Posts Tagged ‘amor’

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

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Obrigado, pai!

janeiro 3, 2015

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Meu pai se foi faz menos de um mês. Apesar de ter convivido com ele por 57 anos, foi só depois de sua morte que me dei conta, em conversas com irmãos, amigos e folheando álbuns de fotos, de que havia muitos aspectos sua vida que me eram estranhos. O que eu menos conhecia dele era seu lado militar e o peso que isso teve em sua vida.

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Na verdade, eu entendo que meu pai foi um artista que se reprimiu, traiu seu sonho e preferiu atender o desejo de seus pais ou do meio em que viveu. Foi ser engenheiro, mas não escolheu qualquer escola, foi cursar a melhor na época e formou-se na segunda turma do ITA.

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Talvez ele pensou que como artista não fosse fazer dinheiro para sustentar uma família ou não teria o reconhecimento que almejava para si… não sei. O fato é que ele sempre tirou fotos muito boas tecnicamente, tinha um olhar particular, mas sempre para registrar em imagens, ou sua carreira profissional ou a vida familiar. Vivia construindo objetos sem função e fazia troça de si mesmo, depreciando sua própria expressão artística. Projetou brinquedos e até chegou a montá-los em série na sua fábrica em São Paulo.

Enfim, foram as escolhas que ele fez.

Mas eu, como filho, nunca vi nele um pai engenheiro, um pai militar ou empresário que montou uma fábrica de peças para aviação, logo que terminou o ITA. Eu vi sempre o homem, o artista, o caipira que fazia horta no fundo do quintal de nossa casa em São Paulo. Quando ele assumia seu lado engenheiro, era como se deixasse de existir, ficava invisível para mim e assim foi até sua morte.

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Hoje, folheando seu álbum de fotos, vejo como ele se orgulhou da curta carreira militar e de tudo que envolvesse a indústria aeronáutica. Percebo, também, o quanto minha vida foi determinada pelas escolhas dele e o quanto eu aprendi com ele. Não fosse sua ligação com o CTA, eu não teria tido o privilégio de morar nesta ilha da fantasia, que tantos horizontes me abriu. Não fosse a fotografia, sempre presente em nossa vida familiar, com Leicas, Nikons e Yashicas, eu talvez não tivesse despertado tão facilmente para a arte que hoje é o meu ganha pão e me realiza.

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De modo que, Wilson Ruiz, onde quer que você esteja, agradeço você ter sido a pessoa que foi, exatamente do jeito que foi, pois me permitiu ser o que eu sou, exatamente como eu sou, hoje. Porque, por mais engenheiro que você fosse, eu só conseguia ver o artista e sua arte…

Obrigado, pai!

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PIRACÁ, SACI E NOVOS AMIGOS

setembro 2, 2014

 

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Uma das coisas mais gostosas da vida do pesquisador de campo é quando brota uma amizade à partir do inevitável convívio entre invasor e invadido. Foi o caso com a família do casal Agenor e Nilza, dois menestréis da nossa música caipira que moram ao lado da linha do trem, na quase rural Vila Teresinha.

Conheci os dois ano passado, ao fazer as fotos para o 23º Caderno de Folclore, editado pelo Museu do Folclore de São José dos Campos. Neste primeiro encontro já nos gostamos e houve convite para uma outra visita sem cunho profissional. Ensaiei várias vezes ir à casa deles mas sempre aparecia um contratempo de última hora. Quando nos encontrávamos em eventos da cultura, o convite era refeito e eu me sentia em falta com eles.

Semana passada recebi uma intimação de dona Nilza por telefone, que me jogou uma isca irresistível. Estava visitando sua casa uma irmã septuagenária, dona Zilda, que tinha histórias do arco da velha para me contar. Sim, se eu quisesse poderia gravar tudo e ela ainda nos receberia com um café da roça e um bolo de fubá sem farinha de trigo, pois ela sabe que minha esposa é alérgica a glúten.

A Vila Teresinha é uma pequena ilha de casas, situada entre a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil e o banhado do Rio Paraíba. As moradias são simples e cada vez que vou ao bairro, a impressão que tenho é a de cheguei num oásis, um lugar que resolveu descansar da correria da moderna São José dos Campos. São casas antigas

A maioria das casas do bairro tem seu jardim ou vasos com plantas medicinais. É um boldo, um guaco, um capim-limão, um bálsamo, um piracá, essas coisas que não faltam na casa de gente que ainda ontem estava na roça. Até na praça do bairro há plantas de chá e eu mesmo já fui até lá com a única finalidade de colher alguns galhos do alumã, também conhecido por boldo baiano, ótimo para o fígado.

Na casa de Agenor e Nilza, além dos chás, há também uma pequena horta de 10mX1m onde eles plantam até milho e feijão!

__”A gente pranta porque gosta, de teimoso, porque a produção mêmo é poca…”, diz seu Agenor.

Às 14h chegamos à casa dos amigos e só conseguimos sair de lá às 18h. Não vimos o tempo passar. Foram quatro horas com muita música, contação de causos, lendas e depoimentos da vida sofrida que eles tiveram na infância e adolescência.

Dona Zilda nos contou que aos 13 anos de idade teve que fugir de casa para ir ao encontro do grande amor de sua vida. O pai já havia arranjado o casamento da filha com outro pretendente e não admitia ser contrariado. A notícia do desaparecimento correu mundo, deu até na rádio e não demorou, Seu João, um matuto que andava sempre armado, foi resgatar a filha em Pindamonhangaba, dentro do quartel, que era onde estava Agostinho, o soldado que havia mexido com o coração da menina. O encontro foi tenso, mas graças ao bom senso do rapaz, que também estava armado, não houve derramamento de sangue. Os dois se entenderam, o soldado entregou a menina intacta e quatro anos mais tarde casavam-se Zilda e Agostinho.

Cada ato de desobediência era seguido de chicotadas, que nunca impediram que os filhos continuassem desacatando as ordens do pai. Certa feita, a menina Zilda resolveu comer escondido as bananas verdolengas que amadureciam dependuradas sobre o fogão de lenha e por azar o cacho todo veio ao chão. A punição paterna foi que a menina comesse todo o cacho, incluído o talo central…

Os irmãos todos tinham que ajudar nas lidas da casa e sofriam mais que os vizinhos, que pelo menos aos domingos e dias santos tinham folga para divertirem-se. Os pais de Zilda e Nilza não professavam nenhuma religião e assim, cada dia era igual a todos os outros, ou seja de muito trabalho. Levantavam sempre de madrugada e só iam descansar no colchão de palha de milho quando tivessem cumprido todos os deveres. O único momento em que se relaxava era quando seu João resolvia tocar sua sanfona ou viola. Todos cantavam, acompanhando o pai, o tempo parava, o velho amolecia o coração e se esquecia momentaneamente do seu papel de carrasco.

Parece que a música estava no sangue desse povo pois todos vieram a se tornar músicos quando adultos. O casal Nilza e Agenor se conheceu através da música e isso os une até hoje. Apresentam-se em programas de rádio e eventos de música sertaneja, tocam e cantam pelo prazer de tocar. Com orgulho, nos mostraram diversas gravações dos programas que tem feito pela cidade e Vale do Paraíba. Quando descobriram que minha esposa toca e canta, mandaram pegar um violão e quiseram ouvi-la. Daí por diante foi uma festa só, o violão só descansou quando os pasteizinhos ficaram prontos e fomos para a cozinha comer…

 

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Quando Zilda se casou e foi morar em outra cidade, as tarefas da casa passaram a ser da Nilza, já que dona Virgínia, a mãe, também trabalhava na Tecelagem e não tinha tempo de cuidar de nada. Conta ela que quando foi destroncar o primeiro frango, seus bracinhos eram tão pequenos que não conseguiram realizar a tarefa. Ela tentou até enforcar o bicho com as mãos, o sangue jorrava pelos olhos mas nada de ele morrer. Só foi conseguir matá-lo quando teve a ideia de colocar o pescoço da pobre ave debaixo de um cabo de vassoura sobre o qual ela deu vários pulos…

Dona Virgínia era mulher exigente com a roupa, que também sobrou para Nilza lavar. O processo era demorado e complicado naqueles tempos. Era preciso esfregar cada peça com melão de são caetano, uma planta trepadeira que ajuda a limpar o tecido. A roupa fica toda verde quando se esfrega com essa trepadeira, mas basta uma enxaguada e ela fica livre da sujeira mais renitente. Antes da última lavada se colocava o anil, um pozinho azul que era diluído na água e punha-se as roupas no sol para quarar. Dona Virginia tinha olhos de lince e se não estivesse a contento dela, fazia a filha repetir todo o processo, lavando tudo novamente…

Num dado momento a conversa pendeu para o lado das histórias de assombração. Segundo Agenor, naquele tempo era comum ver essas coisas que o povo acha que é lenda ou invencionice dos velhos. Ele mesmo já viu lobisomem, saci, espíritos que sobrevoam as pessoas que passeiam depois da meia noite, mas conta que nunca teve medo, que se acostumou a conviver com isso…

__”Quando a gente conta essas histórias hoje, a juventude pensa que é mentira, invenção do povo mais velho, eles dão risada… mas eu agaranto que era verdade, a gente convivia com essas coisa… Ocê já ouviu o assovio do saci? É um barulho insuportável quando eles fica tudu muntuado na pontinha do bambuzeiro, esperando os cavalo passa pra eles amuntá. Dia seguinte pode oiá, as crina dos animá tá tudo trançada pela sacizada… Uma trança que ninguém consegue distinguí como que foi feito… O saci é danado… ”

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Quando Agenor já tinha esgotado seu estoque de causos de assombração, Nilza comentou que quem tinha histórias boas era dona Virgínia, sua mãe. Pela idade das filhas, imaginei que dona Virgínia já não estivesse entre nós e perguntei se as filhas não poderiam contar o que lembrassem. Nilza arregalou os olhos e disse se eu quisesse podia ouvir da boca da mãe. Na hora me veio à mente uma sessão espírita, mas nem deu tempo de completar o quadro em minha mente, pois Nilza explicou que a mãe estava no quarto dos fundos e só não estava ali com a gente porque quebrara o fêmur dias atrás.

As filhas foram, então, chamar a mãe. Dona Virgínia saiu do quarto com seu andador e foi até o sofá da sala. Muito arrumada, cabelos penteados e unhas feitas, nota-se que foi e ainda é uma mulher que não quer passar despercebida. Pergunta quem somos nós, o que fazemos, onde moramos, se interessa por tudo que acontece. Às nossas perguntas sobre histórias de assombração ela responde contando da vida das filhas. Nilza e Zilda se entreolham e me cochicham que a mãe está “azeda”, talvez um outro dia saia alguma história, hoje ela não está para responder perguntas, não… Mas eu tinha uma pergunta ainda, que não queria calar. Qual a idade de dona Virgínia? Perguntei diretamente para ela, que abriu as duas mãos em frente ao meu rosto.

__”Cem anos, faz dois mês que eu completei 100…”

 Fiquei espantado com a vitalidade da anciã. A mente podia não estar 100% mas era evidente que à minha frente estava uma pessoa que transbordava vida. Perguntei se ela tinha alguma doença se tomava algum remédio, ao que as filhas responderam:

__”Toma nada, essa aí tá melhó qui nóis. A médica vem toma a pressão dela, tá 12 por 8… as doença ela deixou tudu prá nóis, não ficou com nenhuma…” e deram risada dá má sorte delas!

 

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Zilda propõe então nos mostrar a varanda onde ela ficava esperando Agostinho passar de trem, nos fins de semana. O soldado acenava com o bibico nas mãos e o seu coraçãozinho de adolescente batia mais forte no peito. Zilda começa a desfiar memórias daquele tempo e eu aproveito para tirar fotos das irmãs sentadas ao lado de minha esposa que também embarca na nostalgia.

 

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Ao lado do banco onde as mulheres estavam sentadas, há um pé de piracá. Eu peguei uma folha, amassei e cheirei. Nilza então disse:

Tomá remédio a mãe num toma, mas esse é um chá que a mãe usa todo santo dia sem faiá…”

__Ela faz chá com piracá? Não sabia que era de tomar também, pensei que fosse só pra passar no corpo…

__”Nada, a mãe mastiga umas foia de piracá, ela come memo…

Não pensei duas vezes, apanhei uma folhas e coloquei na boca. Mal não pode fazer, pois se dona Virgínia que tem cem anos come todos os dias… Um gosto amargo, mas não desagradável, encheu minha boca. Um pensamento amargo e desagradável perpassou minha idéia. Essa mulher só está forte e rija porque não toma nenhum remédio… Vou providenciar um pé de piracá para poder mastigar umas folhas todos os dias…

 

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VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

maio 20, 2014

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Semana passada estivemos visitando a charmosa São Bento do Sapucaí, uma pequena cidade do estado de São Paulo que é praticamente um enclave paulista em Minas Gerais, já que não se chega até lá pelo asfalto sem antes cruzar o solo mineiro.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, ruas com calçamento de paralelepípedos, muitos casarões ainda preservados, charretes e cavalos trafegando livremente, a cidade tem uma atmosfera pacata e deliciosamente interiorana.

A visita deveu-se a um convite que nos foi feito, à minha esposa e eu, para entrevistar um lavrador octogenário, que aos 75 anos passou a frequentar o Mobral e com muito esforço se alfabetizou, porque tinha uma vontade imensa de ler os “foiêto da missa”. Seu Tião Tino não é apenas lavrador. Enquanto prepara suas roças de milho, feijão e abóbora, vai compondo versos em sua cabeça e tem até um livro editado com seus poemas.

 

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Feliz coincidência, ficamos sabemos que nos dias de nossa estada em São Bento, haveria uma tradicional Congada no Bairro do Quilombo, na região rural da cidade. Dois pratos cheios para um pesquisador!

Ao chegarmos à cidade, instalamo-nos numa pousadinha perto da Igreja Matriz e partimos para o reduto de seu Tião Tino, onde ele vive com sua filha, genro e netos. Chegamos juntos à sua casinha na encosta de um morro muito íngreme, nós motorizados e ele à cavalo. Ele tinha ido à cidade buscar sal para o cavalo e não pareceu nem um pouco cansado de ter feito os 6km debaixo de um sol forte.

Mal apeou ele já desandou a falar; sobre a seca brava que está assolando a região; sobre o cultivo  orgânico que ele pratica; sobre as sementes que ele vem preservando; sobre suas devoções, a Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião e principalmente sobre os poemas que ele faz quando Deus o inspira.

 

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Ficamos mais de 3 horas com este homem e ele passou praticamente este tempo todo de pé, respondendo nossas perguntas. Mostrou tudo que pode em seu sítio, pegou na enxada para que eu o filmasse e ainda matou um frango para a janta que sua filha Carmen nos preparou. Um arroz com feijão, salada da horta e o frango caipira daqueles que quem não tem bons dentes não consegue comer…

Teríamos ficado horas conversando com seu Tião, ele inclusive nos convidou para pousar, mas o trabalho do dia seguinte nos obrigou a voltar naquela noite mesmo. De lembrança do nosso encontro trouxe algumas sementes de feijão “espírito santo” que ganhei de seu Tião, um curioso grão branco que tem estampado um desenho em vermelho do Divino Espírito Santo e do qual eu nunca tinha ouvido falar.

 

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Já na pousada, depois de descarregarmos as imagens e recarregarmos as baterias, resolvemos sair para dar uma olhada na Festa de Santo Expedito que estava acontecendo na praça da Matriz. Que decepção! Esperávamos doces e comidas da região, mas só encontramos à venda uns tristes cachorros quentes, anêmicos churros, um desenxabido bolo floresta negra e um mais que comum pudim de leite condensado. O que teria acontecido com as comidas tradicionais? Não pudemos nem perguntar, pois vindo de enorme palco que ocupava metade da praça, um evangelizador pagode funkado invadiu nossos delicados ouvidos e nos expulsou dali…

Fiquei imaginando como poderiam dormir os pobres mortais,  vizinhos deste mega evento…

Dia seguinte partimos para o Bairro do Quilombo, cuja história ainda não consegui apurar ao certo. Parece que o local teria sido um quilombo e que depois a Igreja, proprietária das terras, entrou em acordo com os moradores que hoje lá habitam mas não são os donos.

 

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Nosso contato era dona Luzia, uma simpatissíssima senhora de 82 anos, descendente de escravos, que nos recebeu e contou que a Festa do 13 de Maio, na qual acontece a Congada, era feita por sua avó, que passou para a mãe de dona Luzia e hoje quem organiza tudo é ela.

 

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Segundo dona Luzia, a festa que acontece nos dias de hoje não difere em nada dos tempos que ela era criança. Há as novenas nos 9 dias que antecedem a festa, as celebrações e a missa na Igreja da Imaculada Conceição, a procissão com as bandeiras, os Moçambiques e as Congadas, o almoço, a distribuição de doces caseiros e finalmente o forró na parte da noite.

Tudo isso é organizado por dona Luzia, que recebe as doações de carne, mandioca, frango, farinha e as frutas para os diversos doces, todos preparados de maneira tradicional, no fogão de lenha em sua casa. O que é recebido de graça é dado de graça no dia da festa, não se cobra um tostão por nada do que é distribuído.

Não é uma logística simples, preparar comida para as mais de 1000 pessoas que formam fila com seus pratos e potes de plástico trazidos de casa. O cuidado e o carinho na preparação ficaram evidente na qualidade da comida e dos doces. Minha esposa e eu comemos de tudo um pouco e posso dizer que estava tudo muito saboroso.

Impossível não comparar esta Festa do 13 de Maio com a festa de Santo Expedito que acontecia no centro da cidade. Na roça tudo se distribui de graça enquanto que na cidade tudo é pago. Esta se contaminou com comidas e músicas alienígenas, enquanto que aquela faz questão de preservar a tradição. Numa eu vejo a beleza da humildade e da devoção enquanto que na outra há a frieza do dinheiro e do poder, ao usar de maneira impositiva a praça pública.

 

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Foi emocionante ver a Congada de Gonçalves MG, tocar dentro da igreja, louvando São Benedito e Nossa Senhora de Fátima e o povo beijando com muito respeito as bandeiras em frente ao altar. Os cânticos das congadas louvam também a Princesa Isabel, que teria sido a redentora dos escravos. Esta festa é justamente para comemorar o fim da escravatura.

Embalado pelo clima da festa, estava achando tudo maravilhoso, me achando no melhor dos mundos, que havia realmente uma libertação sendo comemorada, quando vejo a rainha de um dos congados ostentando orgulhosamente uma camiseta com os seguintes dizeres: MEU PAI, UM PRETO COM ALMA DE BRANCO. O pai que os dizeres da camiseta faziam referencia foi o fundador da Congada de Gonçalves.

Fomos embora tiritando de frio, depois do balde água fria.

 

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PASSEIO NA ROÇA

maio 11, 2014

 

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Saímos, minha esposa e eu, a passear sem rumo certo, pelas estradas de terra no entorno da pousada em que estávamos hospedados em Soledade de Minas MG.
Não andamos mais que 1km quando uma casa sombria, cercada por ciprestes e com ar de abandono nos atraiu a atenção. Passamos pelo portão de madeira, que estava aberto e passamos a explorar a casa pelo lado de fora.

Pelas vidraças pudemos ver que havia móveis, fogão, geladeira e algumas caixas de papelão empilhadas. Tudo indicava ser uma casa de campo utilizada esporadicamente por gente da cidade. Sentamo-nos na varanda, que dava para um bosque e nos imaginamos morando ali. Soprava um vento fresco. De olhos fechados e em silêncio, permanecemos um tempo que pareceu infinito.

O bosque em frente à varanda nos convidou para um passeio. Atendemos o chamado e descobrimos um caminho bem cuidado na parte mais baixa do bosque. Um caminho pede para ser percorrido, foi o que fizemos.

Não muito longe havia outra casa sem morador. À frente da casa um imenso gramado. No meio do gramado uma pirâmide de bambú. O local era mágico. Sem pensar, nos colocamos debaixo da pirâmide e nos energizamos. Havia magia no ar. Voltamos para a estrada principal.

Duzentos metros mais à frente, mais uma casa que parecia sem morador. Desta vez era evidente que se tratava de uma casa de gente da roça, pelo tipo de plantas no jardim, pelo paiolzinho esburacado e pela falta de árvores no pasto contíguo.
Já estávamos planejando entrar quando apareceu uma mulher caminhando pela estrada. Tratava-se da dona da casa. Conversa vai, conversa vem, ficamos sabendo que a mulher, dona Anésia, faz artesanato de palha de milho. Ficou encantada ao saber do meu interesse em fazer um video com o registro de seu trabalho. Gostou tanto da idéia que desmarcou um compromisso e agendamos a filmagem para o dia seguinte.

Seguimos adiante e avistamos uma porteira com uma placa com os dizeres: VENDE-SE ESTE SÍTIO. Batemos palmas e enquanto não nos atendiam, fizemos planos de nos mudar para o sítio. Veio até a porteira um senhor de seus 70 anos acompanhado de dois cachorros.Ele nos informou que o sítio não era aquele, mas sim terreno a alguns quilômetros dali. Enquanto eu assuntava com o velho, minha esposa foi ao pomar e apanhou laranjas azedas que estavam caídas ao pé da laranjeira. O velho ficou contente que alguém tivesse apanhado as laranjas, disse que estavam perdendo mesmo.

Seguimos um pouco mais adiante e minha esposa disse que queria voltar porque estava com vontade de fazer xixi. Eu apontei o mato da beira da estrada. Ela me disse que nunca havia feito xixi no mato e eu, muito surpreso por saber que uma pessoa de 52 anos nunca tinha feito xixi no mato, respondi que sempre existe a primeira vez. Ela me disse que tinha medo de cobra. Eu disse que ficava perto dela e a protegeria das cobras enquanto ela fazia xixi.

Fomos até um bambuzeiro e ela se agachou mas nada de sair o xixi. Ela falou que não ia conseguir, tinha que voltar para casa. Eu tive a idéia de que se ela se sentasse em minhas pernas, como se estivesse em um vaso sanitário, poderia relaxar e soltar o liquido. Deu certo, ela conseguiu nesta posição.

Continuamos o caminho mais algumas centenas de metros, mas o sol forte do meio do dia nos intimou a dar meia volta.

O ar estava abafado, era época da Quaresma e eu falei sem pensar que era bem provável que encontrássemos uma cobra em nosso caminho. Dito e feito, não deu 5 minutos e se não fosse eu agarrar e puxar os braços de minha esposa, ela teria pisado em cima de uma boipeva de mais de metro de comprimento.

Minha esposa deu um berro e grudou em mim. Eu pedi que ela se afastasse para não assustar a cobra e passei a tirar fotos com uma câmera do celular dela. Um cachorro que nos acompanhava, sem mostrar medo, acabou tocando a cobra que fugiu para o mato em frente da casa dos ciprestes.

A boipeva não é uma cobra venenosa, mas assusta e quando se vê acuada ela dobra de volume e se achata no solo, parecendo muito maior do que é. Decerto é algum mecanismo de defesa. Minha esposa me perguntou como é que eu sabia que íamos encontrar a cobra. Eu disse que não sabia, apenas senti que ela ia aparecer e ela apareceu. Minha esposa passou a usar botas depois deste encontro com a cobra.

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No dia seguinte fomos à casa de dona Anésia fazer o vídeo. Havia muitos parentes dela, talvez informados que a TV faria filmagens. Dona Anésia serviu café de coador, bolo de fubá caseiro e todos os parentes dela ficaram olhando a entrevista muito comportados. Foi um momento importante na vida deles e na nossa. É sempre emocionante presenciar a inocência e pureza das pessoas da roça, principalmente quando se sentem valorizadas pelas pessoas da cidade.

Fizemos um video didático sobre o trabalho de dona Anésia e prometemos voltar à casa dela para entregar um DVD com o filme. Ficamos sabendo por intermédio um amigo, o dono da pousada, que dona Anésia até já comprou um aparelho de DVD para assistir ao video.

 

 

 

Dona Cida e as Saúvas

maio 4, 2014

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No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em viagem de estudos pela América do Sul, teria ficado assustado diante do poder destrutivo deste inseto, o que o levou a afirmar que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

A saúva já foi considerada um dos maiores flagelos da agricultura brasileira, mas isso num tempo em que ainda não existiam os eficientes formicidas que hoje exterminam as colônias deste inseto como num passe de mágica.

As saúvas são capazes de pelar uma árvore em questão de horas, dependendo do tamanho da colônia. Por isso, quem tem um formigueiro no seu jardim ou lavoura, não pensa duas vezes. Vai a uma “casa rural”, escolhe um veneno qualquer e dá fim neste inseto que aos olhos da pessoa comum só causa estragos. Mas aos olhos de minha amiga Cida, as coisas se passam de uma maneira um pouco diferente. Dona Cida jamais mataria a saúva, muito pelo contrário, ela “planta” sauveiros!

Deixem-me explicar. Dona Cida mora na periferia da cidade de São José dos Campos, onde ainda tenta manter o modo de vida rural de sua infância e adolescência. Num terreno de 5000 m2 ela ainda cria galinhas, mantém uma horta, planta seus remédios, cuida de um pomar e tem uma pequena roça onde convivem pés de cana, abóbora e mandioca, tudo muito bem cuidadinho e limpo.

Da última vez que fui visitá-la, reparei que havia um pé de jaca muito judiado, quase sem folhas. Perguntei a ela se era a saúva a responsável pelo estrago na fruteira.

__É elas mesmo, Chico, eu deixo elas comerem as fôia da jaqueira.

__Mas dona Cida, a senhora vai deixar as formigas acabarem com o pé de jaca? Por que não mata elas?

__Matá as formiga? Deus que me livre! Eu tô é prantano elas! Enquanto que o povo qué acabá com elas eu semeio oiêro de saúva, pra modi elas não acabá!

__Como assim, dona Cida? Explica melhor essa história de “plantar saúva”. Saúva é bicho, não é de plantar!

__Ah, Chico, quando ocê pranta não faz um buraquinho e enfia a semente? Pois então, quando eu pranto a saúva é a mema coisa. Eu faço o buraquinho e coloco ali a tanajura, pra formá a casa delas.  

__E pra que a senhora quer semear uma praga que todo mundo quer acabar?

__Por que eu adoro comê içá, uai! E com esse povo todo matano as saúva, daqui a pouco elas vai sumi, então eu planto elas aqui no meu quintá… E dô di comê a elas com as fôia da jaqueira, que a jaca eu não posso com ela mêmo, então dêxa elas comê a árvi… 

A resposta de dona Cida me surpreendeu e me fez lembrar que a saúva é um inseto que está no planeta há muito mais tempo que o homem, um recém chegado de vista curta. Sem pensar na função ecológica que tem a saúva, sem falar que a própria formiga serve de alimento a muitas populações, queremos eliminá-la porque imaginamos que ela ameaça nosso modo de vida atual, nossa agricultura baseada na monocultura.

Mal sabem os que matam as saúvas, que estes insetos trabalham para a regeneração da flora e não o contrário, como pode parecer à primeira vista. Esta espécie, quando se reproduz, procura terrenos degradados para iniciar uma nova colônia. Revolvendo a terra e trazendo para a superfície o subsolo, ela acaba favorecendo o desenvolvimento de sementes que se tornarão plantas e árvores, as quais servirão de alimento para elas e para nós humanos também.

E mais, existem animais que vivem dos dejetos das saúvas e que também contribuem para a nitrogenação do solo, aumentando a fertilidade do mesmo. Ou seja, há toda uma intrincada cadeia de plantas e animais que dependem do trabalho das saúvas para continuarem existindo. Exatamente como fazem as abelhas e moscas polinizadoras, sem as quais não haveria os frutos que comemos, as formigas semeiam a vida no solo.

Dona Cida, com seu corpinho magro e ágil e forte como uma formiga, provavelmente não pensa em nada disso quando “semeia” sauveiros, mas talvez intua a importância que tem as saúvas para o equilíbrio do planeta.

Arrisco dizer que Saint-Hilaire estava equivocado em sua afirmação. Acabar com a saúva pode ser o mesmo que acabar com o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

Dona Maria da Luz

março 21, 2014

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Se perguntada, dona Maria da Luz vai dizer que é católica e que escuta a voz de Nossa Senhora Aparecida falando com ela, mas que não freqüenta missa, “que hoje em dia as missa muito baruienta, não tem mais aquelas música bonita de antigamente. Como dizia minha avó, a verdadeira fé a gente exerce entre quatro parede…”

“Já ajudei muita gente na hora da precisão, mas só ajudo quando Nossa Senhora me assopra no ouvido… “Vai, Maria, vai que ocê pode ajudá tar e tar pessoa. Ela fala no meu ouvido e então eu faço uma prece e uma promessa e as coisa se resorve por meio do poder dela.”

“Uma vez ela me falou que eu podia ajudá no acidente do Ulisses Guimarães, que eu podia salvá o seu Severo Gome, mas eu fiquei com vergonha de acharem que eu era doida, daí eu fiquei quieta. Mas só dessa vez eu não ajudei…”

“Eu ajudo de noite também, saio do corpo, esse corpo magrelo que ocêis tão veno, e vôo por aí atendendo quem precisa. Tem uns que não tem nem como ajudá, esses eu deixo pra lá, mas quem tem condição eu ajudo. Eu não falo com as pessoa, elas não me vê, mas eu entro na cabeça delas e elas faz o que eu digo pra elas fazê e elas pensa que foi um anjo quem ajudô, mas era eu…”

“Tem veiz que eu escuto os pensamento das pessoa. Elas tão dizeno uma coisa com a boca, mas para mim elas conta otra, compretamente diferente. Mas eu não posso falá nada, tenho que que nem um padre, escutá e ficá quieta”.

Um dia, quando jovem, a mãe ficou furiosa com a filha e a chamou de Maria Louca, porque ela, por caridade, dera um saco de 60kg de mandioca para uma família que apareceu pedindo na estrada. O pai, vendo o desespero da filha com a repreensão, chamou-a num canto e explicou que eles eram descendentes de D. João VI e que a mãe de Maria da Luz tinha certeza que ela era a encarnação da mãe de D. João VI e mais, que eles eram descendentes do monarca. Mas que ela não comentasse isso com ninguém, sob risco de ser ridicularizada, pois quem acreditaria que uns pés rapados como eles poderiam ter alguma ligação com a nobreza portuguesa?

Isso tudo eu escutei da boca da própria dona Maria, na cozinha de sua casa, em companhia de minha esposa. Tínhamos ido buscar um balaio que havíamos encomendado e ela, com sua conversa cativante, foi nos envolvendo e acabamos ficando horas ouvindo suas histórias. O que aqui relato é apenas uma parte do que ouvimos.

Dona Maria da Luz é muito prendada, sabe fazer de tudo que se faz na roça, tanto serviço de homem como de mulher. Faz qualquer objeto de taquaruçú, sabe domar um boi, matar um porco e pega na enxada e na foice como se fosse um peão. Hoje ela mora na cidade e, entre outras coisas, faz artesanato para sobreviver, que a aposentadoria do marido não dá para o gasto. O artesanato que ela faz é evidentemente coisa da cidade e eu perguntei com quem ela aprendeu, se tinha sido em algum curso.

“Comigo mesma, aprendi sozinha!”

“Mas viu alguém fazendo e fez igual?”

“Não, seu Chico, eu aprendi comigo mesma! De noite a minha cabeça me ensina e de dia eu faço o que ela me ensinô!”

Fantástico, pensei comigo mesmo! Essa mulher é um fenômeno da natureza!

Dona Maria da Luz nos serviu um café e nos fez degustar um broto de bambú que ela mesma havia preparado. O café, apesar do exagero de açúcar, estava surpreendentemente muito gostoso e o broto de bambú, apesar de salgado demais, estava tenro e saboroso. Perguntei a ela se não ia nos acompanhar no café.

“Não, meu filho, eu não posso comê quase nada, se eu comê eu estufo que nem um sapo boi. Quarqué coisa que cai na minha barriga explode.”

“Como assim, dona Maria? O que a senhora come, então?”

“Ah, de vez em quando eu como um salgadinho, tem que ser comida que não foi cozinhada com água. Se bem sequinha eu posso comê, mas tem que sê poco, senão explode, eu boto tudo pra fora. Às veiz eu fico sem comê uns dois, três dia, que nada me apetece.”

Eu fiquei pensando com os meus botões, de onde viria a energia daquela mulher, que durante as horas que passamos ali, não se sentou por um segundo sequer e tampouco parou de falar, nos maravilhando com suas histórias?

Maria da Luz, este nome não é o dela por acaso…

Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.

A FESTA DO SENHOR JOÃO

fevereiro 19, 2014

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Há 25 anos o Sr  João das Mercês Almeida realiza uma festa de Santos Reis no Bairro do Jaguari, São José dos Campos SP, como pagamento de uma promessa que fez se o filho se curasse de um cobreiro.

Na verdade a festa já existia antes disso, trazida de Minas Gerais por parentes da esposa do Sr João. A promessa foi de não deixar morrer a tradição da festa, em agradecimento à graça alcançada.

Tradicionalmente, as folias visitam as casas e os presépios no período entre o Natal e o dia 06 de janeiro, data em que os Reis Magos chegaram com seus presentes para o Menino Jesus. Mas os pedidos de visitas nestes dias são tantos, que esta festa acabou sendo “empurrada” para o mês de fevereiro, quando as folias já não são mais solicitadas.

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O Bairro do Jaguari fica na zona rural da cidade, a gente tem que sujar o pé se quiser chegar lá. O local da festa é uma fazenda de gado leiteiro, com construções simples de telha vã. O prédio mais novo e bem cuidado da propriedade é uma capela erigida em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Até onde a vista alcança só se vê pasto e uma que outra árvore que a foice do roçador ou esqueceu de cortar ou resolveu deixar para dar sombra à criação.

Em frente à sede construiu-se um barracão com estrutura de bambú e lonas plásticas amarelas e azuis, tipo encerado de cobrir carga de caminhão. É neste barracão que o diácono vai rezar a missa que antecede a visita da folia de reis.

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Fui convidado para esta festa por um dos foliões, o Orlando, que trabalha na limpeza de um grande rede de supermercados e participa de folias de reis desde sua infância em Areias SP, onde nasceu, há 57 anos. Orlando sabe que eu gosto de registrar este tipo manifestação e está sempre me convidando. Como eu tinha este sábado livre, resolvi ir com minha esposa, que adora estas festas populares.

Chegamos um pouco antes da hora marcada para o inicio da celebração, com o intuito de entrevistar o festeiro e o pessoal envolvido na produção da festa. Estacionamos o carro no pasto recém roçado. A primeira coisa que notei foi um carro de polícia com dois policiais mulheres, o que estranhei, por se tratar de uma festa particular. Orlando me explicou que hoje em dia não vale a pena arriscar, é melhor se prevenir…

Minha esposa logo entabulou conversa com as duas marungas da folia e lá fui eu entrevistar a turma. Uns mais tímidos, outros mais falantes, uns tristes porque as festas já não são como antigamente, outros orgulhosos com a continuidade da tradição, o que une todos ali é a devoção aos Santos Reis.  Todos que entrevistei tem uma história de cura atribuída “a Santo Reis“.

Quando me dei conta, a missa havia terminado e já se ouvia os instrumentos da folia. Saí da sede onde eu estava entrevistando as cozinheiras que preparavam a carne moída e a salsicha que seria servida mais tarde e fui fotografar os foliões.

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Como eu olhava pelo visor da câmera, não acreditei nos meus olhos quando vi uma mulher parecida com minha esposa segurando a bandeira da companhia. Tive que olhar duas vezes e me lembrar da roupa que ela vestia para me certificar de que se tratava dela e não de uma sósia. Toda sorridente e bailando ao som da música, ela não cabia em si de contentamento. Perdi algumas fotos por conta das lágrimas que me turvaram a vista…

Para mim é impossível participar destas festas sem se envolver. Há alguns anos, quando comecei meu trabalho de pesquisador, achei que seria apenas um fotógrafo colhendo imagens. Mas como bem observou minha esposa, eu não sou um fotógrafo, eu sou um caçador da beleza, daquela beleza que emana da alma do devoto em seu momento mais sublime. Impossível não ser carregado pela força da fé nesses momentos, impossível não se lembrar de onde viemos e para onde vamos.

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SEU CARLINHOS – MOÇAMBIQUE E FOLIA DO DIVINO

janeiro 12, 2014

 

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Seu Luís Carlos Francisco, ou seu Carlinhos, como ele é mais conhecido, nasceu e sempre viveu no distrito de Eugenio de Melo em São José dos Campos SP. Aos 11 anos, já trabalhando com agricultor, se encantou com a beleza dos movimentos de um Moçambique que havia na região e pediu para participar. Dançou durante alguns anos, até que o grupo se desfez porque o mestre acabou indo embora da cidade e seu Carlinhos ficou na saudade…

Muitos anos mais tarde, a pedido do sub-prefeito de Eugenio de Melo, Seu Carlinhos foi encarregado de montar um novo grupo de Moçambique para animar uma festa de São Benedito, o que ele fez com base no conhecimento adquirido quando rapaz. Para ele não foi difícil, pois no seu dia-a-dia na lavoura vivia assoviando as melodias do Moçambique. Já para remontar os versos, o que ele não guardara na memória foi inventando da própria cabeça…

Assim surgiu O Grupo de Moçambique Companhia de São Benedito, que já vai para mais de 30 anos de existência, sempre sob o comando de seu Carlinhos, que hoje só não dança mais porque o corpo não permite. O cargo de mestre passou para seu Marinho, que está na folia desde os primórdios.

Um belo dia, o festeiro da Festa do Divino de Eugenio de Melo resolveu que queria uma folia do divino para arrecadar prendas para a festa e “convocou” o grupo de seu Carlinhos para tal tarefa. Seu Carlinhos recusou, haja vista que nunca havia ouvido falar de uma folia do divino e não tinha a mínima idéia de como montar uma… Entretanto, havia um problema. O cartaz da festa já havia sido impresso e anunciava que o grupo do seu Carlinhos iria fazer a alvorada. E agora, que fazer?

Homem de brio que é, sentindo a expectativa do povo devoto, seu Carlinhos não quis manchar o nome de sua companhia e tomou para si a tarefa de montar uma folia do divino no exíguo prazo de três dias que faltavam para a saída da bandeira. Assim, varou as madrugadas rabiscando letra e música para os versos do que imaginou que seria uma folia do divino em peregrinação fazendo os pedidos de prendas.  Ele conseguiu encher 30 páginas durante essas 3 noites em claro.

Como não havia tempo para ensaiar com o grupo, o que seu Carlinhos fez foi passar rapidamente para o pessoal, nos minutos que antecederam a alvorada, as melodias para que eles acompanhassem o mestre, que faria a voz. Estourados os rojões, lá partiram para o campo os 6 integrantes, munidos de viola, violão e muita coragem para enfrentar o desafio de percorrer 35 km num só dia, pedindo prendas em nome do festeiro. A bandeira foi feita por dona Maria Lucia, esposa do seu Carlinhos, que amarrou as três primeiras fitas, uma para o Pai, outra para o Filho e outra para o Divino Espírito Santo.

Foi uma caminhada difícil, o povo não sabia o que era aquele bando de gente que surgia tocando, cantando e pedindo diante de suas porteiras e muitas deles nem se dignaram recebe-los. Comida só foram comer de verdade lá pelas 10 da noite, exaustos da caminhada. Durante o dia enganaram a fome com bolachas e cafés nas vendas do caminho. Nesta primeira vez, como o povo não estava habituado, ninguém se preocupou com a alimentação dos foliões.

Depois desse primeiro dia, a Folia do Divino de Eugenio de Melo tornou-se uma tradição na cidade e vem saindo a cada ano, não só pedindo prendas para a Festa do Divino na cidade, mas também em outros eventos, tamanha a fama que o grupo ganhou.

Perguntei a seu Carlinhos se os versos que ele canta hoje ainda são os mesmos daquelas 30 páginas compostas nas madrugadas em claro.

__”São nada, Chico, os versos a gente vai variando pelo caminho afora. Se eu canto uma coisa numa casa, na seguinte já é outros os verso e se tem alguém gravando muito que bem, pois do contrário eu não sei repetir. É tudo de improviso, conforme o momento pede que seja.”

__Mas seu Carlinhos, me diga uma coisa. O senhor não conhecia nada de folia do divino e de uma hora pra outra monta uma folia que vem acontecendo há mais de 30 anos! Como o senhor explica isso?

Seu Carlinhos assume um tom solene e depois de um longo silêncio explica:

__”Ah, meu filho, isso não é obra nossa. Pra essas coisas quem ensina e ilumina é o próprio Espírito Santo. Meu trabalho só é permitir que ele se manifeste”.

A bandeira que o grupo usa é a mesma que foi confeccionada lá atrás, só que hoje o bandeireiro que hoje a empunha durante as saídas, carrega agora 15 (quinze) kg de fitas dos pedidos e graças alcançados. Seu Carlinhos foi obrigado a dividir as fitas e fazer uma outra bandeira, criando um novo ritual que é o encontro das duas bandeiras. Essa nova bandeira passa um ano na casa de quem fizer o pedido e o ritual da mudança acontece no 3º domingo de janeiro de cada ano.

E assim vão se reinventando as tradições do nosso povo.

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