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ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

Simpatia para curar bicha, inveja e mau-olhado

janeiro 11, 2015

 

 

Fiz este pequeno vídeo a pedido de Dona Maria, que gosta muito de ser filmada e mostrar o que aprendeu na roça, onde viveu até os seus 25 anos.

Ela quer deixar um registro para seus filhos e netos, pois sabe da importância do conhecimento que adquiriu com seus antepassados e também porque as pessoas não acreditam que ela foi e ainda é uma mulher que sabe lidar com a criação, monta a cavalo, conhece ervas medicinais, simpatias e mais um tanto de coisas que o pessoal da cidade só vê em filmes e livros.

O sítio onde ela morava na infância e adolescência foi desapropriado para construção da represa de Paraibuna e, desde então ela vive na cidade, sempre sonhando com sua roça natal.

Hoje ela mora em um pequeno terreno na periferia da cidade de São José dos Campos SP, no bairro do Buquirinha, onde cria galinhas, planta cana, milho, abóbora e mantém uma pequena horta para o gasto, tentando se aproximar da vida que ela tanto gosta.

As imagens do vídeo acima foram tomadas por ocasião de uma visita à fazenda de sua filha, zona rural de São José dos Campos SP.

Dona Anita

novembro 6, 2013

Quando minha mãe comentou de uma amiga dela com 100 anos e que ainda dirige seu carro, não tive dúvidas, intimei-a no ato:

__Mãe, quero conhecer esta mulher!

__Quando você quiser, meu filho, nós vamos lá.

Ela passou a mão no telefone, marcou uma hora e lá fomos nós para o apartamento de dona Anita, no centro da cidade de São José dos Campos, onde moram ela e uma acompanhante. Uma senhora ereta, impecavelmente vestida, penteada, maquiada e com as unhas pintadas, nos recebeu em sua sala de visitas com uma maravilhosa vista para o banhado, a várzea inundável do Rio Paraíba.

Sentaram-se ela e minha mãe em um sofá e eu numa poltrona ao lado de dona Anita. Nas primeiras palavras que trocamos já percebi que dona Anita não escuta muito bem e minha mãe, que estava mais perto, tinha que repetir o que eu falava. Sem a menor cerimônia, a centenária senhora me indicou que sentasse na mesinha de centro e ficasse exatamente em frente dela. Ponto pra ela!

A voz de dona Anita é de uma mulher de 50 anos, firme, fluida e com um timbre que ao telefone jamais denunciaria sua idade. Foi esta voz que, me encarando de frente perguntou:

__Então, Francisco, o que você quer saber?

__Eu quero saber de tudo, dona Anita e para isso gostaria de filmar a senhora, fazer um video com seu depoimento, tudo bem?

__Ah, não! Você pode filmar tudo que quiser aqui desta sala, menos eu!

Ela foi tão veemente na negativa que eu não insisti. Peguei o gravador e perguntei se podia registrar somente a voz. Outra negativa, o que me deixou com a alternativa do bloquinho de notas, que foi o que gerou este texto, que ela liberou com a condição de que eu usasse um nome fictício. Negócio fechado, ela passou a responder minhas perguntas.

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Sanatório Vicentina Aranha

Dona Anita chegou à cidade de São José dos Campos em 1934, para casar-se com Mário, um ex-tuberculoso que já era seu namorado há anos. Para quem chegava de São Paulo, como ela, a provinciana São José dos Campos era um desafio enorme, que somente um grande amor poderia vencer. Amiga mesmo, só a esposa do médico que tratara de seu marido. Segundo ela, havia muito preconceito com quem vinha de fora e não foi nada fácil integrar-se à vida social da cidade. Sua amiga e confidente era a esposa do médico que cuidara do marido. Assim, a jovem Anita passava suas horas costurando, lendo, cuidando da casa e esperando o primeiro filho.

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Mercado Municipal de São José dos Campos

Quando saia da casa que alugaram na Praça Afonso Pena, era para ir ao mercado comprar frutas, legumes e verduras, muitas vezes pegando carona no carro de bois do seu Argemiro, que vinha 3 vezes por semana trazer lenha que abastecia o fogão de lenha da casa. Era madeira que saía do desmatamento da Vargem Grande, beira do Rio Paraíba, para abertura de novos pastos e campos de cultura. Quando não ia de carro de bois ela pegava a Rua Sete, andando pela estreita calçada de pedras chatas e irregulares, evitando caminhar pelo leito da rua, para não sujar seus sapatos de terra…

Mais tarde, ela aprendeu a andar de bicicleta e dava seus passeios na poeirenta Praça Afonso Pena, que na época era pelada de tudo. A bicicleta, os veículos de tração animal e as pernas, era o que as pessoas usavam naquela época para se locomover. O primeiro automóvel que dona Anita e seu Mário compraram foi somente depois da II Guerra, quando a cidade começou a crescer, com a chegada das industrias, e a abertura de novos bairros.

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Carro de bois em São José dos Campos, usado para transporte de mercadorias antes do automóvel

A diversão de Anita, afora a missa dos domingos, na Igreja de São Benedito, eram os circos, as cavalhadas e as festas que tinham lugar na mesma Praça Afonso Pena. Às vezes, nos fins de semana, o casal era convidado para almoçar na casa de gente importante da cidade e foi com eles que Anita começou a expandir seu círculo de amizades. O cinema só apareceu mais tarde, com a abertura do cine Paratodos e Anita não perdia um filme. Quando queriam fazer algum programa diferente, a opção era Jacareí que na época era um núcleo urbano bem mais desenvolvido que São José dos Campos.

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Praça Afonso Pena, com circo armado, década de 1930

O marido, pouco tempo tinha para ela, já que ficava o dia todo por conta da farmácia da qual era o dono. E à noite ainda tinha que sair para atender chamados de médicos e pacientes que não podiam esperar o dia seguinte para uma injeção ou o que fosse. Quando ficou bem conhecido na cidade, dr Mário, como era chamado, candidatou-se a vereador e exerceu o mandato por 16 anos, numa época em os edis não ganhavam um centavo de salário, pelo contrário, tinham que pagar a maior parte das despesas com dinheiro do próprio bolso.

Dona Anita ia levando a vida doméstica, cuidando da casa e dos 4 filhos, penando com as empregadas muito chucras que ela e dr Mario arrumavam na roça. Era preciso ensinar tudo, desde higiene pessoal até os pratos finos que dona Anita servia para os convidados. Dentre as pessoas que recebeu em sua casa, estão figuras do quilate de um Assis Chateaubriand e um Ademar de Barros. Ela tem fotos que tirou ao lado deles, mas estão numa caixa em cima do guarda roupas, quem sabe em outra oportunidade me mostra…

A menção das fotos faz a emoção brotar, lembra do marido que se foi há mais de 20 anos. Dele não guarda nem a aliança, já que a mesma foi doada na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, logo depois do golpe militar de 1964. Com os cofres públicos vazios, foi lançada pelos Diários Associados uma campanha nacional para arrecadar jóias da população. Em troca, ganhava-se uma aliança de latão e um diploma com os dizeres: “Dei ouro para o bem do Brasil”. Nesta brincadeira, foram-se as alianças do casal e alguns preciosos presentes de casamento…

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Depois que o marido se foi, vítima de um AVC, dona Anita passou a cuidar um pouco mais de si. Viajou pelo mundo e fez tudo aquilo que os compromissos do esposo não permitiam, na época. Acontece com muitas mulheres que viveram em função do marido, de desabrocharem para a vida depois da partida do companheiro. Mas ao mesmo tempo que ela fala disso, detecto uma certa tristeza em seu olhar. Ela se antecipa à minha pergunta e afirma:

__Mas hoje, quem sobrou da minha turma? O pessoal todo se foi, só fiquei eu, sozinha aqui neste apartamento, esperando a minha hora.

__Não fala isso, não, dona Anita. Dá pra ver que a senhora está forte, bonita, mais firme que muita mulher com metade de sua idade!

__Ah, Francisco, eu conheci 7 gerações, desde meus avós até meus tataranetos. Mas me sinto muito solitária aqui, só saio para fazer as compras da casa e o meu remédio da pressão, que é o único que eu tomo. Mas a pressão não incomoda nada, não me impede de fazer o que eu tenho que fazer, não!

__Surpreendente para uma mulher uma pessoa de sua idade, dona Anita. O que a senhora come para manter esta saúde toda?

__Bom, eu rezo o terço todos os dias, isso é o alimento da alma, que pra mim é o mais importante e já faz vinte anos que como frango cozido com tomate, arroz e uns legumes cozidos. O que? Coisa crua? Deus que me livre! De tarde eu tomo um chazinho com bolo e margarina. Mas eu nunca fumei e nunca bebi, acho que isso ajuda, não é?

Fica pensativa, o silêncio instala-se na sala por um tempo.

__Acho que meu problema é não ter problema. Vejo essas mulheres do povo brigando, discutindo, sofrendo naqueles ônibus horríveis. Tenho inveja delas…

Resolvi não continuar o assunto, pois na verdade estou de pleno acordo com dona Anita, uma vida sem desafios fica triste, carece de sentido. Me veio a curiosidade de saber como ela ocupava seu tempo, sozinha naquele apartamento e perguntei:

__Mas além do terço, dona Anita, o que a senhora faz o resto do dia aqui sozinha? – a resposta me surpreendeu…

__Ah, eu fico no computador!

__Uma pessoa da sua idade, que bacana! E o que a senhora vê na internet?

__Ah, meu filho, tudo que eu tenho direito, vejo de tudo!

__E o que é esse tudo, dona Anita?

__Tudo que você quiser imaginar…

Com esta resposta evasiva ela me calou e nos convidou para tomarmos um chá com bolo e margarina, na cozinha. Ela se levanta sozinha do sofá, recusa e faz cara feia quando faço menção de ajudar. Também não gosta de ser servida, ela mesma verte o chá em sua xícara e nos serve do bolo que também foi assado por ela. A empregada, que escuta nossa conversa se intromete e diz que ela mesma pinta as unhas e corta o cabelo, nunca foi a um salão de beleza!

De repente dona Anita para de falar e fica contemplativa, olhando pela janela.

__O que foi, dona Anita, lembrou de alguma coisa que quer me contar?

__Lembrei sim, de uma coisa muito importante que eu tenho imenso prazer de fazer.

__O que é dona Anita?

Ela então nos leva para perto da janela e mostra umas arvores e pergunta:

__Vocês estão vendo?

__Vendo o que, dona Anita?

__Os dois gatinhos ali em cima da copa das árvores. Elas formam dois gatinhos se beijando, não estão vendo?

Finalmente entendi que os gatos não eram de carne e osso, e sim as copas das árvores que, com um pouco de imaginação deixam ver um casal de gatos se beijando.

__Aquele da esquerda é o Mário e a gatinha sou eu…

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Este é o retrato aproximado de uma centenária senhora que vive escondida em nossa cidade. Quantas mais haverão como ela, esperando um pesquisador curioso? Não me canso de escavar estes tesouros, alguns mais escondidos, outros à flor da terra. Ficou evidente que ela gostou da entrevista, mesmo sendo uma pessoa reservada. Dona Anita me deixou as portas abertas e eu prometi voltar tão logo ela tire as fotos de cima do armário e resolva mostrá-las.

Antes de irmos embora, ainda deu tempo de perguntar à dona Anita se ela não tinha problemas para renovar a carteira de motorista, dada a idade avançada. Ao que ela respondeu:

__Mas eles não tem motivo nenhum para me negar a renovação. Eu enxergo bem, tenho coordenação motora e outro dia esteve aqui um médico gerontologista que veio estudar o “meu caso”. Ele colocou aqueles eletrodos na minha cabeça, fez um monte de perguntas e ontem chegou o resultado, diz que eu tenho o cérebro de uma jovem de 20 anos! Ai deles se me me negarem esse direito! – e deu uma boa risada!

Dona Anita pode não ser perfeita, mas é um exemplo de perseverança e amor à vida.

Seu Genildo

maio 6, 2013

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Seu Genildo está pintando minha nova casa nas horas vagas. Chega lá pelas 5h e vai embora um pouco antes da novela das 9 na Globo, que ele não perde de jeito nenhum. Sua casa fica um pouco abaixo da minha, uns 300 metros pela esburacada estrada de terra. De shorts, sem camisa e uma surrada havaiana nos pés, quem olha seu Genildo não imagina que ele tem 5 carros semi novos na garagem de sua casa. Diz ele que tal fartura é para não ficar na mão na hora de sair; se um carro falhar, ainda tem mais 4…

Enquanto enche com massa corrida os buracos das paredes, este senhor de 49 anos vai me contando sua infância em Brasópolis.

__A vida hoje é muito boa, Chico. Essa molecada tem de tudo do bom e do melhó. É computador, é televisão, é vido gueime e ainda reclama. Sabe quando eu fui botar o meu primeiro sapato nos pé? Com 13 anos! Nóis andava era descalço memo. Dava dó de botá aquele sapato novinho de couro, naquele poerão da roça. Eu carregava ele na mão e só carçava quando chegava perto da cidade.

Outro dia me preparei um chá e levei para seu Genildo, que tomou de uma golada só e fez uma careta feia.

__Minha Nossa Senhora, o que é que ocê pôis nesse chá, Chico?

__É boldo, hortelã, erva doce, cidreira, manjericão e mastruço. Bom pro fígado e ainda espanta os vermes, Seu Genildo.

__Mas então isso é remédio, num é chá. E sem açúca, vixe que coisa ruim!

Seu Genildo tem os dentes todos falhados e diz que dentista só se for com anestesia geral, que ele morre de medo dessa gente de branco. De pequeno, quando tinha dor de dente, a mãe mandava botar leite de taiuveiro. Era tiro e queda, a dor passava, mas depois de alguns dias o dente ia rachando, pretejando e caindo aos pedaços até que só sobrava o buraco da raiz…

Numa das orelhas ele coloca o cigarro de palha apagado, na outra uma folha verde.

__Pra que serve essa folha na sua orelha, seu Genildo?

__Você que conhece pranta num sabe não? Isso é pra azia, Chico. Quarqué pranta  moiada serve.

__O que é pranta moiada, seu Genildo?

__Pranta moiada é dessas que ocê espreme e sai um cardo. Botô na orêia a azia some em 5 minuto

Seu Genildo toma uma pinga lascada, mas segundo ele agora tá controlado, bebe pouco em relação ao que bebia uns anos atrás. A culpa é da tal de Lei Seca. Antes ele bebia para poder relaxar e dirigir melhor. Se gaba de nunca ter tido um acidente, já que, por garantia, ele parava até em sinal verde… A esposa, segundo ele, não se incomoda com a cachaças que o marido toma, porque sabe que ele bebe com responsabilidade… Teve um ano que ele bebeu mais de 300 litros de pinga! Agora é menos, bebe só um litro por semana e só nas refeições…

Seu Genildo me mostra um dedo torto e conta que foi esmagado numa prensa, quando ele era jovem e tomava todas. Nesse tempo ele trabalhava de segurança em carro forte e não sabe como não virou bandido, porque o dinheiro que passava por suas mãos era muito.

__Nesse época do acidente eu bebia demais da conta. Eu tinha tanto arco no sangue que nem a nestresia num pegô. Foi preciso apricá a injeção mais forte que eles tinha no hospital, porque senão eu num guentava a dô.

A mulher de Genildo trabalha fora e quando ela não pode cozinhar ele se vira com um café e pão com mortadela. Mesmo que tenha comida na panela, ele não pega, fica mesmo é no pão com mortadela. Foi acostumado assim pela mãe, a ser servido. E com 26 anos de casado, ele nunca tirou comida da panela, quem faz seu prato é a mulher! O casal tem 4 filhos e a cada parto, durante o resguardo da mulher, a comida dele e dos filhos já nascidos sempre foi café com pão, que perto do fogão ele só chega para esquentar a água do café…

__Mas o senhor nunca morou sozinho, seu Genildo?

__Já morei, sim.

__E como o senhor fazia pra comer?

__Nesse tempo eu namorava uma menina de família até 10h da noite. Depois que ela ia embora eu abria a porta da casa e aquilo enchia de puta e travesti. Eles é que cozinhavam pra mim.

Nesse tempo ele aprontava com essa turma. Contou, se gabando, que até banho em caixa d’água de vizinho ele tomava, só de farra… Diz ele que os vizinhos sabiam mas não falavam nada…

__Antes o povo era mais bom, Chico. Vai fazer uma coisa dessas hoje…

Como eu tinha pressa de me mudar para a casa nova, seu Genildo trabalhou também no domingo, pra ver se me liberava um quarto pra eu enfiar minha mudança. Na hora do almoço ofereci um arroz com ovo pra ele, que recusou. Passou o dia todo na base do café frio e super doce, que ele trouxe numa gafarra pet. Café e cigarro de palha.

Quando foi lá pelas 4h da tarde ele se desculpou:

__Chico, eu não vou podê terminá o serviço hoje, mas amanhã eu prometo, esse seu quarto fica pronto.

__Tá cansado, seu Genildo, ou vai ver o jogo?

__Não, é que eu já atrasado pro Domingão do Faustão, o único programa que presta da gente  no domingo.

__Tudo bem, seu Genildo, mas antes de sair não se esqueça de fechar bem as janelas que o tempo tá virado pra chuva.

Coisas Velhas…

julho 7, 2012

Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?

No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.

Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.

Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.

Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.

Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.

Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.

Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.

Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.

Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.

Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.

No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:

__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?

__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…

Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.

Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é disso que a humanidade está precisando hoje em dia.

Urano

abril 25, 2012

Urano é o planeta do imprevisível, das mudanças súbitas, de tudo aquilo que é original e excêntrico. Minha esposa é uma aquariana, de modo que eu posso esperar qualquer coisa dela, menos um relacionamento programado e sem sobressaltos. Talvez minha vida estivesse muito morna e sem sal quando me decidi por esta mulher; não sei. O fato é que já me acostumei a não ter nenhuma expectativa sobre o dia de amanhã. Ficar ao lado dela tem sido um ótimo exercício de desapego às idéias fixas e hábitos arraigados.

Semana passada, por exemplo, nós dois tínhamos a certeza (?) de que nossas vidas de aposentados, passaríamos numa roça bem distante da cidade, cuidando de um sitiozinho orgânico na serra da Mantiqueira. Eu já tinha traçado um plano detalhado, de como seria meu regresso à natureza, num lugar com muita água e floresta. Mas acontece que no meio da semana houve mudança de planos e por sugestão de uma paciente dela, fomos visitar um terreno na periferia da cidade, numa região que eu desconhecia e que imaginava muito deteriorada. Ledo engano! O local está bem conservado e a cidade ainda não conseguiu botar seus tentáculos por ali.

Na verdade, se fosse só por mim, eu nunca teria ido, pois a região que fomos visitar é muito próxima da cidade. Mas dessa vez resolvi fazer a vontade da esposa, até para não ter que conviver com cara feia… Assim, num ensolarado sábado de manhã, que eu teria passado junto às minhas plantinhas na horta, fiz o enorme sacrifício de ir conhecer um condomínio fechado, em nome da paz e da tranquilidade no meu relacionamento.

Já no caminho, uns 8km de uma agradável e pacata estrada asfaltada, o ambiente bucólico se fazia sentir. Comecei a mudar conceito, ou melhor, o preconceito que eu tinha daquela região. Decidi vestir a fantasia de comprador interessado e que fosse o que Deus quisesse. Afinal, eu não tinha muito a perder.

O porteiro nos recebeu com um sorriso, coisa incomum em portarias de condomínios fechados e nos apresentou o corretor, sr Kazuo. O sr Kazuo é um nissei muito simpático, que, com uma paciência que só os orientais tem, nos mostrou cada lote que havia disponível para venda; o que não era pouca coisa, pois o empreendimento é relativamente novo. Imagino que na intenção de nos agradar e estando acostumado com outro tipo de cliente, seu discurso salientava vantagens que não eram exatamente as que estávamos procurando. Foi dificil faze-lo entender que queríamos um lote mais afastado, contíguo à area de preservação, grudado mesmo com a floresta. Para ele, o ideal seria um lote ao lado das benfeitorias, da pista de bocha e dos equipamentos de fitness, cercado de vizinhos e de cimento…

Sendo zona rural, eu não tinha dúvida que a água ali seria de poço artesiano ou talvez de uma nascente ali mesmo. Para desencargo de consciência, perguntei ao sr Kazuo, que prontamente me respondeu:

__Ah! Água é da Sabesp,  muito boa, com isso o senhor não precisa se preocupar.

__Como assim, sr Kazuo, da Sabesp? São 8km daqui até a cidade, eles estenderam tubulação até aqui?

__Não, a água é de poço artesiano, mas o senhor não se preocupe que é tratada  e esterelizada pela Sabesp aqui no condomínio mesmo, não sobra nenhum microorganismo vivo!

O sr Kazuo falava aquilo como se fosse uma grande vantagem e eu nem me dei o trabalho de explicar que preferia água viva, de nascente, sem os venenos que a companhia de abastecimento coloca na nossa água…

Depois de mais de hora rodando no condomínio, minha esposa e eu nos entendemos e decidimos perguntar o preço de um lote que tinha conseguido a proeza de agradar nós dois.

__Sr Kazuo, aquele lote que tem o cupinzeiro, quanto…

Ele nem me deixou terminar a frase, me interrompeu, achando que eu poderia estar preocupado com um ataque de cupins…

__Sr Francisco não precisa se preocupar, esses cupins não são os mesmos que comem a madeira, pode construir no local tranquilamente, que eles não vão atacar sua casa.

Mais uma vez eu não retruquei, deixei ele continuar com ideia de que éramos clientes convencionais, assustados com a natureza. O que eu queria mesmo era saber o preço do único lote que tinha nos interessado ali. Para minha surpresa, o valor era razoável e compatível com nosso orçamento. Foi o que bastou para eu começar a mudar de ideia e considerar abrir mão do sonho de morar na roça. Um clima de encantamento tomou conta de nós, era visivel que minha esposa tinha ficado muito animada e, surpreendentemente, eu também embarcara na onda.

Ficamos de fazer uma contraproposta e na hora de ir embora, vi que havia algumas casas simples a uns 500m do condominio e perguntei quem eram os moradores. O sr Kazuo não pode esconder seu embaraço, quase ficou gago, e como deve ser uma pessoa que não sabe mentir, confessou:

__Sr Francisco, essas casas são de um assentamento de sem-terra, mas o senhor não precisa se preocupar que nosso sistema se segurança é muito bom, os muros são fortes e temos sensor no perímetro todo.

Disse isso quase que pedindo desculpas pela presença dos assentados. Mal sabia ele que, no meu modo de ver, isso não era, de modo nenhum, um ponto negativo. Eu me lembrei que esses assentados são os produtores de quem eu habitualmente compro verduras e legumes orgânicos, numa feirinha semanal, um pessoal que há tempos eu vinha ensaiando visitar.

Fiz cara de paisagem e, mais outra vez, não disse nada, ia dar trabalho explicar isso pra ele, nem acho que conseguiria tal façanha! Voltamos para casa e discutimos os prós e os contras de morar naquele local. Os prós ganharam de goleada e no mesmo dia à noite fizemos a contra-proposta, que no domingo mesmo foi aceita, quase que integralmente pela incorporadora.

No dia seguinte, uma segunda feira, eu voltei ao terreno com uma cavadeira, para cavar uns buracos aqui e eli e me certificar que o terreno era firme. Enquanto eu estava furando o solo, perdido no meio da braquiária, apareceu o Domenico, que se apresentou como o zelador do condomínio. Achei estranho, pois o sr Kazuo nem comentou que o condomínio tinha um zelador. Mas o Domenico se impôs pela simpatia e vontade de ajudar, seu discurso passou confiança. Logo percebi seu interesse pela preservação da natureza e amor pelo trabalho.

Terminados meus buracos e feita a confirmação de que o terreno era firme, Domenico me convidou para corrermos as divisas. Ele me mostrou os açudes cheios de peixes, as frutíferas que havia plantado e já estavam produzindo, me levou até uma nascente na mata, trocamos idéia sobre algumas ervas medicinais; acabamos passando bem umas tres horas explorando o condominio, indo a lugares que um morador comum nunca iria. Demos até uma escapada ao assentamento, onde travei conhecimento com o pessoal e conseguimos umas frutas frequinhas, colhidas no pé. Foi uma troca muito proveitosa.

Na hora de nos despedirmos, o Domênico, entusiasmado, disse:

__Seu Chico, na próxima gestação o senhor tem que ser o síndico aqui do condominio. O senhor é muito diferente do pessoal de poder requisitivo que eu conheço, o senhor pensa igual à gente!

Prometi a ele que ia gestar a ideia de ser síndico, conforme me foi requisitado… Daquele momento em diante me senti como se já estivesse morando naquele condominio. E tudo isso aconteceu em questão de menos de 3 dias!

Relato de Viagem à Cidade de Cunha, SP

março 19, 2012

O casamento perfeito

Depois de 5 anos vivendo juntos, minha esposa está, finalmente, se transformando na pessoa ideal que eu vislumbrei quando me casei. Está deixando de ser apenas mãe para ser, também, esposa. Isto porque, para minha alegria, os rebentos estão botando as manguinhas de fora e exigindo ter vida própria. Não sem dor no coração, ela percebeu que deve ceder aos anseios dos filhos e abrir mão de suas expectativas e tentativas de controle…

Foi aproveitando essa brecha, ainda um tanto quanto estreita, mas muito clara para mim, que eu propus uma viagem relâmpago, uma reedição da nossa lua-de-mel. Para minha surpresa, ela aceitou sem titubear, um convite para um fim de semana na estância climática de Cunha SP, numa pousada que me seduziu pelo nome, muito sugestivo, de Pousada da Mata. Fiz a reserva de um chalé de luxo, coisa que jamais havia feito antes na vida, para a eventualidade dela mudar de idéia; assim eu teria um trunfo na manga para contra argumentar! Não foi preciso, ela se comportou muito bem e programou para que nada fosse um impedimento do sucesso de nossa viagem.

Sexta-feira, no meio da tarde, nós partimos para a viagem de duas horas de São José dos Campos até Cunha, encravada num “mar de morros” entre as  Serras, do Mar, da Bocaina e do Quebra-Cangalha. Durante o trajeto fomos conversando e descobri que minha esposa teve uma forte ligação com a cidade de Cunha, onde, por diversas vezes, passou as férias quando criança. A região de Cunha era o destino preferido do meu sogro e sua família.

Chegamos quase ao anoitecer e eu quis dar uma volta para me familiarizar com a cidade antes de nos dirigirmos à pousada, que se localiza na zona rural, distante uns 8 km do centro de Cunha. Um belo portal enfeita a entrada da cidade e dá as boas vindas aos viajantes que chegam do Vale do Paraíba.

Portal da cidade de Cunha SP

Mas alguns metros depois da entrada, a coisa muda e a impressão é de que o portal é apenas fachada. Nem sinal das construções históricas anunciadas nos sites que propagandeiam a cidade, apenas casas comuns e um paisagismo urbano muito pobre e descuidado. Desanimados e temendo a chegada da noite, resolvemos fazer meia volta e tomar o rumo da pousada, para chegarmos lá ainda com luz.

Tomamos um caminho diferente para deixar a cidade e foi possível ver algo que me brochou de vez: uma casa recém construída, praticamente dentro do um riacho que corta cidade. A visão deste descaso ambiental me fez considerar: será que eu havia feito um boa escolha para o nosso idílico fim de semana? Pensamentos negativos rondaram minha cabeça nessa hora… Minha esposa não disse nada, ela tem meditado muito ultimamente e agora ela se observa bastante antes de fazer um comentário negativo. Mas a expressão do rosto não negava, ela estava decepcionada com o que via.

Descaso com a natureza

A chegada na pousada melhorou um pouco nosso humor. O local é bem cuidado, cheio de árvores, nosso chalé tinha uma vista maravilhosa e a recepção de dona Joana nos fez sentir em casa.

Na hora de preencher a ficha de hóspedes, a pergunta tradicional: “Como foi que você descobriu a pousada?”. Eu não me lembrava e tive que refrescar a memória. Lembrei do marceneiro que fez os móveis em casa, ele é de Cunha e fez muita propaganda da qualidade de vida da cidade. Me contou que toda carne, queijo, frango e ovos ele traz de lá e congela, não come nada de açougue ou supermercado. Talvez eu tenha sido influenciado pelo que ele disse e acabei procurando uma pousada em Cunha. Ou ainda, pode ser que minha esposa já tivesse me contado de suas férias na região, não sei, não me lembro. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que eu tinha escolhido Cunha, dentre tantas cidades históricas do Vale do Paraíba? Escrevi na ficha que tinha escolhido por intuição, grafei apenas essas duas palavras. Dona Joana me olhou meio torto mas não disse nada…

Mais tarde, sob encomenda, já que não queríamos arriscar a comida da cidade, dona Joana nos preparou uma sopa de legumes que foi um conforto, foi como receber um abraço por dentro. Cansados da viagem, fomos dormir muito cedo.

Dia seguinte, um frio de lascar, pulamos logo cedo da cama e fizemos uma caminhada de uns 5km pelas redondezas, antes do delicioso café da manhã, preparado por dona Joana e sua filha Ana. Destaque para os bolos de milho e o de batata doce. O fogão de lenha aceso é um must, esquenta o ambiente e dá vida ao local.

Vista do nosso chaléRestaurante, com dona Joana ao fundo

De estomago forrado, saímos para o desconhecido. Já havíamos desistido de nossa intenção inicial, que era fazer alguma trilha no Parque da Serra do Mar, pois o tempo estava fechado e garoento. Meio contrariado e para satisfazer a esposa, fomos para cidade, fazer um turismo de lojas. Foi um boa pedida, ao contrário do que eu supus.

O centro da cidade tem ainda alguns casarões antigos, mas segundo seu Isael e dona Josie, eles estão caindo por descuido de seus proprietários. Seu Isael e dona Josie tem uma loja de artesanato num desses casarões, datado do sec XVIII, com piso hidráulico, forro de taquara, paredes de pedra e algum mobiliário, todos originais. Quando foram alugar, o proprietário disse a eles que podiam trocar tudo e colocar material modernos no lugar! Seu Isael ficou indignado, recusou-se a destruir o patrimônio histórico da cidade e por sua conta restaurou tudo. Mas segundo ele, a maioria do povo da cidade quer mesmo é prédio de apartamentos e não está nem aí para a tradição. Recentemente houve briga na câmara municipal, por causa de um projeto de lei que iria autorizar a construção do primeiro prédio de apartamentos em Cunha. Quem conseguiu segurar foi o “pessoal de fora”, pois os nativos querem mesmo é progresso.

Segundo seu Isael, a população da cidade está diminuindo. Já chegou a 30.000 e hoje está em 25.000. São os jovens debandando em busca de faculdade e empregos que remunerem melhor. Pudemos confirmar esta informação, 100% dos jovens perguntados vai deixar a cidade e não pretende voltar… A alegação comum a todos eles é: “Aqui em Cunha não tem nada, é muito parado”. Se eu fosse jovem, não sei se faria diferente. Cabe aos mais velhos tornar a cidade mais atraente, para não perder a força da sua juventude.

Fachada do armazém do Seu Isael

Uma agradável surpresa foi a descoberta de que Cunha abriga grande quantidade de artesãos do barro, na esteira do casal japonês, Toshiyuki e Mieko Ukeseki e do ceramista português, Alberto Cidraes, que se instalaram na cidade por volta de 1975. Os ceramistas utilizam a técnica Noborigama, arte milenar japonesa de fornos em série, que transforma o barro em pedra ao  atingir a temperatura de 1.350ºC.

Forno Noborigama em Cunha

Os resultados são obras de arte lindíssimas e só não trouxemos alguns para casa pois são peças realmente muito caras. Algumas queimas chegam a durar de 15 a 21 dias, com a temperatura dos fornos rigorosamente controlada para que o trabalho não se perca, com o rachamento das delicadas peças de barro.

Peças de cerâmica à venda em Cunha

Hora do almoço, barriga roncando, eu não tive dúvida, sugeri o Mercado Municipal, que é onde o povo costuma comer. Eu tenho horror desses restaurantes para turistas, onde se come mal e se paga uma fortuna. Minha esposa ofereceu uma pequena resistência, mas cedeu aos meus pedidos, afinal, eu havia passado a manhã toda fazendo a vontade dela, batendo perna pelas mais de 10 lojas que vendem cerâmicas e artesanato na cidade. Não nos arrependemos, o simpático restaurante da dona Rosa nos serviu farta comida caseira, por apenas R$ 10,00 e ainda sobrou muita comida! Imagine, salada mixta, arroz, feijão, tutú, nhoque, ovo frito e bife para duas pessoas por esse preço! Isso não existe no primeiro mundo onde eu vivo!

Fachada do Mercado Municipal de Cunha

A cara feia é porque ela ainda não tinha comido os quitutes de dona Rosa…

Depois do almoço, a pedida foi uma caminhada pela cidade, para fazermos a digestão. Lógico que minha esposa parava em cada lojinha e numa dessas paradas, eu resolvi deixa-la entretida com suas compras e por acaso acabei descobrindo o Espaço Cultural Lavapés, onde estava acontecendo a exposição Tea Party com peças de cerâmica do mundo todo. Mas o melhor de tudo foi o guia e idealizador da exposição, Rogério David, um brasileiro que fugiu do país na época do Plano Collor, viveu 19 anos na Inglaterra e hoje está em processo de mudança para Cunha. Rogério nos deu uma senhora aula ao nos explicar sobre os processos de fabricação de cada uma das 100 peças expostas, parte de sua coleção de mais de 1000 peças, que trouxe na bagagem de volta ao Brasil.

Uma das peças da exposição de Rogério David

Nessas alturas eu já começava a me reconciliar com a cidade de Cunha, meu corpo e espírito haviam sido bem alimentados. Mas não ia durar muito o namoro… Logo mais, à noite, resolvemos comer uma pizza, numa pizzaria numa região até que bem cuidada da cidade. Eram mais de 8h e ao nos sentarmos, fomos informados que o forno ainda não estava quente, e que só começariam a assar pizzas dentro de uma meia hora. Tudo bem, enquanto esparávamos íamos degustar uma malzbier. O garçon, muito prosa, nos informa que apesar de constar no cardápio, estão com falta do produto. E nos sugere a substituição mais estapafúrdia que eu já ouvi de um garçon.

__Vocês não querem trocar a malzbier por um licorzinho de canela com gengibre, por conta da casa?

__Meu filho, você tomaria um sorvete de manga sendo que sua fome é de uma sopa de aspargos?

Ele pareceu não entender minha colocação e ainda insistiu:

__Ah, mas é de graça, por conta da casa, o senhor vai recusar?!?

__Deixa o licor pra lá, me traz  alguma cerveja de boa marca que você tenha aí na sua geladeira. Tem Stella Artois? Tem? Então, traz uma garrafa pra gente.

Na hora de escolher a pizza, outro sufoco. Nosso gosto era comer uma pizza de escarola, rúcula ou brócolis e fizemos o pedido.

__Ah, hoje não temos nada verde, sinto muito! O que temos mais próximo de uma pizza natural seria uma pizza de palmito.

Dessa vez eu não fui irônico, a fome já apertava, pedimos uma margherita, que de manjericão mesmo tinha umas folhinhas secas e quase sem gosto. Depois de pedida, a pizza não demorou, mas ao servir, ele colocou o primeiro pedaço no meu prato. Querendo brincar com ele, perguntei se ele costumava servir primeiro os homens…

__Ah, o senhor me desculpe, é que eu sou soldador, estou fazendo um bico aqui na pizzaria, sabe como é…

Fiquei com pena do rapaz, disse que não tinha importância, mas ao colocar a primeira garfada na boca, não acreditei, a pizza estava fria! Claro que a gente mandou voltar e isso por duas vezes, antes de eles acertarem a temperatura ideal. Uma tragédia!

Não sei se foi por nervosismo, mas o garçon aparecia a cada dois minutos e perguntava:

__Tudo bem por aí?

Ultimamente estou praticando uma política de diplomacia e por isso não respondi nada a cada vez que ele perguntou, me limitei a esboçar sorrisos amarelos… Na hora de ir embora, depois de paga a conta, ele teve a ingenuidade de nos perguntar se gostamos da pizza. Eu respondi com a primeira coisa que me veio à cabeça:

__Olha, a gente se divertiu muito e, certamente, eu terei uma boa história para contar sobre sua pizzaria…

Cansados de tanto andar pela cidade, novamente fomos dormir cedo. Dia seguinte, decidimos pegar estrada logo depois do café da manhã, para não pegar transito na Via Dutra, que costuma encher nos domingos à tarde. Quando passávamos por Cunha, me veio a idéia de comprar uma lembrancinha para minha mãe. Nessas horas eu prefiro comprar algo de comer, pois minha mãe já tem uma casa com armários atulhados de objetos que ela nunca usa e eu não quero contribuir com o excesso que ela já acumula. Assim, fomos ao Mercado Municipal, comprar um queijo parmesão novo, que eu havia visto no dia anterior. A mulher já estava embrulhando o queijo, quando alguém dos fundos da loja disse em alto e bom som:

__Veja se ele não quer levar uma goibada também, Maria Helena, acabou de chegar da roça!

O que a mulher disse sobre a goiabada, me avivou a memória de um fato que tinha ficado debaixo do tapete durante muito tempo e que eu não tinha atinado  em nenhum momento, durante aquela curta estada em Cunha. Minha mãe, durante minha gravidez, comeu 10 kg de goiabada, mandada vir especialmente de cidade de Cunha. Goiabada é meu doce predileto, eu troco qualquer um por uma goiabada. Ah, e o nome da minha mãe é Maria Helena. Mandei embrulhar também um bom pedaço de goiabada cascão, pra levar de presente junto com o queijo parmesão novo. Saí da cidade com a sensação de “missão cumprida”…

Interior do Mercado Municipal de Cunha

Paisagem na estrada, imediações de Cunha

Seu Ivan

março 11, 2012

É um defeito meu querer me ocupar, estar sempre fazendo algo útil e produtivo. Na verdade é mais que um defeito, é pior, é um vício disfarçado de virtude. Porque o se ocupar é visto como uma boa qualidade no meio em que fui criado. Existe até um dito popular que afirma – O ócio é a oficina do diabo. Imagino que isso tenha um peso enorme sobre a consciência da maioria das pessoas, ninguém questiona, é como se esta informação já viesse impressa no DNA.

Definitivamente, a sociedade não vê com bons olhos um ser desocupado e eu, como a maioria, prefiro não ser visto com maus olhos, de modo que procuro me ocupar o tempo todo… Ou procurava, até sexta feira passada, quando eu perambulava pelo centro da cidade, esperando que o mecânico desse um jeito no suspiro do tanque de combustível do meu carro, que estava entupido.

Como o conserto deveria ser rápido, coisa de umas duas horas, decidi não percorrer os 7 km de volta pra casa e fiquei ali pelo centro mesmo, passeando entre os camelôs que agora infestam a região. Percorri as bancas montadas na praça, em frente à Igreja Matriz e uma passada de olhos rápida nos títulos dos DVDs não me mostrou nada interessante, só blockbusters. Eu já havia caminhado uns 20 minutos, com uma pesada mochila às costas (por causa do computador, caso eu resolvesse trabalhar um pouco enquanto esperava), e procurei um banco sob as árvores, para descansar. Mas cadê que eu encontrava um banco vazio? Estavam todos ocupados por… desocupados! Daquele tipo de desocupados que você vê que não estão fazendo nada mesmo. Um pensamento rápido me passou pela cabeça – “Será que essa gente não tem mais o que fazer da vida além de se sentar num banco de praça?” Ao mesmo tempo que tive a impressão de que eles me olhavam como se eu fosse um estrangeiro perdido, recém-chegado ao país dos desocupados…

Que fazer? As costas já me doíam, eu estava a ponto de me sentar ali no chão da praça mesmo quando me lembrei que dentro da igreja há bancos, e que além de ser bem fresquinho, seria também um descanso para os ouvidos. Adentrei o templo quase vazio, sentei-me no ultimo banco, depositei a mochila a meu lado e pude, finalmente, relaxar. Respirei fundo um par de vezes, tentei meditar, mas foi impossível, não consegui ficar parado, observando o ar entrando e saindo das minhas narinas. Senti uma vontade irresistível de abrir o computador e começar um relato sobre as minhas impressões do centro da cidade. Mas eu não podia fazer isso ali, seria muito desrespeitoso. Quer dizer, poder eu podia, mas não queria que me expulsassem do templo como Jesus fez com os vendilhões, isso não! Quem sabe um banco não havia vagado na praça?

Saí da igreja e procurei um banco, mas ainda não havia nenhum lugar vago. Na verdade havia chegado mais gente, a cidade começava a se encher, o sol cada vez mais quente e eu cogitei voltar pra casa. Já ia caminhando na direção da  rodoviária, pra pegar o ônibus, quando dei de cara com um salão de beleza e lembrei que meus cabelos já tinham sido objeto de crítica por mais de uma pessoa nos últimos dias. Resolvi aproveitar então a oportunidade. Entrei no salão e passei reto por um homem que estava na porta, com um olhar fixo de quem parecia estar muito longe dali. A cabeleireira que fazia o penteado de uma perua me informou que quem cortava cabelo masculino era o senhor de olhar fixo, aquele por quem eu tinha passado na entrada.

Me aproximei do senhor de olhar fixo e perguntei se podia cortar meu cabelo. Ele me respondeu com um sorriso e apontou a cadeira de barbeiro vazia. Seu Ivan, um moreno escuro, esguio e quase sem cabelos brancos, não tinha pressa nenhuma, fazia tudo com uma lentidão bahiana. No papo, descobri que ele era mesmo bahiano, nascido em Valença, ao sul de Salvador. Descobri também que ele tem quase 80 anos, aparenta apenas 60 e que adora conversar. A cada pergunta que eu fazia, Seu Ivan interrompia o corte, se postava à minha frente e respondia com uma minúcia virginiana. O que ele me contava era tão interessante que, por mais que eu tentasse, não conseguiria me irritar com a lentidão do homem… Eu escutava tudo e ainda perguntava mais.

Primeiro quis saber o que estava procurando o seu olhar distante, aquele que eu notei quando entrei.

__Nada, moço, eu não procurava nada, não. Estava é assistindo o filme da vida, minha diversão enquanto não corto cabelo – assim dizendo, colocou-se à minha frente e fez um discurso sobre a pressa que os paulistas tem no sangue e ele , como bahiano há mais de 50 em solo paulista, ainda não conseguiu entender. Ele continuou…

__Já fiz foi perguntar para todo tipo de gente. E foi gente importante, assessor de prefeito, professor de faculdade, filósofo, eles dizem que isso não é coisa para se entender, é da natureza do povo aqui do sul, dos descendentes de europeus.

Depois, eu quis saber como é que ele mantinha a forma, se fazia algum exercício para manter aquela forma aos 80 anos.

__Meu exercício é andar de casa até o trabalho, do trabalho de volta pra casa.

Imaginei que ele morasse longe, alguns kilometros, no mínimo.

__Moro não, minha casa é a duas quadras daqui, ao lado do Mercado.

__Mas como é que o senhor mantém essa forma, assim, magrinho e esperto?

Mais uma vez ele parou a tesoura, foi para minha frente e me contou tim tim por tim tim, como é que ele mesmo preparava, todos os dias, seu café da manhã, almoço e janta, que esse era o segredo da sua saúde de ferro. Que pão branco com manteiga ele não comia, que isso faz é muito mal à saúde! Comer fora, segundo  ele, é muito arriscado, nunca se sabe o que vai pela cabeça do cozinheiro enquanto prepara a comida… Eis o relato resumido:

__Primeiro eu cozinho duas bananas compridas bem maduras, ou pode ser um inhame grande, mas os dois tem que ser com a casca. Quando ficou molezinho eu descasco, coloco num prato, ralo meio coco fresco, adiciono uma pitada de sal, outra de açúcar e pronto, é o meu café, que tomo desde menino. No almoço é feijão de corda verde (quando tem, senão é maduro mesmo), arroz e mistura, mais um jerimum ou uma couve, ambos refogados. De noite é só uma sopa, pode ser do que for, mas tem que ser sopa. E sobremesa não me dou o luxo, isso é coisa para o paladar de gente mimada.

__Mas e nem uma frutinha de vez em quando, Seu Ivan? – perguntei pois havia visto uma maçã ao lado dos seus apetrechos de barbeiro.

__Fruta eu trago sempre aqui pro trabalho, como só quando o estômago reclama.

__E remédio, o senhor toma algum medicamento, Seu Ivan?

__Tomo não, isso de remédio é perdição, o sujeito começa com um e dali a pouco é uma renca que ele tem que tomar. Não presta, não!

Seu Ivan ia me contando tudo isso enquanto cortava minha sobrancelha, aparava os pelos que saem do nariz e do ouvido, coisa que nenhum barbeiro jamais fez comigo. Lavou meus cabelos com xampu e deu finalmente por terminado. Ficou muito bom, gostei do corte e perguntei a ele onde tinha aprendido, onde ele tinha feito curso de barbeiro.

__Na vida, meu filho, aprendi olhando o barbeiro na minha cidade, comecei a cortar quando tinha 15 anos e nunca mais parei.

Revelando todo meu preconceito, perguntei a ele se nunca quis estudar para ser outra coisa na vida. A resposta veio à altura:

__Mas eu estudo, meu filho, eu estudo cada pessoa que senta nesta cadeira e aprendo com cada uma delas.

Aquilo me desconcertou e eu não pude evitar de abrir um sorriso para aquele bahiano mais do que sossegado. Nesta hora, tocou o celular, era o mecânico avisando que o carro já estava pronto.

__Mas já está pronto? Você não falou duas horas? – indaguei surpreso.

__Mas já passou mais que isso, Chico! – me respondeu o mecânico.

Olhei para o relógio e me dei conta, havia passado uma hora e meia na cadeira do Seu Ivan, tomando um curso intensivo de relaxamento à moda bahiana. Paguei o corte e saí para a rua. Decidi não ir direto para o mecânico. Sem pressa, tomei um caminho mais longo e passei no Mercado para comprar uma penca de banana comprida e um coco maduro, só para experimentar…

Piracema

fevereiro 6, 2012

Era uma vez um peixe que andava meio triste, entediado de se deixar levar ao sabor da correnteza, que insistia em leva-lo para águas cada vez mais sujas e mal cheirosas, o Reino das Águas Turvas. Um dia, nosso amigo peixe bateu a cabeça numa enorme pedra preta, ficou todo zonzo e perdeu o caminho de volta para sua loca. Desorientado e sem saber o que fazer, resolveu pedir ajuda a um cardume de jovens guarús, que passava por ali naquela hora.

Os guarús nem se deram o trabalho de parar, simplesmente acenaram com as guelras, fazendo sinal para que o nosso amigo os seguisse. E foi o que ele fez, atrás dos guarús ele foi, como se tivesse sido encantado. Era difícil acompanhar o ritmo dos guaruzinhos, que nadavam ligeiros contra a correnteza. Ele já estava começando a ficar cansado, quando reparou que as águas estavam ficando mais transparentes. Foi então que uma energia desconhecida invadiu seu corpo e o cansaço foi sumindo. Reparou que mais e mais peixes juntavam-se ao bando e que tomaram um afluente em que as aguas eram ainda mais puras e cristalinas.

Deixou-se levar pelo turbilhão em que fora envolvido, ele agora não pensava em mais nada, queira nadar rio acima, atraído por uma força até então desconhecida para ele. No seu intento de subir, chegava mesmo a saltar fora d’água, coisa que nunca se imaginara capaz de fazer. Quanto mais longe ele subia, mais força ele ganhava, mais prazer ele tinha. Esqueceu que estava procurando o caminho de volta para sua loca, esqueceu-se do cansaço, esqueceu-se de tudo, ele só queria subir, subir, subir…

Quanto mais ele subia, mais encantado ele ficava, ao reconhecer lugares que ele nunca tinha visto, mas que produziam em seu coraçãozinho de peixe, uma estranha familiaridade. O ponto alto, de altura e de extase, aconteceu quando ele chegou a um remanso tranquilo e foi tomado por uma vontade parecida com a vontade de fazer xixi, só que dez vezes melhor. Nessa hora ele se sentiu do tamanho do universo inteiro e esqueceu-se de quem ele era, para onde ia e o que estava fazendo ali…

Neste lugar maravilhoso, de águas puras e cristalinas, nosso amigo peixe reencontrou o prazer de viver e resolveu construir seu reino encantado.  Arregimentou peixinhos e peixões e criou um exército do bem, que ao invés de servir para proteger o local, luta para que ele seja invadido constantemente por mais e mais foragidos do Reino das Águas Turvas.

Vinte anos se passaram desde a criação deste reino.  Hoje, contrariando todos os meus hábitos de permanecer os domingos em casa com a família, resolvi seguir um bando de guarus que me acenaram com suas guelras, e fui parar sabem onde? Sim, no reino encantado do nosso amigo peixe!

Este peixe tem nome, chama-se Elder, assumiu forma humana e hoje atrai todos aqueles que um por este ou aquele motivo, resolveram nadar contra a correnteza. Cansado de sua vida de bancário, largou a profissão e fixou-se na zona de periferia semi-rural de São José dos Campos, onde constituiu o Espaço Piracema, dedicando-se a despertar a poesia e alegria de viver em quantos se aproximam deste lugar encantado.

Nadando contra a correnteza da mesmice, e utilizando-se de materiais que estão à sua volta, tais como bambu, farinha de trigo, jornal velho e tudo quanto a cidade despreza, ele e seu irmão Eden, mantém hoje uma oficina de confecção de pereirões (bonecos gigantes), envolvendo uma ampla rede de crianças e voluntários dedicados. Todo tipo de gente é atraída e bem vinda, desde o pessoal mais simples da comunidade, até pedagogos que se empolgaram com a idéia.

A idéia de trabalhar com esses bonecos nasceu da lembrança dos carnavais que passou em Redenção da Serra, terra de seus avós, quando o menino Elder se assustava com as figuras dos gigantes Maria Angú e João Paulino. Viu na confecção destes bonecos a oportunidade de dar uma ocupação à criançada de rua e recriar uma fantasia de sua infância.

O nome Piracema é uma alusão ao retorno às origens, às fontes puras da nossa tradição, que hoje estão tão contaminadas pelas modernices enlatadas e massificantes. Piracema, pra quem não conhece o nome, é uma palavra de origem Tupi, que se decompõe em,  pira (peixe) e sema (sair). Segundo o dicionário, piracema designa um conhecido fenômeno da natureza, quando os peixes migram no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. Por extensão, designa também um movimento e o rumorejo dos cardumes quando sobem as correntezas.

O fenômeno da piracema, apesar de muito estudado, ainda é um enigma para os cientistas, no que diz respeito a suas razões maiores. Por motivos que só a natureza sabe, os peixes são movidos por incontida pulsão de voltar ao lugar onde nasceram, para nele projetar o futuro através da desova. Portanto, a imagem de um mergulho na tradição para, a partir dela, instalar a vanguarda, é a linha mestra do Espaço Piracema em São José dos Campos.

Eu fui parar neste lugar como pesquisador e curioso que sou, de todas as manifestações culturais espontâneas, essas que vem diretamente das entranhas do inconsciente. Quero voltar outras vezes, pois o que vi no Piracema é a vida pulsando em toda sua pujança. Assim, tive o cuidado de perguntar ao Elder se nossa presença não ia atrapalhar quando eles estivessem trabalhando e a resposta que ele me deu foi o fecho de ouro da visita de hoje.

__Chico, mas claro que não, vocês quando vierem vão fazer o boneco de vocês também. Vocês vão ser batizados, vão virar Piracema também…

Uniluz

janeiro 16, 2012

A vida tem me dado muitos presentes ultimamente. Tem sido um presente atrás do outro, eles vêm caindo no meu colo, assim, sem pedir licença e são tão fascinantes que ando esquecido do passado e não anseio mais pelo futuro. Contudo, decidi fazer um esforço, olhar pra trás e contar pra vocês sobre o meu último presente, um grandão, que ganhei neste fim de semana. Mas para contar desse presente, tenho que falar de outro que ganhei antes, a dona Cida.

A dona Cida é uma jovem senhora de 87 anos, um presente que me foi dado pela existência. Encontrei-a por acaso no lançamento de um livro, fomos apresentados, e bastou trocamos algumas palavras, para eu saber que aquela figurinha viva e de perspicazes olhos azuis, não poderia ficar de fora do livro de biografias que estou escrevendo. Afinal, não é toda hora que se encontra uma mulher, caipira do interior do estado de São Paulo, poliglota, culta, pilota de avião e que sabe conversar e tem opinião sobre qualquer assunto. Fiz várias entrevistas com ela e, o que a princípio era curiosidade, deu lugar a uma amizade que já nasceu antiga, tamanha nossa identificação e entendimento. Ao fim de uma dessas entrevistas, perguntei a dona Cida se hoje ela ainda tinha algum sonho, se havia alguma coisa que ela ainda não tinha realizado na vida. Na lata, ela me respondeu.

__Chico, eu quero muito ir para Nazaré Paulista, um lugar que tem uma comunidade diferente, você já ouviu falar?

__Sim, eu conheço, sei onde é, já passei em frente muitas vezes.

__Pois este é um lugar que eu quero conhecer. Já faz tempo que eu planejo ir visitar, Chico, mas nunca dá certo…

__Pois agora vai dar, dona Cida, eu vou levar você lá.

Convidei minha esposa, que para minha surpresa mostrou interesse imediato e fiz as reservas por email, nos inscrevemos no Viver em Grupo, que é a porta de entrada aos interessados em conhecerem o trabalho da comunidade. Um mes depois, na tarde de partimos para Nazaré, nenhum dos 3 sabendo bem do que se tratava. A viagem é curta, pouco mais de meia hora de carro, para quem sai de São José dos Campos.

A comunidade de Nazaré, um complexo de construções de tijolos à vista, à beira da represa do Rio Atibainha, tem hoje o nome de Uniluz, Universidade da Luz e para efeitos legais e práticos, qualificou-se como uma OSCIP. O espaço foi fundado há 30 anos, por Trigueirinho, inspirado no modelo da comunidade de Findhorn, Escócia e passou por diversas transformações, até chegar ao estágio atual, um centro de estudos e vivências, que tem como meta principal incentivar a meditação e o autoconhecimento.

Logo na recepção, já se faz notar a amorosidade e harmonia do lugar. Todos se olham nos olhos, são muito prestativos e estão presentes naquilo que fazem. Nos foram passadas as instruções de funcionamento da comunidade, o programa daquele fim de semana e em seguida nos conduziram aos nossos alojamentos individuais, em meio a jardins com muitas árvores, flores e ervas medicinais. Um regra muito enfatizada para quem chega é que não se tire fotos e que se desliguem os celulares, a fim de  que a atenção se dirija ao que se passa no nosso mundo interior. Que não se emitam julgamentos e que não se fale dos outros, mas sim para os outros.

A primeira atividade em grupo foi uma meditação, em silêncio total, num local muito agradável, construído exclusivamente para esta prática. Em seguida o jantar, uma sopa de abóboras, pão integral e manteiga, muito menos do que a minha fome precisava para ser aplacada. Pelos olhares da minha esposa, o estômago dela também ficou querendo mais… A alimentação em Nazaré é lacto-ovo-vegetariana, com receitas simples e muito bem preparadas, pouco tempero mas muito amor.

Depois da janta, um breve informativo, na verdade quase que uma repetição do que já tínhamos ouvido até então e fomos liberados para dormir. No caminho para os quartos, dona Cida, minha esposa e eu, nos perguntávamos se Nazaré era só isto ou se ia acontecer alguma coisa mais interessante. O meu nível de ansiedade estava alto, e o numero de horas até domingo me pareceu enorme. Folheei um livro que havia apanhado ao acaso na biblioteca e adormeci embalado pelas explicações de dimensões coexistentes no mesmo espaço/tempo, mas que não são percebidas por todo mundo. Ainda deu tempo de pensar: será que eu não estou deixando de ver alguma coisa acontecendo bem no meu nariz? Dormi um sono profundo e reparador.

Na manhã seguinte, acordei às 5h e 45min, a tempo de participar de uma prática de ioga, que nos estava sendo oferecida como brinde pelo professor (que lá eles chamam de focalizador) Marcel, algo fora do programa. Eu já participei de muitas práticas de ioga, mas esta foi especial. Me senti carregado, cuidado e transportado para um espaço de paz e relaxamento. A sala onde fizemos a prática é toda com paredes de vidro, o que deixava passar a luminosidade mágica do dia que nascia. Fui tomado de uma gratidão imensa, simplesmente por estar naquele lugar, sem desejos e com um surpreendente deficit de pensamentos.

À partir de então, fui envolvido por um fluxo ininterrupto de bem estar e pude receber o presente de Uniluz. Me desliguei dos horários e me lancei neste rio de sabedoria, que nos conduz exatamente onde devemos ir. Parei de me preocupar com o que estava fazendo minha esposa e com o conforto de dona Cida, passei a cuidar de mim e apenas do que me acontecia a cada momento. Fiquei enroscado nos pensamentos, umas duas ou tres vezes, quando alguma criança espetava meus ouvidos com seus gritos estridentes durante o almoço, ou quando a água quente me queimou durante uma cerimônia de escalda-pés. Afora isso foi tudo luz e insights, que não foram poucos. Com destaque para a vivência de Constelação Familiar, conduzida pela focalizadora Ana Líria.

Eu já tinha ouvido falar deste método psicoterapêutico, mas, para mim, não passava de uma terapia de grupo em que os participantes atuam os seus dramas particulares como se estivessem num palco. Mas eu caí do cavalo, ou melhor, montei num cavalo alado e fui transportado para espaços insólitos, através dos despretensiosos exercícios dados pela Ana Líria. Pude experimentar a força e o poder de ressoar com os “campos mórficos” e perceber com clareza, os padrões de comportamento que vem me amarrando aos mais diversos tipos de relacionamentos, sejam familiares, profissionais ou de casal. Isto tudo em apenas 40 minutos, através de 3 exercícios simples, conduzidos pela Ana. Fiquei tão empolgado com o trabalho, que convidei-a para um fórum no site em que eu trabalho, o YuBliss, que ela prontamente aceitou.

Nós chegamos à Uniluz na sexta-feira à tarde, o sábado eu não vi passar, e no domingo eu já estava me sentido em casa, tudo muito familiar, como se eu já morasse lá há tempos. A poucas horas do fim, enquanto fazíamos a partilha das experiências, me dei conta que dentro de algumas horas eu teria que voltar para o mundo real (?), mas tive toda segurança que o aprendizado daquele fim de semana iria extravasar para o meu dia a dia.

Durante a volta, no carro, trocando impressões com dona Cida e minha esposa, constatei que elas também estavam transformadas. Minha esposa não quis nem comentar sobre seus processos internos, mas eu podia perceber, claramente, uma aura de serenidade emanando dela, além de uma evidente satisfação estampada em seu rosto. Dona Cida, que normalmente é muito tagarela, sempre encontrando um meio de encompridar as conversas, estava quieta, muito quieta. Mas era um silêncio  vindo da paz e do contentamento que vinha do banco de trás, não incomodava. Só que eu não agüentei e perguntei a ela se estava tudo bem. Ela não respondeu. Aí eu me virei e encarei-a nos olhos.

__Dona Cida!?!

__Ahn??? Está falando comigo?

__Sim, está tudo bem aí com a senhora?

__Ah! Desculpe, é que eu estou viajando na cor azul do céu, que coisa mais linda essas nuvens fofas com jeito de sorvete de massa, vocês não estão vendo?

Falou isso e voltou ao seu silêncio. Se fosse uma outra ocasião, eu teria estranhado a resposta e questionado a lucidez da minha amiga. Mas naquela circunstância eu achei muito normal a resposta dela e tive a certeza de que Nazaré tinha feito um bem enorme à Dona Cida.


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