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Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

nilton renno

                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

CTA Amarcord.

agosto 19, 2011

(Amarcord quer dizer Eu me recordo, no dialeto emiliano-romanholo, falado em Rimini)

Dia desses, por ocasião do lançamento do livro de um amigo, entrei no CTA à noite e uma enxurrada de memórias me invadiu sem pedir licença. Terminada a cerimônia, saí do recinto, dei umas voltas e estacionei o carro atrás do H19. Durante horas, passeei sozinho pela região dos Hs, da Quadra de Esportes, Hotel, Reembolsável, H13, ITA, Cinema… Tinha a nítida impressão de estar num sonho. Os prédios, as ruas, as árvores e os pontos de ônibus se transformaram em uma tela vazia na qual eu fui projetando minhas lembranças; a trilha sonora era o barulho das folhas secas estalando sob meus pés…

Amarcord, de Federico Fellini, foi o primeiro de uma série de “filmes de arte” que eu assisti no cinema do CTA. Instigado por amigos intelectuais, eu acabei comparecendo à sessão semanal do Filme de Arte promovida pelo CASD, o centro acadêmico dos alunos do ITA. Verdade seja dita, eu não entendi grande coisa do filme, boiei mesmo. Típico adolescente educado na linguagem de Hollywood, eu tinha uma grossa armadura impermeável à poesia do filme. As alegorias de Fellini me pareceram um grotesco circo nonsense… Eu estava mais é interessado no roçar de mãos com a Isabel, sentada ao meu lado. Tanto que o filme saiu da minha memória, mas me recordo perfeitamente do cheiro perfumado do cabelo dela, até hoje… Assim como me recordo do cheiro dos eucaliptos em frente o H17C, das guerras de mamonas e bombas amarelas, dos jogos de beisebol e dos calouros do ITA desfilando entre os Hs, entoando o famoso A cova delacomo parte do trote de iniciação. No meu Amarcord particular, revi a cena macabra dos “bixos” envoltos em lençóis, cada um segurando sua vela.

Passei em meio aos prédios do ITA, agora trancados durante a noite. Naqueles idos da década de 70 podíamos passear livremente pelos laboratórios, pelas salas de aula vazias, desenhar fórmulas imaginárias nas lousas, aquele mundo pertencia inteiramente a nós. Dei a volta no auditório que hoje leva o nome do meu avô, Prof Lacaz, e me vi trepando por uma das janelas do fundo, que davam diretamente nos banheiros. Essas janelas eram a entrada alternativa de quem não podia ou não queria pagar ingresso nos ótimos shows que aconteciam por lá. Pude ver Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Quinteto Armorial, Ricardo Bandeira, etc… a maioria deles sem pagar, graças à generosa abertura na janela basculante!

Segui até o H13, o restaurante do CTA, depois de atravessar a barulhenta sinfonia de sapos e rãs da lagoa que fica atrás do ITA. Não tenho boas memórias desse lugar, ou melhor, dos bailes que aconteciam no H13. Talvez fosse pelo tipo de música, ou talvez por causa disputa que havia pelas meninas. Eu  gostava de rock e esse tipo de som os conjuntos só tocavam lá pelo fim da festa, com o salão quase vazio. E na disputa pelas meninas, os alunos do ITA sempre levavam vantagem, a inteligência era um bem super valorizado no meio ceteano!

Em frente ao H17, tive um ímpeto de adentrar o bosque de eucaliptos, revisitar o local em que botei na terra as primeiras plantinhas, aquelas que despertaram em mim o gosto pela agricultura, um prazer que nunca mais não me largou. Mas nem saí do asfalto, fui detido pela visão de um bloco maciço de casas, no lugar onde elas deveriam estar. Senti saudades daquelas plantinhas que tive que abandonar à força. Um dia, eu devia ter una 16 anos, estava botando água nelas quando me vi cercado por um grupo de pracinhas que me convidaram para uma visita ao CPOR. Lá, me informaram que aquelas plantas colocavam em risco a segurança nacional, que era melhor eu plantar rabanetes, alfaces e cenouras. Achei de bom alvitre seguir o conselho dos militares…

Já fazia uma hora que eu andava pelo CTA, achei estranho não ter cruzado com ninguém à pé. Nos velhos tempos tinha tanta gente trançando entre as residencias, mesmo à noite. Havia a caça aos morcegos com uma vara comprida de bambu, o fogo no metano dos bueiros pra ver a tampa levantar com o deslocamento do ar, a rodinha de violão, as conversas intermináveis nos pontos de ônibus… Mas naqueles dias não havia tanta oferta na televisão, muito menos internet! Quem é que hoje quer sair pra rua, com tanta fartura dentro de casa?

Corri os olhos pelas plaquinhas nos jardins, essas com os nomes dos moradores e o número da residência. Nostalgico, busquei em vão por algum conhecido. Ali morava o Prof Borges, ao lado o Prof Cantanhede e o Prof Walter, mais adiante o Prof Altman e na outra ponta o Prof Cecchini. Eu estava parado agora, em frente à casa do Prof Weis. Não sei se foi alucinação auditiva ou, neste momento, eu realmente escutei a faixa Black Magic Woman, do Santana Abraxas e me vi dançando com uma sansei magrela da cidade, numa dessas festas que a gente dava quando os pais iam viajar e a casa virava território livre (não sei como os vizinhos não reclamavam!). No fim da noite, ou no começo do dia, porque já estava clareando, estávamos os dois numa boa, rolando numa cama num dos quartos da casa. Ali começava o meu primeiro casamento. Dias mais tarde, D. Ivone, a dona da casa onde houve a festa, ao me ver na rua com a nova namorada, me perguntou à queima-roupa, onde é que eu tinha encontrado uma menina tão graciosa como aquela!..

Voltei para o carro e ao lado do veículo, finalmente encontrei alguém com quem conversar. Era um guardinha, que me advertiu que meu carro não tinha autorização para circular naquela área, eu tinha que sair dali imediatamente. O cartão de identificação pendurado no meu espelho retrovisor, que eu pegara na portaria, dizia em letras bem grandes: HOTEL de TRANSITO. Eu ainda permaneci alguns dias imerso no clima do meu Amarcord

Memórias (A cabana)

junho 17, 2011

Na escola em que eu estudava, na cidade, por mais de uma vez eu passei por arrogante. Não era pra menos, nós do CTA éramos muito diferentes do povo da cidade. Praticamente todos os que morávamos no CTA tínhamos vindo de fora, muitos haviam até morado no exterior, era mais do que natural que nosso comportamento cosmopolita se chocasse de frente com o do pacato e interiorano povo de São José dos Campos. Some-se a isto o fato de que nossos pais, contratados pelo ITA, faziam parte da elite pensante da nação; os joseenses tinham todos os motivos para implicar com os nossos ares de superioridade.

Minha mãe conta que logo que ela chegou ao CTA, vinda de São Paulo, em agosto de 1950, as instruções que receberam eram de que saíssem da área do CTA o mínimo possível, para evitar o contágio pelos tuberculosos, que nessa época lotavam os sanatórios na cidade. Se tivessem que ir ao povoado, que evitassem contato físico ou o consumo de um simples e trivial cafezinho. Era perigoso até se sentar no mesmo assento, num táxi que tivesse sido usado por um tísico! Talvez por isso o CTA foi planejado para ser auto-suficiente, com supermercado, açougue, farmácia, cinema, banco, hotel, igreja, restaurante, posto de saúde, etc… Mas na época que ela chegou, ainda não estava pronta a escola, que havia sido prometida para os filhos dos professores do ITA e funcionários do CTA. Por isso, minha mãe tinha que se deslocar para a cidade todos os dias, numa caminhonete americana de banco de madeira, que passava recolhendo todas as crianças em idade escolar, e os levava do CTA até o João Cursino. Com 12 anos e recém saída de um colégio de freiras em São Paulo, ela ia para a escola toda embonecada e dividia os bancos escolares com rapazes já barbados, que nem sapatos tinham nos pés. O contraste era evidente!

Foi nessa mesma escola, no João Cursino, duas décadas mais tarde, que eu acabei cursando o meu colegial, que naquele tempo ainda se dividia entre clássico e científico. Com a mente nada exata que tenho, claro que escolhi o clássico! Mas minha vontade, mesmo, era de ter ido para o Olavo Bilac, onde estudavam todos os meus amigos mais próximos. No entanto, com seis filhos pra sustentar, pagar uma mensalidade de escola particular estava fora de cogitação para os meus pais. O remédio foi me mandarem para uma escola mais barata, onde eu não conhecia ninguém e onde acabei sendo um estranho no ninho… Imaginem a cena: chega um aluno novo, que não fala com ninguém e passa os intervalos das aulas lendo um Dicionário de Filosofia! Esse cara era eu, meus colegas deviam me achar um nerd, mas o que estava era me escondendo atrás de uma pretensa erudição, por pura timidez e falta de jeito. Ao invés de me socializar, o que eu consegui foi me isolar ainda mais! O gelo só se quebrou quando meus colegas perceberam que eu era bom em inglês e português e passaram a me pedir cola direto… Mas não foi suficiente para me integrar com eles não, eu continuava muito mais identificado à turma do CTA.

À tarde, já de volta da escola, meu programa era me juntar com alguém que estivesse dando sopa entre os Hs ou nos pontos de ônibus e combinar alguma aventura. Que podia ser desde uma guerra de “bomba amarela” (um cogumelo que brotava debaixo dos eucaliptos do H17 e que espalhava uma fumaça amarela quando impactado) até uma excursão à lagoa lá na área dos institutos, em busca de escorpiões, aranhas, lacraias e girinos. Ou ainda, dar pedrada em casa de marimbondo e sair correndo, por maldade pura e simples…

Mas já naquela época, o que eu gostava mesmo era de cavucar a terra. Lembro de ter passado uma tarde toda com o Neném (Weis) destruindo um cupinzeiro enorme, só pra encontrar a rainha, coloca-la num pote de maionese e mostrar pra toda a “negadinha” (turma), como se fosse um troféu. Agora, a grande obra de escavação foi o que nós chamávamos de “cabana”. Um buraco de 2 andares que escavamos perto da pista de “bicicross”, a famosa Intergalhos, cujo nome era uma junção de Interlagos, o circuito automobilístico, e dos galhos dos eucaliptos que sombreavam o traçado da nossa pista. A entrada da “cabana”, ao nível do chão, era toda camuflada, os adultos não podiam saber de nada, era tudo secreto. Levantava-se o madeirit, ou algo do gênero, e avistava-se uma passagem com uma escada de 1,5m, que levava à primeira câmara, que devia ter o volume aproximado de uns 3 ou 4 mil litros. Espalhados pelo chão do primeiro nível, alguns pedaços de pau, velas, fósforos, latas daquelas de 18l com alça, uma pá e algumas facas, material esse que era usado na engenharia da escavação. Nessa primeira câmara ainda filtrava alguma luz do sol, mas na segunda, que saia do piso da primeira, reinava a escuridão completa, só dava pra ficar lá embaixo com lanterna ou com vela. As escavações eram realizadas por turnos, as latas cheias de terra passando de mão em mão até chegar na superfície. pois no andar mais inferior o ar abafava e ficava muito quente quando estávamos removendo a terra. Era um trabalho de formiguinha que a mim dava grande prazer e a sensação de estarmos construindo um mundo à parte dos adultos, independente, só nosso, essa coisa bem característica de adolescente.

Na cabana devem ter acontecido muitas coisas que eu nunca soube, já que era grande o número de escavadores. Mas para mim, além do prazer de cavar, a curtição eram os campeonatos de xadrez, jogados sempre à noite, no primeiro andar e à luz de velas. Participavam o Wolfgang, o Laia, o Gordinho, o Carweis, o Liteira e o Butina, que eu me lembro. Pois foi numa noite dessas, na final de um campeonato, estávamos todos reunidos quando alguém que tinha ficado lá fora de vigia deu o alarme.

__O pai do Wolfgang! O pai do Wolfgang! Corre, “negadinha”, corre que ele tá vindo!

O pai do Wolfgang, o Prof Valter, era um senhor alto e muito sério, que impunha respeito e era temido por todos nós, principalmente pelo filho dele, que se fosse pego ali, na certa ia levar uma boa coça. Em dois tempos não sobrou ninguém dentro da “cabana”, saímos todos zarpando, antes que ele chegasse. Uma semana depois, quem passasse por ali, só iria ver uma elevação de terra vermelha revirada, mas uma alma mais sensível talvez pudesse escutar os soluços do nosso sonho que ali jazia enterrado…

Iniciações

junho 6, 2011

Eu quase que cheguei a lamentar ter passado, logo de cara, no primeiro vestibular que tentei. Cursar agronomia em Jaboticabal seria sinônimo de abandonar a vida boa que vinha levando, até então, no CTA. Tinham sido 7 anos de idílio, 7 anos que se passaram depressa, muito mais depressa do que a minha criança gostaria. Mas eu tive que partir, com 18 anos, já estava mais que na hora do passarinho cair fora do ninho! Pra piorar a situação, o meu companheiro de folguedos, o Carweis, tinha feito o vestibular comigo mas não tinha passado! Resultado, lá fui eu, sozinho, para aquele interiorzão quente e abafado, me instalei numa república com toda minha mudança, mais bicicleta, plantas, mala e cuia e não muita disposição de enfrentar a nova vida de universitário. E a disposição que já era pouca, acabou virando nenhuma, logo nos primeiros dias de aula, quando descobri que o curso de agronomia era muito mais parecido com engenharia, do que eu supus ao me inscrever no vestibular para aquele curso. E com menos de um mes de aula, fui decidido à sala do diretor e pedi o cancelamento da matrícula. De volta para casa, sob protesto do meu pai (é claro!), acabei ganhando uma sobrevida de um ano a mais no CTA!

O retorno não me saiu de graça, fui obrigado a fazer novamente o cursinho do CASD, aquele dos alunos do ITA. Foi o preço que meu pai cobrou para o marmanjo poder continuar usufruindo das mordomias do lar às custas do trabalho dele. Eu não morria de amores pelas aulas no CASD, mas não posso negar que me divertia muito com os professores, cada um mais louco que o outro. Não vou citar nomes, pode ser que eu desperte ciúmes nos que não foram mencionados, mas as únicas fórmulas de física que aprendi na vida, foi por conta das palhaçadas que eles faziam naquele palco que era o CASD nos seus primórdios. Certamente devo a eles meu desempenho pouco melhor que o medíocre, em física, química e matemática, em todos os outros vestibulares que prestei na vida.

Falando em CASD, inevitavelmente me vem a associação com o H8, morada daqueles que me iniciaram em algumas áreas da vida nas quais eu ainda era virgem. Foi com os alunos do ITA, por exemplo, que tomei minhas primeiras biritas e aprendi o caminho do alambique do Antenor, em Caçapava, onde entornei muita pinga de cabeça, superforte, aquela primeiríssima que sai na destilação da garapa da cana. Anos depois, fiquei sabendo que a pinga de cabeça contém metanol, que é um baita dum venenão, que pode até deixar cego o caboclo, e daí entendi as homéricas ressacas com direito infernais dores de cabeça no dia seguinte…

Foi nas paredes do H8, que meus olhos, atônitos, pousaram sobre as primeiras vaginas nuas que contemplei na vida. Revistas de sacanagem é o que não faltava nos quartos que eu frequentava. Eu devorava aquilo tudo com fome de menino guloso, que ainda há pouco tinha sido coroinha, frequentando a missa todos os domingos, e que teria confessado ao padre um simples pensamento libidinoso. De repente, no meio daquelas revistas, eis-me no paraíso!

Nos corredores, à meia voz, em diálogos confusamente obscuros para mim, ouvia muito falar de repressão, ditadura, tortura e guerrilha, mas me parecia que falavam de um outro país. Eu não conseguia relacionar aquele discurso com nada do que acontecia em minha vida naqueles dias. Eram os tempos do “Eu te amo meu Brasil” de Dom e Ravel, canção obrigatória nas aulas de Música ou Educação Moral e Cívica… Eu não podia, ou não queria acreditar, que o Brasil que era vendido na TV e nos jornais, fosse o mesmo em que acontecia a repressão sussurrada nas conversas dos alunos.

Mais do que a conversa dos alunos, eu queria ouvir um outro som, aquele que inundava os corredores do H8, uma música que não tocava na Radio Piratininga e que me pegou logo da primeira vez que escutei: o rock progressivo e psicodélico do Pink Floyd, Yes, Emerson Lake and Palmer, King Crimson e do Genesis. Aquilo me abriu as portas de uma nova dimensão. Junto com as músicas, vieram Aldous Huxley com o seu As Portas da Percepção, e, claro, as chaves para abri-las. Lembro bem de um chá que tomamos numa noite fria de inverno, que era pra ser um inofensivo quentão, mas que fez capotar a mim e ao Carweis, meu companheiro de expedições de toda natureza, pelo CTA afora. Naquele tempo, nada ficava trancado, o ITA podia ser explorado, tínhamos acesso a todos aqueles locais que hoje são fortemente patrulhados. Bons tempos aqueles em que um simples, “sou filho de fulano ou cicrano de tal” nos livrava de qualquer encrenca. Mas nessa noite, a expedição foi mesmo aos nossos departamentos interiores… Sei que quando as coisas voltaram a ficar mais claras, o fundo musical era o Meddle, do Pink Floyd, os alunos já haviam se recolhido, só restaram o Carweis e eu, junto à fogueira, que nessas alturas era só brasas. Nos restava ir para casa, no outro dia tínhamos que acordar cedo pra irmos pra escola, ele pro o Olavo Bilac e eu pro João Cursino.

E lá fomos nós, pelo caminho da quadra, uma estrada de chão batido, que passa por trás dos Hs8, cada um fazendo seu relato da experiência recém vivida. Deviam ser umas duas da manhã, mais ou menos, tinha baixado uma forte cerração e fazia muito frio. De repente, demos com uma cena inusitada. À nossa frente, uma tijela de barro cheia de frutas e flores, um frango preto estendido ao lado e duas garrafas de sidra Cereser. Imagine se a gente teve alguma dúvida! Que nada! Com a garganta seca que estávamos, abrimos cada um uma garrafa e entornamos ali mesmo o líquido refrescante! Só fui chegar em casa quando começava a clarear.

CTÚtero

novembro 30, 2010

Para um urbanóide como eu, que tinha passado seus primeiros 15 anos de vida sufocando na poluição de São Paulo, a perspectiva de vir a morar no CTA era como um sonho que se tornava realidade. Viver no Centro Tecnológico da Aeronáutica, pelo menos naqueles idos da década de 70, tinha sabor de férias eternas! Morar numa daquelas casas enormes e espaçosas do H 17, cercado de áreas verdes que eram praticamente a continuação das residências, já que não havia muros nem cercas e ainda vizinho de avós que sempre foram muito mais permissivos que meus pais, foi como receber um passe livre para o paraíso…

Foi com essa energia que desembarquei no CTA, no ano de 1973, em plena ditadura militar (sem ter a mínima idéia do que fosse uma ditadura. E como poderia, com a forte censura vigente na época?).  A mudança no estilo de vida foi um marco em minha vida. A São Paulo que eu deixava para trás, agora me parecia provinciana quando me deparei com a sofisticação intelectual dos professores do ITA, grande parte importados de países como China, França e Inglaterra. O mundo acabara de ficar muito maior, pelo simples fato de eu estar convivendo com aquela gente diferenciada.

Não sei bem se ocupados em por ordem na nova casa ou porque acharam que eu já seria responsável pela minha própria vida, meus pais relaxaram a marcação comigo. Em São Paulo era linha dura, eu tinha que dizer onde ia, com quem ia e a que horas voltaria, mas agora, no CTA, eles nem se lembravam mais que eu existia… De modo que eu me senti como um passarinho que havia saído da gaiola.

Recém chegado, quis me enturmar, mas sabe como é adolescente, formam um grupo e pra entrar você tem que ser aprovado por algum nebuloso ritual de iniciação. E por mais que eu tentasse, nunca consegui entrar em grupo nenhum enquanto morei no CTA, sempre me senti um outsider. Resultado é que fui procurar outros marginais, outros os que se sentiam como eu e, assim, acabei fazendo amizade com filhos de professores que moravam no mesmo H 17.

Foi através de um desses amigos, logo nos primeiros meses, que conheci a tal da “diamba”  (esse era o nome que ele dava ao baseado na época). Fumei pela primeira vez, e, como é comum com iniciantes, não senti nada e continuei minha vida, saí pra rua e encontrei outro filho de professor, o Sérgio Altman, um artista (tocava flauta transversal) com quem eu batia altos papos cabeça, sobre psicanálise e filosofia. Ele talvez achasse que eu entendia tudo, já que eu prestava grande atenção, impressionado que eu ficava com a sabedoria e eloqüência do rapaz, mas o que eu queria mesmo era companhia. Deixava ele discorrer e de quebra sempre aprendia alguma coisa.

Bem, o fato é que eu tinha acabado de fumar o meu primeiro baseado e seguiamos pelo caminho que levava da Dutrinha ao Rancho, em direção ao Cinema, onde, decerto, nossa meta era uma sessão de filme de arte. Mas ao passarmos defronte o Rancho, vimos uma porta aberta e resolvemos entrar, por que não? Claro que a idéia foi dele, eu era um novato no pedaço e ainda um tanto quanto temeroso de usar a minha recém-conquistada liberdade.

Entramos, o restaurante estava vazio, mas havia vozes num salão reservado aos oficiais. Chegamos mais perto e pudemos ver um grupo de militares, à paisana, confraternizando amigavelmente em voz alta. Todos de copo de uísque na mão e beliscando salgadinhos, que eram servidos pelos garçons que circulavam por ali. Entreolhamo-nos, Sérgio e eu, e adentramos o espaço proibido. Cada um pegou seu copo de uísque e entre goles continuamos nossa conversa, sem dar a mínima ao que acontecia em volta de nós.

Uns quinze minutos devem ter se passado até que o mal estar começou a ficar evidente e insuportável. Sentimos a pressão nos olhares, que ao mesmo tempo mandavam mensagens de reprovação e de dúvida. E se fossem filhos de algum militar ali presente? – devem ter pensado eles… Num dado momento, um deles se aproximou de nós e, discretamente perguntou quem éramos. O fato do Sérgio ser filho de professor do ITA não foi de nenhuma ajuda. Saímos de fininho mas ainda deu tempo do militar me perguntar por que eu estava usando uma camisa de pijama em pleno dia. Nesse exato momento, olhando para o militar e sem saber o que dizer, foi que considerei, exultante, que o baseado finalmente tinha tido algum efeito sobre mim!…

Esse é um pequeno retrato do CTA que eu conheci e no qual vivi durante uns 7 ou 8 anos. Um grande útero acolhedor, em que a moçada se sentia muito segura para cometer todo tipo de loucura com a segurança da impunidade.



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