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Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

nilton renno

                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

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Dona Maria Luiza

abril 15, 2014

 

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Dona Maria Luiza é incansável, está sempre em movimento, as mãos sempre ocupadas e tem sempre uma boa história para contar.

Esta senhora de 67 anos é guardiã de tesouros. Sabe tecer qualquer coisa em bambú, desde covos de pesca, que ela ainda usa para pegar peixes no rio, até bercinhos minúsculos para as mães darem nos chás de bebês. E o melhor de tudo é que ela adora ensinar e é dona de uma didática toda dela.

Na cozinha é um azougue, faz bolos e bolinhos, paçoça no pilão, feijoada de pobre (termo que ela criou), todo tipo de doce da roça, não tem o que essa mulher não saiba fazer. Se não souber ela inventa. Diz ela que quando não sabe, ela dorme e de noite sua cabeça ensina tudinho como tem que ser feito! E olha que deve ser uma aula rápida, que ela dorme apenas 3 horas por noite, para desespero do seu Ivair, o esposo.

Dona Maria Luiza não conta para todo mundo, mas sabe fazer alguns remédios com plantas, os quais ela só prepara na hora da precisão mesmo, para parentes e amigos. “Essas coisa é milhor não fazê propaganda, senão o povo vai forma fila na minha porta e acabô meu sossego.”

Um dia desses em sua casa na periferia de São José, entre um papo e outro, ela falou que ia subir no pé de abacate para pegar goiaba para a gente comer. Eu cá comigo pensei: – “Será que a mulher endoidou? Apanhar goiaba em abacateiro?” – Mas que nada, é que um galho mais fino da goiabeira entrava pelo pé abacate e para apanhar as frutas era mais seguro subir neste último.

Aliás, subir em pé de fruta não é problema para esta elétrica senhora magricela. Diz ela que se Deus botou as frutas no mundo Ele tinha que dar um meio da gente ir lá em cima pegar as melhores, que são as que pegam mais sol. O que Deus fez? “Armô uma escadinha de gáio em cada árvi pra facilitá nossa vida. A escadinha tá lá, só não enxerga quem não qué!”

Ah, esqueci de dizer que estamos convidados, minha esposa e eu,  para uma feijoada de pobre que ela vai nos preparar. Adivinha quem vai matar e limpar o porco! Sim, ela mesma, dona Maria Luiza!

Eita muié sacudida essa dona Maria Luiza!

Abaixo, um vídeo instrutivo feito com dona Maria Luiza, para quem quiser aprender fazer uma peneira com taquaruçú.

 

Seu Quim

março 14, 2014

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Como uma pérola incrustada numa ostra, vive seu Joaquim Costa escondido nas faldas da Serra da Mantiqueira. Imagine um velho de 83 anos, os olhinhos bem acesos, travesso e jovial como um moleque que acabou de descobrir a liberdade. Pois esse é o homem que encontrei hoje de manhã em sua oficina, em São Bento do Sapucaí SP, contente da vida, inebriado com sua cachaça, o fazer artesanal de carros de boi.

Seu Quim vive sozinho, é viúvo duas vezes e sente muita falta das duas esposas que se foram, mesmo com todo o amor que lhe dedica a filha Luzia, sua vizinha, que cuida muito bem da casa e do estômago do pai.

Desde criança seu Quim se interessou por mexer com a madeira e foi aprendendo de curioso com um vizinho, a arte de construir esse intrincado objeto de arte que é o carro de boi. Nunca mais largou. Hoje tem uma oficina montada, totalmente em função das centenas de peças diferentes que compõem um carro de boi. Gosta de trabalhar sozinho, pois, segundo ele, ajudante dá muito trabalho. Mesmo os paus mais pesados ele levanta sozinho, com ajuda de alavancas e carrinhos adaptados para esta finalidade.

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“De primeiro”, seu Quim ia na mata cortar os jacarandás, as taiúvas, os paus-de-óleo e as pereiras que usava para fazer seus carros de bois. Hoje já não se pode mais derrubar essa madeira e ele ou compra madeira do norte, ou usa a madeira caída naturalmente nas matas ao redor.

Paciente e didático, seu Quim me mostra cada ferramenta e explica para que servem. Há goivas curvas, trados de diversas medidas, serrotes pequenos e grandes, macetes de todos os tamanhos e pesos, a maioria construídos por ele mesmo, para moldar precisa e artesanalmente, as peças dos carros que constrói para vender. Os clientes são pessoas que encomendam para enfeitar o jardim do sítio como peça de decoração, já que hoje, pelo menos aqui na nossa região, o trator já desbancou faz tempo o carro de bois.

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Seu Quim fez apenas um discípulo, um rapaz de Paraisópolis, que hoje vive de fazer carros de bois. Diz ele que hoje a juventude não quer saber dessas coisas. Ele aprendeu pela “precisão”, num tempo em que o carro de bois era o caminhão da roça. Hoje tá tudo facilitado pelo progresso, quem vai se dar o trabalho de montar um quebra cabeças que não tem praticamente demanda?

Seu Quim sabe que não pode parar, que é o trabalho que lhe dá a saúde e a alegria de viver. Quem capina o entorno da casa é ele mesmo e hoje, ao invés de derrubar árvores, ele está é plantando as madeiras boas de se fazer carros de bois, segundo ele, uma maneira de compensar o “estrago” que fez no passado. Na sua opinião, essa lei devia ter vindo há muito tempo, antes da mata se acabar…

Seu Quim tem uma saúde de ferro, diz ele que só foi ao médico por insistência das filhas, que por ele não carecia. O que disse o doutor depois do checkup? Que ele está em forma, melhor que muito jovem e preparadíssimo para a terceira esposa!

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Post scriptum (no dia seguinte)

Ontem, depois da visita ao seu Quim, ao passarmos pela porteira do sítio, eu vinha comentando com minha esposa e um amigo, que uma pessoa como seu Quim não podia parar. E que se parasse, ou adoecia ou morria. Nessa hora eu imaginei e falei para eles que seu Quim teria uma morte como a que eu planejo para mim, uma passagem tranqüila, sem dramas e grandes despedidas. Uma morte de quem se deu conta que venceu o prazo de validade e resolve partir sereno para a vida eterna.

Pois foi o que aconteceu hoje à tarde com seu Quim, cujo corpo encontraram sentado no sofá da sala.

Eu não vi nem me disseram, mas posso imaginar um sorriso em seu rosto e tenho certeza de que ele escolheu morrer assim, com a sensação do dever cumprido.

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Parece até que ele esperou nossa visita, que estava programada desde meados do ano passado e por sorte aconteceu ontem, um dia antes de sua partida. Guardo dele não somente a lembrança de um homem de fibra, totalmente dedicado a exercer o dom que Deus lhe deu, mas também dois pedacinhos de madeira muito cheirosos que ele nos presenteou; uma rodelinha de sassafrás e uma lasca de pereira, com os quais minha esposa quer fazer um perfume.

Agradeço ao Criador o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, pois estão cada vez mais raros os mestres que, como seu Quim, largaram cedo os bancos escolares e foram aprender as lições da vida diretamente com a Mãe Natureza.

Que Deus o tenha.

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Mais fotos do seu Quim aqui.

A FESTA DO SENHOR JOÃO

fevereiro 19, 2014

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Há 25 anos o Sr  João das Mercês Almeida realiza uma festa de Santos Reis no Bairro do Jaguari, São José dos Campos SP, como pagamento de uma promessa que fez se o filho se curasse de um cobreiro.

Na verdade a festa já existia antes disso, trazida de Minas Gerais por parentes da esposa do Sr João. A promessa foi de não deixar morrer a tradição da festa, em agradecimento à graça alcançada.

Tradicionalmente, as folias visitam as casas e os presépios no período entre o Natal e o dia 06 de janeiro, data em que os Reis Magos chegaram com seus presentes para o Menino Jesus. Mas os pedidos de visitas nestes dias são tantos, que esta festa acabou sendo “empurrada” para o mês de fevereiro, quando as folias já não são mais solicitadas.

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O Bairro do Jaguari fica na zona rural da cidade, a gente tem que sujar o pé se quiser chegar lá. O local da festa é uma fazenda de gado leiteiro, com construções simples de telha vã. O prédio mais novo e bem cuidado da propriedade é uma capela erigida em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Até onde a vista alcança só se vê pasto e uma que outra árvore que a foice do roçador ou esqueceu de cortar ou resolveu deixar para dar sombra à criação.

Em frente à sede construiu-se um barracão com estrutura de bambú e lonas plásticas amarelas e azuis, tipo encerado de cobrir carga de caminhão. É neste barracão que o diácono vai rezar a missa que antecede a visita da folia de reis.

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Fui convidado para esta festa por um dos foliões, o Orlando, que trabalha na limpeza de um grande rede de supermercados e participa de folias de reis desde sua infância em Areias SP, onde nasceu, há 57 anos. Orlando sabe que eu gosto de registrar este tipo manifestação e está sempre me convidando. Como eu tinha este sábado livre, resolvi ir com minha esposa, que adora estas festas populares.

Chegamos um pouco antes da hora marcada para o inicio da celebração, com o intuito de entrevistar o festeiro e o pessoal envolvido na produção da festa. Estacionamos o carro no pasto recém roçado. A primeira coisa que notei foi um carro de polícia com dois policiais mulheres, o que estranhei, por se tratar de uma festa particular. Orlando me explicou que hoje em dia não vale a pena arriscar, é melhor se prevenir…

Minha esposa logo entabulou conversa com as duas marungas da folia e lá fui eu entrevistar a turma. Uns mais tímidos, outros mais falantes, uns tristes porque as festas já não são como antigamente, outros orgulhosos com a continuidade da tradição, o que une todos ali é a devoção aos Santos Reis.  Todos que entrevistei tem uma história de cura atribuída “a Santo Reis“.

Quando me dei conta, a missa havia terminado e já se ouvia os instrumentos da folia. Saí da sede onde eu estava entrevistando as cozinheiras que preparavam a carne moída e a salsicha que seria servida mais tarde e fui fotografar os foliões.

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Como eu olhava pelo visor da câmera, não acreditei nos meus olhos quando vi uma mulher parecida com minha esposa segurando a bandeira da companhia. Tive que olhar duas vezes e me lembrar da roupa que ela vestia para me certificar de que se tratava dela e não de uma sósia. Toda sorridente e bailando ao som da música, ela não cabia em si de contentamento. Perdi algumas fotos por conta das lágrimas que me turvaram a vista…

Para mim é impossível participar destas festas sem se envolver. Há alguns anos, quando comecei meu trabalho de pesquisador, achei que seria apenas um fotógrafo colhendo imagens. Mas como bem observou minha esposa, eu não sou um fotógrafo, eu sou um caçador da beleza, daquela beleza que emana da alma do devoto em seu momento mais sublime. Impossível não ser carregado pela força da fé nesses momentos, impossível não se lembrar de onde viemos e para onde vamos.

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Dona Anita

novembro 6, 2013

Quando minha mãe comentou de uma amiga dela com 100 anos e que ainda dirige seu carro, não tive dúvidas, intimei-a no ato:

__Mãe, quero conhecer esta mulher!

__Quando você quiser, meu filho, nós vamos lá.

Ela passou a mão no telefone, marcou uma hora e lá fomos nós para o apartamento de dona Anita, no centro da cidade de São José dos Campos, onde moram ela e uma acompanhante. Uma senhora ereta, impecavelmente vestida, penteada, maquiada e com as unhas pintadas, nos recebeu em sua sala de visitas com uma maravilhosa vista para o banhado, a várzea inundável do Rio Paraíba.

Sentaram-se ela e minha mãe em um sofá e eu numa poltrona ao lado de dona Anita. Nas primeiras palavras que trocamos já percebi que dona Anita não escuta muito bem e minha mãe, que estava mais perto, tinha que repetir o que eu falava. Sem a menor cerimônia, a centenária senhora me indicou que sentasse na mesinha de centro e ficasse exatamente em frente dela. Ponto pra ela!

A voz de dona Anita é de uma mulher de 50 anos, firme, fluida e com um timbre que ao telefone jamais denunciaria sua idade. Foi esta voz que, me encarando de frente perguntou:

__Então, Francisco, o que você quer saber?

__Eu quero saber de tudo, dona Anita e para isso gostaria de filmar a senhora, fazer um video com seu depoimento, tudo bem?

__Ah, não! Você pode filmar tudo que quiser aqui desta sala, menos eu!

Ela foi tão veemente na negativa que eu não insisti. Peguei o gravador e perguntei se podia registrar somente a voz. Outra negativa, o que me deixou com a alternativa do bloquinho de notas, que foi o que gerou este texto, que ela liberou com a condição de que eu usasse um nome fictício. Negócio fechado, ela passou a responder minhas perguntas.

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Sanatório Vicentina Aranha

Dona Anita chegou à cidade de São José dos Campos em 1934, para casar-se com Mário, um ex-tuberculoso que já era seu namorado há anos. Para quem chegava de São Paulo, como ela, a provinciana São José dos Campos era um desafio enorme, que somente um grande amor poderia vencer. Amiga mesmo, só a esposa do médico que tratara de seu marido. Segundo ela, havia muito preconceito com quem vinha de fora e não foi nada fácil integrar-se à vida social da cidade. Sua amiga e confidente era a esposa do médico que cuidara do marido. Assim, a jovem Anita passava suas horas costurando, lendo, cuidando da casa e esperando o primeiro filho.

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Mercado Municipal de São José dos Campos

Quando saia da casa que alugaram na Praça Afonso Pena, era para ir ao mercado comprar frutas, legumes e verduras, muitas vezes pegando carona no carro de bois do seu Argemiro, que vinha 3 vezes por semana trazer lenha que abastecia o fogão de lenha da casa. Era madeira que saía do desmatamento da Vargem Grande, beira do Rio Paraíba, para abertura de novos pastos e campos de cultura. Quando não ia de carro de bois ela pegava a Rua Sete, andando pela estreita calçada de pedras chatas e irregulares, evitando caminhar pelo leito da rua, para não sujar seus sapatos de terra…

Mais tarde, ela aprendeu a andar de bicicleta e dava seus passeios na poeirenta Praça Afonso Pena, que na época era pelada de tudo. A bicicleta, os veículos de tração animal e as pernas, era o que as pessoas usavam naquela época para se locomover. O primeiro automóvel que dona Anita e seu Mário compraram foi somente depois da II Guerra, quando a cidade começou a crescer, com a chegada das industrias, e a abertura de novos bairros.

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Carro de bois em São José dos Campos, usado para transporte de mercadorias antes do automóvel

A diversão de Anita, afora a missa dos domingos, na Igreja de São Benedito, eram os circos, as cavalhadas e as festas que tinham lugar na mesma Praça Afonso Pena. Às vezes, nos fins de semana, o casal era convidado para almoçar na casa de gente importante da cidade e foi com eles que Anita começou a expandir seu círculo de amizades. O cinema só apareceu mais tarde, com a abertura do cine Paratodos e Anita não perdia um filme. Quando queriam fazer algum programa diferente, a opção era Jacareí que na época era um núcleo urbano bem mais desenvolvido que São José dos Campos.

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Praça Afonso Pena, com circo armado, década de 1930

O marido, pouco tempo tinha para ela, já que ficava o dia todo por conta da farmácia da qual era o dono. E à noite ainda tinha que sair para atender chamados de médicos e pacientes que não podiam esperar o dia seguinte para uma injeção ou o que fosse. Quando ficou bem conhecido na cidade, dr Mário, como era chamado, candidatou-se a vereador e exerceu o mandato por 16 anos, numa época em os edis não ganhavam um centavo de salário, pelo contrário, tinham que pagar a maior parte das despesas com dinheiro do próprio bolso.

Dona Anita ia levando a vida doméstica, cuidando da casa e dos 4 filhos, penando com as empregadas muito chucras que ela e dr Mario arrumavam na roça. Era preciso ensinar tudo, desde higiene pessoal até os pratos finos que dona Anita servia para os convidados. Dentre as pessoas que recebeu em sua casa, estão figuras do quilate de um Assis Chateaubriand e um Ademar de Barros. Ela tem fotos que tirou ao lado deles, mas estão numa caixa em cima do guarda roupas, quem sabe em outra oportunidade me mostra…

A menção das fotos faz a emoção brotar, lembra do marido que se foi há mais de 20 anos. Dele não guarda nem a aliança, já que a mesma foi doada na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, logo depois do golpe militar de 1964. Com os cofres públicos vazios, foi lançada pelos Diários Associados uma campanha nacional para arrecadar jóias da população. Em troca, ganhava-se uma aliança de latão e um diploma com os dizeres: “Dei ouro para o bem do Brasil”. Nesta brincadeira, foram-se as alianças do casal e alguns preciosos presentes de casamento…

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Depois que o marido se foi, vítima de um AVC, dona Anita passou a cuidar um pouco mais de si. Viajou pelo mundo e fez tudo aquilo que os compromissos do esposo não permitiam, na época. Acontece com muitas mulheres que viveram em função do marido, de desabrocharem para a vida depois da partida do companheiro. Mas ao mesmo tempo que ela fala disso, detecto uma certa tristeza em seu olhar. Ela se antecipa à minha pergunta e afirma:

__Mas hoje, quem sobrou da minha turma? O pessoal todo se foi, só fiquei eu, sozinha aqui neste apartamento, esperando a minha hora.

__Não fala isso, não, dona Anita. Dá pra ver que a senhora está forte, bonita, mais firme que muita mulher com metade de sua idade!

__Ah, Francisco, eu conheci 7 gerações, desde meus avós até meus tataranetos. Mas me sinto muito solitária aqui, só saio para fazer as compras da casa e o meu remédio da pressão, que é o único que eu tomo. Mas a pressão não incomoda nada, não me impede de fazer o que eu tenho que fazer, não!

__Surpreendente para uma mulher uma pessoa de sua idade, dona Anita. O que a senhora come para manter esta saúde toda?

__Bom, eu rezo o terço todos os dias, isso é o alimento da alma, que pra mim é o mais importante e já faz vinte anos que como frango cozido com tomate, arroz e uns legumes cozidos. O que? Coisa crua? Deus que me livre! De tarde eu tomo um chazinho com bolo e margarina. Mas eu nunca fumei e nunca bebi, acho que isso ajuda, não é?

Fica pensativa, o silêncio instala-se na sala por um tempo.

__Acho que meu problema é não ter problema. Vejo essas mulheres do povo brigando, discutindo, sofrendo naqueles ônibus horríveis. Tenho inveja delas…

Resolvi não continuar o assunto, pois na verdade estou de pleno acordo com dona Anita, uma vida sem desafios fica triste, carece de sentido. Me veio a curiosidade de saber como ela ocupava seu tempo, sozinha naquele apartamento e perguntei:

__Mas além do terço, dona Anita, o que a senhora faz o resto do dia aqui sozinha? – a resposta me surpreendeu…

__Ah, eu fico no computador!

__Uma pessoa da sua idade, que bacana! E o que a senhora vê na internet?

__Ah, meu filho, tudo que eu tenho direito, vejo de tudo!

__E o que é esse tudo, dona Anita?

__Tudo que você quiser imaginar…

Com esta resposta evasiva ela me calou e nos convidou para tomarmos um chá com bolo e margarina, na cozinha. Ela se levanta sozinha do sofá, recusa e faz cara feia quando faço menção de ajudar. Também não gosta de ser servida, ela mesma verte o chá em sua xícara e nos serve do bolo que também foi assado por ela. A empregada, que escuta nossa conversa se intromete e diz que ela mesma pinta as unhas e corta o cabelo, nunca foi a um salão de beleza!

De repente dona Anita para de falar e fica contemplativa, olhando pela janela.

__O que foi, dona Anita, lembrou de alguma coisa que quer me contar?

__Lembrei sim, de uma coisa muito importante que eu tenho imenso prazer de fazer.

__O que é dona Anita?

Ela então nos leva para perto da janela e mostra umas arvores e pergunta:

__Vocês estão vendo?

__Vendo o que, dona Anita?

__Os dois gatinhos ali em cima da copa das árvores. Elas formam dois gatinhos se beijando, não estão vendo?

Finalmente entendi que os gatos não eram de carne e osso, e sim as copas das árvores que, com um pouco de imaginação deixam ver um casal de gatos se beijando.

__Aquele da esquerda é o Mário e a gatinha sou eu…

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Este é o retrato aproximado de uma centenária senhora que vive escondida em nossa cidade. Quantas mais haverão como ela, esperando um pesquisador curioso? Não me canso de escavar estes tesouros, alguns mais escondidos, outros à flor da terra. Ficou evidente que ela gostou da entrevista, mesmo sendo uma pessoa reservada. Dona Anita me deixou as portas abertas e eu prometi voltar tão logo ela tire as fotos de cima do armário e resolva mostrá-las.

Antes de irmos embora, ainda deu tempo de perguntar à dona Anita se ela não tinha problemas para renovar a carteira de motorista, dada a idade avançada. Ao que ela respondeu:

__Mas eles não tem motivo nenhum para me negar a renovação. Eu enxergo bem, tenho coordenação motora e outro dia esteve aqui um médico gerontologista que veio estudar o “meu caso”. Ele colocou aqueles eletrodos na minha cabeça, fez um monte de perguntas e ontem chegou o resultado, diz que eu tenho o cérebro de uma jovem de 20 anos! Ai deles se me me negarem esse direito! – e deu uma boa risada!

Dona Anita pode não ser perfeita, mas é um exemplo de perseverança e amor à vida.

A Revolta do Pedreiro

junho 20, 2013

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Seu Amaro é uma pessoa pacata, casado, tres filhos, mineiro do sul do estado, há uns trinta e poucos anos que mora em São José dos Campos. A esposa trabalha de motorista e ele como pedreiro, são tidos como exemplo de respeitabilidade no bairro. São meus vizinhos, moram no caminho de casa e sempre que posso dou um dedo de prosa com ele ou com ela; política da boa vizinhança por um lado e por outro fico sabendo do que rola no bairro.

Ontem, dia de jogo da seleção brasileira, eu voltava pra casa e vi o Seu Amaro em frente de casa, sentado em frente ao portão, o olhar no infinito. Estranhei. Primeiro que nunca vi seu Amaro sentado, ele é um serelepe, não para nunca. E outra pelo horário, era muito cedo pra ele já ter voltado do serviço. De dentro do carro gritei pra ele:

__E aí, seu Amaro, tá tudo bem? To estranhando ver o senhor sentado uma hora dessas.

Ele tirou o cigarro da boca

__To preocupado dimais, meu filho, essas badernage que o povo deu de fazê urtimamente. Isso é coisa de desocupado, tinha logo que mandá prendê essa cambada.

Eu sabia que ele se referia às manifestações que estavam pipocando por todo país, devido ao aumento das passagens de ônibus.

__Mas seu Amaro, isso é a voz do povo, não é coisa de desocupado não. Tem estudante, dona de casa, trabalhador, em algumas cidades até os policiais estão apoiando o movimento!

__Que nada, isso é coisa de filhinho de papai, deu no noticiário de onte à noite. Tudus ele tem carro, uai! Pra que ficá fazeno arruaça por causa de preço de passage de bondão! 

__A manifestação vai ser pacífica, seu Amaro, mas é claro que sempre aparecem uns infiltrados pra desmoralizar o movimento…

Seu Amaro ficou vermelho, nunca o vi tão inflamado:

__Nos tempo que eu vim pra cá pra São José não tinha essas coisa, não. Mas quem é que mandava? Os militar! Ocê ligava o rádio e não tinha notícia de assalto, de droga e bagunça nas rua. Tava bom deles dá um górpe que nem em 64 pra botá orde na casa travêis.

Eu ainda tentei argumentar mas ele não escutava nada:

__Eu queria é que eles ia em Brasília, tirava a Dilma de lá, chamava esse povo dos direitos humano, os juiz e perguntava pra eles: “Cêis tão do nosso lado ou não?”. Se estivesse a favor muito que bem, se estivesse contra mandava tudus ele pra outros país, exilado. Chegava nas passeata, passava fogo numa meia dúzia, prendia o resto num estádio e ia fazendo uma triagem pra vê quem era quem… E pra garantir o sossego, todo mundo pra dentro de casa depois das 10 da noite, que gente decente não sai depois dessas hora…

Nessas alturas eu desisti de argumentar com ele, não tinha mais o que dizer, era muito radicalismo. E que ele não ficasse sabendo que eu iria ao centro da cidade no dia seguinte, participar do Ato Pela Redução da Tarifa de Ônibus, que no fim vai acabar beneficiando ele mesmo… Ainda bem que nessa hora estouraram rojões, ele se lembrou do jogo e seu discurso mudou  como num passe de mágica!

__Ai meu deus, o jogo já começou e eu nem me dei conta…

Ele saiu correndo e me deixou pensando sozinho, no medo que as pessoas tem das mudanças, mesmo aquelas que vão beneficiar suas vidas. De longe, antes de sair, eu ainda escutei a som da voz do Galvão Bueno e sua voz pasteurizada, típica do padrão Globo de locução…

O que tem na cabeça do Google?

julho 23, 2011

Hoje, meio que por acaso, descobri que posso ter acesso à lista dos termos motores das buscas que acabaram redundando em visitas ao meu blog. Dentre outras frases, havia pérolas como estas – “lojas que vende mochilas e a seita cheque pré datado no rio de janeiro“,  “blog é coisa de gay ?“, “computador a nitrogenio” , “bundas gulosas” e pasmem, até uma frase em russo, “кресты тюрьма фото” direcionou para o meu blog!

Não tenho a mínima idéia da engenharia que existe por trás dessas conexões, mas o fato é que deparei-me com essa miscelânea de frases esquisitas, que, sinceramente, não consigo relacionar com os meus textos. Não imagino, por exemplo, como alguém que digitou a frase “boliviana nua“, foi desembarcar no meu blog. Não me lembro de ter tirado a roupa de nenhuma mulher em meus escritos, muito menos de uma boliviana!

Outra busca esdrúxula que saltou aos meus olhos foi, “bunda peluda pra cima“. Talvez eu até tenha usado essa sonora palavra de origem africana, eu gosto muito dela, mas tenho minhas dúvidas quanto ao peluda e quanto ao pra cima, com certeza não é de minha autoria… Isso, certamente, ficou por conta da mente fantasiosa do tal Google.

Mas a pior de todas, a que me chocou, foi, “seu pau muito pequeno não me preencheu“. Isso foi demais para mim, meu blog não é de sacanagem, gente, como é que ela, a sacanagem, acabou me encontrando? Aí me perguntei: a que se devem estes encontros fortuitos? Alguma atração inconsciente? Incompetencia do Google? Sei lá, só sei que isso fez meus neurônios soltarem uma fumacinha e eles decidiram que tinham que se unir para solucionar este mistério. Afinal de contas, neste mundo cada vez mais virtual, quero saber como e porque estou atraindo esse tipo de pessoas… Até agora, momento em que escrevo estas linhas, tudo está muito obscuro, ainda.

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Como primeira tentativa, resolvi eu mesmo repetir os termos de busca que fizeram com que as pessoas me encontrassem. Fui lá na página do Google, coloquei as frases (as tres, uma de cada vez) no buscador e chamei pelos resultados. Fui virando as páginas, uma, duas, tres, cheguei até a décima sexta e nada de aparecer meu blog entre os resultados, nenhuma relação comigo. Em seguida, me vali de um artifício. fiz novamente a busca, mas dessa vez acrescentando o nome do meu blog (Chicoabelha) aos termos de busca (embora eu acredite que a busca original não contivesse meu nome). Dessa vez foi batata, meu blog apareceu em todos (ou quase todos) os resultados e a explicação da confusão estava lá, cristalina, diante dos meus olhos.

No caso da “boliviana nua“, houve um texto meu, de nome A Verdade Nua, em que aparece o gentílico “bolivianos”. Numa lógica arrevesada, o Google trocou genero e numero dos meus bolivianos, tirou-lhes a roupa e ofereceu o resultado ao infeliz usuário, que com certeza teve grande decepção ao aterrissar no meu blog…

Já no caso da “bunda peluda pra cima“, dou o braço a torcer. Realmente, usei o “bunda peluda“, uma vez, em uma das minha histórias. Só que quem levantou-a para cima foi o Google, não eu!

Finalmente, o que mais me incomodava, o “seu pau muito pequeno não me preencheu”, foi o mais esclarecedor. O pau em questão, era o pau de uma barraca que eu havia chutado numa das minhas histórias, o pequeno era sobre tamanho de camiseta num outro texto e o meu preencheu, dizia respeito a uma alma que fora preenchida com alimento espiritual. Quer dizer, o Google juntou tudo, fez uma boa salada mixta, temperou com muita imaginação e serviu num prato de plástico bem baratinho…

A pergunta que fica, o que o Google tem na cabeça? Ele tem uma cabeça?

CTÚtero

novembro 30, 2010

Para um urbanóide como eu, que tinha passado seus primeiros 15 anos de vida sufocando na poluição de São Paulo, a perspectiva de vir a morar no CTA era como um sonho que se tornava realidade. Viver no Centro Tecnológico da Aeronáutica, pelo menos naqueles idos da década de 70, tinha sabor de férias eternas! Morar numa daquelas casas enormes e espaçosas do H 17, cercado de áreas verdes que eram praticamente a continuação das residências, já que não havia muros nem cercas e ainda vizinho de avós que sempre foram muito mais permissivos que meus pais, foi como receber um passe livre para o paraíso…

Foi com essa energia que desembarquei no CTA, no ano de 1973, em plena ditadura militar (sem ter a mínima idéia do que fosse uma ditadura. E como poderia, com a forte censura vigente na época?).  A mudança no estilo de vida foi um marco em minha vida. A São Paulo que eu deixava para trás, agora me parecia provinciana quando me deparei com a sofisticação intelectual dos professores do ITA, grande parte importados de países como China, França e Inglaterra. O mundo acabara de ficar muito maior, pelo simples fato de eu estar convivendo com aquela gente diferenciada.

Não sei bem se ocupados em por ordem na nova casa ou porque acharam que eu já seria responsável pela minha própria vida, meus pais relaxaram a marcação comigo. Em São Paulo era linha dura, eu tinha que dizer onde ia, com quem ia e a que horas voltaria, mas agora, no CTA, eles nem se lembravam mais que eu existia… De modo que eu me senti como um passarinho que havia saído da gaiola.

Recém chegado, quis me enturmar, mas sabe como é adolescente, formam um grupo e pra entrar você tem que ser aprovado por algum nebuloso ritual de iniciação. E por mais que eu tentasse, nunca consegui entrar em grupo nenhum enquanto morei no CTA, sempre me senti um outsider. Resultado é que fui procurar outros marginais, outros os que se sentiam como eu e, assim, acabei fazendo amizade com filhos de professores que moravam no mesmo H 17.

Foi através de um desses amigos, logo nos primeiros meses, que conheci a tal da “diamba”  (esse era o nome que ele dava ao baseado na época). Fumei pela primeira vez, e, como é comum com iniciantes, não senti nada e continuei minha vida, saí pra rua e encontrei outro filho de professor, o Sérgio Altman, um artista (tocava flauta transversal) com quem eu batia altos papos cabeça, sobre psicanálise e filosofia. Ele talvez achasse que eu entendia tudo, já que eu prestava grande atenção, impressionado que eu ficava com a sabedoria e eloqüência do rapaz, mas o que eu queria mesmo era companhia. Deixava ele discorrer e de quebra sempre aprendia alguma coisa.

Bem, o fato é que eu tinha acabado de fumar o meu primeiro baseado e seguiamos pelo caminho que levava da Dutrinha ao Rancho, em direção ao Cinema, onde, decerto, nossa meta era uma sessão de filme de arte. Mas ao passarmos defronte o Rancho, vimos uma porta aberta e resolvemos entrar, por que não? Claro que a idéia foi dele, eu era um novato no pedaço e ainda um tanto quanto temeroso de usar a minha recém-conquistada liberdade.

Entramos, o restaurante estava vazio, mas havia vozes num salão reservado aos oficiais. Chegamos mais perto e pudemos ver um grupo de militares, à paisana, confraternizando amigavelmente em voz alta. Todos de copo de uísque na mão e beliscando salgadinhos, que eram servidos pelos garçons que circulavam por ali. Entreolhamo-nos, Sérgio e eu, e adentramos o espaço proibido. Cada um pegou seu copo de uísque e entre goles continuamos nossa conversa, sem dar a mínima ao que acontecia em volta de nós.

Uns quinze minutos devem ter se passado até que o mal estar começou a ficar evidente e insuportável. Sentimos a pressão nos olhares, que ao mesmo tempo mandavam mensagens de reprovação e de dúvida. E se fossem filhos de algum militar ali presente? – devem ter pensado eles… Num dado momento, um deles se aproximou de nós e, discretamente perguntou quem éramos. O fato do Sérgio ser filho de professor do ITA não foi de nenhuma ajuda. Saímos de fininho mas ainda deu tempo do militar me perguntar por que eu estava usando uma camisa de pijama em pleno dia. Nesse exato momento, olhando para o militar e sem saber o que dizer, foi que considerei, exultante, que o baseado finalmente tinha tido algum efeito sobre mim!…

Esse é um pequeno retrato do CTA que eu conheci e no qual vivi durante uns 7 ou 8 anos. Um grande útero acolhedor, em que a moçada se sentia muito segura para cometer todo tipo de loucura com a segurança da impunidade.


Dejà vu

fevereiro 23, 2010

Domingo passado, fim do dia, resolvi dar um pulo na casa dos meus pais. Sei que pai e mãe gostam de visita de filho, não custa fazê-los felizes. Como tenho a chave da porta já fui entrando. Minha mãe, bem ao feitio dela, se adianta e oferece a face para ser beijada. Ela não beija, ela quer ser beijada. Cumpri o ritual e já ia me dirigindo ao resto da familia que estava sentada na sala quando minha mãe dispara:

__Nossa, Chico, como você está velho!

Eu não registrei, a princípio. Pensei que tivesse ouvido mal. Ela não tem papas na língua e não gosta da minha aparência. Desde sempre me pede para cortar o cabelo, me vestir que nem gente, cortar a barba, usar desodorante, cumprimentar pelo aniversário do bispo ou da faxineira. São coisas que passam batido de tanto que ela repetiu. Mas essa era nova! Exclamar assim na lata, que eu estou velho!

Meus irmãos e cunhados, que estavam na sala, sairam em minha defesa.

__Queria que ele fosse um menino a vida toda? Ele já tem cabelo branco faz tempo, a senhora é que não via! Acorda, Maria Helena, ele já cresceu, casou e não tá mais na barra da sua saia!

Mas meu choque não diminuiu com o que eles disseram. Pelo contrário, eles confirmaram que eu já tenho cabelos brancos faz tempo! Aquilo ficou dentro de mim, um sentimento amassado, entalado, como se eu mesmo tivesse dificuldade de aceitar minha idade. A verdade é que eu não esperava isso dela. Minha criança acabara de levar uma porrada! O Peter Pan que mora em mim sofrera um sério golpe… Minha mãe nem ligou pro que disseram e continuou:

__Parece que foi ontem que eu ensinei você a escrever, lembra? Você não entendia o que era letra de forma e letra de mão. Implicava, dizendo que as duas eram escritas com a mão, lembra? E eu te expliquei a diferença entre letra de forma e letra de mão…

Eu só escutando e não dizendo nada. Enguli tudo e fiquei com a imagem da minha mãe e a frase ecoando na minha cabeça. Nossa, como você está velho… velho… velho… Letra de forma, letra de mão… de forma, de mão…

Fui transportado pro dia em que descobri meu primeiro pelo branco. Foi na barba, não foi no cabelo. Estava na Grécia, numa situação super estressante, viajando com tres amigas. Uma delas, marinheira de primeira viagem acabara de ter o passaporte roubado no metro de Atenas, por um desses bandos de imigrantes ilegais (assim nos disseram). Eu era o único que falava um pouco de grego e além de ter que me virar pra descobrir como achar a polícia e fazer o BO, tive que lidar com o irritante choro desesperado de uma senhora de 60 anos e as broncas das outras duas outras mulheres, que não se conformavam com o desleixo da vítima.

Não foi fácil convencer a polícia que não éramos um grupo de farsantes que vendera o passaporte e agora registrava a ocorrencia pra solicitar uma segunda via do passaporte na embaixada brasileira. A julgar pelo questionamento que nos fizeram isso devia ser comum por aquelas bandas. O fato é que eles nos deram uma canseira e só saímos de lá após algumas horas. Cansados, fomos para um restaurante comer qualquer coisa. No espelho do banheiro do restaurante foi que olhei pra mim e vi o tal primeiro pelo branco. Um susto! Eu estava ficando velho! Alguma horas de estresse teriam sido suficientes para formar aquele pelo branco? Será? Vou arrancá-lo? Um verdadeiro dilema!

Esqueci do pelo branco quando as amigas chamaram, me apressando para o próximo passo, que era a embaixada brasileira. Não sabíamos ainda quanto tempo seria necessário para expedir o novo documento. Teríamos que remanejar as datas dos vôos, arrumar hotel, avisar parentes, minha cabeça ainda estava a mil por hora. Temi por mais pelos brancos aparecendo nas próximas horas…

Dentro da embaixada um pequeno alívio. A atendente nos garante que o passaporte seria expedido no dia seguinte, era só fazer o pedido como urgente que o documento seria feito em 24 h. Mas teríamos que nos apressar, pois já era tarde e o povo estava encerrando o expediente. Pegamos os formulários para preencher e vi que minha amiga não era muito ágil, corríamos o risco de não conseguir entregar a tempo. Tirei a papelada da mão dela e fui perguntando e preenchendo o mais rápido que pude. Tudo preenchido, faltava a assinatura dela. Pedi que ela assinasse no espaço em branco. Ela me olha com cara de aluno de curso primário:

__Eu assino com letra de forma ou letra de mão?

__!!!

Saí do transe, uma baita sensação de dejà vu, cheguei de volta na sala de visitas da minha mãe, que continuava falando, com cara de criança travessa:

__Chico, só que agora as coisas se inverteram. Você é que vai cuidar de mim…

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