Posts Tagged ‘devoção’

Capelas da Santa Cruz Abandonadas

janeiro 24, 2016

 

Estas imagens de capelas abandonadas de Santa Cruz foram feitas durante um passeio pela periferia da cidade de São José dos Campos, região leste do estado de São Paulo, Bairros do Jaguari e do Caetê. Fui convidado para este passeio por um amigo, o Daniel Bueno Borges, que restaura imagens sacras aqui na minha cidade. Daniel conhece essas capelas pois gosta de visitá-las à procura de imagens sacras descartadas.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Uma das capelas foi abandonada porque o dono do terreno não permitiu mais seu uso e cercou-a com arame farpado. A outra foi menos e menos utilizada nos últimos anos, a ponto de ser tomada como moradia por andantes que acabaram por depreda-la. Segundo nos informou um morador que a conhece a 43 anos, ainda acendem uma vela na sexta-feira maior. Tentaram colocar uma porta para impedir que bêbados e desocupados invadissem o recinto mas não funcionou, eles entram de qualquer maneira.

Não consegui saber a origem da construção de nenhuma das duas. Geralmente essas capelas surgem por pagamento de promessa ou em homenagem a alguém de morreu naquele mesmo local. Cria-se então, à partir da construção da capela, que geralmente acontece em beira de estrada, um calendário de rituais de rezas e festas comuns a todas as capelas da Santa Cruz.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Há cada vez menos capelas da Santa Cruz na periferia da cidade pois a especulação imobiliária é impiedosa e não perdoa a fé do povo comum. Para se encontrar essas capelas é preciso, mais e mais, embrenhar-se nas estradas de terra nas zonas rurais.

A tradição existe também em vários países da América Espanhola, onde, normalmente (como também aqui) as imagens que se quebram acidentalmente são depositadas especialmente nos cruzeiros de cemitérios, onde seguem recebendo culto – chamadas, em alguns lugares, carinhosamente, de “quebraítos” – corruptela de “quebraditos”.

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A VIA SACRA DO BAIRRO DO SERRANO – SBS

abril 6, 2015

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Sabendo do meu interesse pela tradição e o folclore, minha amiga Heloisa Barros, moradora do Bairro do Serrano, zona rural de São Bento do Sapucaí SP, me convidou para conhecer e registrar em vídeo a Via Sacra organizada pelos moradores do bairro há 10 anos. O Bairro do Serrano já foi zona rural; hoje conta com um pequeno núcleo urbano, em cujo entorno se misturam as roças dos moradores mais antigos e as propriedades dos moradores ocasionais, gente da cidade que vem exercer seu laser no ambiente rural. Há também alguns urbanóides que trocaram a cidade pela roça e lá se instalaram, mas são gatos pingados.

Heloísa é nascida na roça, a mesma roça onde mora até hoje com sua mãe. Minha amiga vive a tradição no seu dia a dia, mas tem facebook e celular, ou seja, é uma caipira antenada, com o coração no passado, os pés no presente e os olhos no futuro. Por ser uma figura sui generis, desde que a conheci venho tentando entrevista-la, para que o mundo possa conhecer este exemplo de aculturação bem sucedida. Mas ela se nega, alegando os mais diversos motivos, desde timidez, falta de tempo ou porque está muito desarrumada para aparecer diante de uma câmera. Tímida eu sei que ela não é, pois se expressa muito bem e toma a frente de várias iniciativas de interesse do bairro e da cidade de São Bento. Falta de tempo a gente até perdoa, porque a gente sabe que na roça o serviço não termina nunca.

O fato é que há tempos eu venho mendigando uma entrevista e até agora ela tem conseguido me enrolar direitinho e nunca me concedeu uma palavra sequer, pelo menos não diante da câmera…

Voltando à Via Sacra, ela acontece na manhã da Sexta Feira Santa, saindo às 5h da madrugada da casa do Paulo e da Vicentina, o casal encarregado da organização, subindo uma puxada íngreme de quase 3 km até chegar no cruzeiro fincado no alto da Pedra da Balança, bem na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Existe toda uma logística que acontece nos dias que antecedem a procissão; é preciso roçar a trilha, fincar as cruzes das 14 estações e preparar o lanche que é servido na volta, na casa de dona Vicentina, esposa do Paulo.

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A logística também aconteceu de minha parte. Cheguei um dia antes ao bairro, me acomodei em casa de amigos, filmei uma entrevista com o Paulo e me informei do necessário para enfrentar as 3 horas de subida até o cruzeiro. Desnecessário dizer que Heloísa, mesmo tendo sido uma das idealizadoras da Via Sacra, negou-se mais uma vez a falar…

Voltei para casa depois da entrevista com o Paulo e tratei de deitar cedo, pois no dia seguinte o despertador iria me acordar às 3 e meia. Graças a Deus, na casa onde eu estava, não havia sinal de internet nem de celular para prolongarem minha vigília e assim, 9h da noite eu já estava na cama embalado pelo suave som do riacho que corre ao lado da casa onde me instalei.

Dia seguinte, 4 e pouco da manhã, lá estava eu na casa do Paulo, com as câmeras e o meu almoço na mochila, que eu não sou de confiar em promessa de lanche, inda mais tendo uma caminhada dessa pela frente! Não estava frio e havia pouca gente esperando do lado de fora da casa.

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Na sala da pequena casa de roça, a cruz estava de pé sobre uma mesa encostada na parede, dividindo o espaço com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, as duas tochas que acompanhariam a cruz e um livro de presença, que as pessoas iam assinando à medida que chegavam. Ano passado foram 108 assinaturas, este ano esperava-se mais gente, pois só no facebook quase 200 pessoas confirmaram presença.

Muitos vieram à pé mas não vi ninguém chegar montado. As camionetes, fuscas e motos foram chegando, o povo se aglomerando em torno da casa e às 5h em ponto o Paulo chama os presentes, faz um discurso de abertura com informações práticas e cantando um hino em louvor à santa cruz damos início à longa e lenta caminhada em direção ao cruzeiro.

Bendita e louvada seja No céu a divina luz E nós também cá na terra Louvemos a Santa Cruz

Nos céus cantam a vitória De Nosso Senhor Jesus Cantemos também na terra Louvores à Santa Cruz

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Sustenta gloriosamente Nos braços o bom Jesus Sinal de esperança e vida No lenho da Santa Cruz

(estribilho)

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À frente da procissão, cortando o breu da noite sem lua, seguem a cruz e duas tochas de vela, que trocarão de mãos muitas vezes durante o percurso. Alguns metros à frente da cruz sigo eu, com a missão impossível de capturar cada detalhe do espetáculo, caminhando de costas no escuro e procurando não perder o equilíbrio nos buracos e pedras da estrada de terra. Não foi fácil e neste momento sugeri a mim mesmo que diminuísse as expectativas para algo bem abaixo da perfeição, para não comprometer minha integridade física. Houve um momento, logo na primeira estação em que busquei o chão atrás de mim e não encontrei nada, só um vazio e quase me desequilibrei. Naquele momento estava escuro, não pude ver o que era, mas na volta pude ver que se tratava de uma boca de lobo de cimento de mais de um metro de profundidade… Agradeci meu santo por ter me livrado desse acidente…

 A procissão seguia devagar, havia idosos, velhos, crianças, mulheres, gente de 8 a 80 anos. A princípio todos seguiam atrás da cruz mas a cada estação a criançada ia ficando mais impaciente e acabou tomando a dianteira.

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Foi só lá pela terceira estação que começou a clarear e meu trabalho foi então facilitado. Mas se havia mais luz, mais coisas eu via para filmar e fotografar, o que acabou me dando mais canseira porque eu me deslocava o tempo todo, ora ficando à frente, ora atrás da procissão.

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Para “facilitar” um pouco mais meu trabalho, a enorme quantidade de celulares pipocando flashes e disputando os melhores ângulos. Hoje em dia não há evento em que isso não aconteça, todos tem uma câmera, todos querem registrar o evento ou fazer uma selfie.

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A cada uma das estações parava-se, alguém anunciava a passagem correspondente, lia-se um trecho do livrinho que passou a ser fornecido todos os anos pela Campanha da Fraternidade da CNBB. Finalmente rezava-se o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai e cantando seguiam em direção à próxima estação. Assim foi até a 15ª estação, o cruzeiro no alto do morro de pedra.

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Foi cansativo subir; é verdade que paramos 14 vezes, mas foram 3 horas de subida puxada, por estrada de terra, trilha na mata e “trio” de gado no meio do pasto. Finalmente, quando meu fôlego já estava na reserva me dei conta que estávamos ao pé do cruzeiro, um lugar muito alto com vista deslumbrante das montanhas. Era a última estação.

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Todos se deram as mãos e eu tive que decidir entre filmar ou rezar junto com o povo. Escolhi me entregar, alcancei as mãos mais próximas e peguei carona na egrégora de fé que se estabeleceu naquele momento. Rezar foi impossível, não que eu não conhecesse as palavras da oração, mas a garganta estava apertada, fui arrebatado por algo maior e agradeci o privilégio de estar ali naquele momento, simplesmente fazendo parte daquela corrente em direção ao alto.

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O beijamento da cruz encerrou nossa jornada ao cume. Abriram-se as mochilas e passou-se aos comes e bebes. Eu comi minha sopa de arroz integral com lentilha, enquanto o povo se deliciava com pastéis, broas, biscoitos, sanduíches, café e refrigerantes.

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O ditado diz que para baixo todo santo ajuda, mas ou eu estava muito fora de forma ou então, talvez os santos estivessem de folga por ser uma Sexta Feira Santa… O fato é que eu cansei mais descendo do que subindo e meus joelhos ficaram em frangalhos…

Ainda bem na descida contei com a companhia do seu Barrinha me contado causos e me esclarecendo sobre a história da região. Ele me contou que a Pedra da Balança tem este nome porque ali havia uma balança de pesar gado, já que o local é divisa de estado e decerto pesavam e cobravam algum imposto ou conferiam se a papelada estava nos conformes. Contou também que antigamente as procissões para o cruzeiro aconteciam na época da Santa Cruz, todo começo de maio subiam para rezar o terço lá em cima. Naquela época, mais de 50 anos atrás, a cruz era feita de madeira, de cedro rosa. Naturalmente, ela foi apodrecendo e chegou a cair. Vendo aquilo, um certo Benedito Candinho teria feito a promessa de restaurar o cruzeiro, erigindo desta vez uma cruz em cimento armado, em troca de arrumar casamento. Segundo seu Barrinha ele foi bem sucedido, pois meses depois já estava muito bem casado.

Depois de passar na casa de dona Vicentina e comer uma broa de milho assada na folha de bananeira, fui agradecer minha amiga Heloísa. Ao chegar vejo-a sentada na varanda, tranquila e bem arrumada, já que ela tinha se vestido para a procissão. Achei que desta vez ela não me escapava, eu ia entrevista-la finalmente! Mas qual o que, ela se saiu com essa!…

___ Ô Chico, hoje é sexta-feira santa, hoje é dia de oração e prece, aqui na roça “nóis” não trabalha nesse dia não, “ocê me discurpe”, mas vai “tê” que “ficá pruma” outra “veiz”! – E ela caiu na risada…

Mas deixa estar que um dia ainda pego esse bagre liso…

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A FESTA DO SENHOR JOÃO

fevereiro 19, 2014

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Há 25 anos o Sr  João das Mercês Almeida realiza uma festa de Santos Reis no Bairro do Jaguari, São José dos Campos SP, como pagamento de uma promessa que fez se o filho se curasse de um cobreiro.

Na verdade a festa já existia antes disso, trazida de Minas Gerais por parentes da esposa do Sr João. A promessa foi de não deixar morrer a tradição da festa, em agradecimento à graça alcançada.

Tradicionalmente, as folias visitam as casas e os presépios no período entre o Natal e o dia 06 de janeiro, data em que os Reis Magos chegaram com seus presentes para o Menino Jesus. Mas os pedidos de visitas nestes dias são tantos, que esta festa acabou sendo “empurrada” para o mês de fevereiro, quando as folias já não são mais solicitadas.

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O Bairro do Jaguari fica na zona rural da cidade, a gente tem que sujar o pé se quiser chegar lá. O local da festa é uma fazenda de gado leiteiro, com construções simples de telha vã. O prédio mais novo e bem cuidado da propriedade é uma capela erigida em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Até onde a vista alcança só se vê pasto e uma que outra árvore que a foice do roçador ou esqueceu de cortar ou resolveu deixar para dar sombra à criação.

Em frente à sede construiu-se um barracão com estrutura de bambú e lonas plásticas amarelas e azuis, tipo encerado de cobrir carga de caminhão. É neste barracão que o diácono vai rezar a missa que antecede a visita da folia de reis.

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Fui convidado para esta festa por um dos foliões, o Orlando, que trabalha na limpeza de um grande rede de supermercados e participa de folias de reis desde sua infância em Areias SP, onde nasceu, há 57 anos. Orlando sabe que eu gosto de registrar este tipo manifestação e está sempre me convidando. Como eu tinha este sábado livre, resolvi ir com minha esposa, que adora estas festas populares.

Chegamos um pouco antes da hora marcada para o inicio da celebração, com o intuito de entrevistar o festeiro e o pessoal envolvido na produção da festa. Estacionamos o carro no pasto recém roçado. A primeira coisa que notei foi um carro de polícia com dois policiais mulheres, o que estranhei, por se tratar de uma festa particular. Orlando me explicou que hoje em dia não vale a pena arriscar, é melhor se prevenir…

Minha esposa logo entabulou conversa com as duas marungas da folia e lá fui eu entrevistar a turma. Uns mais tímidos, outros mais falantes, uns tristes porque as festas já não são como antigamente, outros orgulhosos com a continuidade da tradição, o que une todos ali é a devoção aos Santos Reis.  Todos que entrevistei tem uma história de cura atribuída “a Santo Reis“.

Quando me dei conta, a missa havia terminado e já se ouvia os instrumentos da folia. Saí da sede onde eu estava entrevistando as cozinheiras que preparavam a carne moída e a salsicha que seria servida mais tarde e fui fotografar os foliões.

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Como eu olhava pelo visor da câmera, não acreditei nos meus olhos quando vi uma mulher parecida com minha esposa segurando a bandeira da companhia. Tive que olhar duas vezes e me lembrar da roupa que ela vestia para me certificar de que se tratava dela e não de uma sósia. Toda sorridente e bailando ao som da música, ela não cabia em si de contentamento. Perdi algumas fotos por conta das lágrimas que me turvaram a vista…

Para mim é impossível participar destas festas sem se envolver. Há alguns anos, quando comecei meu trabalho de pesquisador, achei que seria apenas um fotógrafo colhendo imagens. Mas como bem observou minha esposa, eu não sou um fotógrafo, eu sou um caçador da beleza, daquela beleza que emana da alma do devoto em seu momento mais sublime. Impossível não ser carregado pela força da fé nesses momentos, impossível não se lembrar de onde viemos e para onde vamos.

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SEU CARLINHOS – MOÇAMBIQUE E FOLIA DO DIVINO

janeiro 12, 2014

 

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Seu Luís Carlos Francisco, ou seu Carlinhos, como ele é mais conhecido, nasceu e sempre viveu no distrito de Eugenio de Melo em São José dos Campos SP. Aos 11 anos, já trabalhando com agricultor, se encantou com a beleza dos movimentos de um Moçambique que havia na região e pediu para participar. Dançou durante alguns anos, até que o grupo se desfez porque o mestre acabou indo embora da cidade e seu Carlinhos ficou na saudade…

Muitos anos mais tarde, a pedido do sub-prefeito de Eugenio de Melo, Seu Carlinhos foi encarregado de montar um novo grupo de Moçambique para animar uma festa de São Benedito, o que ele fez com base no conhecimento adquirido quando rapaz. Para ele não foi difícil, pois no seu dia-a-dia na lavoura vivia assoviando as melodias do Moçambique. Já para remontar os versos, o que ele não guardara na memória foi inventando da própria cabeça…

Assim surgiu O Grupo de Moçambique Companhia de São Benedito, que já vai para mais de 30 anos de existência, sempre sob o comando de seu Carlinhos, que hoje só não dança mais porque o corpo não permite. O cargo de mestre passou para seu Marinho, que está na folia desde os primórdios.

Um belo dia, o festeiro da Festa do Divino de Eugenio de Melo resolveu que queria uma folia do divino para arrecadar prendas para a festa e “convocou” o grupo de seu Carlinhos para tal tarefa. Seu Carlinhos recusou, haja vista que nunca havia ouvido falar de uma folia do divino e não tinha a mínima idéia de como montar uma… Entretanto, havia um problema. O cartaz da festa já havia sido impresso e anunciava que o grupo do seu Carlinhos iria fazer a alvorada. E agora, que fazer?

Homem de brio que é, sentindo a expectativa do povo devoto, seu Carlinhos não quis manchar o nome de sua companhia e tomou para si a tarefa de montar uma folia do divino no exíguo prazo de três dias que faltavam para a saída da bandeira. Assim, varou as madrugadas rabiscando letra e música para os versos do que imaginou que seria uma folia do divino em peregrinação fazendo os pedidos de prendas.  Ele conseguiu encher 30 páginas durante essas 3 noites em claro.

Como não havia tempo para ensaiar com o grupo, o que seu Carlinhos fez foi passar rapidamente para o pessoal, nos minutos que antecederam a alvorada, as melodias para que eles acompanhassem o mestre, que faria a voz. Estourados os rojões, lá partiram para o campo os 6 integrantes, munidos de viola, violão e muita coragem para enfrentar o desafio de percorrer 35 km num só dia, pedindo prendas em nome do festeiro. A bandeira foi feita por dona Maria Lucia, esposa do seu Carlinhos, que amarrou as três primeiras fitas, uma para o Pai, outra para o Filho e outra para o Divino Espírito Santo.

Foi uma caminhada difícil, o povo não sabia o que era aquele bando de gente que surgia tocando, cantando e pedindo diante de suas porteiras e muitas deles nem se dignaram recebe-los. Comida só foram comer de verdade lá pelas 10 da noite, exaustos da caminhada. Durante o dia enganaram a fome com bolachas e cafés nas vendas do caminho. Nesta primeira vez, como o povo não estava habituado, ninguém se preocupou com a alimentação dos foliões.

Depois desse primeiro dia, a Folia do Divino de Eugenio de Melo tornou-se uma tradição na cidade e vem saindo a cada ano, não só pedindo prendas para a Festa do Divino na cidade, mas também em outros eventos, tamanha a fama que o grupo ganhou.

Perguntei a seu Carlinhos se os versos que ele canta hoje ainda são os mesmos daquelas 30 páginas compostas nas madrugadas em claro.

__”São nada, Chico, os versos a gente vai variando pelo caminho afora. Se eu canto uma coisa numa casa, na seguinte já é outros os verso e se tem alguém gravando muito que bem, pois do contrário eu não sei repetir. É tudo de improviso, conforme o momento pede que seja.”

__Mas seu Carlinhos, me diga uma coisa. O senhor não conhecia nada de folia do divino e de uma hora pra outra monta uma folia que vem acontecendo há mais de 30 anos! Como o senhor explica isso?

Seu Carlinhos assume um tom solene e depois de um longo silêncio explica:

__”Ah, meu filho, isso não é obra nossa. Pra essas coisas quem ensina e ilumina é o próprio Espírito Santo. Meu trabalho só é permitir que ele se manifeste”.

A bandeira que o grupo usa é a mesma que foi confeccionada lá atrás, só que hoje o bandeireiro que hoje a empunha durante as saídas, carrega agora 15 (quinze) kg de fitas dos pedidos e graças alcançados. Seu Carlinhos foi obrigado a dividir as fitas e fazer uma outra bandeira, criando um novo ritual que é o encontro das duas bandeiras. Essa nova bandeira passa um ano na casa de quem fizer o pedido e o ritual da mudança acontece no 3º domingo de janeiro de cada ano.

E assim vão se reinventando as tradições do nosso povo.

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Dona Anita

novembro 6, 2013

Quando minha mãe comentou de uma amiga dela com 100 anos e que ainda dirige seu carro, não tive dúvidas, intimei-a no ato:

__Mãe, quero conhecer esta mulher!

__Quando você quiser, meu filho, nós vamos lá.

Ela passou a mão no telefone, marcou uma hora e lá fomos nós para o apartamento de dona Anita, no centro da cidade de São José dos Campos, onde moram ela e uma acompanhante. Uma senhora ereta, impecavelmente vestida, penteada, maquiada e com as unhas pintadas, nos recebeu em sua sala de visitas com uma maravilhosa vista para o banhado, a várzea inundável do Rio Paraíba.

Sentaram-se ela e minha mãe em um sofá e eu numa poltrona ao lado de dona Anita. Nas primeiras palavras que trocamos já percebi que dona Anita não escuta muito bem e minha mãe, que estava mais perto, tinha que repetir o que eu falava. Sem a menor cerimônia, a centenária senhora me indicou que sentasse na mesinha de centro e ficasse exatamente em frente dela. Ponto pra ela!

A voz de dona Anita é de uma mulher de 50 anos, firme, fluida e com um timbre que ao telefone jamais denunciaria sua idade. Foi esta voz que, me encarando de frente perguntou:

__Então, Francisco, o que você quer saber?

__Eu quero saber de tudo, dona Anita e para isso gostaria de filmar a senhora, fazer um video com seu depoimento, tudo bem?

__Ah, não! Você pode filmar tudo que quiser aqui desta sala, menos eu!

Ela foi tão veemente na negativa que eu não insisti. Peguei o gravador e perguntei se podia registrar somente a voz. Outra negativa, o que me deixou com a alternativa do bloquinho de notas, que foi o que gerou este texto, que ela liberou com a condição de que eu usasse um nome fictício. Negócio fechado, ela passou a responder minhas perguntas.

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Sanatório Vicentina Aranha

Dona Anita chegou à cidade de São José dos Campos em 1934, para casar-se com Mário, um ex-tuberculoso que já era seu namorado há anos. Para quem chegava de São Paulo, como ela, a provinciana São José dos Campos era um desafio enorme, que somente um grande amor poderia vencer. Amiga mesmo, só a esposa do médico que tratara de seu marido. Segundo ela, havia muito preconceito com quem vinha de fora e não foi nada fácil integrar-se à vida social da cidade. Sua amiga e confidente era a esposa do médico que cuidara do marido. Assim, a jovem Anita passava suas horas costurando, lendo, cuidando da casa e esperando o primeiro filho.

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Mercado Municipal de São José dos Campos

Quando saia da casa que alugaram na Praça Afonso Pena, era para ir ao mercado comprar frutas, legumes e verduras, muitas vezes pegando carona no carro de bois do seu Argemiro, que vinha 3 vezes por semana trazer lenha que abastecia o fogão de lenha da casa. Era madeira que saía do desmatamento da Vargem Grande, beira do Rio Paraíba, para abertura de novos pastos e campos de cultura. Quando não ia de carro de bois ela pegava a Rua Sete, andando pela estreita calçada de pedras chatas e irregulares, evitando caminhar pelo leito da rua, para não sujar seus sapatos de terra…

Mais tarde, ela aprendeu a andar de bicicleta e dava seus passeios na poeirenta Praça Afonso Pena, que na época era pelada de tudo. A bicicleta, os veículos de tração animal e as pernas, era o que as pessoas usavam naquela época para se locomover. O primeiro automóvel que dona Anita e seu Mário compraram foi somente depois da II Guerra, quando a cidade começou a crescer, com a chegada das industrias, e a abertura de novos bairros.

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Carro de bois em São José dos Campos, usado para transporte de mercadorias antes do automóvel

A diversão de Anita, afora a missa dos domingos, na Igreja de São Benedito, eram os circos, as cavalhadas e as festas que tinham lugar na mesma Praça Afonso Pena. Às vezes, nos fins de semana, o casal era convidado para almoçar na casa de gente importante da cidade e foi com eles que Anita começou a expandir seu círculo de amizades. O cinema só apareceu mais tarde, com a abertura do cine Paratodos e Anita não perdia um filme. Quando queriam fazer algum programa diferente, a opção era Jacareí que na época era um núcleo urbano bem mais desenvolvido que São José dos Campos.

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Praça Afonso Pena, com circo armado, década de 1930

O marido, pouco tempo tinha para ela, já que ficava o dia todo por conta da farmácia da qual era o dono. E à noite ainda tinha que sair para atender chamados de médicos e pacientes que não podiam esperar o dia seguinte para uma injeção ou o que fosse. Quando ficou bem conhecido na cidade, dr Mário, como era chamado, candidatou-se a vereador e exerceu o mandato por 16 anos, numa época em os edis não ganhavam um centavo de salário, pelo contrário, tinham que pagar a maior parte das despesas com dinheiro do próprio bolso.

Dona Anita ia levando a vida doméstica, cuidando da casa e dos 4 filhos, penando com as empregadas muito chucras que ela e dr Mario arrumavam na roça. Era preciso ensinar tudo, desde higiene pessoal até os pratos finos que dona Anita servia para os convidados. Dentre as pessoas que recebeu em sua casa, estão figuras do quilate de um Assis Chateaubriand e um Ademar de Barros. Ela tem fotos que tirou ao lado deles, mas estão numa caixa em cima do guarda roupas, quem sabe em outra oportunidade me mostra…

A menção das fotos faz a emoção brotar, lembra do marido que se foi há mais de 20 anos. Dele não guarda nem a aliança, já que a mesma foi doada na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, logo depois do golpe militar de 1964. Com os cofres públicos vazios, foi lançada pelos Diários Associados uma campanha nacional para arrecadar jóias da população. Em troca, ganhava-se uma aliança de latão e um diploma com os dizeres: “Dei ouro para o bem do Brasil”. Nesta brincadeira, foram-se as alianças do casal e alguns preciosos presentes de casamento…

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Depois que o marido se foi, vítima de um AVC, dona Anita passou a cuidar um pouco mais de si. Viajou pelo mundo e fez tudo aquilo que os compromissos do esposo não permitiam, na época. Acontece com muitas mulheres que viveram em função do marido, de desabrocharem para a vida depois da partida do companheiro. Mas ao mesmo tempo que ela fala disso, detecto uma certa tristeza em seu olhar. Ela se antecipa à minha pergunta e afirma:

__Mas hoje, quem sobrou da minha turma? O pessoal todo se foi, só fiquei eu, sozinha aqui neste apartamento, esperando a minha hora.

__Não fala isso, não, dona Anita. Dá pra ver que a senhora está forte, bonita, mais firme que muita mulher com metade de sua idade!

__Ah, Francisco, eu conheci 7 gerações, desde meus avós até meus tataranetos. Mas me sinto muito solitária aqui, só saio para fazer as compras da casa e o meu remédio da pressão, que é o único que eu tomo. Mas a pressão não incomoda nada, não me impede de fazer o que eu tenho que fazer, não!

__Surpreendente para uma mulher uma pessoa de sua idade, dona Anita. O que a senhora come para manter esta saúde toda?

__Bom, eu rezo o terço todos os dias, isso é o alimento da alma, que pra mim é o mais importante e já faz vinte anos que como frango cozido com tomate, arroz e uns legumes cozidos. O que? Coisa crua? Deus que me livre! De tarde eu tomo um chazinho com bolo e margarina. Mas eu nunca fumei e nunca bebi, acho que isso ajuda, não é?

Fica pensativa, o silêncio instala-se na sala por um tempo.

__Acho que meu problema é não ter problema. Vejo essas mulheres do povo brigando, discutindo, sofrendo naqueles ônibus horríveis. Tenho inveja delas…

Resolvi não continuar o assunto, pois na verdade estou de pleno acordo com dona Anita, uma vida sem desafios fica triste, carece de sentido. Me veio a curiosidade de saber como ela ocupava seu tempo, sozinha naquele apartamento e perguntei:

__Mas além do terço, dona Anita, o que a senhora faz o resto do dia aqui sozinha? – a resposta me surpreendeu…

__Ah, eu fico no computador!

__Uma pessoa da sua idade, que bacana! E o que a senhora vê na internet?

__Ah, meu filho, tudo que eu tenho direito, vejo de tudo!

__E o que é esse tudo, dona Anita?

__Tudo que você quiser imaginar…

Com esta resposta evasiva ela me calou e nos convidou para tomarmos um chá com bolo e margarina, na cozinha. Ela se levanta sozinha do sofá, recusa e faz cara feia quando faço menção de ajudar. Também não gosta de ser servida, ela mesma verte o chá em sua xícara e nos serve do bolo que também foi assado por ela. A empregada, que escuta nossa conversa se intromete e diz que ela mesma pinta as unhas e corta o cabelo, nunca foi a um salão de beleza!

De repente dona Anita para de falar e fica contemplativa, olhando pela janela.

__O que foi, dona Anita, lembrou de alguma coisa que quer me contar?

__Lembrei sim, de uma coisa muito importante que eu tenho imenso prazer de fazer.

__O que é dona Anita?

Ela então nos leva para perto da janela e mostra umas arvores e pergunta:

__Vocês estão vendo?

__Vendo o que, dona Anita?

__Os dois gatinhos ali em cima da copa das árvores. Elas formam dois gatinhos se beijando, não estão vendo?

Finalmente entendi que os gatos não eram de carne e osso, e sim as copas das árvores que, com um pouco de imaginação deixam ver um casal de gatos se beijando.

__Aquele da esquerda é o Mário e a gatinha sou eu…

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Este é o retrato aproximado de uma centenária senhora que vive escondida em nossa cidade. Quantas mais haverão como ela, esperando um pesquisador curioso? Não me canso de escavar estes tesouros, alguns mais escondidos, outros à flor da terra. Ficou evidente que ela gostou da entrevista, mesmo sendo uma pessoa reservada. Dona Anita me deixou as portas abertas e eu prometi voltar tão logo ela tire as fotos de cima do armário e resolva mostrá-las.

Antes de irmos embora, ainda deu tempo de perguntar à dona Anita se ela não tinha problemas para renovar a carteira de motorista, dada a idade avançada. Ao que ela respondeu:

__Mas eles não tem motivo nenhum para me negar a renovação. Eu enxergo bem, tenho coordenação motora e outro dia esteve aqui um médico gerontologista que veio estudar o “meu caso”. Ele colocou aqueles eletrodos na minha cabeça, fez um monte de perguntas e ontem chegou o resultado, diz que eu tenho o cérebro de uma jovem de 20 anos! Ai deles se me me negarem esse direito! – e deu uma boa risada!

Dona Anita pode não ser perfeita, mas é um exemplo de perseverança e amor à vida.

Carpição

agosto 19, 2012

carpição
car.pi.ção
sf (carpir+ção) Ação de carpir ou desmoitar uma roça; capinação.

Segundo o dicionário Michaelis online, esta que se lê acima é a definição da palavra carpição. Para quem não é da roça, para aqueles que não são familiarizados com a terminologia do meio rural, explico; capinar quer dizer passar uma enxada num terreno, de modo a deixa-lo livre de mato.

Etimológicamente, carpição vem de carpere, em Latim e significa arrancar ou colher. Houve um tempo em que carpir significou arrancar os cabelos para demonstrar a dor da perda. Daí a palavra carpideira, pessoa a quem se pagava para chorar os defuntos durante os funerais. Não tenho notícia de que esta prática esteja em uso ainda hoje, mas sei que na roça a palavra carpir está bem viva e não tem caboclo que não saiba o seu significado.

Pois bem, semana passada fui convidado a conhecer uma manifestação popular denominada Carpição, que tem lugar ao pé de uma Santa Cruz, na capela de Nossa Senhora dos Remédios, Bairro dos Remédios, em São Francisco Xavier. Tendo morado por mais de 30 anos no meio rural e não muito longe desta capela, jamais eu havia ouvido falar dessa tal de Carpição. Descobri, depois, que pessoas morando há mais de 40 anos na região, também nunca haviam ouvido falar da Carpição.

Por se tratar de um evento ligado à igreja, imaginei um bando de mulheres vestidas com túnicas pretas, entoando lamentos em volta de um caixão. Nada mais longe da realidade, pois trata-se de uma festa na qual pratica-se um ritual que remonta ao século XVII, segundo consegui saber numa pesquisa rápida. O ritual consiste em carregar 3 viagens de terra de um ponto a outro, nas imediações da capela, com a intenção de que aconteça uma cura ou se resolva um problema qualquer. Neste caso específico que visitei, a terra é retirada de um monte nos fundos da capela e levada até o pé da Santa Cruz, em frente à entrada principal. Antigamente carregava-se a terra dentro de um lenço, num guardanapo de pano ou mesmo nas palmas das mãos, mas hoje, a imensa maioria das centenas de devotos que comparecem a esta festa usam mesmo sacolinhas descartáveis, dessas que dão nos supermercados.

Dizem alguns que o nome dessa tradição teve origem na necessidade de se acertar o terreno para a construção de uma nova igreja na zona rural. Daí o capinar, ou carpir o terreno para limpa-lo e depois cava-lo e acerta-lo, fazendo assim uma terraplenagem na base da enxada. Como o solo destinado à nova igreja era benzido pelo padre, não se podia simplesmente descartar a terra, a qual era depositada ao pé da Santa Cruz e daí para que ela começasse a produzir milagres foi um pulinho. Os devotos que carregam esta terra afirmam que foram curados das mais diversas enfermidades; das mais triviais, como uma dor no braço até casos graves e desenganados de cancer.

É verdade que esta capela de Nossa Senhora dos Remédios já está pronta há muito tempo, o terreno todo acertado, já não há mais onde cavar e hoje a terra é trazida pelo caminhão da prefeitura, uns dias antes da festa. Mas tradição é tradição e uma vez que a coisa continua funcionando e as pessoas alcançando as graças pedidas, quem é que vai questionar esta adaptação circunstancial?

A data convencionada para a realização da Carpição é 15 de agosto, mas com a opção da primeira segunda-feira de agosto, para aqueles que por um motivo qualquer não podem comparecer no diz convencionado. No dia 15 pp, lá fui eu registrar a tal Carpição no Bairro dos Remédios, que fica a uns 60 km de onde eu moro. Saí bem cedinho, pois minha informante me dissera que os primeiros devotos chegam de madrugada e a coisa vai até de noite. Dizem que antigamente era feriado, ninguém trabalhava neste dia, mas hoje é só na roça que alguns ainda guardam este dia.

Lá chegando, a primeira coisa que vi foram os devotos, uns 10 deles, carregando as sacolinhas, pareciam formiguinhas baldeando terra. Uns colocavam a sacola na cabeça, outros nas pernas, em volta da barriga, nos braços e outros, ainda, tinham levado seus animais e os faziam transportar a sacola de terra. Sim, a cura funciona também para os animais e pode-se carregar terra e pedir favores para terceiros, caso em que é preciso aumentar o numero de viagens, desde que sejam sempre múltiplos de 3.

Estacionei o carro, preparei o gravador e a camera fotográfica e já ia partir para o trabalho, quando me lembrei da sugestão de uma sábia amiga. Que antes de mais nada, deve-se participar do evento que se vai registrar, até para que o entrevistador não seja percebido como um intruso. Assim, peguei uma sacolinha no carro e a enchi de terra. Mas o que eu iria pedir? Não me sinto doente! No meio da caminhada tive uma idéia. Resolvi colocar a sacola na altura do coração e pedi que ele nunca se endurecesse. Não sei se foi autosugestão, mas depois que cumpri minhas 3 viagens, uma sensação de leveza muito gostosa me invadiu e permaneceria comigo ao longo de todo aquele dia.

Dentre as pessoas que estavam ali baldeando terra, reconheci vários amigos do tempo em que morei na região. Isso ia me facilitar o trabalho, pensei, pois é sempre mais difícil abordar desconhecidos e quebrar o gelo da desconfiança. Resolvi esperar que um dos meus conhecidos terminasse seu ritual, mas antes disso chegou Antonia, a pessoa que me convidou para conhecer a Carpição.

Antonia foi muito gentil, me trouxe café e umas broas de milho e desandou a falar sobre a Carpição, da beleza que é a fé dessa gente, pessoas de todas as idades cumprindo suas promessas, agradecendo, pedindo graças. Algumas delas vindas até de outros estados! Antonia estava visivelmente empolgada de estar ali. Perguntei se ela iria carregar sua terra ou já havia feito o ritual. Ao que ela respondeu:

__Não, Chico, a minha fé é outra, eu respeito e acho bonito, mas não posso participar.

__Como assim, Antonia? – perguntei sem entender nada, já que era por causa dela que eu estava ali e era evidente que ela estava achando aquilo maravilhoso!

__É que eu sou evangélica e o pastor não permite que a gente frequente essas coisas… Eu venho aqui escondido, eu gosto tanto de ver isso, Chico… – e ela me deu um sorriso maroto!

Enquanto eu reordenava meus pensamentos para dar algum sentido ao que ela acabara de me dizer, meus amigos foram aparecendo e entrevistei-os um a um. Pessoas que eu nem imaginava que fossem religiosas estavam ali, carregando a sua terrinha. Me dei conta que todos eles tinham mais de 80 anos, alguns já estavam na casa dos 90 e vieram todos de ônibus, taxi ou à cavalo. Estes senhores foram os que me ajudaram a construir minhas casas no mato, me ensinaram as plantas boas de fazer chás, a época certa de cortar madeira para não carunchar, como encabar uma enxada, essas coisas que não se aprende na escola. A maioria conheceu a Carpição através dos pais, vinham quando eram pequenos e passaram a vir sempre. Eu estava me sentindo em casa, feliz de reencontrar meus amigos e eles felizes de me ver, depois de tanto tempo.

Lá pro meio dia, senti fome. Eu poderia ter comido um pãozinho e tomado o café que era servido aos devotos por um senhor que fazia este serviço para pagar promessa. Diz ele que vai servir o café até morrer e antes disso vai passar a incumbência para outro (já tem até um candidato na fila…) Mas eu queria comida de verdade, meu corpo magro não pode ficar muito tempo sem combustível. Pensei em pegar o carro e ir até a cidade mais próxima, São Francisco Xavier e bater um rango mineiro, mas quando eu ia entrando no carro estacionado na praça, percebi uma senhorinha apoiada numa dessas portas cortadas na metade e não resisti, pedi para entrevista-la.

Sem me dar conta, acabei falando que estava com fome e, claro, ela me convidou para comer. Enquanto eu me deliciava com as sobras do almoço de dona Virgínia, fui dando vazão à minha curiosidade. Descobri que dona Virgínia tinha vindo morar ali na praça para ficar perto de sua santa de devoção e nunca mais deixar de participar da festa dela em outubro, e da Carpição, que o pai dela proibia quando era criança. Dizia ele que era perda de tempo e não deixava nenhum dos 19 irmãos saírem neste dia, tinham que ficar em casa e trabalhando! Só depois de casada é que dona Virgínia conseguiu vir e, mais tarde, depois da morte do marido, comprou uma casinha e veio morar ao lado da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Já está ali há 13 anos, mas tem vindo já há 45 anos.

Diz dona Virgínia que “nos tempo de antes” era muito mais animada a festa da Carpição, que no lugar que eu parei o carro nem se podia entrar, de tantas que eram as barraquinhas vendendo quentão, cerveja, salgadinho, etc… e que vinha muito mais gente. Eu quis saber qual seria o motivo desse “encolhimento” da festa, na opinião dela.

__Ah, seu Chico, “é u povo qui tá perdeno a fé… andô aparecendo muita religião aí, dos crente, tá saino muito dessas igreja dos crente em São Francisco i eles num dexa mexê com santo, aí a turma foi afastano tudo…”

__Mas será que foi só isso mesmo, dona Virgínia? Será que a culpa é só dos  “crentes”?

__Ah, não! “Tem os padre tamém, eles quere mudá tudo nas festa que é tradição di nóis! Num pódi mexê nessas coisa… tem qui cumpanhá do jeito qui vinha vindo, sinão bagunça tudu!”

__É mesmo, dona Virgínia? Eles quiseram mexer na tradição da Carpição?

__”Quisero mas num consiguiro, a gente si uniro i dissemo qui respeitamo a igreja, mas a tradição num podi sê mudada! A gente se unimo i a festa continua, tá menos mais continua”…

Antes de voltar para São José dos Campos, enchi uma sacolinha com terra do monte ao pé da Santa Cruz. Dona Virgínia me disse que é bom levar pra casa e botar no jardim, que ajuda a família a ter harmonia. Não quis esperar a missa nem o lanche que haveria em seguida, um pão com carne e um café com leite.

Santo Antonio

junho 17, 2012

O pessoal estava rezando o terço em frente à casa do festeiro, eram quase umas 50 pessoas, a maioria crianças e senhoras. As crianças eram divididas em meninas, que se fantasiaram de anjinhos e os meninos, todos vestidos de freis franciscanos. De homens adultos, havia dois rapazes para carregar o andor e mais um ou outro senhor de cabelos brancos. Essa pequena multidão ocupava metade da faixa de rolamento, todos convergindo os olhares para o andor de Santo Antonio. Os carros que vinham daquele lado da rua tinham que desviar e trafegar um trechinho na contra mão.

O terço ia lá pelo seu penúltimo mistério, quando um carro estacionado a 30 metros dali abriu o capo traseiro e  inundou a rua com uma música techno, num volume bem mais alto que um ouvido normal pode suportar. Resultado, ninguém mais conseguia escutar dona Vitória, a puxadora do terço. Os devotos de Santo Antonio se entreolharam, alguém tinha que tomar uma providência, não ia dar pra continuar a reza com aquele ensurdecedor bate-estaca eletrônico… Um senhor crente muito bem vestido, devidamente equipado com sua bíblia, passou exatamente nesta hora e não disfarçou um sorriso de escárnio, pelo visível mal estar instalado entre os adoradores de imagens.

Depois de um minuto de desconforto, seu Dorival, marido de dona Vitória, tomou a iniciativa e foi pedir ao jovem um pouco de respeito pelo santo. O rapaz não desligou o som, apenas baixou o capo e saiu cantando pneus. Pude ouvir de uma beata que falou baixinho:

__Este mundo está mesmo perdido… Rezar que é bom ele não quer…

O último mistério foi rezado durante a procissão, que percorreu o quase quilômetro entre a casa do festeiro e a pracinha do bairro, que era onde as barraquinhas da quermesse e o palco já estavam montados. Rojões estouraram e vivas foram dados a Santo Antônio quando ele adentrou a área cercada de cavaletes, colocados pela prefeitura para isolar a área. Rezou-se então um novo terço, dessa vez um terço luminoso, durante o qual são acesas velas, que os devotos seguram durante toda a reza. As crianças, os anjinhos e os capuchinhos já estão impacientes, não é de sua natureza ficarem quietas durante tanto tempo. Os pais pedem a eles, inutilmente, que se compenetrem e fiquem em oração.

Ao fim do terço, anuncia-se a distribuição de pães bentos. De cima do palco, gentilmente montado pelo candidato a vereador, dona Vitória e seu Dorival distribuem algumas centenas de francesinhos bentos, acondicionados em caixas de papelão, oferta da padaria do portuga.

Novamente se ouve os fogos, agora anunciando o mastro que será erguido, com a bandeira de Santo Antonio. Os mesmos dois jovens que carregaram o andor, agora pregam a bandeira do santo na ponta do mastro de metal e plantam o axis mundi no centro da praça. Em outros anos o mastro já foi de madeira devidamente escolhida, cortada segundo um criterioso ritual pelo padrinho do corte e ornamentado e pintado pelo capitão do mastro. Optou-se pelo metal depois que os vândalos passaram a destruir os de madeira. Só não conseguiram resolver o problema das moças que raspavam um pedaço da madeira do mastro, para fazer o chá milagroso, que teria o poder de trazer aos pés delas um noivo, já no ano seguinte.

Rezas terminadas, pães distribuídos, mastro erguido, começa a parte dita profana. O povo forma imensa filas para comprar ficha e consumir os comes e bebes; quentões, vinhos quentes, bolinhos caipiras e doces diversos. E se divertir na barraca de pescaria, no castelo de plástico inflável, com o bingo, com o correio elegante e finalmente, lá mais para o fim da festa, com a quadrilha improvisada. Alguns pés-de-valsas mais afoitos não se contiveram e já bailaram ao som de pagodes, sambas e sertanejos que rolaram durante toda a festa. Meia noite, pontualmente, encerra-se a festa, foi o combinado com a prefeitura, um acordo conseguido a duras penas, pois muitos vizinhos reclamaram do barulho depois das 22h e quiseram boicotar o evento.

Quando a festa terminou e começaram a desmontar as barracas, dona Vitória se deu por satisfeita, tudo deu certo e não houve nenhum contratempo. Mesmo que o padre tenha se recusado a rezar a missa na praça, como nos anos anteriores. Ele havia proposto que a festa fosse transferida para o pátio da igreja, para congregar os fiéis mais próximos do templo cristão, o que foi veementemente recusado pelos organizadores. Levar a festa para a igreja iria esvaziar o evento! Afinal, o mutirão para a realização desta tradição conta com a ajuda de crentes, umbandistas, espíritas, budistas e até ateus! Se fosse junto à igreja, que por sinal fica a dois quilômetros da praça, muitos desses ajudantes não iriam querer participar.

Ela pensou com seus botões: “Bem que o padre Vicente poderia ter sido mais flexível”…

A Festa do Divino Espírito Santo

junho 6, 2012

Andressa estava desesperada e Alexander deprimido, se arrastando cabisbaixo pelos cantos da casa. Fazia meses que a oficina de funilaria e pintura do casal andava muito mal das pernas, afundada em dívidas e sem clientes. Andressa sabia que a culpa não era do marido, um profissional honesto e trabalhador, mas algo estava muito errado e Andressa precisava, urgentemente, fazer alguma coisa. Melissa, a filhinha do casal, pedira uma mamadeira e as moedas na sopeira da sala não eram suficientes para comprar um simples litro de leite. Era preciso tomar uma providência, a situação chegara a um ponto insustentável.

Com lágrimas brotando dos olhos, Andressa abraçou a filha, se ajoelhou no canto da sala em frente ao retrato amarelado da família, velho de vinte anos. Era uma foto tirada quando ela era criança, numa Festa do Divino Espírito Santo, no sitio do avô em Roseira. Fechou os olhos e deixou-se transportar para aquele tempo de fartura e despreocupação. Ouviu as violas chorando e os tambores rufando, batendo no ritmo acelerado do seu coração ansioso. Sentiu na boca o gosto esfarelento e macio do bolo de fubá com queijo e do café quente e doce, que era servido no sitio do avô nos dias da festa. Lembrar das comidas da infância era como receber um abraço por dentro, um conforto naquele momento de dor.

Há muito que não se realizavam mais as festas do Divino, daquelas que reuniam toda a família. A tradição foi morrendo junto com os velhos e os novos não tinham mais tempo nem espaço para ela, agora que tinham sido engolidos pela lula-lufa das cidades…

Com o coração um pouco mais calmo, Andressa olhou para Melissa e reparou que o vestidinho da filha era o mesmo que ela usara quando a foto da família havia sido tirada. Reparou, também, que a fita que apertava o vestido na altura da cintura, ainda estava faltando o pedaço que tia Amélia tinha cortado para amarrar na bandeira do Divino. A tia estivera desenganada e o que a salvou foi sua fé no Divino. Muitas eram as histórias de graças alcançadas por intermédio do Divino, havia mesmo relatos de milagres… Milagres? Era isso que Andressa estava precisando naquele exato momento!

Sem pensar, como se estivesse sendo conduzida por uma mão invisível, pegou a fita que amarrava o vestido da filhinha e com o restinho de fé que ainda carregava no seu coração, pediu ao Divino que nunca mais deixasse sua filha passar fome. E se seu pedido fosse atendido, ela prometia que, enquanto vivesse, todos os anos, na época de Pentecostes, ia fazer uma festa em sua homenagem, do mesmo jeitinho que seu avô fazia.

O Divino se apiedou de Andressa e não demorou para os clientes começarem a aparecer na oficina de Alexander e o dinheiro entrar no caixa. A situação melhorando aos poucos, as dívidas materiais sendo pagas, mas Andressa não se esquecia da mais importante delas, aquela que fizera com o Divino. Ela queria começar a pagar logo naquele ano e começou a anunciar entre os mais chegados, que quando chegasse a época ela faria uma festança do Divino, em agradecimento à graça alcançada. E na bandeira que ela mesma já confeccionara, ela iria amarrar a fitinha do vestido de Melissa.

O povo achou que ela estava doida, pois Andressa não passava de uma remediada, sua situação ainda não permitia o luxo de dar uma festa nos moldes daquela que o avô patrocinava, com muita comida distribuída a quem chegasse, música, leilão e baile. Mas ela tinha fé, uma fé que crescia a cada dia, na certeza de que o Divino estava por trás da paz que voltara a reinar em seu lar e que Ele iria dar um jeito da festa acontecer. E aos que afirmavam que ela estava ficando louca, dizia que quem daria a festa não seria ela, seria o Divino, ela seria apenas o instrumento.

E realmente, foi se aproximando a época de Pentecostes e a festa se desenhando. Através de pequenas contribuições daqui e dali, toda gente que ficara sabendo da promessa de Andressa quis contribuir com alguma coisa. Um prometeu um porco, outro uma galinha, um saco de batatas, o que estivesse sobrando em casa. Ela não pediu nada, só fazia afirmar sua certeza de que daria a festa e o povo foi doando o que achou de doar.

Na semana da festa, estava quase tudo já preparado e Andressa sentiu saudade do bolo de banana, um quitute que nunca faltou na festa do avô. Foi ela dar falta do bolo que bateu na porta um desses vendedores ambulantes, que carregam a mercadoria num peruzinho. O pai dela foi atender a porta e anunciou que era um vendedor de… bananas, oferecendo dois lindos cachos de nanicas bem granadinhas.

__Ah, meu pai, mande o homem andar, que dinheiro não estamos tendo pra comprar essas bananas.

__Vá lá falar com ele, minha filha, que ele mandou chamar foi a dona da casa.

Ao chegar no portão, o homem já havia descarregando os cachos do peruzinho, dizendo que mandaram entregar naquele endereço. Andressa chegou a perguntar quem havia mandado aquele presente tão providencial, mas o homem não se deu o trabalho de responder, deu as costa e se foi… Ela sentiu um calor percorrendo seu corpo, aquilo, mais uma vez era obra do Divino.

No dia marcado, a festa teve lugar no pátio da oficina do casal, todo enfeitado com bandeirinhas coloridas, ia chegando gente não se sabe de onde, todo mundo com o intuito de ajudar, coisa bonita de se ver. Apareceu até um grupo de Folia do Divino, gente que não se reunia há anos. Eles se organizaram, fizeram as capas vermelhas com a pomba bordada em branco e saíram uns dias antes pela vizinhança, pedindo ajutório para a festa. Montou-se uma cozinha improvisada, com um fogão de lenha feito às pressas, com tijolos de demolição e uma chapa de ferro doada pelo depósito de material. O afogado, prato feito com carne ensopada e farinha de mandioca, estava delicioso segundo os que comeram.

Na hora das rezas, Andressa foi se lembrando de tudo e puxou cada uma delas, inspirada pela devoção e fé que só faziam crescer, à medida que via que tudo ia dando certo e ela pode, sem ter os meios, realizar a festa prometida. A primeira fita a ser amarrada na bandeira, foi, claro, a dela. Seguiram-se muitas outras fitas, de gente buscando ajuda ao Divino, a fama da bandeira se espalhando e a festa crescendo a cada ano.

No primeiro ano, consumiram 15 kg de carne e agora que a festa está em sua décima edição, são precisos 150kg de carne para preparar o afogado. Começaram com não mais de 100 pessoas, se apertando no terreiro da oficina, hoje comparecem mais de mil. O pessoal cede o sitio, a chácara, fazem questão de que seja no local deles, em agradecimento a alguma graça alcançada. Um dia Andressa ainda quer ter o próprio local, um sitio com largueza, para construir sua capelinha e lá colocar sua bandeira do Divino. Ela sabe que vai conseguir, mas não tem pressa, que o Divino faz tudo na hora certa, não é na hora que a gente quer e do jeito que a gente imagina.

Isso tudo Andressa me contou não faz um mes, quando a conheci. Ela se empolga quando fala da presença do Divino em sua vida e das transformações que Ele já fez em sua família e no seu grupo cada vez maior de amigos. É impossível não ficar contagiado com a fé desta mulher. Fiz uma longa entrevista com ela, sobre os aspectos folclóricos da manifestação, que era o que me interessava, mas ela não deixava de ressaltar que nada era por acaso e que só participando da festa eu ia entender o que ela estava contando.

Assim, no dia 03 de maio, bem cedinho, antes do sol nascer, lá estava eu, num sítio da periferia da cidade de São José dos Campos, participando da alvorada da festa, que consiste de uma queima de fogos e a reza com o pessoal que passou a noite ajudando nos preparativos. A maior parte do pessoal do apoio é da família e está vestido com calça branca e blusa vermelha, as cores do Divino. Andressa comanda tudo, dando ordens pelo microfone, recebendo gente que chega e resolvendo os pepinos que vão aparecendo.

E eu ia registrando o que podia, porque acontecia tanta coisa ao mesmo tempo, que eu não dava conta. Num determinado momento, percebi que eu me emocionara e que tinha sido contagiado pelo clima da festa, foi difícil me manter isento e continuar o trabalho. Quando foi na hora de pegar uma fita e fazer um pedido, eu não pensei duas vezes, aceitei uma fita e fiz um pedido eu também. Fui até a bandeira, segurei a fita em baixo da mesma e fiz o meu pedido, a cabeça baixa e a testa encostada no pano vermelho. Não deu para segurar as lágrimas…

Saí do altar enxugando as lágrimas e com alguma dificuldade voltei à minha função de repórter do evento. Um homem se aproximou de mim e perguntou.

__Faz favor, o senhor sabe que horas vai ser o leilão?

__Puxa vida, não sei não moço, não tenho a menor idéia, eu estou aqui a trabalho, sabe?

__Mas o senhor não é da família?

__Eu não, por que?

__Ah, porque o senhor está vestido de vermelho e branco, por isso!

Me dei conta que naquele dia eu tinha escolhido vestir uma calça de veludo clara e minha blusa era de um vermelho muito vivo. Muita coincidência! Rindo, respondi:

__É, talvez eu tenha entrado para a família sem perceber!


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