Posts Tagged ‘ecologia’

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

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Simpatia para curar bicha, inveja e mau-olhado

janeiro 11, 2015

 

 

Fiz este pequeno vídeo a pedido de Dona Maria, que gosta muito de ser filmada e mostrar o que aprendeu na roça, onde viveu até os seus 25 anos.

Ela quer deixar um registro para seus filhos e netos, pois sabe da importância do conhecimento que adquiriu com seus antepassados e também porque as pessoas não acreditam que ela foi e ainda é uma mulher que sabe lidar com a criação, monta a cavalo, conhece ervas medicinais, simpatias e mais um tanto de coisas que o pessoal da cidade só vê em filmes e livros.

O sítio onde ela morava na infância e adolescência foi desapropriado para construção da represa de Paraibuna e, desde então ela vive na cidade, sempre sonhando com sua roça natal.

Hoje ela mora em um pequeno terreno na periferia da cidade de São José dos Campos SP, no bairro do Buquirinha, onde cria galinhas, planta cana, milho, abóbora e mantém uma pequena horta para o gasto, tentando se aproximar da vida que ela tanto gosta.

As imagens do vídeo acima foram tomadas por ocasião de uma visita à fazenda de sua filha, zona rural de São José dos Campos SP.

Dona Cida e as Saúvas

maio 4, 2014

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No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em viagem de estudos pela América do Sul, teria ficado assustado diante do poder destrutivo deste inseto, o que o levou a afirmar que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

A saúva já foi considerada um dos maiores flagelos da agricultura brasileira, mas isso num tempo em que ainda não existiam os eficientes formicidas que hoje exterminam as colônias deste inseto como num passe de mágica.

As saúvas são capazes de pelar uma árvore em questão de horas, dependendo do tamanho da colônia. Por isso, quem tem um formigueiro no seu jardim ou lavoura, não pensa duas vezes. Vai a uma “casa rural”, escolhe um veneno qualquer e dá fim neste inseto que aos olhos da pessoa comum só causa estragos. Mas aos olhos de minha amiga Cida, as coisas se passam de uma maneira um pouco diferente. Dona Cida jamais mataria a saúva, muito pelo contrário, ela “planta” sauveiros!

Deixem-me explicar. Dona Cida mora na periferia da cidade de São José dos Campos, onde ainda tenta manter o modo de vida rural de sua infância e adolescência. Num terreno de 5000 m2 ela ainda cria galinhas, mantém uma horta, planta seus remédios, cuida de um pomar e tem uma pequena roça onde convivem pés de cana, abóbora e mandioca, tudo muito bem cuidadinho e limpo.

Da última vez que fui visitá-la, reparei que havia um pé de jaca muito judiado, quase sem folhas. Perguntei a ela se era a saúva a responsável pelo estrago na fruteira.

__É elas mesmo, Chico, eu deixo elas comerem as fôia da jaqueira.

__Mas dona Cida, a senhora vai deixar as formigas acabarem com o pé de jaca? Por que não mata elas?

__Matá as formiga? Deus que me livre! Eu tô é prantano elas! Enquanto que o povo qué acabá com elas eu semeio oiêro de saúva, pra modi elas não acabá!

__Como assim, dona Cida? Explica melhor essa história de “plantar saúva”. Saúva é bicho, não é de plantar!

__Ah, Chico, quando ocê pranta não faz um buraquinho e enfia a semente? Pois então, quando eu pranto a saúva é a mema coisa. Eu faço o buraquinho e coloco ali a tanajura, pra formá a casa delas.  

__E pra que a senhora quer semear uma praga que todo mundo quer acabar?

__Por que eu adoro comê içá, uai! E com esse povo todo matano as saúva, daqui a pouco elas vai sumi, então eu planto elas aqui no meu quintá… E dô di comê a elas com as fôia da jaqueira, que a jaca eu não posso com ela mêmo, então dêxa elas comê a árvi… 

A resposta de dona Cida me surpreendeu e me fez lembrar que a saúva é um inseto que está no planeta há muito mais tempo que o homem, um recém chegado de vista curta. Sem pensar na função ecológica que tem a saúva, sem falar que a própria formiga serve de alimento a muitas populações, queremos eliminá-la porque imaginamos que ela ameaça nosso modo de vida atual, nossa agricultura baseada na monocultura.

Mal sabem os que matam as saúvas, que estes insetos trabalham para a regeneração da flora e não o contrário, como pode parecer à primeira vista. Esta espécie, quando se reproduz, procura terrenos degradados para iniciar uma nova colônia. Revolvendo a terra e trazendo para a superfície o subsolo, ela acaba favorecendo o desenvolvimento de sementes que se tornarão plantas e árvores, as quais servirão de alimento para elas e para nós humanos também.

E mais, existem animais que vivem dos dejetos das saúvas e que também contribuem para a nitrogenação do solo, aumentando a fertilidade do mesmo. Ou seja, há toda uma intrincada cadeia de plantas e animais que dependem do trabalho das saúvas para continuarem existindo. Exatamente como fazem as abelhas e moscas polinizadoras, sem as quais não haveria os frutos que comemos, as formigas semeiam a vida no solo.

Dona Cida, com seu corpinho magro e ágil e forte como uma formiga, provavelmente não pensa em nada disso quando “semeia” sauveiros, mas talvez intua a importância que tem as saúvas para o equilíbrio do planeta.

Arrisco dizer que Saint-Hilaire estava equivocado em sua afirmação. Acabar com a saúva pode ser o mesmo que acabar com o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.

O Paraguay Que O Brasil Não Conhece

abril 21, 2013

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Em circunstancias normais, eu jamais pensaria em fazer turismo ou passear no Paraguay. Mas quando um casal amigo meu, Hamilton e Patrícia, me falaram que estavam de partida para este país vizinho com o propósito de ministrar um curso de Terapia Florestal, eu praticamente me convidei para ir com eles e seus dois filhos pequenos. Afinal, terapia é uma das minhas paixões nesta vida e como minha vida está de pernas para o ar, achei que valia a pena arriscar algo fora do comum.

Faz já alguns anos, Hamilton projetou e instalou todos os equipamentos de eco-aventura dentro daquela que é a primeira reserva florestal particular no país vizinho. A eco reserva de M’Batovi está localizada a 70 km da capital do país, Assunção, e é mantida pelo casal Jacinto e Marta, empresários paraguaios que resolveram inovar na área do turismo, com este empreendimento sustentável. Funcionando já há 7 anos com guias locais, rapazes e moças, os donos resolveram aprimorar os serviços oferecidos pelo parque e pediram a Hamilton e Patrícia, um curso de meditação e consciência ambiental para todos os que estão envolvidos com os trabalhos na eco-reserva.

Meus amigos não fizeram objeção à minha companhia e depois do sinal verde do pessoal do Paraguay, combinamos que eu iria com eles, de ônibus, enfrentar as 20h de viagem até Assunção. Jacinto e Marta são compadres de Hamilton e Patrícia e se tornaram muito amigos depois que começaram a trabalhar juntos.

Antes de partir para qualquer destino eu gosto de saber um pouco sobre o que vou encontrar à frente, de modo que escrevi para Marta e pedi que ela me sugerisse alguma leitura informativa sobre o Paraguay. Gostei da resposta dela, que não me indicou nada e simplesmente citou o slogan da Secretaria de Turismo paraguaya:

“Paraguay, tenés que sentirlo”

Apesar da sugestão daquela que seria minha anfitriã no Paraguay, não resisti e acabei dando uma busca aleatória na internet. Encontrei coisas muito interessantes.

Descobri que o Paraguay, com seus 406 750 km2, tem bem menos gente que o estado de São Paulo, com seus 248.209 km². Enquanto o estado brasileiro tem 41 252 160 habitantes, todo o território paraguaio abriga apenas pouco mais de 7 000 000 de almas! Seis vezes menos gente em praticamente o dobro da área! Isso fica muito evidente nas largas distancias entre as casas nas periferias das cidades e no baixíssimo numero de prédios de apartamentos na capital, Assunção, que tem bem menos de 1 000 000 de habitantes.

Numa rápida pesquisa sobre a língua que se fala naquele país, fiquei sabendo que desde o ano de 1992, quando foi promulgada a constituição democrática no Paraguay, o guarani, língua falada por 90% da população, foi elevado elevado à categoria de idioma oficial e além disso foi incluída a obrigatoriedade de seu ensino nas escolas. E que existe uma terceira língua, ou dialeto, como querem alguns, que é falada no dia a dia, uma mescla de espanhol e guarani, que se chama Jopará e quer dizer exatamente o que significa; mistura, mescla. Nas cidades, até por uma questão prática, já que muito do que existe hoje não existia nos tempos pré- colombianos, o Jopará é mais carregado de elementos do espanhol. Em contraposição, na zona rural, predominam os vocábulos em guarani, chegando ao ponto, em algumas regiões, de haver gente que só sabe falar o guarani.

Pelo lado mais prosaico, descobri que uma das comidas típicas do país, a sopa paraguaia, não tem nada a ver com sopa, mas trata-se de um gostoso bolo feito de milho verde, fubá, cebola, manteiga, queijo ralado e sal. Coisas do Paraguay…

E, finalmente, quando, por acaso, dei com um site da famosa Ciudad del Este, me lembrei que Paraguay é sinônimo de compras e me animei com a idéia de presentear-me com uma boa camera fotográfica. O que acabou não dando certo, já que o ônibus apenas passa por esta cidade e a exigüidade do tempo não nos permitiu nada mais além do que nosso objetivo inicial, ou seja, o curso de Terapia Florestal.

Depois de uma criteriosa avaliação, e muitas perguntas a amigos, gerentes de bancos e fóruns virtuais com gente que costuma viajar ao Paraguay, decidi que era melhor levar dinheiro vivo, reais e dólares e ir trocando por guaranis (moeda paraguaya) aos poucos, nas onipresentes casas de cambio.

Assim, no dia marcado para nossa partida, com duas mochilas às costas, uma dúzia de sanduíches com pão integral, especialmente preparados para a longa viagem e um certo friozinho na barriga, liguei para meus amigos, para saber onde nos encontraríamos na rodoviária. Surpresa! O celular deles (o casal só tem um celular) tinha ficado com o filho de Patrícia, que me informou que sua mamãe tinha viajado para o exterior e deixado o mesmo com ele!

__ Mas como assim? Eles não deixaram nenhum recado para mim? Eu sou o Chico Abelha, vou viajar com eles para o Paraguay!

__ Não, eles não me falaram nada.

__ …

O frio na barriga aumentou, transformou-se em um imenso abismo gelado! E agora? Será que eles já foram sem mim? Esqueceram de mim? Não podia acreditar que eles tivessem feito isso comigo. Havíamos deixado para comprar as passagens na última hora, na rodoviária de São Paulo, porque assim eles sempre fizeram e sempre havia lugares. Seria este um aviso para não viajar? Estaria eu fugindo de alguma coisa aqui no Brasil?

Toda sorte de pensamentos negativos passaram por minha cabeça. Eu deveria desistir ou dar uma de louco e ir sozinho, caso eles já tivessem partido? Mas como ir sozinho se eu não tinha ao menos o endereço ou telefone dos nossos anfitriões no Paraguay? E se meus amigos inconsciente e convenientemente, tivessem esquecido de mim? Vai saber…

Resolvi recorrer a quem sempre recorro nas horas de dúvida, o tarot! Costumo tirar apenas uma carta quando se trata de sim ou não. Saiu a Imperatriz, que considerei uma carta positiva. Senti um certo alívio, mas ainda não me dei por satisfeito e tirei mais uma, depois outra e outra ainda! Todas elas foram positivas, ou na pior das hipóteses, neutras. Mas a dúvida ainda persistia em meu coração e por isso tirei aquela que foi a última. Para minha alegria, saiu o Sol, eu podia colocar-me em movimento que tudo iria se esclarecer. E em movimento me pus, confiante agora e com a determinação de ir sozinho, em direção ao desconhecido, como o Louco do tarot, mesmo que eu não encontrasse meus amigos.

Deixei meu carro na casa de minha mãe e segui para a estação rodoviária de minha cidade. Comprei minha passagem para São Paulo e ainda estava guardando o troco no bolso quando avisto Hamilton e as duas crianças, sentados em uma pilha de mochilas cheias até a boca. Seu sorriso varreu qualquer sombra de ansiedade de que as coisas pudessem não dar certo. Nem questionei nosso desencontro, apenas contei sobre o tarot e a dúvida de momentos antes. Comentamos sobre sincronicidades, sobre silenciar a mente e fluir como o momento e eu entendi a importancia das coisas terem acontecido da maneira que aconteceram. Por causa do desencontro, pude fazer um questionamento e tive a certeza de que viajar ao Paraguay era a coisa certa, para mim, naquele momento.

Compradas as passagens, ônibus lotado, às 18 horas estávamos saindo de São Paulo, enfrentando os habituais congestionamentos deste horário. A viagem toda durou 20 horas e só tivemos uma parada de 20 minutos em Ciudad del Este, para limpeza do banheiro do ônibus, cujo estado pode-se bem imaginar…! Ao longo das 12 horas iniciais, não houve uma só parada e foi servida no ônibus uma refeição (meia boca) quente à noite e um café da manhã (um quarto de boca) logo cedo. Graças a Deus houve uma pane no sistema de video, não conseguiram passar nenhum filme e por isso pude conciliar o sono sem o incômodo daquela insuportável luz azulada e do ruído de tiros, gritaria e automóveis em fuga.

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Às 6h e 30min da manhã, chegamos a Ciudad del Este, onde baixaram os sacoleiros e o ônibus esvaziou-se quase que completamente. Esta cidade de fronteira, pelo menos por onde passamos de ônibus, se assemelha a um gigantesco shopping center a céu aberto, com as ruas coalhadas de camelôs. Tive arrepios só de me imaginar em meio àquela babel mercantil. Os cartazes e outdoors luminosos anunciavam todo tipo de coisa, desde eletrônicos sofisticados até roupa usada. O tipo físico predominante das pessoas que circulam pelas ruas é da raça dita amarela.

Da janela do ônibus, nas proximidades do terminal rodoviário, eu pude ver índios morando nas calçadas, em precárias barracas cobertas com plástico, pano e papelão, em meio a muita imundície. Durante a parada para limpeza do banheiro, a língua que se escutava era o guarani, cujo som me pareceu similar ao do chinês e tão incompreensível quanto a língua oriental, embora eu pudesse identificar alguma coisa parecida com o espanhol de vez em quando. Provavelmente, o que eu escutei foi o Jopará.

Os 400 km que separam Ciudad del Este da capital, Assunção, no outro extremo do país, foram percorridos em aproximadamente 6h. Trafega-se bem mais lentamente no Paraguay do que no Brasil, lá o tempo é outro. A sensação era de ter voltado atrás algumas décadas e fui acometido de uma gostosa nostalgia. Meus olhos, cansados da noite mal dormida, recusavam-se a fechar e comiam gulosamente a paisagem cheia de novidades. Minha camera Sony, velha de guerra, registrou bem umas 500 imagens nestas primeiras horas de Paraguay.

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Da janela do ônibus eu podia ver muitas pessoas sentadas nas calçadas sorvendo mate ou tererê de suas cuias, às quais eles chamam de guampas (que quer dizer chifre). Mal comparando, o mate equivale ao nosso cafezinho, com a grande diferença que tomar mate ou tererê envolve um ritual cheio de detalhes e nuances. O mate é tomado quente, enquanto que o tererê toma-se frio, com água bem gelada. Tanto a um como ao outro, pode-se adicionar ervas medicinais, que são chamadas de yuyos ou remédios (pronuncia-se djudjos). Abundam os vendedores de mate e tererê pelas ruas do país e invariavelmente, nos pontos de venda, há uma mesinha com uma grande quantidade de ervas, frescas ou secas. Há também muitas cuias e garrafas térmicas com água quente ou gelada à disposição do freguês e o vendedor conhece as propriedades de todas as ervas que vende, aconselhando o cliente, segundo as queixas e sintomas que este apresenta. Muitas vezes é o vendedor quem vai apanhar no mato ou cultiva os remédios em seu jardim. Claro que toma-se também o mate puro, que é digestivo, estimulante e diurético, pelo simples prazer de toma-lo.

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Dentre as ervas oferecidas para se tomar com o mate, reconheci algumas comuns aqui no Brasil. Há a losna, a erva cidreira, a cavalinha, a hortelã, a camomila, a alfavaca, o alecrim e o boldo, dentre muitas outras. Se o freguês vai tomar o mate ou tererê ali mesmo, o vendedor, munido de um pequeno pilão, transforma a erva fresca em uma pasta que é colocada na garrafa térmica com água gelada, com pedras de gelo mesmo, para o tererê. Ao mate, geralmente só se acrescentam ervas secas.

Tudo isso eu só fiquei sabendo mais tarde, depois de alguns dias de Paraguay, mas no primeiro dia, a caminho de Assunção, não pude deixar de reparar a grande quantidade de vendedores com suas mesinhas à beira da estrada.

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Outra presença constante no Paraguay são as chiperias e os vendedores ambulantes de chipas, uma deliciosa rosquinha típica paraguaya, muito parecida com o nosso pão de queijo. Basicamente são a mesma coisa, só que as chipas levam fubá e erva doce na receita. Um pouco antes de chegarmos a Assunção, o ônibus para em frente a uma grande chiperia, a Maria Ana. Não podemos descer mas sobem moças bem arrumadas e muito bonitas, vendendo cheirosas chipas quentinhas, recém saídas do forno. Impossível resistir a tal delícia. Pudera, já passava da hora do almoço e com certeza o horário da parada ali fora estratégicamente calculado para encontrar nossos estômagos roncando…

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Finalmente, depois de 20 horas de ônibus, chegamos à cidade de Assunção. Após um telefonema e uma espera de 15 minutos, aparece Jacinto, nosso anfitrião, com um carro grande o suficiente para acomodar os cinco brasileiros e suas mochilas. Jacinto é simpático, se espressa num portunhol facilmente compreensível e durante o trajeto me esclarece que Assunção é uma cidade com menos de um milhão de habitantes, mas que cresceu tanto que acabou abocanhando cidades vizinhas, formando um conglomerado urbano de mais de 2 milhões e meio de pessoas. A cidade tem muitos poucos prédios de apartamentos, não contei, mas arrisco dizer, depois de rodar pela cidade, que estão em torno de uma centena.

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O transito é lento em alguns pontos e Jacinto reclama que de uns tempos para cá, as coisas tem piorado muito, segundo ele, devido ao aumento no numero de veículos. Reparei que a sinalização de transito, principalmente a de solo, é praticamente inexistente. Lembrei-me de quando estive na India, país em que o ato de dirigir é muito mais comandado pelo instinto do que pela racionalidade.

Marta nos recebe efusivamente em sua casa, com uma comida quente, que se não era uma refeição paraguaia, como eu esperava, pelo menos saciou minha fome de leão, que vinha sendo (mal) enganada com porcarias durante a viagem. Todos tomamos banho e nos preparamos para a próxima etapa da viagem, ou seja os 85 km até a reserva de Mbatovi, na cidade de Paraguari, localizada a sudeste de Assunção. Por uma questão de logística, Hamilton, Patrícia e as crianças seguiram na frente e eu fiquei para ir mais tarde com Marta e Jacinto.

Pude então caminhar um pouco pelo centro da cidade, onde vi lojas que pareciam ser de 100 anos atrás, convivendo com shopping centers modernos, em nada diferentes dos que tenho visto pelo mundo afora. Naturalmente, a capital é bem mais ocidentalizada que a zona que eu acabara de percorrer de ônibus horas antes. Não havia vendedores de mate e tererê pelo centro da cidade, mas encontrei gente sorvendo mate de suas cuias nas praças que passei.

Caminhei sozinho, à noite, pelas ruas de Assunção e posso dizer que não tive receio nenhum de faze-lo. Ficou evidente que o nível da violencia, que evidentemente deve existir no Paraguay, não tem nada a ver com a das nossas cidades brasileiras. Por exemplo, não vi nenhum condomínio fechado em Assunção. Contudo, à beira da estrada, no percurso entre a capital e Ciudad del Este, pude ver, com muita tristeza, pelo menos duas grandes placas anunciando Barrios Cerrados, à frente de enormes terrenos ainda vazios. No pacote de importação desse país, que importa praticamente tudo que é industrializado, não poderia faltar este estilo de morar intramuros.

Senti fome e como eu estava sem dinheiro, resolvi tirar alguns guaranis de um caixa eletrônico do Banco Itaú. Eu já havia me informado no Brasil que esta operação era possível, fazendo uso do meu cartão de débito. Antes de finalizar a operação no terminal eletrônico, me foi dito que cobrariam uma taxa de 25.000 guaranis, o que daria 5% do valor que eu pretendia retirar. Acontece que quando confirmei o valor do saque, 500.000 guaranis, apareceu uma mensagem dizendo que eu não estava autorizado a sacar aquele valor. Optei por um valor mais baixo e houve nova recusa. O único valor que consegui tirar, foi 125.000 guaranis e a taxa da operação continuava a mesma, ou seja, me cobraram 20% do valor sacado! Um roubo! Ainda bem que eu tinha alguns dólares, que foi o que me salvou de ser assaltado ainda mais…

A viagem até Paraguari, onde se localiza a eco reserva, demorou mais do que eu esperava. Sair de Assunção não é fácil, mesmo para assuncenos. Presenciei Marta e Jacinto discutindo sobre o melhor caminho e quase metade do tempo da viagem foi gasto para sair da cidade. As estradas são boas, poucos buracos, mas ninguém corre como no Brasil. A impressão que tive é que não se tem pressa de chegar a lugar nenhum naquele país. O que não vale para Jacinto, que está mais para brasileiro do que para paraguaio…

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Chegamos à reserva já tarde da noite e nos esperava um lanche com suco de laranja. Os cítricos abundam no Paraguay e notei que eles são plantados como arborização urbana. Pode-se ver pés de mexerica, laranja, limão e pomelo com seus frutos coloridos enfeitando as ruas. Não vi ninguém colhendo-os, mas não posso imaginar que sejam apenas para enfeite e alimentação de pássaros. Encontrei variedades de laranjas muito diferentes das que estou acostumado a consumir no Brasil. O nosso limão cravo existe por lá também, mas com menos manchas de antracnose, sua casca sendo por isso mais lisa e a forma do fruto mais arredondada.

Uma grande quantidade das ervas medicinais silvestres que conheço aqui no sudeste do Brasil, encontrei-as também no Paraguay, com a diferença de que lá elas são mais exuberantes e de aparência mais saudável. Provavelmente o solo e o clima sejam os responsáveis por isso, já que lá há extremos de temperatura e o solo é mais vermelho. Às vezes, tamanha a diferença na aparência, eu tinha dúvidas se se tratava da mesma planta. Esmagar e cheirar foi o meu recurso para confirmar se eram as minhas velhas conhecidas aqui do Brasil. Encontrei o piracá, o picão, a macela (ou marcela), a erva-canudo e a pariparoba. Os nomes não são os mesmos, mas as propriedades sim, isso pude confirmar perguntando aos nativos. Com árvores a mesma coisa; vi muito ipê, paineira, guatambú, pau-pólvora e guapuruvú.

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Só dia seguinte pela manhã é que pude ter a noção de onde me encontrava, uma encosta de montanha orientada para o por do sol, com um visual deslumbrante. São 15 ha de floresta particular, que agora se integram à recém criada área de preservação da municipalidade de Paraguari.  Um pequena infraestrutura abriga a recepção, há alojamento para os guias, duas cozinhas, um kiosk e dois chalés que hospedam visitantes e os donos do empreendimento. Um lindo deck de madeira dá vista para o vale onde está a cidade de Paraguari, 15km abaixo. Há um gramado que separa a área construída da floresta e pode-se encontrar frutíferas espalhadas por todo canto.

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Aos poucos, os “alunos” do curso foram chegando. São jovens com menos de 30 anos, que quando começaram este trabalho de guias de eco turismo em Mbatovi eram ainda menores de idade e hoje estão casados e com filhos. Os homens são maioria. Foram recrutados entre os bomberos, que no Paraguay são jovens voluntários treinados para este fim. Sim, eles não ganham nada para fazer este serviço de utilidade pública. Isso existe aqui ao lado neste nosso país irmão! O estado apenas financia instalações, material e treinamento e todos os envolvidos trabalham sem receber um só centavo…

Alguns dos guias ainda mantém uma atividade paralela, já que os ganhos com turismo são irregulares e dependem de uma demanda incerta. Por isso, alguns deles são pedreiros, agricultores, cozinheiros e outros ainda trabalham como guias em outros empreendimentos de esporte de aventura.

Ve-se que nossa clientela é bastante heterogênea. Em um determinado momento eu tive dúvidas se os alunos iriam captar o que fôramos passar para eles, ou seja, consciencia ambiental e por conseqüência, de si mesmos, utilizando dinâmicas de grupo, ioga e meditação. Mas ao fim do curso, no momento da partilha, os depoimentos superaram minhas expectativas e muito!

Os relatos davam conta que nunca, em 7 anos de trabalho, os guias haviam percorrido as trilhas sem os pesados equipamentos de segurança e que quando tiveram oportunidade de faze-lo e em silencio absoluto, se deram conta de coisas que jamais haviam visto e vivenciado antes. Antes eles percorriam as trilhas a trabalho, agora, se transformaram em observadores, do entorno e de si mesmos.

Mas o mais impressionante foi que dois deles levaram as técnicas de respiração e meditação aprendidas no curso para seus familiares, com as quais praticaram e puderam ver os resultados positivos. Isso no dia seguinte em que as aprenderam! Foi emocionante perceber gente simples desprovida de preconceitos, descendentes diretos de índios, se beneficiando de técnicas orientais de meditação de respiração. Para mim, este foi o maior ganho da viagem. Perceber a inocencia e abertura do povo paraguaio.

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Eu confirmaria esta abertura quando visitei ao mercado em Paraguari, no dia seguinte ao encerramento do curso. Fiz questão de ir de ônibus e sozinho, para poder sentir um pouco mais da vida do paraguaio comum. Informado dos horários, fui para a estrada e me preparei para uma espera de 45 minutos. Para minha surpresa, 10 min se passaram e surgiu um ônibus bem velho, descendo a estrada a 20 km por hora. Fiz sinal e entrei por uma das portas abertas, já que não havia nenhuma indicação visível. Quis pagar a passagem ao condutor que me indicou um garoto que circulava pelo colectivo, cobrando os passageiros. Eu não tinha os 3.000 guaranis trocados, em minha carteira havia apenas notas de cem mil e duas moedas de 1000. O garoto me disse que 2.000 pagavam a passagem, e recolheu as moedas da minha mão. Tomei aquilo como um bom sinal.

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Uma vista d’olhos dentro do ônibus, me informou que ele devia ter pelo menos uns 50 anos. O chão era de madeira gasta, o forro do teto de duratex, o parabrisas tinha uma enorme rachadura, remendada com cinta scotch e a cadeira do motorista não era uma poltrona e sim uma cadeira mesmo, fixada ao chão com parafusos. Entendi a baixa velocidade do colectivo ao observar que o motorista não parava de virar o volante para um lado e para outro. Havia uma folga enorme na direção e todo cuidado era pouco para não deixar despencar o veículo pelos barrancos da serra…

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Chegamos à praça do mercado uma meia hora depois e dei graças a Deus quando baixei do ônibus, por ter chegado vivo e inteiro a Paraguari. Chamou-me a atenção a quantidade de vendedores de remédios com suas mesinhas repletas de ervas e para eles me dirigi. A primeira pessoa com quem conversei, dona Hermínia, já permitiu ser fotografada, filmada e entrevistada. Falava espanhol com facilidade e no papo com ela fiquei sabendo do nome e finalidade de cada uma das ervas em seu balcãozinho armado na calçada. Muitas das ervas é ela mesma quem planta ou coleta na natureza, outras, mais difíceis de serem encontradas, ela compra de quem se aventura a coletar em pedreiras íngremes e topos de árvores. Reclamou da dificuldade de encontrar certas ervas, pois o consumo está aumentando muito. Alguns remédios semi industrializados, embalados em papel e com um desenho colorido ilustrativo, são trazidos por vendedores de Assunção. Curam diabete, problemas na próstata, lombrigas, tosse, etc… De dona Hermínia comprei menta, losna, anis e alfavaca, para me preparar um chá, pois na eco reserva não havia uma horta com temperos e chás. Depois de uma semana longe de casa, eu já sentia muita falta do meu habitual cházinho matinal.

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O mercado de Paraguari vende de tudo. Além de funconar como terminal de ônibus, lá encontram-se à venda roupas, carnes, farinhas, pães, chipas, frutas, leite fresco em garrafas pet, eletrônicos e também muita comida pronta, para se comer na hora. Eram 8h da manhã e havia muita gente comendo bifes, ovos, empanadas, chipas e outras coisas de origem animal que não consegui identificar e não tive oportunidade de perguntar do que se tratava.

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Mas o que mais me espantou foi encontrar, bem no centro do mercado uma guarderia de niños, que vem a ser uma creche onde os pais podem deixar os filhos durante o dia todo, para poder trabalhar. Quem toma conta da guarderia é dona Ana Lia, que exerce a função há mais de 20 anos. Os 8 primeiros anos ela trabalhou como voluntária, mas um belo dia resolveu pedir ajuda à municipalidade que prontamente providenciou um salário. Hoje, ela e as professoras que ali trabalham, recebem uma pequena ajuda de custo.

É ela quem está na imagem abaixo, tomando seu mate com yerba de lucero (Pluchea sagittalis), remédio bom para a digestão, segundo ela. Dona Ana Lia conta que era católica, mas um dia, por acaso, ao assistir um programa na televisão, encontrou Jesus e nunca mais se separou dele, tornando-se evangélica à partir de então. Ela também deixou-se fotografar, com a condição de que eu não mostrasse as imagens para nenhuma criança, para não assusta-las…

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Dentro do mercado eu encontraria muitos produtores que vieram vender sua pequena produção agrícola. Trazem seus limões, mandioca, abóboras, feijões, milho, farinhas, leite e queijo. Todas as pessoas que abordei deixaram-se fotografar e conversaram comigo sem ao menos saber quem eu era e de onde vinha. Muitos me confundiam com um gringo perdido no interior do Paraguay ou com muita boa vontade, um periodista argentino. Só depois da conversa estabelecida é que eles queriam saber quem eu era e o que fazia ali. Isso me mostrou o quanto esse povo ainda mantém, de forma generalizada, uma boa-fé que aqui no Brasil anda tão difícil de se encontrar.

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Lá pelas tantas, depois de muitas fotos e entrevistas, me bateu uma fome de leão, mas uma fome específica, de tomar um suco de lima da pérsia e comer uma empanada de carne que eu já tinha visto num local. A empanada foi fácil de achar, mas o suco de lima ninguém tinha. Acabei comprando meia dúzia desta fruta em uma barraca e pedi a uma mulher que tinha um liquidificador que me batesse as limas descascadas. Ela gentilmente se dispôs a faze-lo, só que o liquidificador travou com as minhas limas dentro. O jeito foi acrescentar suco de laranja que ela já tinha espremido, mas contra minha vontade, porque eu não queria misturar as duas frutas. Tomei o suco, comi a empanada e fui pagar. A mulher se recusou, disse que não era nada e ainda me abriu um grande sorriso. Quer alimento melhor para a alma do que uma gentileza dessas? Se eu já estava gostando o Paraguay, passei agora a amar essa gente simples, disponível e sobretudo carinhosa com o forasteiro.

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No mercado, ainda comprei um pacote de mate de nome Curupi, que é uma mistura de erva mate com boldo e menta, uma ótima e refrescante combinação para um tererê. Levei também poroto manteca (favas), um pacotinho de poroto rojo e um macinho de coentro, muito utilizado na culinária local, tanto que tem até nome em guarani (kuratõ).

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Saí para as ruas e passei a fotografar um pouco da arquitetura de Paraguari. Encontrei muitas casas antigas e sem o cuidado que eu imagino que deveria se dispensar a construções que são evidentes documentos históricos, já que a cidade é cognominada de “berço da independencia nacional”. Surpreendi-me com a quantidade de cursos superiores que existem na cidade, tanto na área de humanas e exatas.

Quando me dei por satisfeito com as fotos e achei que era hora de voltar, olhei ao redor para me localizar e buscar um ônibus para voltar. Adivinhem quem vinha vindo com seu andar de tartaruga… Sim, o mesmo colectivo que eu tinha tomado na vinda, com o mesmo motorista e o mesmo cobrador, agora voltava no sentido contrário. Pensei duas, tres, quatro vezes e levantei o braço fazendo sinal para ele parar. O sol estava muito quente para eu ficar na beira da estrada esperando por outra alternativa…

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Ao chegar à eco reserva, a refeição que me aguardava era uma comida típica paraguaya, o bori bori, de longe a melhor e mais gostosa que comi no país. O que caracteriza o bori bori é que nele não podem faltar bolinhas feitas de fubá grosso e queijo, às quais pode-se adicionar caldos de legumes ou carnes a gosto do fregues. Saborear esta iguaria temperada com muito alho, cebola, cheiro verde e coentro é como receber um abraço por dentro… Na foto acima, pode-se ver Hamilton, Patrícia e as crianças e ao fundo, Marta à mesa e Jacinto ao computador.

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No dia seguinte, o ultimo que passaríamos em Mbatovi, houve uma atividade que eu não esperava e que muito me agradou ter participado. Convocou-se a municipalidade, os estudantes e o Comando de Artilleria, para um mutirão de coleta do lixo da beira da estrada que liga Paraguari a Mbatovi. Aproximadamente 100 pessoas se reuniram, receberam instrução minuciosa e, munidos de jalecos, luvas, água e sacos de plástico, encheram um caminhão de lixo em 3 horas de trabalho. Impressionante a quantidade de objetos que há na beira da estrada. De carro não se vê praticamente nada, mas quando se caminha à pé, saltam aos olhos garrafas de bebidas alcoolicas, latas, sacolas plásticas, pneus, partes de autos e o que mais me impressionou, uma enorme quantidade de fraldas descartáveis usadas. A pedido de Marta, registrei todo o evento e do material bruto preparei um extrato que está no video abaixo.

Durante a coleta do lixo, que abrangeu 1o km de estrada, encontrei muitas dessas “casinhas” que ficam à beira da estrada, em memória de falecidos em acidentes. É notável a quantidade desses pequenos monumentos, que eu já havia reparado desde que entrei no Paraguay. A beira das estradas é sempre muito espaçosa, algo como 30 metros de grama e nela pastam animais atados a uma corda. Além de um bonito paisagismo, essa é uma atitude inteligente, pois economiza dos dois lados; tanto para o poder público que não tem que roçar, como para o dono da animal, que tem o pasto à disposição.

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Vi também uma placa muito curiosa, onde se lia “Acá se cura de diabetis”. Claro que fui me informar. Encontrei o sr Jaime, reunido com sua familia, à beira da estrada, um costume que observei em muitas propriedades, esse de ficar tomando mate ou tererê, no largo espaço entre as moradias e o leito das estradas. O sr Jaime foi frio a princípio, mas acabou revelando que seu remédio é infalível e que vem gente de Argentina, Brasil e Estados Unidos para comprar sua garrafada, que ele chama de remédio. Interessado como sou sobre plantas medicinais, não pude segurar a pergunta de qual ou quais são as plantas que compõem esse milagroso remédio. O sr Jaime não titubeou e disse que não podia revelar o segredo, sob pena de que ele ia perder o poder. Ele havia recebido a receita diretamente de Deus, que a concedeu na condição de que ele jamais a revelasse… Para quem se interessar, é só ligar para o numero da placa; o código internacional do Paraguay é 595.

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Quando falei com o sr Jaime, estava acompanhado de um professor da faculdade de Economia de Paraguari, que escutou o minha conversa. Percebendo meu interesse, ele me contou que no Paraguay existem muitos médicos, que na verdade são benzedores, aos quais o povo recorre na precisão. De uma consulta com esses médicos, a pessoa sai com uma receita dada pelo mesmo, que não passam de tisanas que devem ser preparadas com ervas que o doente mesmo vai colher na natureza. Sabedor disso, passei a perguntar para as pessoas, que me confirmaram que esta prática é bastante comum no país.

O dia seguinte seria o último que passamos no Paraguay. Quando saí de Mbatovi, parecia que estava deixando minha casa, tal a afinidade que estabeleci com aquele lugar, nos 5 dias em que lá passei. No curto espaço de tempo em que fizemos as despedidas, houve tempo para conversar com alguns guias e o assunto foi lendas populares. Isso devido ao nome da erva Kurupi, que é o mesmo Curupira que existe no Brasil também. Me contaram de Jaci Jaterê ou YaciYatere, que seria o nosso Saci Parerê, que aqui, por ter sofrido influência africana, distanciou-se do original indígena. Outro que guarda semelhança, mas aí por influência européia, é o Luison, que nada mais é do que o nosso Lobisomem. O Luison é um misto cachorro, anta e macaco, que ataca as pessoas não só em noites de lua cheia, mas também nas tempestades. Infelizmente não houve tempo para nos aprofundarmos, mas isso e tudo o mais que vivi no Paraguay, me fez ter a certeza de que um dia voltarei, tamanha a riqueza de folclore e cordialidade que este povo carrega consigo.

No dia seguinte, Jacinto nos levaria até o Terminal de Omnibus de Asunción e depois de uma despedida emocionada, fomos fazer algumas compras de última hora, pois com a correria toda não tivemos tempo para tal. Na hora e meia que ainda tinhamos pela frente antes de embarcar, resolvi fazer como os paraguaios e pedi um tererê numa das mesinhas que vendem o produto. Até então, eu ainda não tinha me arriscado a tomar o mate, pois sei que é estimulante e diurético.

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Dona Silvia, à direita na foto acima, me ajudou a escolher entre as dezenas de yuyos à disposição. Meu fígado pediu e acabei escolhendo boldo com menta, que vem a ser o famoso Kurupi, do qual acabei comprando um pacote que trouxe para o Brasil. Enquanto dona Silvia, que vende mate há 23 anos no mesmo local, preparava meu tererê, apareceu um senhor pedindo remédio para sua pressão alta. Dona Silvia perguntou qual era o motivo de tal disturbio e se ele já havia consultado um médico. Diante da negativa do cliente, ela se recusou a servir qualquer remédio, alegando que não é prudente mascarar um sintoma desses, que normalmente é indicativo de  algum distúrbio mais grave. Fiquei fã de dona Silvia, tamanha a consciencia da mulher. Só não fiquei fã foi do tererê, pois me fez ir ao banheiro mais de uma duzia de vezes durante a viagem, ou seja, a cada duas horas eu tinha que me sujeitar ao exíguo e mal cheiroso toilette do ônibus, o que estragou minha noite de sono no ônibus…

Numa viagem longa, a gente sempre acaba entabulando conversa com outros passageiros, é inevitável. Reparei que uma mulher que parecia brasileira, pois falava portugues fluentemente, teve que descer na Policia Federal para dar entrada como estrangeira. Assim como quem não quer nada, perguntei se era estrangeira, o que ela confirmou. Daniela mora há muitos anos no Brasil, onde trabalha de empregada doméstica. Reparei que sua bagagem era muita, uma meia duzia de malas e sacolas e tive a certeza de que ela era uma sacoleira. Como ela fosse paraguaya, perguntei se ela conhecia os médicos. Num portugues claro e limpo ela respondeu:

__Claro que sim! Ontem mesmo minha irmã me levou num médico, porque eu tinha uma baita dor de cabeça!

O médico, contou ela, fez orações, colocou água num copo, jogou umas sementes de milho dentro e mandou que ela tomasse a água. Depois pegou um cigarro e esfregou-o nas costas de Daniela. Hoje ela nem se lembra mais que estava com dor. Toda sua família recorre aos médicos, disse ela.

Conversa vai, conversa vem, acabamos falando do motivo de sua viagem ao Paraguay. Ela tinha vindo visitar os pais, que por coincidencia, moram bem ao lado da reserva de Mbatovi, em Paraguari. E mais, descobrimos que ela tinha vindo do Brasil no mesmo ônibus que nós. Estabeleceu-se entre nos, um clima gostoso de confiança, ela acabou até dando bolachas, balas e brinquedos aos filhos de Hamilton e Patrícia. Nas sacolas, ela acabou nos contando, havia abóboras, mexericas, laranjas, limões, farinha de milho e mel. Tudo presente de seu pai, da produção de seu sítio em Paraguari. Ele, um senhor de 80 anos, fizera questão que a filha levasse os produtos para o Brasil e ela não conseguiu dizer não. Mais uma vez, agora em território brasileiro, o Paraguay me pegava pelo coração.

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Chegando em São Paulo, o corpo reclamando uma cama urgentemente, eu resolvo falar com um rapaz solitário, com traços fortes de índio que viera dormindo durante a viagem toda, sem conversar com ninguém. Descobri que ele era equatoriano e viera procurar trabalho no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde tinha parentes. Se eu estava cansado de ficar 20 horas num ônibus, imaginem o rapaz, que fazia uma semana que tinha saído do Equador, atravessando Perú, Bolívia e Paraguay para chegar a São Paulo em busca de um futuro melhor. Decidi que minha vida é um passeio pelo paraíso…

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Piracema

fevereiro 6, 2012

Era uma vez um peixe que andava meio triste, entediado de se deixar levar ao sabor da correnteza, que insistia em leva-lo para águas cada vez mais sujas e mal cheirosas, o Reino das Águas Turvas. Um dia, nosso amigo peixe bateu a cabeça numa enorme pedra preta, ficou todo zonzo e perdeu o caminho de volta para sua loca. Desorientado e sem saber o que fazer, resolveu pedir ajuda a um cardume de jovens guarús, que passava por ali naquela hora.

Os guarús nem se deram o trabalho de parar, simplesmente acenaram com as guelras, fazendo sinal para que o nosso amigo os seguisse. E foi o que ele fez, atrás dos guarús ele foi, como se tivesse sido encantado. Era difícil acompanhar o ritmo dos guaruzinhos, que nadavam ligeiros contra a correnteza. Ele já estava começando a ficar cansado, quando reparou que as águas estavam ficando mais transparentes. Foi então que uma energia desconhecida invadiu seu corpo e o cansaço foi sumindo. Reparou que mais e mais peixes juntavam-se ao bando e que tomaram um afluente em que as aguas eram ainda mais puras e cristalinas.

Deixou-se levar pelo turbilhão em que fora envolvido, ele agora não pensava em mais nada, queira nadar rio acima, atraído por uma força até então desconhecida para ele. No seu intento de subir, chegava mesmo a saltar fora d’água, coisa que nunca se imaginara capaz de fazer. Quanto mais longe ele subia, mais força ele ganhava, mais prazer ele tinha. Esqueceu que estava procurando o caminho de volta para sua loca, esqueceu-se do cansaço, esqueceu-se de tudo, ele só queria subir, subir, subir…

Quanto mais ele subia, mais encantado ele ficava, ao reconhecer lugares que ele nunca tinha visto, mas que produziam em seu coraçãozinho de peixe, uma estranha familiaridade. O ponto alto, de altura e de extase, aconteceu quando ele chegou a um remanso tranquilo e foi tomado por uma vontade parecida com a vontade de fazer xixi, só que dez vezes melhor. Nessa hora ele se sentiu do tamanho do universo inteiro e esqueceu-se de quem ele era, para onde ia e o que estava fazendo ali…

Neste lugar maravilhoso, de águas puras e cristalinas, nosso amigo peixe reencontrou o prazer de viver e resolveu construir seu reino encantado.  Arregimentou peixinhos e peixões e criou um exército do bem, que ao invés de servir para proteger o local, luta para que ele seja invadido constantemente por mais e mais foragidos do Reino das Águas Turvas.

Vinte anos se passaram desde a criação deste reino.  Hoje, contrariando todos os meus hábitos de permanecer os domingos em casa com a família, resolvi seguir um bando de guarus que me acenaram com suas guelras, e fui parar sabem onde? Sim, no reino encantado do nosso amigo peixe!

Este peixe tem nome, chama-se Elder, assumiu forma humana e hoje atrai todos aqueles que um por este ou aquele motivo, resolveram nadar contra a correnteza. Cansado de sua vida de bancário, largou a profissão e fixou-se na zona de periferia semi-rural de São José dos Campos, onde constituiu o Espaço Piracema, dedicando-se a despertar a poesia e alegria de viver em quantos se aproximam deste lugar encantado.

Nadando contra a correnteza da mesmice, e utilizando-se de materiais que estão à sua volta, tais como bambu, farinha de trigo, jornal velho e tudo quanto a cidade despreza, ele e seu irmão Eden, mantém hoje uma oficina de confecção de pereirões (bonecos gigantes), envolvendo uma ampla rede de crianças e voluntários dedicados. Todo tipo de gente é atraída e bem vinda, desde o pessoal mais simples da comunidade, até pedagogos que se empolgaram com a idéia.

A idéia de trabalhar com esses bonecos nasceu da lembrança dos carnavais que passou em Redenção da Serra, terra de seus avós, quando o menino Elder se assustava com as figuras dos gigantes Maria Angú e João Paulino. Viu na confecção destes bonecos a oportunidade de dar uma ocupação à criançada de rua e recriar uma fantasia de sua infância.

O nome Piracema é uma alusão ao retorno às origens, às fontes puras da nossa tradição, que hoje estão tão contaminadas pelas modernices enlatadas e massificantes. Piracema, pra quem não conhece o nome, é uma palavra de origem Tupi, que se decompõe em,  pira (peixe) e sema (sair). Segundo o dicionário, piracema designa um conhecido fenômeno da natureza, quando os peixes migram no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. Por extensão, designa também um movimento e o rumorejo dos cardumes quando sobem as correntezas.

O fenômeno da piracema, apesar de muito estudado, ainda é um enigma para os cientistas, no que diz respeito a suas razões maiores. Por motivos que só a natureza sabe, os peixes são movidos por incontida pulsão de voltar ao lugar onde nasceram, para nele projetar o futuro através da desova. Portanto, a imagem de um mergulho na tradição para, a partir dela, instalar a vanguarda, é a linha mestra do Espaço Piracema em São José dos Campos.

Eu fui parar neste lugar como pesquisador e curioso que sou, de todas as manifestações culturais espontâneas, essas que vem diretamente das entranhas do inconsciente. Quero voltar outras vezes, pois o que vi no Piracema é a vida pulsando em toda sua pujança. Assim, tive o cuidado de perguntar ao Elder se nossa presença não ia atrapalhar quando eles estivessem trabalhando e a resposta que ele me deu foi o fecho de ouro da visita de hoje.

__Chico, mas claro que não, vocês quando vierem vão fazer o boneco de vocês também. Vocês vão ser batizados, vão virar Piracema também…

Salvo pela Profecia Celestina

agosto 11, 2011

Chegávamos à Tailandia, minha amiga brasileira e eu; depois de 8 meses na India e a diferença era brutal. Ruas limpas e enfeitadas com flores, transito muito mais disciplinado e um silêncio que me causou uma certa estranheza. Era como se faltasse alguma coisa, no caso, o barulho. Na India, em cada traseira de caminhão le-se o pedido – horn please – (buzine, por favor), e eles buzinam mesmo, sem nenhum dó do ouvido alheio. O transito indiano é caótico, move-se como uma frenética serpente que carrega em seu ventre barulhentos rikshás, bicicletas suicidas, caminhões apinhados de gente e as onipresentes vacas; tudo isso envolto na densa fumaça negra que sai dos canos de escapamento dos motores desregulados. Assim, durante o trajeto de ônibus, na hora e meia entre o aeroporto e o centro da cidade, Bangkok me pareceu estranhamente silenciosa e pacífica; o que casava direitinho com a imagem fantasiosa que eu tinha desse país, cuja religião oficial é o budismo. Na “Terra das Túnicas Amarelas”, em que quase 90% da população é budista, a constituição reza que até o rei tem que ser budista. Eu me imaginava chegando a um país muito mais evoluído espiritualmente, um modelo para o mundo; os cartazes no aeroporto ajudaram a confirmar essa minha impressão, pois anunciavam a Tailandia como – Land of Smiles – (Terra dos Sorrisos). Mais tarde, pude comprovar a veracidade do que diziam os cartazes, o povo tailandês tem 13 tipos de sorriso, cada um com um nome diferente! As variações vão desde o “sorriso polido que você dá para um estranho na rua”, até o “sorriso verdadeiro de quem acabou de ganhar na loteria”. Se você, distraído, trombou com alguém na rua, o mais provável é que essa pessoa vá abrir um sorriso ao invés de recriminá-lo.

Uma das expressões que eu mais escutei, durante os meses que passei na Tailândia, foi – mai pen rai – (não se preocupe com isso), dirigida a mim, toda vez que percebiam o meu embaraço diante de alguma situação. Como no dia em que eu fazia a travessia de barco entre duas ilhas paradisíacas e, despreocupadamente, levantei as pernas e apoiei os pés no banco da frente, onde um casal de tailandeses estava sentado. Eu tirava uma soneca, um calor escaldante e de dentro do meu sono escuto um homem gritando no meu ouvido, fazendo gestos indignados e apontando os meus pés. Minha reação natural, ao ver aquele homem me ameaçando, foi me levantar, claro, assustadíssimo. Estaríamos sendo sequestrados, o barco estaria naufragando? Eu não entendia nada! À minha volta, ninguém parecia apavorado, mas o homem e eu atraíamos a atenção de todos. Ele continuou esbravejando em tailandês, eu olhando para ele atônito, até que sua esposa levantou-se, pegou-o pelo braço e pronunciou as palavras mágicas – mai pen rai. Só então ele sossegouUma turista romena veio ao meu auxílio e explicou-me que para os asiáticos, os pés são a parte mais suja do corpo, aproxima-los da cabeça de outra pessoa é tomado como ofensa grave. Aprendi a lição pelo caminho mais duro… Depois desse episódio, resolvi estudar um pouco mais sobre os costumes dos povos do sudeste asiático e comprei um guia do Lonely Planet, numa das muitas bancas de livros usados espalhadas nas imediações da famosa Khao San Road.

Khao San Road, a Meca dos mochileiros, foi para lá que nos levou o ônibus que tomamos no aeroporto. A Khao San é uma rua super movimentada, de um kilometro de comprimento, onde se acotovelam os turistas em busca de hotéis baratos, cybercafés, agências de viagens, casas de massagem, joalherias, restaurantes e toda sorte de moquifos vendendo equipamento e software piratas. É uma verdadeira babel, gente de todo mundo, gente pra todos os gostos. Cansados da viagem, tudo que a gente queria era uma cama de hotel. Resolvemos não procurar muito, afinal, era o ano de 1998 e por causa da Crise Asiática os preços estavam muito baixos para nós brasileiros, coisa de uns 5 dólares por noite. Entramos no primeiro hostel que nos pareceu limpo e agradável e fizemos o check-in. Tivemos que pagar adiantado, diferente da India, onde havia mais confiança e a gente estava acostumado a pagar só no check-out. Depois de algumas horas descansando no quarto, debaixo de um ventilador barulhento mas eficaz, saímos à rua com muita fome. Bangkok é um paraíso para os gourmets que não tem medo de arriscar. Há comida por toda parte; nos restaurantes, em barracas improvisadas nas calçadas e também em carroças puxadas por cavalos. Pois uma dessas carroças estava passando bem na hora que saímos do hostel, foi parada por um grupo de turistas que fizeram seus pedidos em tailandês e foram servidos, cada um num prato de isopor. A comida era farta e parecia apetitosa, resolvemos arriscar. Por meio de gestos encomendamos dois pratos e comemos com gosto aquela mistura de miojo, broto de feijão, algumas verduras e umas cápsulas torradas, que mais tarde viemos a saber que eram vermes que dão no bambu… Posso garantir que estava tudo muito delicioso e não passamos mal, pelo contrário, aquela comida nos deixou leves e muito bem alimentados. Durante toda minha estada na Tailandia, e na India também, sempre comi muito bem e nunca experimentei nenhuma intoxicação alimentar. É verdade que de modo geral a comida deles é muito apimentada, mas até com isso eu acabei me acostumando e gostando!

Não ficamos muito tempo em Bangkok, nossa intenção era partir logo para alguma ilha e esquecer da vida numa rede à sombra das palmeiras, só tomando água de coco. As opções eram muitas e acabamos nos deixando seduzir pelas fotos de umas cabanas de palha em Koh Phi Phi, afixadas na vitrine de uma agencia de viagens. Sem saber, partimos de ônibus para a ilha em que foi filmado o Lagoa Azul e era o destino turistico mais badalado na época… Quer dizer, caímos na muvuca, exatamente o oposto do que a gente estava procurando! Tudo ali era fashion, de uma artificialidade irritante, típica arapuca de turistas. Mas eis que no meio da muvuca, minha amiga enxerga e me aponta uma plaquinha muito despretenciosa que dizia: Thai Massage Training. Eu havia feito vários cursos na India e estava muito interessado em conhecer a tal Massagem Tailandesa. Fomos lá ver do que se tratava.

Era uma casa de massagens como milhares de outras espalhadas pela Tailandia, que oferecia um curso de massagem tailandesa para estrangeiros. Neng, o dono da casa, foi muito cordial conosco e disse que poderia nos hospedar no caso de eu fazer o curso com ele. Aceitamos o acordo e nos foi dado um quarto com paredes de madeira compensada, um ventilador e um fogareiro que era a cozinha de todos os que trabalhavam na casa. Não havia banheiro no quarto. O único banheiro era compartilhado com os clientes, um comodo de um metro por um metro, com um tanque para lavar as mãos e pegar água para soltar a descarga… Neste tanque, pasmem, Neng criava tilápias para consumo próprio! Minha amiga agüentou dois dias nessas condições e partiu sozinha para Chiang Mai, no norte do país, na fronteira com Myanmar. Eu fiquei porque sou masoquista, mas também queria muito terminar o curso e voltar para o Brasil com o máximo de qualificações na área da massoterapia. O banheiro precário e o quarto sem privacidade não eram as únicas dificuldades naquele lugar. A casa de massagens ficava bem no meio da zona comercial, ao lado do Monkey Show, um deprimente circo de pobres macacos amestrados, e de um bar que ficava tocando rock até 3h da manhã. Ao anoitecer, o locutor do Monkey Show começava a gritar sua ladainha, anunciando num ingles macarrônico, o melhor show de macacos do sudeste asiático. Parecia um torturante mantra de mau gosto de alguma religião satânica. Repetia a mesma frase durante duas horas, até 8h da noite, quando começava o show. Acabado o show, o rock começava a martelar nossos tímpanos até a s 3h da manhã… Eu não sei quanto de relaxamento conseguiam ter os clientes das massagens com essa barulheira toda… Acabei ficando mais de um mes nessa ilha. Neng me convidou para trabalhar na casa de massagens quando acabei o curso e eu aceitei, seria uma ótima oportunidade de praticar com clientes de verdade. Meus companheiros de trabalho eram todos tailandeses do norte, gente muito pobre, que na temporada vinha para Phi Phi fazer massagem nos gringos, ganhar uns bhats a mais. Nesta turma de empregados a que mais se destacava era a Li, um mulher forte e troncuda, muito boa massagista. Por ser extrovertida e a única que conseguia se comunicar em ingles, ela acabou sendo a pessoa que me ajudou a me enturmar na ilha. Me ensinou a fazer o arroz branco no vapor, que ficava no fogareiro do meu quarto, à disposição de quem estivesse com fome. Neng nos fornecia comida, invariavelmente um peixe, um legume cozido, chá e o arroz branco sem sal e sem óleo. Eu não me acostumei com isso e de vez em quando ia comer uma sopa ou um Pad Thai num dos restaurantes mais caros da ilha, meu corpo pedia uma comida com mais “sustança”. Ou então a Li me convidava para comer na casa de algum conhecido seu, geralmente famílias simples que haviam alugado um cômodo durante a temporada de trabalho na ilha. Um dia a Li resolveu levar uma salada para a casa dos amigos onde iríamos almoçar. Pensei que fossemos passar no mercado, comprar os ingredientes e preparar no meu quarto/cozinha. Que nada, ela foi apanhando brotos de uma árvore na rua, colheu um mamão verde que estava dando sopa num quintal e tirou um saquinho de aji-no-moto do bolso. O aji-no-moto ela usava pra pressão baixa, junto com pimenta! Ah, sim, ela tinha pimenta no bolso também, andava sempre com ela no bolso! Cortou o mamão em tirinhas com ajuda de um facão enorme, picou as folhas, que eu não consegui saber de que árvore eram, misturou com o aji-no-moto e a pimenta, colocou num saco de plástico e estava pronta a salada! Eu consegui comer só um bocado, minha boca ardendo em fogo não me permitiu continuar degustando dessa “fina” iguaria tailandesa…

Li era solteira e tudo indicava para ela que eu também era solteiro. Na prática eu era mesmo, minha amiga e eu havíamos nos separado por causa da nossa incompatibilidade, o quarto precário tinha sido apenas a gota d’água. Naquela época não havia emails e eu não fazia a mínima idéia de onde ela andava, na verdade eu tinha esquecido da minha amiga. O trabalho com as massagens tomava quase todo meu tempo. Eu acordava lá pelo meio dia, suando com o calor escaldante ou assustado com o estrondo de algum coco que caia sobre o teto de zinco, comia alguma coisa e o resto do dia, antes do trabalho, eu passeava pelas praias com a Li. Para mim sempre foi claro que era apenas amizade, mas um dia ela pegou na minha mão de um jeito diferente e eu entendi que ela me desejava. Foi complicado explicar, sem magoa-la, que eu não estava a fim de nada com ela. Mais difícil ainda foi manter a amizade. Eu me retirei e agora passava minhas tardes lendo pocket books em algum ermo, num canto da praia onde os turistas não se arriscavam porque havia muitas cobras verdes que trepavam nas árvores. Foi nessa época que Neng me veio com a proposta de eu gerenciar a casa de massagens durante a baixa estação. Ele tinha outro negócio em Pukhet e queria alguém de confiança para ajudar a cuidar das duas casas. A primeira coisa que eu perguntei era se a Li ficaria em alguma das casas. Como ele disse que a Li ia voltar para casa dela, eu aceitei e pedi um tempo para ir buscar o resto da minha bagagem que ficara em Bangkok, num desses left-luggage que facilitam a vida dos mochileiros. Nem falei nada com a Li e não me despedi. Um dia saí bem cedinho, peguei o barquinho para o continente e depois o ônibus para Bangkok. Na viagem, conheci uma alemã que queria dividir o quarto comigo, para economizar, eu topei, pois pretendia passar apenas uma noite, pegar minhas coisas e zarpar de volta a Phi Phi. Ela conhecia um hotel baratinho e para lá rumamos. Deixamos nossas coisas no quarto e íamos sair para a rua, quando ainda no corredor do albergue, dou de cara com minha amiga brasileira, de volta de Chiang Mai! Foi um susto, eu não esperava ve-la nunca mais. Mas acontece que ela estava lendo a Profecia Celestina e botou na cabeça que o milagre de me reencontrar ia se tornar realidade. Ela é do signo de Peixes, as coisas mais mirabolantes aconteciam quando eu estava com ela. Diz ela que pegou um mapa, fechou os olhos e colocou o dedo ao acaso, deu em cima da cidade de Pukhet. Ela estava indo para lá no dia seguinte, com a certeza de que ia me encontrar! Foi mais fácil do que ela previra… Depois de botarmos a conversa em dia, ela insistiu muito e acabou me convencendo de irmos para a Indonésia antes de eu pegar o trabalho na casa de massagem. Até hoje Neng deve estar esperando que eu apareça por lá. Minha amiga me convenceu novamente de que um trabalho numa casa de massagens na Tailandia não era currículo para quem queria ser um terapeuta de verdade, que eu tinha que montar uma clínica no Brasil, isso sim ia me dar experiência e credibilidade. Assim, depois da Indonésia nós voltamos para o Brasil, direto para Monteiro Lobato. Voltei a ser um pacato ermitão na floresta… Mas um ermitão que escutava um radinho de pilhas todos os dias pela manhã, enquanto preparava suas bananas assadas na chapa do fogão de lenha. Foi numa manhã dessas, seis meses depois de eu ter deixado a Tailandia, que eu escutei a notícia de que um tsunami gigantesco havia varrido o sudeste asiático e destruído, dentre outros lugares, a ilha de Phi Phi e a cidade de Pukhet. Gelei, e em silêncio, agradeci minha amiga e à Profecia Celestina…

Sonho

julho 2, 2011

Setembro de 1998

Naquela manhã de primavera, mal o dia se anunciou e Chico Abelha saltou de sua confortável cama de bambu, que construira no mezanino da sua cabana na floresta. Ainda meio escuro, ele saiu de casa, caminhou até o buraco que lhe servia de banheiro e deu sua contribuição diária para a fertilidade do solo da região. Pronto, estava novinho em folha, leve e solto para enfrentar o dia que começava. O frio da noite dera lugar a um vento morno que descia das montanhas e acariciava seus longos cabelos soltos. Ele inspirou lentamente o ar e uma sensação de paz e plenitude preencheu o corpo e a mente do ermitão. Mais uma vez ele se deu conta do privilégio que era estar naquele paraíso terrestre, onde tinha certeza que seria enterrado, um dia, quando a máquina do corpo decidisse que era hora de encerrar as atividades.

De volta à cabana, na varanda de cimento queimado, ele olhou preocupado para a roça de milho que ficava pro lado de cima da cabana de troncos. Ela pedia por água, estava seca demais. Ele poderia regar o milharal com água da mina, mas isso iria tomar muito do seu precioso tempo, melhor esperar pela chuva que o vento noroeste anunciava. Tirou as havaianas e, descalço pisou no chão encardido de tábuas de araucária, madeira tombada e serrada ainda no tempo em que ninguém falava de preservação da natureza, nos idos anos 60. Acendeu o fogão de lenha com galha de pinheiro, colocou água para preparar a cevada e num canto da chapa jogou 3 bananas prata com casca e tudo. Elas iriam assar lentamente dentro das cascas, até se transformarem num creme doce e aveludado. Virou-se para a pia de inox que destoava naquele ambiente rústico, abriu a torneira e começou a descascar os inhames que havia colhido no dia anterior. Na falta de pão integral, cuja última fatia havia sido consumida na noite anterior, o café de cevada, as bananas assadas e o inhame cozido seriam o seu desjejum naquela manhã.

Olhando pela janela em frente à pia, que dava vista para o pequeno jardim no estilo japonês, Chico Abelha passava mentalmente em revista as tarefas do dia, enquanto tirava a casca dos inhames. Normalmente, ele os comia crus, mas esta variedade era selvagem, exigia cozimento completo para ser consumido sem o inconveniente dos ráfides picando a boca e o tubo digestivo. A vantagem desse tipo de inhame, uma variedade rústica, de talo vermelho, é que não precisava de nenhum cuidado, crescia exuberante na pilha do composto, era só colher, descascar e botar pra ferver até amolecer.

Chico apreciava o que a natureza, de mão beijada, colocara ali à sua disposição. As prolíficas bananeiras, que rebrotavam infinitamente e sem nenhum trato, forneciam muito mais que o suficiente para o consumo e ao longo do ano todo. Não é à toa que a planta fora batizada pelos europeus com o sugestivo nome de Musa paradisiacaAlém dos inhames e das bananas, havia também as jabuticabas, os pinhões, os maracujás, as goiabas, os araçás, os araticuns e uma infinidade de frutas do mato. Com um pouco de planejamento, uma hortinha básica e um roçado, seria possível viver da produção local. Foi com o sonho da auto suficiencia, que este idealista, egresso da sociedade tinha chegado a este pedaço de terra esquecido no sopé da Serra da Mantiqueira.

Chico Abelha não entendia o por que das pessoas se matarem de trabalhar para consumir e acumular tanta inutilidade. Coisas e mais coisas, muitas vezes caríssimas e até mesmo perniciosas para a saúde delas! Ele ali vivia com o mínimo necessário para manter o corpo em boa forma e a mente limpa de pensamentos e desejos. Pra que mais? Nesse mais, estavam incluídas pessoas, festas, relacionamentos íntimos, tudo que envolvesse o contato com outro ser humano. Não que ele tratasse mal as pessoas que apareciam por lá, mas nunca as convidava, fazia questão de deixar claro que preferia estar só e até agradecia quando elas partiam. Para os mais chatos avisava que não estranhassem caso escutassem trombetas tocando no caminho da volta; era ele celebrando o fato de estar só novamente.

Terminado o desjejum, deixou sobre o fogão, terminando de cozinhar, as panelas de pedra com o arroz integral e o feijão guandu e saiu para mais um dia de labuta. Pegou uma calça e uma camisa surradas e fedidas que ficavam penduradas do lado de fora da cabana, vesti-as e sentou-se num banco na varanda, para calçar as botas 7 léguas. Era preciso sacudir bem as botas de borracha, elas eram o esconderijo predileto de cobras e aranhas. Naquele ermo, era prudente tomar todas as precauções a fim de evitar um acidente. Sem telefone e a pelo menos 4 km do vizinho mais próximo, uma picada de cobra poderia ser fatal. Apanhou o chapéu de palha, a foice, enfiou uma pedra de afiar no bolso de trás da calça e saiu com a idéia de abrir mais um pedacinho de roça lá pras bandas da cachoeira. A fresca da manhã dera lugar a um calor que não era normal, a chuva não devia tardar. Chico abriu um sorriso ao imaginar a chuva molhando a terra seca, cuidava das plantas como se fossem filhas…

O caminho até a cachoeira era uma trilha estreita de um metro de largura, ladeada de marias-sem-vergonha de todas as cores. Elas se instalavam sem cerimônia na beira da trilha, cresciam mais rápido que qualquer outra planta e não economizavam exuberância e beleza, afinal, estavam em seu habitat natural, um ambiente úmido e sombrio. Chico Abelha passou pelas colmeias, às quais devia o seu apelido, e sentindo o cheiro perfumado do mel de assa-peixe lembrou que já estava atrasado para a colheita. Anotou mais essa tarefa na lista de afazeres e seguiu até a clareira que pretendia roçar. Lá chegando, correu com os olhos a área a ser limpa e calculou que não gastaria mais que 2 horas para dar fim naquele gordureiro que escondia a parte mais fértil do seu sítio.

A roçada com a foice é como uma dança. Ela sobe, desce cortando, continua o movimento para o lado oposto até quase completar 360 graus, troca-se a posição das mãos e ela desce novamente cortando o mato. Chico Abelha passou as duas horas que calculara dançando com a foice, parando de vez em quando pra beber uma água e descansar os braços. Ah, sim, parou também para mudar para um lugar seguro, uma família de ratinhos do mato, que por sorte viu a tempo, antes que foice acabasse com eles. Com o sol já alto no céu, sentiu calor e dirigiu-se ao riacho, para o poço onde sempre tomava banho. Despiu-se e arrepiado entrou devagar na água gelada; na serra a água nunca era quente ou morna, pois corria entre as árvores, recebendo muito pouco dos raios do sol. Apanhou o sabão que escondia sob uma pedra, passou pelo corpo todo e mergulhou de novo para enxaguar-se. Deixou-se massagear pela força da água enquanto pensava no almoço. O estômago, nessas alturas, já estava pedindo o conforto de uma comida quente. No entanto, ao sair, Chico deitou-se na pedra aquecida pelo sol para secar-se e esqueceu-se do tempo. Os olhos cerraram-se ele mergulhou num sono profundo.

Passou ali estendido uns 20 minutos, imóvel, os olhos para o céu. Acordou assustado e incomodado com o ardido do sol quente, sua pele branca já vermelha de dor. Tivera um pesadelo totalmente fora de propósito. Estava num país muito quente, à sombra de umas palmeiras que pareciam de plástico, em meio a turistas super barulhentos, casado com uma mulher que nunca vira na vida mas que estranhamente lhe era familiar. Eles tinham dois filhos, que insistentemente pediam para comprar tudo que aparecia pela frente. O pior de tudo é que no sonho, Chico Abelha estava nú, de botas 7 léguas, sem chapéu, segurava numa das mãos um telefone celular e na outra uma foice. As pessoas falavam ingles com sotaque espanhol e gritavam de felicidade por estarem naquele lugar. Era tudo muito penoso e de uma intensidade insuportável.

O corpo todo suado pela exposição demasiada ao sol e o nervoso do pesadelo o fizeram entrar na água novamente. Já acordado e refeito depois do mergulho, sacudiu a cabeça e mandou embora a sensação ruim de ainda havia pouco. Deu risada de si mesmo, sonhar com tal absurdidade… Vestiu-se, tornou à casa, preparou uma salada de mostarda da horta, almoçou com o arroz e o inhame, deitou-se na rede para a sesta e esqueceu do sonho, que mergulhou de volta no poço profundo de onde havia saído.

Julho de 2011

Com o corpo todo suado pela exposição demasiada ao sol e nervoso porque as paredes do estômago estavam coladas de tanta fome, Chico Abelha foi tomado por uma sensação de deja vu muito intensa, em meio aqueles turistas barulhentos que coalhavam Miami Beach. Pegou o celular e ligou emburrado pela terceira vez para o hotel em que estavam hospedados, cobrando o almoço que lhe prometeram servir na praia, à sombra dos coqueiros. Depois de uma conversa tensa em espanhol, desligou decepcionado. Virou-se para a esposa e as crianças e disse com raiva:

__E dizer que estamos no primeiro mundo, que vergonha! Acho melhor comermos cachorro quente e uma coca-cola naquele boteco, os caras falaram que estão atrasados e ainda vão demorar, isso é o fim da picada!

As crianças, que até então tinham os olhos colados, cada um no seu game predileto, esboçaram uma reação, à simples menção das duas palavras mágicas; cachorro quente e coca-cola. A família recolheu seus cremes, chapéus, toalhas, documentos, chave do carro e eletrônicos, botou tudo numa sacola de palha e partiu em direção ao boteco.

O que você fica fazendo, sozinho, lá em cima daquela montanha?

junho 13, 2011

Na virada do século XXI, no tempo em que eu morava sozinho num sítio no meio da floresta, as pessoas tinham muita curiosidade sobre minha vida de ermitão. Uma das coisas que mais me perguntavam era: “O que você fica fazendo, sozinho, lá em cima daquela montanha?”. Na cabeça das pessoas, sítio e natureza estão associados a lazer, não imaginam que é preciso muito trabalho, trabalho de verdade, para manter limpa e produtiva uma área como aquela minha, do tamanho de um campo de futebol. A terra, que eu cultivava praticamente o ano todo, exigia capinas regulares, regas, podas e, claro, havia também que colher o fruto do plantio. Eu fazia tudo isso na base do machado, da foice e da enxada, nada de máquinas, nenhuma tecnologia moderna.

Feita a colheita, eu tinha que dar um fim ao produto; ou consumindo; ou conservando; ou vendendo. As bananas eu secava no forno à lenha (dava uma banana-passa deliciosa!), as laranjas eu transformava em geléia, as goiabas, abacaxis e abóboras viravam doce e as jabuticabas, um dos mais gostosos licores que eu conheço. Havia também a horta, cuja produção eu doava em sua maior parte. Além disso, eu ainda tinha que juntar lenha e rachar em pequenos pedaços, pra queimar no fogão, onde eu fazia minha comida e assava o pão. As louças e a minha roupa, quem lavava era eu também. A casa era varrida todo santo dia e uma vez por mes eu encerava e lustrava o chão de tábuas. O resto do tempo, este sim, era só meu. Essas horas eu usava para ler, tocar um violão ou ir à cidade comprar alguma coisa que estivesse faltando. Se aparecia alguém, alguma visita, eu dava um dedo de prosa e continuava a fazer meu trabalho, pois se eu não fizesse, quem é que ia fazer? E eu não tinha o mínimo pudor de convidar as visitas para se juntarem ao trabalho que eu fazia, seja carregando pedras ou troncos que eu não conseguia carregar sozinho, seja ajudando a arrancar mato na horta.

As visitas eram bem vindas, de modo geral, mas quando elas resolviam que iam pousar lá em casa, aí era complicado. Os hábitos do pessoal da cidade eram bem diferentes dos meus. Eles vinham para se divertir, queriam dormir tarde, se desestressar no silêncio acolhedor da roça, e nem se davam conta que a agitação deles acabava com o meu sossego. Logo percebi que se eu quisesse preservar minha tranqüilidade, teria que construir uma casa de hóspedes. Foi o que fiz.

Construir uma casa no meio da mata, por pequena que seja, é um trabalho hercúleo. Meu sítio não tinha nenhuma estrada de acesso nem contava com energia elétrica, eu nunca quis essas facilidades. Uma época o governo do Estado queria dar de graça, eu recusei, sabia que aquilo seria o começo do fim. Então, com o acesso difícil, tudo que chegava lá em cima, telhas, vidro temperado, lajotas para piso, pias, portas, pregos, arame, óleo queimado, etc… tinha que ser trazido no lombo do burro ou nas costas de gente. Madeira eu tinha muita, na mata, mas era pau roliço e se eu queria uma tábua ou viga, elas precisavam ser serradas, ou com o serrote ou com o traçador.

Nessas horas, quando o bicho pegava, quando não dava pra fazer sozinho, eu pedia ajuda pro pessoal da roça. Eles tinham os animais e as cangalhas com os balaios, e me colocavam lá em cima todo o material, num verdadeiro trabalho de formiguinha. Foi nessa época, quando eu estava ainda estava planejando construir a segunda casinha, que me apareceu um tal de João Serra, um solteirão que tinha ido se esconder lá perto de casa. Um dia cruzei com ele na trilha e começamos a assuntar. O João parecia um homem das cavernas, tinha aquela sujeira preta debaixo das unhas, todo peludo, barba e cabelos ruivos enormes e de sandálias havaianas quase na lona de tão finas que eram. O sotaque era o pior caipirês da região, a fala parecia um grunhido pra dentro. Conversa vai, conversa vem, eu descobri que ele era serrador e que podia me tirar uma tábuas com o traçador, o que vinha a calhar, pois eu tinha algumas araucárias deitadas no meio da mata. Só dependia da disponibilidade do primo dele, um outro Serra, porque o traçador se opera a dois, é como numa dança, coisa bonita de se ver.

Depois de uns dias o primo deu o sim e eu quis combinar o preço, essas coisas é melhor acertar antes pra não ter mal entendido. Fomos até as árvores caídas, o João mediu tudo com um daqueles metros de madeira da marca Bambú e me deu o valor. Achei barato e até comentei com ele.

__João, mas esse valor é pra serrar toda essa madeira em tábuas de 30? Tem certeza? É isso mesmo, não vai me querer mexer nesse preço depois?

__Não, sô Chico, vô mexe nu preço não. Eu to fazeno um preço bão mai to quereno uma coisinha do sinhô. Ouvi dizê que o sinhô tem um baraio de carta que ajuda a desencaiá home sortêro.

Não sei como a informação tinha chegado aos ouvidos do João, mas, na certa, o “baraio” que ele falava era o tarot, que eu andava tirando pros chegados, coisa sem compromisso e na base da amizade. Nunca pensei que um caipira como o João pudesse se interessar, muito menos pra arrumar casamento…! No entanto, curioso que eu sou, resolvi dizer que ia botar o “baraio” pra ele, eu não tinha nada a perder. Fomos pro jardim lá de casa, estendi uma toalha preta no gramado e pedi pra ele cortar o baralho. Ele me devolveu as cartas, e meio que pedindo, meio que cobrando me disse…

__Sô Chico, eu quero uma muié com saúdi, trabaiadêra i honesta. Ser for peituda i boa di anca mió.

__Pensamento positivo é sempre bom, João, saber o que gente quer ajuda muito, viu!

Pedi que ele se concentrasse no objetivo e tirasse tres cartas com a mão esquerda. Os olhos do caipira percorreram sem pressa o leque de cartas espalhadas e, muito sério ele tirou cada uma das cartas e me entregou nas mãos uma após a outra. A primeira que que saiu foi o Eremita, depois os Amantes e finalmente o Mundo. Normalmente aquela seria uma combinação favorável para o que ele queria, mas fiquei temeroso de dar falsas esperanças para o pobre homem. Respirei fundo, me conectei com a intuição e ela me disse: “Vai fundo, é isso mesmo que você está vendo, pode falar pra ele!”. E eu falei.

__João, não demora muito você vai arrumar uma mulher do jeito que você quer. Não precisa nem ir na cidade, é ela vai encontrar você aqui no mato. Fica na sua, não muda nada na sua vida, que as coisas estão boas pro seu lado.

Os olhinhos do João brilharam, ele não cabia em si de contentamento. Me agradeceu e foi embora com um sorriso de orelha a orelha. Nos próximos dias, ele mais o primo me serraram toda a madeira, eu paguei e não ouvi falar mais do João durante uns meses. Um dia, passeando pela cidade, encontrei ele abraçadinho com uma mulher muito bem apanhada, mas não fosse ele me chamar eu não o teria reconhecido. Os dois irradiavam felicidade e dessa vez João estava limpinho, barba feita e cabelo cortado, nos pés uma botina de couro, faiscando de tão engraxada!

__ ÔSeu Chico! O seu baraio não faiô, quero apresentá a Maria, minha esposa!

Confesso que fiquei emocionado, me senti meio que responsável pela alegria daqueles dois. Conversei um pouco com eles, perguntei se iam morar na roça ou na cidade, se tinham planos de botar filho no mundo, essas coisas que se pergunta pra gente recém-casada. Na hora de ir embora, a Maria me pergunta, toda tímida e com uma voz muito doce, se eu não podia ler as cartas para uma irmã dela que já estava prá lá dos 40 e que nem Santo Antônio tinha conseguido desencalhar. Não deu pra negar, não consegui, o que custava tirar um tarozinho para uma solteirona encalhada?

Alguns dias depois me aparece a irmã da Maria, a Cida. E depois dela, uma fila interminável de gente subia o morro e vinha bater lá em casa querendo saber coisas. Volta e meia eu estendia o paninho preto e tirava cartas pra gente querendo saber de paradeiro de filho, documento perdido, traição, morte, saúde, mas o campeão mesmo, a fama que ficou é que o “baraio” era casamenteiro e fazia milagres com gente encalhada! De modo que, dessa época em diante, somei mais essa tarefa aos meus afazeres diários no sítio. E mesmo assim, muita gente ainda me achava um bon vivant, vivendo uma vida de aposentado desocupado, lá em cima na montanha…

Que Deus nos Ajude!

abril 28, 2011

Lá pelos idos de 1999, estava ao telefone com meu irmão, a gente conversava sobre Pearl S. Buck. Eu acabara de ler dela, A Boa Terra, estava muito entusiasmado com a escritora e quis saber se ele a conhecia. Ele disse que não, mas segundos depois ele me desfia a biografia dela e me faz um resumo do livro! Desentendido, perguntei como ele fizera aquilo…

__É que estou com o computador aqui na minha frente, Chico.

__Mas tem todas essas informações? Dentro do seu computador?

__Não, Chico, estou conectado na Internet, fiz uma busca com os nomes que você me deu e as informações aparecem na tela… simples!

__Mas tão rápido assim? Eu mal perguntei se você conhecia a escritora e você já me entregou de bandeja um monte de informações? O que mais você pode perguntar pra essa Internet?

Naquela época eu achava que Internet era uma grande empresa, assim como a Folha Informações, um serviço telefônico que eu utilizei muito quando criança, para trabalhos de escola. A Folha Informações funcionava como uma enciclopédia, mas dava também previsão do tempo, câmbio, a hora em outros fusos, endereços, etc… Mas demorava o tempo de se conseguir uma linha livre, a telefonista atender, transferir a ligação, fazer a pergunta e esperar que a moça (era sempre uma mulher) fizesse a consulta… Era uma eternidade! A resposta do meu irmão me marcou para sempre:

__Chico, a Internet tem praticamente tudo, eu poderia ficar aqui o dia todo, falando pra você das possibilidades e ainda não esgotaria o assunto. Você pode achar tudo que quiser na Internet.

Tudo que eu quiser? Uau! Aquilo foi de um apelo irresistível! Pensei comigo, um dia eu ainda preciso ficar sócio dessa tal Internet! Nessa época eu morava em Jericoacoara, numa casa afastada uns 2 km da cidade, sem energia elétrica, totalmente desconectado e ainda muito bicho grilo, mas senti uma vontade enorme de mergulhar na piscina de possibilidades que eu vislumbrara através da conversa com o meu irmão.

Muita água ainda iria passar debaixo da ponte, antes que eu pudesse, finalmente, mergulhar nessa piscina enorme que é a Internet. Mas depois que mergulhei, não passo um dia sem molhar meus neurônios nessas águas… Toda manhã, levanto da cama,  jogo o xixi do penico no canteiro de jilós (é um ótimo adubo, cheio de sais minerais e nitrogênio) e em seguida ligo o computador e me conecto com o mundo. É como respirar ar fresco depois da chuva. Não sei se é vício, se é bom ou ruim, mas eu me sinto bem de saber do mundo, me relacionar com as pessoas, ler livros e descobrir imagens fantásticas no Google, escrevo lá uma palavra no buscador e depois clico em imagens. Pois bem, hoje de manhã, talvez influenciado pela minha preocupação com o acidente nuclear no Japão, digitei as palavras nuclear radiation e no meio dos resultados havia algumas imagens de insetos e pássaros. Cliquei no link e descobri uma matéria sobre um tal de Timothy Mousseau, que está pesquisando a vida selvagem na zona de exclusão de Chernobyl.

Entre outras coisas assustadoras que diz esse professor da Universidade da Carolina do Sul, li que ele achou muito estranho andar nas matas próximas a Chernobyl. Afora as construções abandonadas, que dão um ar fantasmagórico ao local, ele estranhou a ausência de teias de aranha e pequenos insetos. Na mesma hora que li aquilo, lembrei da minha trilha, essa que abri na matinha aqui perto de casa. Eu também não encontro teias de aranha quando ando na minha trilha, nem teias nem casas de vespas! Quando eu morava na floresta, vivia com o olho inchado de picadas de vespas, eu sempre topava com elas quando roçava o mato e teias de aranha estavam por toda parte! Por que a ausência desses bichos nesta mata se aqui não há radiação?

Uma coisa leva à outra, dei um google em insetos e radiação. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que as torres de transmissão de sinal de celular emitem microondas, que estão matando esses bichinhos! Não só as torres, mas cada aparelho de telefone celular, cada roteador residencial contribui para o desaparecimento desses bichinhos. Me lembrei, depois, que apesar das poças d’água que se formam no terreno enrome que tem aqui em frente de casa, eu não escuto nenhuma sinfonia de sapos, rãs e pererecas. Uma tristeza me invadiu, eu tenho telefone celular, eu uso um roteador para meu conforto! Além da tristeza, uma sensação de culpa, por saber que sou cúmplice dessa mortandade… O que fazer? Voltar pra roça? Abrir mão daquilo que uso como ferramenta de trabalho e de relacionamento?

Não tive de tempo de chegar a nenhuma conclusão e já me tocam a campainha de casa. Era o porteiro do condominio que vem me pedir emprestada uma caixa de fósforos, pra acender cinco centímetros de espiral e espantar os pernilongos que o atacam dentro da portaria, no fim do dia e à noite. Eu tive que ir lá na portaria pra checar, o caminhão da fumaça passa todas as semanas, não era pra ter tanto pernilongo! Mas era verdade, havia uma nuvem de pernilongos sobrevoando tudo que se mexe e tem sangue quente e ainda escutei a reclamação da companheira de trabalho do porteiro:

__Seu Chico, isso aqui tá um inferno. Se a gente liga o ventilador pra espantar os pernilongos, não escuta o interfone, a gente tem que fazer uma fumaça aqui dentro, senão não tem jeito de trabalhar.

__Mas então o caminhão da fumaça não tá dando conta?

__Que nada, cada dia os mosquitos ficam mais atrevidos, o senhor não vai acreditar, eles já estão picando por cima da roupa da gente! O veneno tá é deixando eles mais fortes!

__Eu acredito sim, minha amiga, infelizmente eu acredito justamente nisso… Morrem os mais fracos e sobrevivem os mais aptos.

Quem sabe não é isso que vai acontecer com a humanidade também? Pensando nisso, e nem um pouco otimista, botei novamente no google as seguintes palavras: radiation effects on humans. Apenas para me defrontar com a pior do dia… Dei de cara com imagens que me pareceram saídas da mente perversa de algum doido deformando pessoas no photoshop. Eram imagens do fotógrafo Paul Fusco, que teve a coragem de se aventurar no terrível legado do acidente nuclear de Chernobyl em 1986. São imagens terríveis, muito fortes, mas que devem ser vistas, para servirem de alerta aos que ainda defendem o uso desse tipo de produção de energia. Que Deus nos ajude!


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