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Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

nilton renno

                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

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