nas casas atingidas, pensou-se que a inundação era devida a uma tromba d’água ou coisa que o valha, jamais imaginaram o que os vizinhos tinham aprontado com eles. Como a água demorasse a baixar, foram procurar a causa e descobriram a maldade. Terezinha ficou possessa e armando-se de uma picareta, investiu contra o muro e foi quebrando até conseguir fazer toda a água vazar. Imediatamente, a vizinhança mandou chamar a polícia, para deter aquela senhora maluca que estava destruindo o muro a picaretadas. Foi um quiprocó. Baixou polícia, imprensa e o bando de curiosos que sempre aparecem nessas horas. Formou-se uma confusão tão grande que o incidente acabou virando matéria de primeira página no jornal Valeparaibano, com direito à fotografia de Teresinha, com cara de vitoriosa, empunhando sua picareta e apontando o buraco no muro! No final das contas, o poder público entendeu que os vizinhos estavam errados e os obrigou a consertarem o estrago…

João nunca se adaptou muito bem à vida na cidade e passou a beber mais do que seria aceitável para um pai de família. Não demorou muito ele caiu doente e ficou impossibilitado de trabalhar. Aposentou-se por invalidez e passava a maior parte do tempo em casa, na cama. Por esta época, Teresinha decidiu, mais um vez, que era hora de mudar de casa, pois os vizinhos nunca mais a deixaram em paz depois do episódio do buraco no muro. Por isso, venderam o local onde moravam, inclusive os cômodos de aluguel, conseguiram uma casa ainda por acabar no Parque Industrial, do outro lado da cidade e para lá se mudaram.

Já fazia tempo que Teresinha estava ensaiando aprender a ler e escrever,  mas o marido, ciumento, sempre encontrava um meio de demove-la da idéia. Contudo, agora que João estava acamado e sem forças, ela se sentiu livre para frequentar um curso noturno de alfabetização do Mobral. Assim, aos 57 anos, Teresinha entra, pela primeira vez em sua vida, numa sala de aula. Foram 3 anos estudando com afinco e ao final do curso, toda orgulhosa, recebeu o diploma das mãos do prefeito Robson Marinho, que à partir de então passou a ser incluído nas preces que ela fazia à Santa Terezinha, todas as noites antes de se dormir. O primeiro e único livro que ela jamais leu, foi a Vida de São Camilo de Lélis, pois logo depois de ter pego o diploma ela foi acometida por um derrame cerebral que faria com que ela esquecesse tudo que aprendeu durante os 3 anos de Mobral! Como se isso fosse pouco, morre-lhe o marido, seu companheiro de mais de 40 anos de estrada.

Mas Teresinha não é mulher de esmorecer. Há que tocar o barco, a vida continua! Resolvida a reaver o que o AVC lhe tomou, conseguiu uma cartilha infantil e convocou o seu netinho de 10 anos, o João, para que nas horas vagas ele a ensine a ler e escrever novamente. O próximo projeto é computador, que ela quer começar a aprender tão logo consiga decifrar as letrinhas do teclado.

Aos 84 anos, planeja viver até os 105 ou 110 anos, quando calcula que já terá feito o suficiente e possa passar para o lado de lá com a sensação de missão cumprida. Diz ela que se encontrasse um homem forte e saudável, ainda queria fazer mais filhos, mas, segundo Teresinha, este tipo de homem está em falta no mercado…

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No texto, chamei dona Teresa de Teresinha, para não confundir com sua avó e mãe, que também tinham Teresa em seus nomes.

Para redigir esta pequena biografia, tive que voltar muitas vezes à casa de dona Teresa e acabei me afeiçoando por ela e sua grande família. Foi um grande prazer realizar as gravações com esta mulher tão divertida e cheia de vida. Sua casa é um grande coração, que além de acolher os filhos de sangue, tem sede de adotar aqueles que não fazem questão de ter mais de uma mãe neste mundo, entre os quais eu me incluo.

Cada vez que saio de sua casa, carrego comigo um presente, que não advém somente do prazer do encontro, mas se materializa num biscoito polvilho, num tempero pronto, numa coxinha que ela mesma prepara e faz questão que eu leve para minha casa.

Dona Teresa faz troça do fato de eu recusar o seu café, não por ser o dela, mas por causa da cafeína que me ataca os nervos. Na roça isso é considerado uma desfeita! E em vez de café ela pergunta se o “nene” quer tomar um chazinho… Quando eu aceito, lá vai ela apanhar um macinho de hortelã, no exíguo corredor ao lado da casa onde cultiva seus temperos, couves e até algumas frutas de árvore. O mesmo corredor em que ela faz subir, no mes de julho, um mastro enorme com uma bandeira tripla espetada lá em cima, em homenagem a Santo Antonio, São João e São Pedro, do mesmo jeito que ela fazia com o marido João, na sua saudosa Cantagalo, 60 anos atrás.

A festa de Dona Teresa é no mes de julho e não em junho, como manda a tradição. Se você quiser saber o motivo, leia esta história abaixo, que escrevi quando do meu primeiro encontro com ela.

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             Festa Junina da Dona Teresa

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens de sua festa, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

 Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos a um festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

 

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.


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