Posts Tagged ‘família’

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

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FORNALHA MINEIRA

novembro 18, 2015

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Renato Barros se lembra do pai construindo fornalhas para assar broas e biscoitos e foi vendo o pai construir que ele aprendeu a fazer.

– Antigamente todo mundo tinha uma fornalha em casa; era como liquidificador, televisão e microondas nas casas de hoje – comenta Heloisa, irmã de Renato.

A fornalha é construída sobre uma cama de bambus, na qual se faz uma caixa com tijolos que será preenchida com areia, material isolante, para ajudar manter o calor. Acima da camada de areia vão os tijolos que serão o piso da fornalha.

Construir a abóbada da fornalha é uma arte e Renato diz que ele mesmo não entende muito bem como a coisa acontece, porque numa determinada fase os tijolos são assentados praticamente a prumo e não caem!

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É preciso fazer uma chaminé no alto e um respiradouro lateral para retirar as cinzas.

Outra arte é regular a temperatura da fornalha para assar , carnes, bolos, pães e biscoitos. Primeiro é preciso fazer fogo, muito fogo dentro da fornalha. Quando se formou bastante brasa, ela tem que ser bem espalhada. Só então mede-se a temperatura usando farinha de trigo e palha de milho. Conforme o estado da farinha, se queimou ou apenas amarelou, sabe-se se a temperatura está adequada para assar o bolo. A palha do milho é usada para saber a temperatura quando vai se assar carne. A palha tem que apenas pretejar, sem pegar fogo. Se pretejar está bom para assar, mas se queimar está quente demais e vai queimar tbm a carne.

Esta fornalha foi feita para assar roscas para a festa de São José do Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP.

Fiz um um video que conta passo a passo a construção da fornalha, desde o corte da madeira até o revestimento com tabatinga, um barro branco que é usado para vedar as rachaduras e também para boniteza da fornalha.

 

A Incansável Dona Teresa

abril 16, 2015

Conheci dona Teresa nas minhas andanças pela cidade de São José dos Campos, como pesquisador de folclore. Esta senhora me surpreendeu e encantou já desde o primeiro encontro. Sua vitalidade, aos 84 anos, é contagiante. Inquieta, ou está ocupada com os afazeres domésticos ou batendo um papo, contando suas histórias. Nunca a vi parada. Lúcida e atenta, ela não perde nada do que acontece ao seu redor.

Dona Teresa é o folclore vivo.

No falar, no trajar e no fazer, ela é, na essência, a mesma pessoa que deixou sua roça faz bem uns 40 anos. Daqueles idos tempos ela traz consigo as plantas de remédio e de comer, as quais cultiva no estreito corredor da casa onde mora hoje, no Parque Industrial em São José dos Campos. Os termos que ela usa para se expressar, as roupas que veste e seu jeitão acolhedor nos transportam para tempo que já não existe mais, mas que esta capricorniana teimosa insiste em querer dar uma sobrevida.

Há 60 anos ela faz acontecer uma festa junina para os 3 santos, Antonio, Pedro e João; uma festa que ela insiste que seja à moda antiga, fiel à tradição, do mesmo jeito que ela e seu marido faziam, no sertão do Cantagalo SP, com direito a broa de milho, mastro, rojão e uma bela fogueira que ela manda acender no meio do asfalto mesmo.

Posso dizer, sem medo de errar, que a razão da vida desta mulher é sua família, são os seus 10 filhos, todos criados e maiores de idade, mas que ela, ainda hoje, cuida como se fossem crianças. Os filhos de dona Teresa tem verdadeira adoração pela mãe e a cada fim de semana vem pedir a benção a esta fortaleza em forma de mulher. Dona Teresa, feliz com a prole ao seu redor, recebe-os com quitutes caipiras, que faz questão de preparar ela mesma. É frango caipira, quirerinha, broa de milho, biscoito polvilho, doces de frutas, receitas deliciosas que ela traz do tempo em que viveu na roça, lá para as bandas de Paraisópolis, nas Minas Gerais…

Por ter sofrido um AVC há alguns anos, sua fala não é muito clara e nas entrevistas eu me esforço ao máximo para não perder uma palavra do que ela diz, dada a riqueza de detalhes e importancia folclórica de seus relatos. Suas histórias são tantas e tão interessantes que resolvi fazer com elas um livro inteiro, para que todo mundo possa se deliciar com as peripécias desta senhora; o que vocês vão ler aqui é um aperitivo, uma entrada para o prato principal, mas uma entrada deliciosa, posso garantir!

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O barrigão de seis meses e meio que Maria Teresa de Jesus carregava não atrapalhou em nada o vai e vem da enxadinha bem encabada e que ia deitando o picão, a tiririca e a guanxuma, no roçado de arroz ao lado da casa onde vivia com o marido, João Batista de Morais. Naquele 19 de janeiro de 1928, ela havia passado o dia todo debaixo de um sol escaldante, mas não sentiu nada de diferente, nada que pudesse denunciar o que viria acontecer nas próximas horas. Para ela, aquele foi um dia comum, quente e abafado, como costumam ser todos os janeiros chuvosos em Campo do Meio, zona rural situada entre Paraisópolis e Conceição dos Ouros, MG.

No horário de costume, quando o sol se escondeu por trás do pinheiral da serra, Maria Teresa deu por encerrada sua tarefa na roça e recolheu-se à casa. No fogão de lenha, botou um pouco de banha de porco numa frigideira de ferro e preparou um virado com o feijão que havia sobrado do almoço, picou uma couve e serviu com arroz para o marido. Comeu ela também e depois apanhou um pouco de água quente da chaleira que vivia em cima da chapa do fogão, para temperar um banho rápido que ela tomou numa bacia de metal. Esfregou-se com uma bucha e sabão de cinza que ela mesma fazia, lavou-se, secou-se, vestiu a camisola e dirigiu-se à cama, já antecipando seu merecido descanso. O marido já estava deitado do outro lado da cama, os homens sempre se aprontam mais rápido que as mulheres. Ajeitou com as mãos o seu lado do colchão de palha de milho, levantou os lençóis e ia deitar-se, quando sentiu um “quente” escorrendo pelas pernas. Olhou para o chão e viu o liquido escorrendo, formando uma poça no soalho. Com toda calma do mundo, sem se alterar, mas já sabendo do que se tratava, ela dirigiu-se ao marido.

__João, manda chamar a mãe que a bolsa estourou. Nossa Senhora do Bom Parto que me ajude, mas acho que essa criança eu já perdi.

João Batista já estava quase dormindo, cansado da viagem a cavalo que fizera a Paraisópolis, onde tinha ido fazer compras para abastecer o armazém que ele a esposa tocavam. Teve que fazer um esforço enorme para se levantar, vestir uma calça, calçar as botas, colocar o chapéu na cabeça e sair correndo em direção à casa da sogra, que ficava a um quarto de légua de onde eles moravam.

Quando João voltou com a sogra, Maria Teresa já estava segurando no colo um diminuto ser do sexo feminino, pesando apenas meio kilo, o quinto filho de uma série de doze que ela viria dar à luz. É verdade que o bebe chorava forte, de arder os ouvidos dos presentes, mas nos olhares que trocaram os tres adultos naquele quarto, estava subentendido que ninguém acreditava que aquela menina, saida do ventre da mãe dois meses e meio antes do tempo, fosse sobreviver. Nem mamar a criança conseguia, foi preciso que Maria Teresa espremesse o peito e deixasse cair o colostro na boca da menina, para que ela se acalmasse e todos pudessem dormir um pouco.

Na manhã seguinte, contrariando todas as expectativas, a criança estava bem viva. Mandaram, então, chamar o padre em Paraísópolis, pois era preciso batizar urgentemente a criança. Se ela não recebesse o sacramento nas 24 horas depois de chegada ao mundo, corria o risco de ficar para sempre com os olhos irritados e cheios de água.

Maria Teresa e o bebê permaneceram encerradas no quarto durante 41 dias. Era o costume naqueles tempos, as mulheres que dessem à luz tinham que fazer a dieta, ou seja, permanecer reclusas no escuro do quarto, sem banho, comendo tudo separado e bebendo cerveja preta, que era pra garantir uma boa quantidade de leite para a recém nascida.

Vencida a quarentena e apesar do tamanho diminuto e da fragilidade da criança, que ainda não tinha nome, todos passaram a considerar a possibilidade daquele frágil serzinho vingar. João, cuidadoso, forrou com algodão uma caixa de sapatos e lá colocou sua filha, que durante o dia permanecia numa prateleira da venda, enquanto a mãe lidava com a roça e a casa. Escondido de todos, depois que baixava as portas da venda, o pai molhava o cabo de uma colher com vinho do porto e pingava na boca da criança. Mais tarde, ele teria contado à filha que esta lambia os beiços ao ingerir a bebida e que se não fosse pelo vinho, ela, com certeza, não teria sobrevivido. Dizem que quando João levava a criança de volta para a mãe, fazia-o carregando-a dentro do bolso do paletó, de tão pequenina que ela era…

Quando ficou claro que aquele pedacinho de gente queria mesmo tentar sua sorte entre os vivos, a avó, que era também a madrinha de batismo, resolveu registra-la em Paraisópolis. Perguntou a Maria Teresa qual o nome que ela queria para a menina.

__Ponha o nome que a senhora quiser, mamãe. Para mim não faz diferença.

E lá a foi a avó para Paraisópolis, registrar a neta, sem saber ao certo que nome responder quando o cartorário fizesse a pergunta. Ao chegar na cidade, como fazia a cada vez, entrou na igreja e ajoelhada fez sua prece de agradecimento pela viagem bem sucedida. Terminada a oração, levantou os olhos para o altar e o que viu foi a imagem de Santa Teresinha. Diz ela que viu uma semelhança enorme da santa com a neta e, assim, a menina ganhou o nome da santa padroeira dos missionários.

Teresinha cresceu rápido e logo pegou peso e tamanho. Não se via diferença entre ela e outras crianças nascidas na mesma época. A menina era esperta e inteligente e logo que pode passou a ajudar a mãe em pequenas tarefas na cozinha. Ia buscar água na mina, uma cebolinha verde na horta ou apanhar galha de pinheiro pra acender o fogo.

Na roça, para brincar, as crianças tinham que se virar com o que havia à mão. Além dos tradicionais passa-anel, cabra-cega e pegador, Teresinha gostava de brincar sozinha no terreiro, onde passava horas a fio, cozinhado os lambaris que ela mesma pescava no corgüinho da mina d’água. Seu brinquedo preferido, ou melhor, o único brinquedo que ela jamais teve na vida, foi uma panelinha de barro que pai lhe deu de presente, uma lembrança que João arrematou pensando na filha, num leilão de uma festa da Santa Cruz em Paraisópolis.

Com os irmãos, Teresinha saia pelo mato, à caça de lagartos e tatús, os quais traziam para casa, para que a mãe os preparasse assados com batatas ou mandioca. Caçavam também coelhos, mas estes tinham que ser moqueados às escondidas, bem longe de casa, pois a mãe tinha nojo dos bichinhos e proibia que os mesmos entrassem em sua cozinha.

Aos quatro anos, Teresinha já sabia montar a cavalo e com isso passou a  apartar as vacas no pasto, junto com os irmãos mais velhos. Ajudava-os também a pastorear cabritos pelos pastos da redondeza e um dia, enquanto olhava os bichinhos mais os irmãos, resolveu brincar numa balança que havia debaixo de uma mangueira velha. Para se mostrar, balançou mais alto do que de costume e acabou se soltando e caindo de costas numa raiz da árvore e desmaiou. Os irmãos, apavorados ao verem a irmã imóvel no chão, correram para casa dos pais, avisar que Teresinha estava morta. O pai saiu imediatamente em busca da filha, trouxe-a para casa, fe-la cheirar um lenço embebido em canfora e, para grande alívio de todos, a menina voltou a si. Deste episódio, além da “ponta do rabinho” que ficou torta para sempre, restou um medo de altura e de roda gigante, que ela não passa perto por nada neste mundo…

Não demorou e Teresinha também já estava ordenhando vacas, como se fosse gente grande. Ela mesma laçava a vaca, amarrava as pernas e fazia espumar o leite no balde. Nos dias em que todos estavam ocupados, a menina, sozinha, tirava leite de 25 vacas. É verdade que o gado era zebuzado, davam menos de 10 litros cada uma, mas mesmo assim, era um feito para uma menina que ainda não tinha os seus 10 anos.

O pai, percebendo que a filha era esperta, passou a leva-la junto com os camaradas, nos trabalhos de roçada e preparo da terra. No início a menina apenas acompanhava a turma e ia apanhar água nas minas, para que os trabalhadores não precisassem parar. Mas, curiosa que era, a menina acabou pegando no penado e começou a roçar junto com os homens. Logo já estava tirando tarefa, fazia metade do trabalho de um adulto.

Escola ela nunca teve quando criança. Não se esperava de uma mulher, naqueles idos tempos e remotas plagas, que fosse instruída. O valor de uma esposa não se media em erudição, mas sim em sua capacidade de trabalho, obediência e dedicação ao marido. Já com os homens era diferente. Um dia, um andante apareceu por aquelas bandas e João o contratou para ensinar as letras e os números aos filhos homens. Claro que Teresinha se interessou pela novidade e quando o homem dava as lições ela se sentava à mesa, toda ouvidos, junto com os irmãos. O pai não aprovou a iniciativa e acabou dissuadindo a menina, que muito triste, foi forçada a se privar do prazer de folhear livros com imagens coloridas que enchiam os olhos da pequena Teresa, mostrando um mundo fascinante, até então totalmente desconhecido para ela.

O pouco que Teresinha e seus irmãos conheciam, além do seu cotidiano da roça, era devido às raras idas da família à cidade, Paraisópolis ou Conceição dos Ouros, nas datas religiosas, Semana Santa ou Natal. Afora isso, só ficavam sabendo do que acontecia no mundo através de passantes esporádicos, algum mascate ou trabalhador avulso oferecendo trabalho. Mas havia também um senhor falante, um fiscal do governo que vinha conferir os selos das garrafas de bebidas, para saber se o imposto estava sendo devidamente recolhido. Este ultimo vinha nas horas mais inconvenientes. Assim, naquela fria manhã de agosto de 1932, quando dona Maria Teresa escutou um barulho de motor lá para os lados da estrada, achou que era o tal fiscal e mandou as crianças esconderem às pressas as garrafas que, naturalmente, estavam todas sem o selo do imposto. Foi um corre-corre danado e  parecia que dessa vez não iam conseguir enganar o fiscal, pois o barulho do carro já se fazia ouvir muito alto, ele entraria pela porta da venda a qualquer instante. No meio da confusão, Teresinha olhou de relance pela janela e gritou:

__Nossa Mãe do Céu, não é o fiscal que vem vindo, não! É um passarão que tá gritando lá de cima dos eucaliptos! E saíram à rua, para ver que tipo de pássaro seria aquele que fazia tanto barulho. Encontraram outras pessoas que também tinham saído de suas casas, intrigadas com o barulho acima das árvores. De repente, surgiu de lá de trás dos eucaliptos um avião Waco, vermelho vivo, das forças legalistas da Revolução de 32, voando rasante, não muito acima de suas cabeças. Foi um deus-nos-acuda! Ninguém naquelas paragens jamais havia visto um avião. Persignando-se e invocando ajuda de Nossa Senhora e do Pai Eterno, entraram todos em suas casas, buscando proteção debaixo de camas, mesas e dentro de guarda-roupas. Uma mulher foi vista segurando uma peneira sobre sua cabeça, decerto acreditando que a cruz desenhada (*) na mesma iria protege-la daquela ameaça que com certeza era coisa do diabo…

Maria Teresa, que nesta ocasião estava grávida, ficou muito assustada com a confusão e pediu para uma vizinha ir buscar um ramo de arruda, com o que preparou um remédio infalível para sistema nervoso. Conhecido como queimado de arruda, o medicamento caseiro consistia em açúcar queimado, arruda e pinga misturados num prato, aos quais se acrescentava um pouco de água morna e tomava-se tudo de uma só vez. Se o remédio a acalmou, não impediu que horas mais tarde ela viesse dar à luz a mais uma criança prematura.

Durante dias, o comentário em Campo do Meio foi o misterioso pássaro vermelho que havia sobrevoado o povoado. Alguns falavam em fim dos tempos, enquanto outros juravam ter visto a cauda do demo no rabo do pássaro. O mistério só foi desvendado semanas mais tarde, quando o padre veio de Paraisópolis para celebrar um batizado e explicou do que se tratava e que seus fiéis não precisavam ter medo dessa nova arma de guerra…

Quando Teresinha tinha lá seus 11 anos, o pai comprou terras mais férteis e maiores, agora no estado de São Paulo, numa região chamada Cantagalo, distante uns 25km de Campo do Meio. Mudaram-se todos para lá, João abriu um novo comércio mas o modo de vida da família continuou praticamente o mesmo. O Cantagalo era tão isolado do mundo urbano quanto o Campo do Meio.

A vida da menina Teresa não ia muito além da lida diária, ajudando o pai com a criação e a roça, e os afazeres domésticos, ajudando sua mãe com cozinha e costura. O que acabava quebrando a rotina eram as mortes, batizados e dias santos, quando o povo parava tudo, se reunia e celebrava em Campo do Meio. Mas também havia as missas de Natal e Páscoa, que o pessoal ia assistir na igreja em Paraisópolis. No dia da Missa do Galo, já de noite, saiam à pé de Campo do Meio um grupo grande de fiéis, percorrendo em silêncio os 18km até Paraisópolis. Quando chegavam na altura da Fazenda do Mogiano, antes de descer a serra, ao avistarem a torre da igreja toda iluminada, os homens tiravam os chapéus e cantavam com voz grave:

AVISTEI A CASA SANTA, ONDE DEUS FEZ A MORADA

LÁ MORA O CALIX BENTO E A HÓSTIA CONSAGRADA

Repetiam 3 vezes estas duas frases e prosseguiam viagem em silêncio. A menina Teresa ficava emocionada nessas ocasiões, eram momentos muito especiais, cheios de religiosidade e respeito. Mas naquele Natal de 1940, ela teria um motivo a mais para ficar emocionada. Acompanhando o cortejo silencioso, estava também o Salomão, um rapaz por quem ela, já há algum tempo, nutria um interesse especial. Pelos olhares que eles trocaram, Teresinha soube que o rapaz também ficou interessado por ela, mas não podiam ir além dessa comunicação platônica, sob pena de serem repreendidos pela moralidade vigente.

Durante anos, só se encontrando aos domingos e sem jamais terem falado um com o outro, mantiveram este vínculo apaixonado, até que um dia, por intermédio de terceiros, Teresinha ficou sabendo que Salomão ia embora para São Paulo. Ele se alistara no exército e iria morar na casa do tio, que era tenente. Isso abalou profundamente a adolescente, que pensou – “Meu Deus, ele vai para o fim do mundo, e agora?”. Não compartilhou com ninguém a sua dor e lamentou muito o fato de ser analfabeta, pois se ao menos soubesse escrever, poderia ter enviado um bilhete para o rapaz, expressando o seu amor… Quem sabe, assim, ele não tivesse mudado de idéia?

Salomão foi em busca de seu destino em São Paulo e, no coração de Teresinha, virou chama uma brasa que ela mantinha acesa desde criança, a de entrar para um convento e ser como aquelas imponentes mulheres de hábito escuro que ela via nas missas em Paraisópolis. Mas a idéia durou pouco, pois ao comentar seu interesse com a mãe, mudou de idéia tão logo esta lhe assegurou que todas as freiras tinham que raspar a cabeça. Teresinha não gostou da idéia de perder seus lindos cabelos compridos e com tempo acabou esquecendo do projeto.

Não muito depois da partida de Salomão para São Paulo, chegou na região uma equipe de serradores, para tirar tábuas das florestas de araucárias do Cantagalo. Entre os rapazes da turma havia um de nome João Fraga, que se encantou com Teresinha à primeira vista, ao conhecer a moça no velório de um anjinho. João Fraga não era de perder tempo e no dia seguinte mandou um bilhete dizendo que queria falar com o pai daquela que havia enchido seus olhos e inflado seu coração.

De acordo com o pedido, João recebeu o pretendente na sala de sua casa e Teresinha que não era boba nem nada, ficou atrás da porta escutando tudo. João entendeu que aquele moço sentado à sua frente e que estava há apenas 3 semanas trabalhando no Cantagalo, era um bom pretendente para sua filha e deu sua permissão para que João Fraga se casasse com ela. Teresinha, de dentro do quarto, sentiu um frio subir pela barriga e as pernas amolecerem. Ela nunca havia contrariado seu pai e não seria agora que iria faze-lo, mesmo que este tal de João Fraga não tivesse conquistado um unico milímetro do seu coração. Isso aconteceu no mes de janeiro e o casamento foi marcado para dia 2 de junho.

Todo esses meses Teresinha sofreu calada, mas tocou sua vida como se nada houvesse acontecido. Decidiu que era melhor casar mesmo, pois para ela, mais importante que tudo era ver o pai satisfeito. Aqueles não eram tempos em que a mulher tinha voz nem vez…

Os preparativos para o casamento Teresinha fez a contragosto, empurrada pela mãe. Foram a Paraisópolis e escolheram o melhor traje que encontraram, um vestido de seda patu, de cauda; se ela não estava feliz por dentro, por fora, ao menos, ela ia mostrar-se deslumbrante. Escolheram os melhores animais e na véspera do casório as duas mataram e prepararam 2 boas leitoas e 12 frangos bem cevados, para a janta que seria servida depois do casório, a ser realizado na igreja de Nossa Senhora de Santa Maria, na praça central do Cantagalo.

No dia do casamento, Teresinha sumiu da vista de todos e passou horas sozinha, rodando pelo pomar, pensando naquela pessoa que há alguns anos tinha ido para São Paulo se alistar; bem que ele podia aparecer antes do padre perguntar se ela aceitava João Fraga como seu legítimo esposo e mudar definitivamente o rumo de sua vida. Ainda dava tempo… Mas ele não veio e ela teve que encarar a dura realidade de se casar com um homem que não escolhera. Às lágrimas, com o coração saindo à boca, ela caminhou para a casa de uma amiga, que ajudou-a com o penteado e o vestido. Às 3h da tarde, quando o pai a conduziu ao altar, ela se sentiu caminhando em direção ao cadafalso…

Terminada a cerimonia na igreja, foram todos para a casa dos pais da noiva, onde foi servido um jantar simples; arroz, feijão, virado, frango ensopado e leitoa assada, tudo regado a suco de laranja, que nenhuma bebida alcoólica foi autorizada por João, para evitar brigas e confusões. Presente de casamento, Teresinha ganhou apenas uma panela de ferro, de sua irmã e uma máquina de costura Singer, do pai, evidenciando bem o que se esperava dela como esposa. Lua de Mel era algo impensável, dadas as condições austeras que eles viviam. Como agrado, os recém-casados puderam passar a primeira noite na cama de casal dos pais da noiva e foi na casa destes que viveram os dois anos seguintes.

Os pais de Teresinha abriram uma outra venda no Cantagalo, para lá mudaram-se e deixaram a filha e o genro morando em sua antiga casa e cuidando da fazenda. Com o casamento, a vida de Teresinha não mudou grande coisa, sua rotina era praticamente a mesma e ela continuava trabalhando igual a um homem. Só que agora, como esposa, ela tinha mais tarefas e mais responsabilidades, isto sem falar na nova vida que carregava em seu ventre. Seu primeiro filho, o Zito, veio ao mundo um ano e 4 dias depois do casamento, pesando 5kg e deu muito trabalho para nascer, foi preciso a ajuda de duas parteiras para que o menino saísse da barriga de Teresinha. Como sua mãe, ela seguiu à risca o costume de manter o recém nascido por 7 dias no escuro do quarto, sem tomarem banho, ela e o nenê, e guardou também a dieta de 41 dias, tendo comido um frango por dia durante este período, que ela mesma se dava o trabalho de matar e preparar.

Teresinha logo se deu conta de que seu marido era muito ciumento. João Fraga não gostava que sua esposa conversasse com ninguém. Isso era muito difícil para uma mulher como Teresinha, comunicativa e que gostava de negociar a venda da produção da fazenda. O clima entre os recém-casados não era nada bom. João nunca estava satisfeito e um dia chegou a levantar a voz com Teresinha, ao reclamar de um botão que estava faltando em sua camisa. Teresinha foi até o armário e pegou uma pilha de camisas limpas e passadas e botou em cima da cama, como quem diz: “Se nesta falta um botão, aqui tem uma dúzia de camisas perfeitas”. João não pensou duas vezes, pegou a pilha toda e jogou pela janela. Teresinha ficou vermelha de raiva, mas não disse nada, ela jamais proferiu um palavrão em toda sua vida, só de pensar em nome feio sentia um gosto ruim de sabão em sua boca. Mas com o pensamento ela amaldiçoou aquele homem com quem era obrigada a dividir o leito todas as noites. Nessas horas difíceis ela recorria à Mãe de Deus, a quem orava pedindo paciência e forças para seguir em frente.

Dois anos haviam se passado do casamento de Teresinha com João quando Salomão, vindo de São Paulo, entrou na cozinha da casa de Maria Teresa e anunciou que voltara ao Cantagalo para casar-se com Teresinha. Maria Teresa, com sua habitual frieza, respondeu:

__O senhor chegou atrasado. Teresinha já está a caminho do segundo filho. Passar bem!

Teresinha desmanchou-se em lágrimas quando ficou sabendo que seu antigo amor voltara ao Cantagalo, mas como era do seu feitio, sofreu em silêncio. Um sofrimento que se renovava todas as vezes que ela olhava pela janela da sua cozinha. É que Salomão fora morar com parentes, justamente numa casa que podia ser avistada da cozinha de Teresinha. Ela ainda pensou de fugir com o Salomão, mas teve muita vergonha do que o povo ia pensar e acabou desistindo da aventura…

Os filhos foram se sucedendo e, surpreendentemente, para um bebê que nascera tão fragilizado, Teresinha tinha muito leite para alimenta-los. Ela jamais preparou uma mamadeira para seus filhos e chegou mesmo a fornecer leite para bebes cujas mães não tinham o suficiente. Aos 21 anos, a saúde de Teresinha parecia melhor do que nunca. Mas um dia, depois de comer uma banana, uma dorzinha surgiu e foi crescendo do lado esquerdo de sua barriga, até crescer tanto que derrubou-a no chão. As crises foram ficando cada vez mais freqüentes e depois de um ano tentando combate-las com chazinhos de ervas, ela achou por bem ir a Paraisópolis consultar um médico. Lá, o médico chegou à conclusão de que era problema de vesícula e o tratamento recomendado foi a retirada de todos os dentes da doente. Não vendo outra saída, Teresinha fez o que o médico recomendou e ao cabo de um mes não restava um só dente em sua boca. Mas as dores continuaram, o que não impedia que ela continuasse trabalhando como sempre trabalhou.

Mais filhos foram chegando e Teresinha ia colocando-os para dormir na mesma cama em que ela e João dormiam, até para facilitar as mamadas. É preciso dizer que Teresinha não desmamava um filho quando nascia outro. O comum era que eles mamassem até 4 ou 5 anos, sendo que a mais nova mamou até os seus 9 anos. O marido, incomodado com o barulho que fazia a pequena multidão instalada em sua cama, passou a dormir em quarto separado e este arranjo não mudaria até sua morte.

Lá pelo terceiro filho, João Fraga achou que sua prole estava de bom tamanho e resolveu comprar, na vizinha Paraisópolis, uma novidade vinda dos Estados Unidos; as recém inventadas camisas-de-venus feitas de látex. Como se fosse um presente, entregou o pacote para Teresinha, que indignada com a idéia do marido, de interferir nos desígnios divinos, atirou as camisinhas no ribeirão que passava nos fundos da casa. Ao menos nesta questão, Teresinha é quem tinha a última palavra.

Se fosse por João Fraga, a família teria permanecido para sempre no Cantagalo, vivendo da terra. Mas Teresinha tinha planos, era ambiciosa e queria conhecer o mundo além da sua roça natal. Depois de muita insistencia e contrariando o marido, que a queria bem quieta e desempenhando o papel de dona de casa, eles acabaram abrindo uma venda no asfalto, a 20km do Cantagalo e para lá se mudaram. Os negócios não foram muito bem e João aceitou um convite de amigos, para ser administrador de uma fazenda em Piracuama, um bairro de Pindamonhangaba SP.

Piracuama não era longe de onde eles moravam, mas a mudança foi muito penosa, principalmente para Teresinha, que devido à vesícula ainda doente, enjoou muito no caminhão que fez a mudança. As estradas eram todas de terra e muito ruins nos idos anos 50. Nos trechos mais íngrimes das serras, era preciso descer e caminhar, pois era grande o risco do caminhão despencar da ribanceira.

Em Piracuama, o casal abriu uma outra venda e Teresinha é quem cuidava dos negócios, mas sempre sob supervisão do marido. Como de hábito, ela não parava nunca. Além de ficar no balcão, dava também conta da casa, mantinha uma horta grande nos fundos, costurava para fora, fazia salgadinhos, estava amamentando sempre dois ou tres filhos de cada vez (afora o leite que fornecia para os bebes de outras mulheres) e continuava fazendo filhos um atrás do outro. O ritmo era tão alucinante que quando se deu conta de que estava grávida de seu sétimo filho, este já estava há cinco meses em sua barriga! Teresinha nunca fez uma cesárea, todos os seus filhos, afora o primeiro, escorregaram para fora dela que nem se fossem feitos de sabão…

Depois de seis anos em Piracuama, tiveram que sair de lá por causa um desentendimento entre João e o patrão. Foram tentar a sorte numa beira de estrada, onde João construiu uma casa às pressas, nas cercanias de São Bento do Sapucaí. Lá botaram venda, mas desta vez nada deu certo. As crianças não tinha escola, Teresinha continuava com as crises da vesícula e os negócios de mal a pior; o que vendiam não dava nem para pagar os impostos e as contas.

Por esta época, quando a dor a derrubava, Teresinha fazia viagens para se tratar em São José dos Campos e nestas ocasiões se hospedava com os pais, que há anos tinham se mudado da roça no Cantagalo e viviam numa casa na Vila Rossi. Os confortos da cidade e a proximidade do atendimento médico especializado, certamente exerceram alguma influencia em Teresinha, que um belo dia declarou ao marido que não queria mais morar na roça e que se ele quisesse que ficasse lá morando sozinho. Dito e feito, ele lá e ela cá com os filhos, inauguraram uma nova fase no relacionamento do casal.

Se por um lado Teresinha se cercou de conforto, por outro não diminuiu seu ritmo de trabalho. Morando com os pais, continuou com as costuras e salgadinhos e abriu uma nova frente, “importando” frangos caipiras para vender nas feiras livres e no Mercado Municipal. João despachava os galináceos de madrugada, pelo caminhão do leite, ela os recebia em São José e os vendia com ajuda da filha Tita. Fazia gosto ver aquela mulher baixinha, carregando pelos pés meia dúzia de frangos em cada braço, acompanhada de uma menina que ia recebendo o dinheiro e fazendo troco.

Foi por essa época que ganhou fama de milagreiro em São José dos Campos, um tal Padre Rodolfo Komorek, que morrera recentemente de tuberculose. Compadecendo-se da filha, que volta e meia ia parar no Hospital Pio XII ou na Santa Casa, acometida de violentas crises de vesícula, João Batista insistiu que a filha fizesse um voto para o padre, pediu que ela fosse visitar as relíquias do padre ali no centro da cidade. Já havia muitos casos de curas atribuídas ao cura polaco, por que não tentar?

Teresinha, esgotada pelas idas e vindas aos hospitais e enjoada dos litros e litros de chá de picão que ela consumia no lugar do café, resolveu que não custava nada fazer a vontade do pai. Fez uma visita às relíquias e ofereceu uma novena ao padre, na intenção de obter a cura para a enfermidade que a afligia há mais de década. Se não obteve a cura total, depois disso seu estomago passou a aceitar comida sem vomitar e as crises deram uma trégua. Mas ela ainda iria penar por mais algum tempo, antes de se submeter a uma operação pelo INPS, que extirparia sua vesícula, pondo fim a vinte e um anos de sofrimento.

O arranjo do casal vivendo separado durou apenas alguns meses. Movido pela solidão e pela saudade, João cedeu à esposa e reuniu-se à família em São José dos Campos, onde foram todos morar numa casinha alugada na Vila Sinhá. Foram tempos eram difíceis para quem conheceu a abundância da vida na roça. João arrumou serviço como pedreiro avulso e o orçamento familiar era apertado e instável. Essa não era a vida que Teresinha sonhava para sua família. De modo que quando ela ficou sabendo que abriram um loteamento barato lá para as bandas do Alto da Ponte, juntou suas economias, pediu ajuda às duas filhas que já estavam trabalhando em fábricas e financiou dois terrenos que totalizavam 500 m2.

A prioridade passou a ser a construção de uma casa, para fugir do aluguel o mais depressa possível. A primeira coisa que fizeram no terreno recém comprado foi furar um poço, que por sorte deu água com poucos metros, já que o terreno ficava não muito longe da beira do rio Buquira. Com água farta e barro à vontade, fizeram uma tantada de tijolos de adobe, ela e o marido, e, num instante levantaram uma casinha de 3 cômodos, para onde se mudaram os 13 membros da família, tão logo o piso ficou pronto. Quem gostou da mudança foram as crianças, que ganharam largueza para seus folguedos. Naquela época, esta região era praticamente rural, não havia muros e o rio ficava ali nos fundos da casa, um pequeno paraíso para os petizes, com suas goiabeiras, araçazeiros e maracujazeiros daquele tipo que dá frutinho roxo, doce que só ele!

Não demorou muito e os Fraga foram ganhando novos vizinhos. A recente onda de industrialização da região fez a cidade inchar muito rápidamente e atraiu uma mão de obra de todos os cantos do Brasil. Muitos chegavam sozinhos e precisavam de apenas um quarto para se arranjarem, enquanto não conseguiam trazer a família toda. Teresinha, percebendo esta demanda, teve a brilhante idéia de construir alojamentos e alugar para esta gente. João não gostou muito da idéia, mas desta vez Teresinha se impôs e logo o casal início à construção do que viriam a ser sete apartamentos independentes. Sim, porque Teresinha não queria nenhum inquilino usando o banheiro da casa dela. De manhã, Teresinha despachava as crianças para a escola, cuidava do almoço e tão logo terminava o serviço da casa, ia ajudar o marido a assentar tijolo, fazer massa, desempenar parede, o serviço que fosse ela não enjeitava.

Os apartamentos iam sendo alugados à medida que ficavam prontos e, finalmente, a situação financeira da família logo começou a melhorar. A família viveu anos de relativo sossego, com todos contribuindo à sua maneira. Desde os maiores, que trabalhavam em fábricas, até os pequenos, que já com 10 anos de idade se empregavam como balconistas nas lojas do centro da cidade, num tempo em que ainda era permitido às crianças, trabalhar para complementar o orçamento familiar.

No ano de 1979, a infra estrutura do bairro do Alto da Ponte ainda era muito precária. Não havia asfalto nas ruas, o esgoto era a céu aberto e nem todos tinham dinheiro para pagar uma instalação de energia elétrica. Teresinha e João eram dos poucos que conseguiram uma ligação da Eletropaulo e forneciam energia para os vizinhos, através de gambiarras. Não era muito fácil medir a luz fornecida e isso era sempre motivo de confusão na hora de receber, o que fez com que João se enchesse das picuinhas dos vizinhos e desse fim ao arranjo, cortando os fios das gambiarras.

Na surdina e por vingança, os vizinhos obstruíram com cimento a passagem por onde escoava a água do terreno de João e Teresinha. Era época das chuvas e com a primeira tempestade ocorreu a tragédia: formou-se uma represa e as águas invadiram todas as casas que estavam dentro do terreno murado, estragando móveis e utensílios. Nas casas atingidas, pensou-se que a inundação era devida a uma tromba d’água ou coisa que o valha, jamais imaginaram o que os vizinhos tinham aprontado com eles. Como a água demorasse a baixar, foram procurar a causa e descobriram a maldade. Terezinha ficou possessa e armando-se de uma picareta, investiu contra o muro e foi quebrando até conseguir fazer toda a água vazar. Imediatamente, a vizinhança mandou chamar a polícia, para deter aquela senhora maluca que estava destruindo o muro a picaretadas. Foi um quiprocó. Baixou polícia, imprensa e o bando de curiosos que sempre aparecem nessas horas. Formou-se uma confusão tão grande que o incidente acabou virando matéria de primeira página no jornal Valeparaibano, com direito à fotografia de Teresinha, com cara de vitoriosa, empunhando sua picareta e apontando o buraco no muro! No final das contas, o poder público entendeu que os vizinhos estavam errados e os obrigou a consertarem o estrago…

João nunca se adaptou muito bem à vida na cidade e passou a beber mais do que seria aceitável para um pai de família. Não demorou muito ele caiu doente e ficou impossibilitado de trabalhar. Aposentou-se por invalidez e passava a maior parte do tempo em casa, na cama. Por esta época, Teresinha decidiu, mais um vez, que era hora de mudar de casa, pois os vizinhos nunca mais a deixaram em paz depois do episódio do buraco no muro. Por isso, venderam o local onde moravam, inclusive os cômodos de aluguel, conseguiram uma casa ainda por acabar no Parque Industrial, do outro lado da cidade e para lá se mudaram.

Já fazia tempo que Teresinha estava ensaiando aprender a ler e escrever,  mas o marido, ciumento, sempre encontrava um meio de demove-la da idéia. Contudo, agora que João estava acamado e sem forças, ela se sentiu livre para frequentar um curso noturno de alfabetização do Mobral. Assim, aos 57 anos, Teresinha entra, pela primeira vez em sua vida, numa sala de aula. Foram 3 anos estudando com afinco e ao final do curso, toda orgulhosa, recebeu o diploma das mãos do prefeito Robson Marinho, que à partir de então passou a ser incluído nas preces que ela fazia à Santa Terezinha, todas as noites antes de se dormir. O primeiro e único livro que ela jamais leu, foi a Vida de São Camilo de Lélis, pois logo depois de ter pego o diploma ela foi acometida por um derrame cerebral que faria com que ela esquecesse tudo que aprendeu durante os 3 anos de Mobral! Como se isso fosse pouco, morre-lhe o marido, seu companheiro de mais de 40 anos de estrada.

Mas Teresinha não é mulher de esmorecer. Há que tocar o barco, a vida continua! Resolvida a reaver o que o AVC lhe tomou, conseguiu uma cartilha infantil e convocou o seu netinho de 10 anos, o João, para que nas horas vagas ele a ensine a ler e escrever novamente. O próximo projeto é computador, que ela quer começar a aprender tão logo consiga decifrar as letrinhas do teclado.

Aos 84 anos, planeja viver até os 105 ou 110 anos, quando calcula que já terá feito o suficiente e possa passar para o lado de lá com a sensação de missão cumprida. Diz ela que se encontrasse um homem forte e saudável, ainda queria fazer mais filhos, mas, segundo Teresinha, este tipo de homem está em falta no mercado…

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No texto, chamei dona Teresa de Teresinha, para não confundir com sua avó e mãe, que também tinham Teresa em seus nomes.

Para redigir esta pequena biografia, tive que voltar muitas vezes à casa de dona Teresa e acabei me afeiçoando por ela e sua grande família. Foi um grande prazer realizar as gravações com esta mulher tão divertida e cheia de vida. Sua casa é um grande coração, que além de acolher os filhos de sangue, tem sede de adotar aqueles que não fazem questão de ter mais de uma mãe neste mundo, entre os quais eu me incluo.

Cada vez que saio de sua casa, carrego comigo um presente, que não advém somente do prazer do encontro, mas se materializa num biscoito polvilho, num tempero pronto, numa coxinha que ela mesma prepara e faz questão que eu leve para minha casa.

Dona Teresa faz troça do fato de eu recusar o seu café, não por ser o dela, mas por causa da cafeína que me ataca os nervos. Na roça isso é considerado uma desfeita! E em vez de café ela pergunta se o “nene” quer tomar um chazinho… Quando eu aceito, lá vai ela apanhar um macinho de hortelã, no exíguo corredor ao lado da casa onde cultiva seus temperos, couves e até algumas frutas de árvore. O mesmo corredor em que ela faz subir, no mes de julho, um mastro enorme com uma bandeira tripla espetada lá em cima, em homenagem a Santo Antonio, São João e São Pedro, do mesmo jeito que ela fazia com o marido João, na sua saudosa Cantagalo, 60 anos atrás.

A festa de Dona Teresa é no mes de julho e não em junho, como manda a tradição. Se você quiser saber o motivo, leia esta história abaixo, que escrevi quando do meu primeiro encontro com ela.

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             Festa Junina da Dona Teresa

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens de sua festa, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

 Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos a um festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

 

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.

Obrigado, pai!

janeiro 3, 2015

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Meu pai se foi faz menos de um mês. Apesar de ter convivido com ele por 57 anos, foi só depois de sua morte que me dei conta, em conversas com irmãos, amigos e folheando álbuns de fotos, de que havia muitos aspectos sua vida que me eram estranhos. O que eu menos conhecia dele era seu lado militar e o peso que isso teve em sua vida.

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Na verdade, eu entendo que meu pai foi um artista que se reprimiu, traiu seu sonho e preferiu atender o desejo de seus pais ou do meio em que viveu. Foi ser engenheiro, mas não escolheu qualquer escola, foi cursar a melhor na época e formou-se na segunda turma do ITA.

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Talvez ele pensou que como artista não fosse fazer dinheiro para sustentar uma família ou não teria o reconhecimento que almejava para si… não sei. O fato é que ele sempre tirou fotos muito boas tecnicamente, tinha um olhar particular, mas sempre para registrar em imagens, ou sua carreira profissional ou a vida familiar. Vivia construindo objetos sem função e fazia troça de si mesmo, depreciando sua própria expressão artística. Projetou brinquedos e até chegou a montá-los em série na sua fábrica em São Paulo.

Enfim, foram as escolhas que ele fez.

Mas eu, como filho, nunca vi nele um pai engenheiro, um pai militar ou empresário que montou uma fábrica de peças para aviação, logo que terminou o ITA. Eu vi sempre o homem, o artista, o caipira que fazia horta no fundo do quintal de nossa casa em São Paulo. Quando ele assumia seu lado engenheiro, era como se deixasse de existir, ficava invisível para mim e assim foi até sua morte.

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Hoje, folheando seu álbum de fotos, vejo como ele se orgulhou da curta carreira militar e de tudo que envolvesse a indústria aeronáutica. Percebo, também, o quanto minha vida foi determinada pelas escolhas dele e o quanto eu aprendi com ele. Não fosse sua ligação com o CTA, eu não teria tido o privilégio de morar nesta ilha da fantasia, que tantos horizontes me abriu. Não fosse a fotografia, sempre presente em nossa vida familiar, com Leicas, Nikons e Yashicas, eu talvez não tivesse despertado tão facilmente para a arte que hoje é o meu ganha pão e me realiza.

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De modo que, Wilson Ruiz, onde quer que você esteja, agradeço você ter sido a pessoa que foi, exatamente do jeito que foi, pois me permitiu ser o que eu sou, exatamente como eu sou, hoje. Porque, por mais engenheiro que você fosse, eu só conseguia ver o artista e sua arte…

Obrigado, pai!

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PIRACÁ, SACI E NOVOS AMIGOS

setembro 2, 2014

 

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Uma das coisas mais gostosas da vida do pesquisador de campo é quando brota uma amizade à partir do inevitável convívio entre invasor e invadido. Foi o caso com a família do casal Agenor e Nilza, dois menestréis da nossa música caipira que moram ao lado da linha do trem, na quase rural Vila Teresinha.

Conheci os dois ano passado, ao fazer as fotos para o 23º Caderno de Folclore, editado pelo Museu do Folclore de São José dos Campos. Neste primeiro encontro já nos gostamos e houve convite para uma outra visita sem cunho profissional. Ensaiei várias vezes ir à casa deles mas sempre aparecia um contratempo de última hora. Quando nos encontrávamos em eventos da cultura, o convite era refeito e eu me sentia em falta com eles.

Semana passada recebi uma intimação de dona Nilza por telefone, que me jogou uma isca irresistível. Estava visitando sua casa uma irmã septuagenária, dona Zilda, que tinha histórias do arco da velha para me contar. Sim, se eu quisesse poderia gravar tudo e ela ainda nos receberia com um café da roça e um bolo de fubá sem farinha de trigo, pois ela sabe que minha esposa é alérgica a glúten.

A Vila Teresinha é uma pequena ilha de casas, situada entre a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil e o banhado do Rio Paraíba. As moradias são simples e cada vez que vou ao bairro, a impressão que tenho é a de cheguei num oásis, um lugar que resolveu descansar da correria da moderna São José dos Campos. São casas antigas

A maioria das casas do bairro tem seu jardim ou vasos com plantas medicinais. É um boldo, um guaco, um capim-limão, um bálsamo, um piracá, essas coisas que não faltam na casa de gente que ainda ontem estava na roça. Até na praça do bairro há plantas de chá e eu mesmo já fui até lá com a única finalidade de colher alguns galhos do alumã, também conhecido por boldo baiano, ótimo para o fígado.

Na casa de Agenor e Nilza, além dos chás, há também uma pequena horta de 10mX1m onde eles plantam até milho e feijão!

__”A gente pranta porque gosta, de teimoso, porque a produção mêmo é poca…”, diz seu Agenor.

Às 14h chegamos à casa dos amigos e só conseguimos sair de lá às 18h. Não vimos o tempo passar. Foram quatro horas com muita música, contação de causos, lendas e depoimentos da vida sofrida que eles tiveram na infância e adolescência.

Dona Zilda nos contou que aos 13 anos de idade teve que fugir de casa para ir ao encontro do grande amor de sua vida. O pai já havia arranjado o casamento da filha com outro pretendente e não admitia ser contrariado. A notícia do desaparecimento correu mundo, deu até na rádio e não demorou, Seu João, um matuto que andava sempre armado, foi resgatar a filha em Pindamonhangaba, dentro do quartel, que era onde estava Agostinho, o soldado que havia mexido com o coração da menina. O encontro foi tenso, mas graças ao bom senso do rapaz, que também estava armado, não houve derramamento de sangue. Os dois se entenderam, o soldado entregou a menina intacta e quatro anos mais tarde casavam-se Zilda e Agostinho.

Cada ato de desobediência era seguido de chicotadas, que nunca impediram que os filhos continuassem desacatando as ordens do pai. Certa feita, a menina Zilda resolveu comer escondido as bananas verdolengas que amadureciam dependuradas sobre o fogão de lenha e por azar o cacho todo veio ao chão. A punição paterna foi que a menina comesse todo o cacho, incluído o talo central…

Os irmãos todos tinham que ajudar nas lidas da casa e sofriam mais que os vizinhos, que pelo menos aos domingos e dias santos tinham folga para divertirem-se. Os pais de Zilda e Nilza não professavam nenhuma religião e assim, cada dia era igual a todos os outros, ou seja de muito trabalho. Levantavam sempre de madrugada e só iam descansar no colchão de palha de milho quando tivessem cumprido todos os deveres. O único momento em que se relaxava era quando seu João resolvia tocar sua sanfona ou viola. Todos cantavam, acompanhando o pai, o tempo parava, o velho amolecia o coração e se esquecia momentaneamente do seu papel de carrasco.

Parece que a música estava no sangue desse povo pois todos vieram a se tornar músicos quando adultos. O casal Nilza e Agenor se conheceu através da música e isso os une até hoje. Apresentam-se em programas de rádio e eventos de música sertaneja, tocam e cantam pelo prazer de tocar. Com orgulho, nos mostraram diversas gravações dos programas que tem feito pela cidade e Vale do Paraíba. Quando descobriram que minha esposa toca e canta, mandaram pegar um violão e quiseram ouvi-la. Daí por diante foi uma festa só, o violão só descansou quando os pasteizinhos ficaram prontos e fomos para a cozinha comer…

 

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Quando Zilda se casou e foi morar em outra cidade, as tarefas da casa passaram a ser da Nilza, já que dona Virgínia, a mãe, também trabalhava na Tecelagem e não tinha tempo de cuidar de nada. Conta ela que quando foi destroncar o primeiro frango, seus bracinhos eram tão pequenos que não conseguiram realizar a tarefa. Ela tentou até enforcar o bicho com as mãos, o sangue jorrava pelos olhos mas nada de ele morrer. Só foi conseguir matá-lo quando teve a ideia de colocar o pescoço da pobre ave debaixo de um cabo de vassoura sobre o qual ela deu vários pulos…

Dona Virgínia era mulher exigente com a roupa, que também sobrou para Nilza lavar. O processo era demorado e complicado naqueles tempos. Era preciso esfregar cada peça com melão de são caetano, uma planta trepadeira que ajuda a limpar o tecido. A roupa fica toda verde quando se esfrega com essa trepadeira, mas basta uma enxaguada e ela fica livre da sujeira mais renitente. Antes da última lavada se colocava o anil, um pozinho azul que era diluído na água e punha-se as roupas no sol para quarar. Dona Virginia tinha olhos de lince e se não estivesse a contento dela, fazia a filha repetir todo o processo, lavando tudo novamente…

Num dado momento a conversa pendeu para o lado das histórias de assombração. Segundo Agenor, naquele tempo era comum ver essas coisas que o povo acha que é lenda ou invencionice dos velhos. Ele mesmo já viu lobisomem, saci, espíritos que sobrevoam as pessoas que passeiam depois da meia noite, mas conta que nunca teve medo, que se acostumou a conviver com isso…

__”Quando a gente conta essas histórias hoje, a juventude pensa que é mentira, invenção do povo mais velho, eles dão risada… mas eu agaranto que era verdade, a gente convivia com essas coisa… Ocê já ouviu o assovio do saci? É um barulho insuportável quando eles fica tudu muntuado na pontinha do bambuzeiro, esperando os cavalo passa pra eles amuntá. Dia seguinte pode oiá, as crina dos animá tá tudo trançada pela sacizada… Uma trança que ninguém consegue distinguí como que foi feito… O saci é danado… ”

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Quando Agenor já tinha esgotado seu estoque de causos de assombração, Nilza comentou que quem tinha histórias boas era dona Virgínia, sua mãe. Pela idade das filhas, imaginei que dona Virgínia já não estivesse entre nós e perguntei se as filhas não poderiam contar o que lembrassem. Nilza arregalou os olhos e disse se eu quisesse podia ouvir da boca da mãe. Na hora me veio à mente uma sessão espírita, mas nem deu tempo de completar o quadro em minha mente, pois Nilza explicou que a mãe estava no quarto dos fundos e só não estava ali com a gente porque quebrara o fêmur dias atrás.

As filhas foram, então, chamar a mãe. Dona Virgínia saiu do quarto com seu andador e foi até o sofá da sala. Muito arrumada, cabelos penteados e unhas feitas, nota-se que foi e ainda é uma mulher que não quer passar despercebida. Pergunta quem somos nós, o que fazemos, onde moramos, se interessa por tudo que acontece. Às nossas perguntas sobre histórias de assombração ela responde contando da vida das filhas. Nilza e Zilda se entreolham e me cochicham que a mãe está “azeda”, talvez um outro dia saia alguma história, hoje ela não está para responder perguntas, não… Mas eu tinha uma pergunta ainda, que não queria calar. Qual a idade de dona Virgínia? Perguntei diretamente para ela, que abriu as duas mãos em frente ao meu rosto.

__”Cem anos, faz dois mês que eu completei 100…”

 Fiquei espantado com a vitalidade da anciã. A mente podia não estar 100% mas era evidente que à minha frente estava uma pessoa que transbordava vida. Perguntei se ela tinha alguma doença se tomava algum remédio, ao que as filhas responderam:

__”Toma nada, essa aí tá melhó qui nóis. A médica vem toma a pressão dela, tá 12 por 8… as doença ela deixou tudu prá nóis, não ficou com nenhuma…” e deram risada dá má sorte delas!

 

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Zilda propõe então nos mostrar a varanda onde ela ficava esperando Agostinho passar de trem, nos fins de semana. O soldado acenava com o bibico nas mãos e o seu coraçãozinho de adolescente batia mais forte no peito. Zilda começa a desfiar memórias daquele tempo e eu aproveito para tirar fotos das irmãs sentadas ao lado de minha esposa que também embarca na nostalgia.

 

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Ao lado do banco onde as mulheres estavam sentadas, há um pé de piracá. Eu peguei uma folha, amassei e cheirei. Nilza então disse:

Tomá remédio a mãe num toma, mas esse é um chá que a mãe usa todo santo dia sem faiá…”

__Ela faz chá com piracá? Não sabia que era de tomar também, pensei que fosse só pra passar no corpo…

__”Nada, a mãe mastiga umas foia de piracá, ela come memo…

Não pensei duas vezes, apanhei uma folhas e coloquei na boca. Mal não pode fazer, pois se dona Virgínia que tem cem anos come todos os dias… Um gosto amargo, mas não desagradável, encheu minha boca. Um pensamento amargo e desagradável perpassou minha idéia. Essa mulher só está forte e rija porque não toma nenhum remédio… Vou providenciar um pé de piracá para poder mastigar umas folhas todos os dias…

 

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VISITA A SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

maio 20, 2014

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Semana passada estivemos visitando a charmosa São Bento do Sapucaí, uma pequena cidade do estado de São Paulo que é praticamente um enclave paulista em Minas Gerais, já que não se chega até lá pelo asfalto sem antes cruzar o solo mineiro.

Com pouco mais de 10 mil habitantes, ruas com calçamento de paralelepípedos, muitos casarões ainda preservados, charretes e cavalos trafegando livremente, a cidade tem uma atmosfera pacata e deliciosamente interiorana.

A visita deveu-se a um convite que nos foi feito, à minha esposa e eu, para entrevistar um lavrador octogenário, que aos 75 anos passou a frequentar o Mobral e com muito esforço se alfabetizou, porque tinha uma vontade imensa de ler os “foiêto da missa”. Seu Tião Tino não é apenas lavrador. Enquanto prepara suas roças de milho, feijão e abóbora, vai compondo versos em sua cabeça e tem até um livro editado com seus poemas.

 

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Feliz coincidência, ficamos sabemos que nos dias de nossa estada em São Bento, haveria uma tradicional Congada no Bairro do Quilombo, na região rural da cidade. Dois pratos cheios para um pesquisador!

Ao chegarmos à cidade, instalamo-nos numa pousadinha perto da Igreja Matriz e partimos para o reduto de seu Tião Tino, onde ele vive com sua filha, genro e netos. Chegamos juntos à sua casinha na encosta de um morro muito íngreme, nós motorizados e ele à cavalo. Ele tinha ido à cidade buscar sal para o cavalo e não pareceu nem um pouco cansado de ter feito os 6km debaixo de um sol forte.

Mal apeou ele já desandou a falar; sobre a seca brava que está assolando a região; sobre o cultivo  orgânico que ele pratica; sobre as sementes que ele vem preservando; sobre suas devoções, a Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião e principalmente sobre os poemas que ele faz quando Deus o inspira.

 

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Ficamos mais de 3 horas com este homem e ele passou praticamente este tempo todo de pé, respondendo nossas perguntas. Mostrou tudo que pode em seu sítio, pegou na enxada para que eu o filmasse e ainda matou um frango para a janta que sua filha Carmen nos preparou. Um arroz com feijão, salada da horta e o frango caipira daqueles que quem não tem bons dentes não consegue comer…

Teríamos ficado horas conversando com seu Tião, ele inclusive nos convidou para pousar, mas o trabalho do dia seguinte nos obrigou a voltar naquela noite mesmo. De lembrança do nosso encontro trouxe algumas sementes de feijão “espírito santo” que ganhei de seu Tião, um curioso grão branco que tem estampado um desenho em vermelho do Divino Espírito Santo e do qual eu nunca tinha ouvido falar.

 

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Já na pousada, depois de descarregarmos as imagens e recarregarmos as baterias, resolvemos sair para dar uma olhada na Festa de Santo Expedito que estava acontecendo na praça da Matriz. Que decepção! Esperávamos doces e comidas da região, mas só encontramos à venda uns tristes cachorros quentes, anêmicos churros, um desenxabido bolo floresta negra e um mais que comum pudim de leite condensado. O que teria acontecido com as comidas tradicionais? Não pudemos nem perguntar, pois vindo de enorme palco que ocupava metade da praça, um evangelizador pagode funkado invadiu nossos delicados ouvidos e nos expulsou dali…

Fiquei imaginando como poderiam dormir os pobres mortais,  vizinhos deste mega evento…

Dia seguinte partimos para o Bairro do Quilombo, cuja história ainda não consegui apurar ao certo. Parece que o local teria sido um quilombo e que depois a Igreja, proprietária das terras, entrou em acordo com os moradores que hoje lá habitam mas não são os donos.

 

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Nosso contato era dona Luzia, uma simpatissíssima senhora de 82 anos, descendente de escravos, que nos recebeu e contou que a Festa do 13 de Maio, na qual acontece a Congada, era feita por sua avó, que passou para a mãe de dona Luzia e hoje quem organiza tudo é ela.

 

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Segundo dona Luzia, a festa que acontece nos dias de hoje não difere em nada dos tempos que ela era criança. Há as novenas nos 9 dias que antecedem a festa, as celebrações e a missa na Igreja da Imaculada Conceição, a procissão com as bandeiras, os Moçambiques e as Congadas, o almoço, a distribuição de doces caseiros e finalmente o forró na parte da noite.

Tudo isso é organizado por dona Luzia, que recebe as doações de carne, mandioca, frango, farinha e as frutas para os diversos doces, todos preparados de maneira tradicional, no fogão de lenha em sua casa. O que é recebido de graça é dado de graça no dia da festa, não se cobra um tostão por nada do que é distribuído.

Não é uma logística simples, preparar comida para as mais de 1000 pessoas que formam fila com seus pratos e potes de plástico trazidos de casa. O cuidado e o carinho na preparação ficaram evidente na qualidade da comida e dos doces. Minha esposa e eu comemos de tudo um pouco e posso dizer que estava tudo muito saboroso.

Impossível não comparar esta Festa do 13 de Maio com a festa de Santo Expedito que acontecia no centro da cidade. Na roça tudo se distribui de graça enquanto que na cidade tudo é pago. Esta se contaminou com comidas e músicas alienígenas, enquanto que aquela faz questão de preservar a tradição. Numa eu vejo a beleza da humildade e da devoção enquanto que na outra há a frieza do dinheiro e do poder, ao usar de maneira impositiva a praça pública.

 

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Foi emocionante ver a Congada de Gonçalves MG, tocar dentro da igreja, louvando São Benedito e Nossa Senhora de Fátima e o povo beijando com muito respeito as bandeiras em frente ao altar. Os cânticos das congadas louvam também a Princesa Isabel, que teria sido a redentora dos escravos. Esta festa é justamente para comemorar o fim da escravatura.

Embalado pelo clima da festa, estava achando tudo maravilhoso, me achando no melhor dos mundos, que havia realmente uma libertação sendo comemorada, quando vejo a rainha de um dos congados ostentando orgulhosamente uma camiseta com os seguintes dizeres: MEU PAI, UM PRETO COM ALMA DE BRANCO. O pai que os dizeres da camiseta faziam referencia foi o fundador da Congada de Gonçalves.

Fomos embora tiritando de frio, depois do balde água fria.

 

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Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.

A FESTA DO SENHOR JOÃO

fevereiro 19, 2014

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Há 25 anos o Sr  João das Mercês Almeida realiza uma festa de Santos Reis no Bairro do Jaguari, São José dos Campos SP, como pagamento de uma promessa que fez se o filho se curasse de um cobreiro.

Na verdade a festa já existia antes disso, trazida de Minas Gerais por parentes da esposa do Sr João. A promessa foi de não deixar morrer a tradição da festa, em agradecimento à graça alcançada.

Tradicionalmente, as folias visitam as casas e os presépios no período entre o Natal e o dia 06 de janeiro, data em que os Reis Magos chegaram com seus presentes para o Menino Jesus. Mas os pedidos de visitas nestes dias são tantos, que esta festa acabou sendo “empurrada” para o mês de fevereiro, quando as folias já não são mais solicitadas.

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O Bairro do Jaguari fica na zona rural da cidade, a gente tem que sujar o pé se quiser chegar lá. O local da festa é uma fazenda de gado leiteiro, com construções simples de telha vã. O prédio mais novo e bem cuidado da propriedade é uma capela erigida em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Até onde a vista alcança só se vê pasto e uma que outra árvore que a foice do roçador ou esqueceu de cortar ou resolveu deixar para dar sombra à criação.

Em frente à sede construiu-se um barracão com estrutura de bambú e lonas plásticas amarelas e azuis, tipo encerado de cobrir carga de caminhão. É neste barracão que o diácono vai rezar a missa que antecede a visita da folia de reis.

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Fui convidado para esta festa por um dos foliões, o Orlando, que trabalha na limpeza de um grande rede de supermercados e participa de folias de reis desde sua infância em Areias SP, onde nasceu, há 57 anos. Orlando sabe que eu gosto de registrar este tipo manifestação e está sempre me convidando. Como eu tinha este sábado livre, resolvi ir com minha esposa, que adora estas festas populares.

Chegamos um pouco antes da hora marcada para o inicio da celebração, com o intuito de entrevistar o festeiro e o pessoal envolvido na produção da festa. Estacionamos o carro no pasto recém roçado. A primeira coisa que notei foi um carro de polícia com dois policiais mulheres, o que estranhei, por se tratar de uma festa particular. Orlando me explicou que hoje em dia não vale a pena arriscar, é melhor se prevenir…

Minha esposa logo entabulou conversa com as duas marungas da folia e lá fui eu entrevistar a turma. Uns mais tímidos, outros mais falantes, uns tristes porque as festas já não são como antigamente, outros orgulhosos com a continuidade da tradição, o que une todos ali é a devoção aos Santos Reis.  Todos que entrevistei tem uma história de cura atribuída “a Santo Reis“.

Quando me dei conta, a missa havia terminado e já se ouvia os instrumentos da folia. Saí da sede onde eu estava entrevistando as cozinheiras que preparavam a carne moída e a salsicha que seria servida mais tarde e fui fotografar os foliões.

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Como eu olhava pelo visor da câmera, não acreditei nos meus olhos quando vi uma mulher parecida com minha esposa segurando a bandeira da companhia. Tive que olhar duas vezes e me lembrar da roupa que ela vestia para me certificar de que se tratava dela e não de uma sósia. Toda sorridente e bailando ao som da música, ela não cabia em si de contentamento. Perdi algumas fotos por conta das lágrimas que me turvaram a vista…

Para mim é impossível participar destas festas sem se envolver. Há alguns anos, quando comecei meu trabalho de pesquisador, achei que seria apenas um fotógrafo colhendo imagens. Mas como bem observou minha esposa, eu não sou um fotógrafo, eu sou um caçador da beleza, daquela beleza que emana da alma do devoto em seu momento mais sublime. Impossível não ser carregado pela força da fé nesses momentos, impossível não se lembrar de onde viemos e para onde vamos.

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FOLIA DE REIS

janeiro 1, 2014

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Dona Luisa me convidou para filmar e fotografar a folia de reis da qual ela faz parte como bandeireira, a Companhia de Reis Irmandade do Novo Horizonte. Os integrantes são em sua maioria mineiros ou descendentes de mineiros e todos deles participam de folias de reis desde pequenos. Tendo migrado de Minas Gerais, conservam a tradição que para eles é sinônimo de Natal.

O tempo estava muito abafado e com cara de chuva, por isso resolvi ligar para Luisa, a fim saber como ficava em caso da água despencar do céu. Eles sairiam mesmo assim?

 __”Nóis sái do mesmo jeito, Chico! Faça chuva ou faça sol, a gente tá lá pra cantá pra Santo Reis”.

 Vesti uma calça comprida em respeito à devoção deles e lá fui eu para a rua, quatro horas da tarde, com aquele solão danado martelando na cabeça… O grupo já estava cantando desde a uma da tarde e quando os encontrei ninguém aparentava cansaço. O palhaço, ou marungo ia gritando em frente aos portões:

__ “Ei, patroa, Santo Reis demorô mas chegô, patroa. Vai querê recebê a bandeira de Santo Reis, patroa?”

De dentro da casa uma voz de criança manda esperar que a mãe já vai abrir para a folia entrar. O mestre dá o sinal e a sanfona, tocada pelo garoto de 14 anos, arrasta consigo os instrumentos e as vozes pedindo que a dona da casa aceite a bandeira. Ela aceita e os foliões em cortejo adentram a casa, postando-se em frente ao presépio. As crianças só tem olhos para os palhaços e os olhos da dona da casa se enchem de lágrimas porque folia de reis traz as lembranças de sua infância em Minas Gerais…

A próxima parada é um bar e a dona, que veste um tomara que caia, é chamada para receber a bandeira.

__”Não posso não, tô me sentindo muito nua assim, pede ali para minha irmã segurar, fazême o favor”. 

A irmã toda contente empunha a bandeira e ensaia uns passos de dança com os palhaços, enquanto faz pose para os cliques do fotógrafo. A folia fica pouco tempo no bar, o ambiente não é hostil mas também não é acolhedor. Os bebuns olham os foliões como se fossem uma curiosidade saída dos livros de história do curso primário.

De morada em morada, chegamos à casa grande no fim da rua, onde será oferecido um jantar aos foliões, uma pausa antes de continuarem a peregrinação que deve durar até tarde da noite. A família toda já está reunida ao lado da porteira, para receber a bandeira. O momento é solene.

Recebida a bandeira, sentam-se todos às mesas e tomam guaraná e coca gelados. Um bufê é servido e insistem para que eu coma também. Tenho dificuldade de parar de fotografar, tamanha a riqueza que se revela aos meus olhos nestes encontros. Acabo fazendo meu prato com salada, arroz, feijão, farofa e um tiquinho de carne. Coca ou guaraná? Eu sempre fico na duvida de qual vai me fazer menos mal…

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Passo às entrevistas, enquanto o pessoal faz a digestão e descansa um pouco. Quero fazer um video e preciso das falas das pessoas. Descobri que esta folia de reis tem dois mestres que se revezam no comando e que um dos palhaços passa o ano todo maquinando sua fantasia para sair no fim do ano. Ele mesmo idealiza, compra os adereços e quem confecciona é a vizinha costureira. Sua fantasia tem colares, muito brilho e até um chapéu de onde pendem caveiras de plástico, papais-noéis, sinos, bolas coloridas, espelhos e uma infinidade de outros badulaques.

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As máscaras, que antes eram feitas de couro e pelos de animais, hoje já não assustam mais as crianças. Tudo é comprado em lojas de tecidos e artigos para natal e apesar da evidente criatividade, o material industrializado acaba sacrificando a magia.

Sou apresentado à dona da casa, que gentilmente concorda em ser entrevistada e o que é melhor, autoriza divulgação do material pelo YouTube. Dona Iolanda é mineira de nascimento e há 43 anos está em São José dos Campos. Se emociona ao falar da importância que tem a folia de reis em sua vida e na vida de sua família. Quando criança os irmãos saiam de palhaços nas folias e era ela quem fazia as máscaras com crina de cavalo, tela de mosquiteiro e tinta guache. A avó confeccionava as roupas de chitão, bem mais singelas que estas repletas de lantejoulas e penduricalhos como se vê hoje.

Dona Iolanda nunca deixa de convidar uma folia de reis nesta época do ano e servir uma boa refeição. Chegou até a “importar” folias de Minas Gerais quando não encontra uma local para visitar sua casa. Fiquei curioso, quis saber se as folias de Minas são como as daqui, se tem mulheres que participam, ou se mantiveram mais fiéis à tradição. Ao que dona Iolanda respondeu:

__Tudo igual às daqui, Chico. O mundo está mudando em todo lugar. As mulheres estão ocupando os lugares que antes eram só dos homens, por que não nas folias também?

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Festa Junina da Dona Teresa

julho 19, 2012

Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.

Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:

__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!

__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…

Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos num festival de barraquinhas de comidas típicas.

A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.

O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.

Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.

Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:

__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… – Falou isso e deu uma boa risada…

Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!

Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.

__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...

Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?

Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.

Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:

__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.

Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!

Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:

__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.

__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?

__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.

__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.

__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.

No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.


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