Posts Tagged ‘trabalho’

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

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FORNALHA MINEIRA

novembro 18, 2015

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Renato Barros se lembra do pai construindo fornalhas para assar broas e biscoitos e foi vendo o pai construir que ele aprendeu a fazer.

– Antigamente todo mundo tinha uma fornalha em casa; era como liquidificador, televisão e microondas nas casas de hoje – comenta Heloisa, irmã de Renato.

A fornalha é construída sobre uma cama de bambus, na qual se faz uma caixa com tijolos que será preenchida com areia, material isolante, para ajudar manter o calor. Acima da camada de areia vão os tijolos que serão o piso da fornalha.

Construir a abóbada da fornalha é uma arte e Renato diz que ele mesmo não entende muito bem como a coisa acontece, porque numa determinada fase os tijolos são assentados praticamente a prumo e não caem!

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É preciso fazer uma chaminé no alto e um respiradouro lateral para retirar as cinzas.

Outra arte é regular a temperatura da fornalha para assar , carnes, bolos, pães e biscoitos. Primeiro é preciso fazer fogo, muito fogo dentro da fornalha. Quando se formou bastante brasa, ela tem que ser bem espalhada. Só então mede-se a temperatura usando farinha de trigo e palha de milho. Conforme o estado da farinha, se queimou ou apenas amarelou, sabe-se se a temperatura está adequada para assar o bolo. A palha do milho é usada para saber a temperatura quando vai se assar carne. A palha tem que apenas pretejar, sem pegar fogo. Se pretejar está bom para assar, mas se queimar está quente demais e vai queimar tbm a carne.

Esta fornalha foi feita para assar roscas para a festa de São José do Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP.

Fiz um um video que conta passo a passo a construção da fornalha, desde o corte da madeira até o revestimento com tabatinga, um barro branco que é usado para vedar as rachaduras e também para boniteza da fornalha.

 

PASSEIO NA ROÇA

maio 11, 2014

 

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Saímos, minha esposa e eu, a passear sem rumo certo, pelas estradas de terra no entorno da pousada em que estávamos hospedados em Soledade de Minas MG.
Não andamos mais que 1km quando uma casa sombria, cercada por ciprestes e com ar de abandono nos atraiu a atenção. Passamos pelo portão de madeira, que estava aberto e passamos a explorar a casa pelo lado de fora.

Pelas vidraças pudemos ver que havia móveis, fogão, geladeira e algumas caixas de papelão empilhadas. Tudo indicava ser uma casa de campo utilizada esporadicamente por gente da cidade. Sentamo-nos na varanda, que dava para um bosque e nos imaginamos morando ali. Soprava um vento fresco. De olhos fechados e em silêncio, permanecemos um tempo que pareceu infinito.

O bosque em frente à varanda nos convidou para um passeio. Atendemos o chamado e descobrimos um caminho bem cuidado na parte mais baixa do bosque. Um caminho pede para ser percorrido, foi o que fizemos.

Não muito longe havia outra casa sem morador. À frente da casa um imenso gramado. No meio do gramado uma pirâmide de bambú. O local era mágico. Sem pensar, nos colocamos debaixo da pirâmide e nos energizamos. Havia magia no ar. Voltamos para a estrada principal.

Duzentos metros mais à frente, mais uma casa que parecia sem morador. Desta vez era evidente que se tratava de uma casa de gente da roça, pelo tipo de plantas no jardim, pelo paiolzinho esburacado e pela falta de árvores no pasto contíguo.
Já estávamos planejando entrar quando apareceu uma mulher caminhando pela estrada. Tratava-se da dona da casa. Conversa vai, conversa vem, ficamos sabendo que a mulher, dona Anésia, faz artesanato de palha de milho. Ficou encantada ao saber do meu interesse em fazer um video com o registro de seu trabalho. Gostou tanto da idéia que desmarcou um compromisso e agendamos a filmagem para o dia seguinte.

Seguimos adiante e avistamos uma porteira com uma placa com os dizeres: VENDE-SE ESTE SÍTIO. Batemos palmas e enquanto não nos atendiam, fizemos planos de nos mudar para o sítio. Veio até a porteira um senhor de seus 70 anos acompanhado de dois cachorros.Ele nos informou que o sítio não era aquele, mas sim terreno a alguns quilômetros dali. Enquanto eu assuntava com o velho, minha esposa foi ao pomar e apanhou laranjas azedas que estavam caídas ao pé da laranjeira. O velho ficou contente que alguém tivesse apanhado as laranjas, disse que estavam perdendo mesmo.

Seguimos um pouco mais adiante e minha esposa disse que queria voltar porque estava com vontade de fazer xixi. Eu apontei o mato da beira da estrada. Ela me disse que nunca havia feito xixi no mato e eu, muito surpreso por saber que uma pessoa de 52 anos nunca tinha feito xixi no mato, respondi que sempre existe a primeira vez. Ela me disse que tinha medo de cobra. Eu disse que ficava perto dela e a protegeria das cobras enquanto ela fazia xixi.

Fomos até um bambuzeiro e ela se agachou mas nada de sair o xixi. Ela falou que não ia conseguir, tinha que voltar para casa. Eu tive a idéia de que se ela se sentasse em minhas pernas, como se estivesse em um vaso sanitário, poderia relaxar e soltar o liquido. Deu certo, ela conseguiu nesta posição.

Continuamos o caminho mais algumas centenas de metros, mas o sol forte do meio do dia nos intimou a dar meia volta.

O ar estava abafado, era época da Quaresma e eu falei sem pensar que era bem provável que encontrássemos uma cobra em nosso caminho. Dito e feito, não deu 5 minutos e se não fosse eu agarrar e puxar os braços de minha esposa, ela teria pisado em cima de uma boipeva de mais de metro de comprimento.

Minha esposa deu um berro e grudou em mim. Eu pedi que ela se afastasse para não assustar a cobra e passei a tirar fotos com uma câmera do celular dela. Um cachorro que nos acompanhava, sem mostrar medo, acabou tocando a cobra que fugiu para o mato em frente da casa dos ciprestes.

A boipeva não é uma cobra venenosa, mas assusta e quando se vê acuada ela dobra de volume e se achata no solo, parecendo muito maior do que é. Decerto é algum mecanismo de defesa. Minha esposa me perguntou como é que eu sabia que íamos encontrar a cobra. Eu disse que não sabia, apenas senti que ela ia aparecer e ela apareceu. Minha esposa passou a usar botas depois deste encontro com a cobra.

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No dia seguinte fomos à casa de dona Anésia fazer o vídeo. Havia muitos parentes dela, talvez informados que a TV faria filmagens. Dona Anésia serviu café de coador, bolo de fubá caseiro e todos os parentes dela ficaram olhando a entrevista muito comportados. Foi um momento importante na vida deles e na nossa. É sempre emocionante presenciar a inocência e pureza das pessoas da roça, principalmente quando se sentem valorizadas pelas pessoas da cidade.

Fizemos um video didático sobre o trabalho de dona Anésia e prometemos voltar à casa dela para entregar um DVD com o filme. Ficamos sabendo por intermédio um amigo, o dono da pousada, que dona Anésia até já comprou um aparelho de DVD para assistir ao video.

 

 

 

SEU CARLINHOS – MOÇAMBIQUE E FOLIA DO DIVINO

janeiro 12, 2014

 

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Seu Luís Carlos Francisco, ou seu Carlinhos, como ele é mais conhecido, nasceu e sempre viveu no distrito de Eugenio de Melo em São José dos Campos SP. Aos 11 anos, já trabalhando com agricultor, se encantou com a beleza dos movimentos de um Moçambique que havia na região e pediu para participar. Dançou durante alguns anos, até que o grupo se desfez porque o mestre acabou indo embora da cidade e seu Carlinhos ficou na saudade…

Muitos anos mais tarde, a pedido do sub-prefeito de Eugenio de Melo, Seu Carlinhos foi encarregado de montar um novo grupo de Moçambique para animar uma festa de São Benedito, o que ele fez com base no conhecimento adquirido quando rapaz. Para ele não foi difícil, pois no seu dia-a-dia na lavoura vivia assoviando as melodias do Moçambique. Já para remontar os versos, o que ele não guardara na memória foi inventando da própria cabeça…

Assim surgiu O Grupo de Moçambique Companhia de São Benedito, que já vai para mais de 30 anos de existência, sempre sob o comando de seu Carlinhos, que hoje só não dança mais porque o corpo não permite. O cargo de mestre passou para seu Marinho, que está na folia desde os primórdios.

Um belo dia, o festeiro da Festa do Divino de Eugenio de Melo resolveu que queria uma folia do divino para arrecadar prendas para a festa e “convocou” o grupo de seu Carlinhos para tal tarefa. Seu Carlinhos recusou, haja vista que nunca havia ouvido falar de uma folia do divino e não tinha a mínima idéia de como montar uma… Entretanto, havia um problema. O cartaz da festa já havia sido impresso e anunciava que o grupo do seu Carlinhos iria fazer a alvorada. E agora, que fazer?

Homem de brio que é, sentindo a expectativa do povo devoto, seu Carlinhos não quis manchar o nome de sua companhia e tomou para si a tarefa de montar uma folia do divino no exíguo prazo de três dias que faltavam para a saída da bandeira. Assim, varou as madrugadas rabiscando letra e música para os versos do que imaginou que seria uma folia do divino em peregrinação fazendo os pedidos de prendas.  Ele conseguiu encher 30 páginas durante essas 3 noites em claro.

Como não havia tempo para ensaiar com o grupo, o que seu Carlinhos fez foi passar rapidamente para o pessoal, nos minutos que antecederam a alvorada, as melodias para que eles acompanhassem o mestre, que faria a voz. Estourados os rojões, lá partiram para o campo os 6 integrantes, munidos de viola, violão e muita coragem para enfrentar o desafio de percorrer 35 km num só dia, pedindo prendas em nome do festeiro. A bandeira foi feita por dona Maria Lucia, esposa do seu Carlinhos, que amarrou as três primeiras fitas, uma para o Pai, outra para o Filho e outra para o Divino Espírito Santo.

Foi uma caminhada difícil, o povo não sabia o que era aquele bando de gente que surgia tocando, cantando e pedindo diante de suas porteiras e muitas deles nem se dignaram recebe-los. Comida só foram comer de verdade lá pelas 10 da noite, exaustos da caminhada. Durante o dia enganaram a fome com bolachas e cafés nas vendas do caminho. Nesta primeira vez, como o povo não estava habituado, ninguém se preocupou com a alimentação dos foliões.

Depois desse primeiro dia, a Folia do Divino de Eugenio de Melo tornou-se uma tradição na cidade e vem saindo a cada ano, não só pedindo prendas para a Festa do Divino na cidade, mas também em outros eventos, tamanha a fama que o grupo ganhou.

Perguntei a seu Carlinhos se os versos que ele canta hoje ainda são os mesmos daquelas 30 páginas compostas nas madrugadas em claro.

__”São nada, Chico, os versos a gente vai variando pelo caminho afora. Se eu canto uma coisa numa casa, na seguinte já é outros os verso e se tem alguém gravando muito que bem, pois do contrário eu não sei repetir. É tudo de improviso, conforme o momento pede que seja.”

__Mas seu Carlinhos, me diga uma coisa. O senhor não conhecia nada de folia do divino e de uma hora pra outra monta uma folia que vem acontecendo há mais de 30 anos! Como o senhor explica isso?

Seu Carlinhos assume um tom solene e depois de um longo silêncio explica:

__”Ah, meu filho, isso não é obra nossa. Pra essas coisas quem ensina e ilumina é o próprio Espírito Santo. Meu trabalho só é permitir que ele se manifeste”.

A bandeira que o grupo usa é a mesma que foi confeccionada lá atrás, só que hoje o bandeireiro que hoje a empunha durante as saídas, carrega agora 15 (quinze) kg de fitas dos pedidos e graças alcançados. Seu Carlinhos foi obrigado a dividir as fitas e fazer uma outra bandeira, criando um novo ritual que é o encontro das duas bandeiras. Essa nova bandeira passa um ano na casa de quem fizer o pedido e o ritual da mudança acontece no 3º domingo de janeiro de cada ano.

E assim vão se reinventando as tradições do nosso povo.

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FOLIA DE REIS

janeiro 1, 2014

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Dona Luisa me convidou para filmar e fotografar a folia de reis da qual ela faz parte como bandeireira, a Companhia de Reis Irmandade do Novo Horizonte. Os integrantes são em sua maioria mineiros ou descendentes de mineiros e todos deles participam de folias de reis desde pequenos. Tendo migrado de Minas Gerais, conservam a tradição que para eles é sinônimo de Natal.

O tempo estava muito abafado e com cara de chuva, por isso resolvi ligar para Luisa, a fim saber como ficava em caso da água despencar do céu. Eles sairiam mesmo assim?

 __”Nóis sái do mesmo jeito, Chico! Faça chuva ou faça sol, a gente tá lá pra cantá pra Santo Reis”.

 Vesti uma calça comprida em respeito à devoção deles e lá fui eu para a rua, quatro horas da tarde, com aquele solão danado martelando na cabeça… O grupo já estava cantando desde a uma da tarde e quando os encontrei ninguém aparentava cansaço. O palhaço, ou marungo ia gritando em frente aos portões:

__ “Ei, patroa, Santo Reis demorô mas chegô, patroa. Vai querê recebê a bandeira de Santo Reis, patroa?”

De dentro da casa uma voz de criança manda esperar que a mãe já vai abrir para a folia entrar. O mestre dá o sinal e a sanfona, tocada pelo garoto de 14 anos, arrasta consigo os instrumentos e as vozes pedindo que a dona da casa aceite a bandeira. Ela aceita e os foliões em cortejo adentram a casa, postando-se em frente ao presépio. As crianças só tem olhos para os palhaços e os olhos da dona da casa se enchem de lágrimas porque folia de reis traz as lembranças de sua infância em Minas Gerais…

A próxima parada é um bar e a dona, que veste um tomara que caia, é chamada para receber a bandeira.

__”Não posso não, tô me sentindo muito nua assim, pede ali para minha irmã segurar, fazême o favor”. 

A irmã toda contente empunha a bandeira e ensaia uns passos de dança com os palhaços, enquanto faz pose para os cliques do fotógrafo. A folia fica pouco tempo no bar, o ambiente não é hostil mas também não é acolhedor. Os bebuns olham os foliões como se fossem uma curiosidade saída dos livros de história do curso primário.

De morada em morada, chegamos à casa grande no fim da rua, onde será oferecido um jantar aos foliões, uma pausa antes de continuarem a peregrinação que deve durar até tarde da noite. A família toda já está reunida ao lado da porteira, para receber a bandeira. O momento é solene.

Recebida a bandeira, sentam-se todos às mesas e tomam guaraná e coca gelados. Um bufê é servido e insistem para que eu coma também. Tenho dificuldade de parar de fotografar, tamanha a riqueza que se revela aos meus olhos nestes encontros. Acabo fazendo meu prato com salada, arroz, feijão, farofa e um tiquinho de carne. Coca ou guaraná? Eu sempre fico na duvida de qual vai me fazer menos mal…

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Passo às entrevistas, enquanto o pessoal faz a digestão e descansa um pouco. Quero fazer um video e preciso das falas das pessoas. Descobri que esta folia de reis tem dois mestres que se revezam no comando e que um dos palhaços passa o ano todo maquinando sua fantasia para sair no fim do ano. Ele mesmo idealiza, compra os adereços e quem confecciona é a vizinha costureira. Sua fantasia tem colares, muito brilho e até um chapéu de onde pendem caveiras de plástico, papais-noéis, sinos, bolas coloridas, espelhos e uma infinidade de outros badulaques.

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As máscaras, que antes eram feitas de couro e pelos de animais, hoje já não assustam mais as crianças. Tudo é comprado em lojas de tecidos e artigos para natal e apesar da evidente criatividade, o material industrializado acaba sacrificando a magia.

Sou apresentado à dona da casa, que gentilmente concorda em ser entrevistada e o que é melhor, autoriza divulgação do material pelo YouTube. Dona Iolanda é mineira de nascimento e há 43 anos está em São José dos Campos. Se emociona ao falar da importância que tem a folia de reis em sua vida e na vida de sua família. Quando criança os irmãos saiam de palhaços nas folias e era ela quem fazia as máscaras com crina de cavalo, tela de mosquiteiro e tinta guache. A avó confeccionava as roupas de chitão, bem mais singelas que estas repletas de lantejoulas e penduricalhos como se vê hoje.

Dona Iolanda nunca deixa de convidar uma folia de reis nesta época do ano e servir uma boa refeição. Chegou até a “importar” folias de Minas Gerais quando não encontra uma local para visitar sua casa. Fiquei curioso, quis saber se as folias de Minas são como as daqui, se tem mulheres que participam, ou se mantiveram mais fiéis à tradição. Ao que dona Iolanda respondeu:

__Tudo igual às daqui, Chico. O mundo está mudando em todo lugar. As mulheres estão ocupando os lugares que antes eram só dos homens, por que não nas folias também?

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Mestre Tiãozinho

janeiro 18, 2013

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Sábado passado, a convite de um amigo, o Orlando, fui conhecer uma folia de reis, na cidade de Caçapava SP. Até algum tempo atrás eu não tinha idéia do que era uma folia de reis. Se me perguntassem eu chutaria algo ligado ao carnaval, já que nesta festa pagã temos um rei Momo e muita folia.

Esta associação faz sentido, como me explicou Orlando, que é folião de reis desde criança. Disse ele que nunca usam o nome folia para referir-se ao próprio grupo, justamente por causa da conotacão desta palavra com bagunça ou baderna. Preferem denominar-se Companhia de Reis, ao invés de Folia de Reis.

Folia de Reis, para quem não conhece, é um festejo popular ligado às comemorações do Natal, no qual se reencena com danças, cantos e rezas, o ritual da visita dos 3 reis magos ao Menino Jesus. De origem portuguesa, segundo os estudiosos, teria chegado ao Brasil na virada do sec XVII para o XVIII e aqui adquiriu características próprias da nossa cultura.

Pois bem, num sábado de manhã cinzento, lá fomos nós, Orlando e eu, em direção ao bairro Nossa Senhora de Guadalupe, zona rural da cidade de Caçapava. Depois de 7 km de muito barro, chegamos a um grupamento de no máximo 50 casas, que arrodeavam uma capela, o prédio da escola e o campo de futebol.

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Orlando é agricultor, mora em São José dos Campos e, por sua vez, foi convidado para esta festa por Mestre Tiãozinho, que foi quem o introduziu nas folias de reis, quando ambos moravam em Areias SP, há quase 50 anos. Orlando tinha sido convidado para cantar com a folia neste dia e chegamos mais cedo para que ele pudesse ensaiar e ver sua sua voz “encaixava”.

A movimentação já era grande no bairro. Um palco com alto falantes sendo montado em frente ao campo de futebol, muitas bandeirolas colorindo a capela e o caminho com os 3 arcos já delimitado e devidamente enfeitado. Entramos na casa de Mestre Tiãozinho e encontramo-lo sentado na varanda, disputando o espaço com uma quantidade enorme de roupas que estavam a secar, ao abrigo da chuvinha que caia fina e intermitente. Fazia frio e Mestre Tiãozinho vestia casaco e na cabeça tinha um gorro azul-claro de lã. A varanda era escura e por isso estranhei os enormes óculos escuros que escondiam seus olhos.

Orlando me apresentou como pesquisador que viera fazer uma entrevista com seu mestre e “filmar” a Festa de Santos Reis. Mestre Tiãozinho não levantou-se da cadeira mas alcançou minhas mãos, segurou-as com força e com uma voz muito baixa, como se estivesse fazendo uma oração ou me abençoando, me deu as boas vindas e disse que estava inteiramente à minha disposição. Aproveitando a oportunidade, liguei a camera e comecei a entrevista imediatamente.

Mestre Tiãzinho fazia muitos movimentos com as mãos, para enfatizar seu discurso e várias vezes eu tive que desviar a camera, para que ele não a golpeasse. Foi então que a ficha caiu e me dei conta do óbvio. Ele era cego…

No quintal de sua casa, rojões espocavam e um grupo de músicos da folia ensaiava. O barulho era suficiente para encobrir a voz baixa de Mestre Tiãozinho e eu tive muita dificuldade para entender o que ele dizia. Depois das perguntas e respostas de praxe, como nome, idade e origem, perguntei sobre a folia, como foi que ele começou a participar das folias. Eu não conseguia escutar direito o que ele dizia e me pareceu que ele fazia um discurso decorado sobre a origem da folia de reis, algo que ele havia lido em algum livro. Como ele estava muito sério e compenetrado, deixei que ele falasse à vontade, não quis interromper aquele senhor de 72 anos que tirou mais de meia hora para me atender, neste que era um dia tão importante para ele. Depois eu escutaria em casa e escolheria as partes que me interessavam.

Algumas vezes as pessoas resolvem falar sobre o que leram nos livros e deixam de lado, como menos importante, aquilo que é a experiência delas, que, na verdade é o que mais me interessa.

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Depois da entrevista, foi servido um almoço para mais de 100 pessoas, tudo de graça. Barriga, cheia, a folia saiu da frente da casa de Mestre Tiãozinho bairro afora, rezando e cantando, seguida de populares e crianças arreliando os palhaços que iam à frente da procissão. Foi rezado todo o terço, que terminou na pequena capela do bairro. Em seguida foram até a casa do festeiro buscar a bandeira e dirigiram-se aos arcos. Passados os arcos, chegaram ao palco, onde foi feita a passagem da coroa, do festeiro atual para o próximo. Passada a coroa e tiradas as fotos posadas com todo o grupo, teve início o leilão.

Toda essa movimentação, desde a saída da procissão, até a passagem da coroa, tudo isso foi coordenado por Mestre Tiãozinho, que volta e meia era consultado sobre o percurso, canções, seqüência do rito e coisas que não pude escutar pois cochichavam somente no ouvido dele. Foram mais de 3 horas, do início ao fim das rezas e cantorias e eu estava cansado de ficar com a camera suspensa, cuidando para não perder nenhum detalhe e ao mesmo tempo não atrapalhar ou interferir nos rituais, o que é praticamente impossível de se conseguir. Como Orlando havia dito que tinha que trabalhar cedo no dia seguinte, resolvi que era hora de irmos, mesmo sem ver o leilão e a roda de viola que estava programada para mais tarde.

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Nos despedimos de Mestre Tiãozinho e ele foi enfático ao dizer que gostaria que eu voltasse ao bairro, que as portas estariam abertas para mim e que gostou muito da visita. Lembrou do meu nome e isso chamou minha atenção, pois havíamos nos falado apenas uma vez.

Já em casa, no dia seguinte, ao escutar as gravações, me surpreendi com o que eu achei, durante a entrevista, fosse apenas um discurso decorado. Como eu não havia escutado direito o começo da gravação, fiquei apenas com uma parte da história, que agora vocês vão ler inteira.

Quando jovem Mestre Tiãzinho tinha saído a passeio com amigos, nas cercanias de Areias. Encontraram um museu e neste museu havia uma Escritura Sagrada, que ele garantiu que não era uma Biblia Sagrada. Neste livro, ele encontrou o relato que o inspirou a compor as musicas e letras que atualmente toca em sua folia de reis. Segundo Mestre Tiãozinho, Deus o conduziu diretamente às paginas que relatam os eventos que antecederam o nascimento do Menino Jesus.

Ele começou a contar do ponto em que o O Pai Eterno conversou com Santana, mãe de Maria Santissima e resolveu que, através de Maria, enviaria um menino para tomar conta do mundo e endireita-lo, pois que na época, todos estavam imersos em uma grande confusão. Este mundo era governado pelo rei Herodes, pelo rei Congo, rei Davi e um outro que ele não conseguiu lembrar o nome.

O Pai Eterno deu então início à “formatura do presépio” e começou a preparar o “Divino Espírito Santo” para trazer o Menino Jesus ao ventre de Maria. Enviou o Divino Espírito Santo à Terra para que ele procurasse e encontrasse aquela que tivesse o poder de ser a mãe de Jesus. A quarta mulher que ele encontrou foi Maria, a escolhida. Maria dormiu e num sonho, o Divino Espirito Santo teria dito ao seu ouvido, que ela seria a mãe de Jesus.

Nessa hora aparecem o Pai Eterno e os anjos Daniel e Gabriel e este ultimo é que teria colocado Jesus no ventre de Maria. Gabriel disse a Maria, enquanto ela dormia, que ela seria a mãe do Filho de Deus. Maria pensou que estivesse sonhando e o Pai Eterno teve que voltar, acompanhado de Gabriel, Daniel e o Divino Espírito Santo, para que ela acreditasse que seria a mãe do Menino Jesus. Só então o anjo Gabriel pode colocar o menino no ventre de Maria, depois que ela adormeceu novamente.

Maria acordou, ajoelhou-se, cobriu o rosto com um véu e agradeceu o Divino Espírito Santo, pelo presente que ela tinha recebido naquele momento. Aquele seria o Menino Jesus, que nasceria para “tomá conta do mundo“. Depois disso, o anjo Gabriel pediu autorização à Maria, para que compusessem um hino em louvação ao Menino Jesus, para alegrar o Menino Jesus quando ele nascesse. Maria autorizou e eles “subiram e fizeram o hino“.

Quando nasceu o Menino Jesus, o Divino Espirito Santo avisou Gabriel e Daniel, “cês pode descê, cantá o hino que o Menino já foi nascido“. Eles desceram justamente na vespera do dia 6 de janeiro, perto da meia noite. O anjo Gabriel trouxe um violino e o anjo Daniel uma varinha para o acompanhamento e quando iam começar a tocar, chegaram os 3 reis com os presentes. Os 3 reis “achô bonito e ajudô eles cantá o hino também“. Estava formado um grupo com 5 integrantes, “os dois anjo e os trêis reis santo“.  Quando eles terminaram de cantar, Nossa Senhora abençoou-os como “Folia de Santos Reis” e São José marcou a data, véspera do dia 6 de janeiro.

O Divino Espírito Santo voltou ao céu e pediu ao Pai Eterno, que consultou Santana e a Virgem Santíssima para imprimir o livro da Profecia. Este livro foi entregue para o anjo Gabriel, que o entregou para os 3 reis santos. Ele teria dado nas mãos do rei Gaspar, “aquele que chega no presépio e joêia“. E foi desse livro que mestre Tiãozinho “encontrou o nascimento inteiro, aí… pelo nascimento eu tirei a cantoria da folia de reis… então o povo que vê nóis cantano, fica espantado e vem… turma de mestre folião perguntano com quem que nóis aprendemo cantá reis… porque eles num tem a disciplina que nóis tem, pra cantoria de reis“.

Na sequencia da entrevista, não entendendo que ele tinha encontrado a escritura sagrada, perguntei a Mestre Tiãzinho, como tinha que ser uma folia de reis, na concepção dele. Ao que ele respondeu:

“__Cada uma é diferente da outra. Cada uma delas tem um tipo de cantoria e tem um tipo de apreparo, entendeu?… cada uma delas. A folia de santo reis num podi sê tocada de quarqué manera, mai num pódi tamém se exibí, porque a cantoria de santo reis num pódi se exibí. Tem qui sê cum fé, cum amor i siguí a tradição qui é. Tem qui sê bem preparado mai na tradição antiga, si botá exibição, aí já fica na mudernage di hoje, aí já num é mais a tradição… que Deus dexô… A tradição qui Deus deixô é a… a bandeirinha simpre, igual nóis tem, noi tamo cum esse uniforminho nosso, de apresentação, a tradição nossa, a bandeira nossa é enfeitadinha, bem enfeitadinha, mas sem exibição, é tudu mundo… sem exibição, sem querê sê grande, sem altral arto… humirde.”

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Depois de escutar tudo isso, a figura de Mestre Tiãozinho cresceu para mim. Ele se considera uma pessoa especial, um escolhido. Fiquei sabendo depois, que ele é um benzedor. Cresceu meu interesse pelo homem e resolvi que vou aceitar seu convite para voltar ao bairro Nossa Senhora de Guadalupe. Aguardem, devo voltar com novas histórias…

 

Aqui abaixo, um pequeno vídeo com trechos escolhidos da Festa de Santos Reis do Bairro de Nossa Senhora de Guadalupe.

Caio

junho 13, 2012

Se tem uma coisa que me atrai é gente que destoa do comum. Semana passada eu estava fazendo minhas compras na feira, quando vi um rapaz agitado e falante, diante de um caixote de frutas, desses de madeira clara. Sobre o caixote havia vários objetos verdes, de um material que não consegui identificar à primeira vista. Seriam bichinhos de plástico made in China? Um olhar mais acurado e um toque nas peças me revelaram que se tratava de material natural, folhagem de alguma planta.

__O senhor gostou? – me perguntou o rapaz?

__É você que faz?

__A gente mesmo é o artista, meu senhor.

__E isso é feito com folha de que? Palmeira?

__Não, senhor, é com folha de coqueiro, do anão.

__E onde você arruma as folhas de coqueiro?

__A gente é andarilho, não para nunca. Sou que nem maluco de BR, tenho rodinha no pé, quando eu topo com um coqueiro, vou lá e zápt, corto um tanto que não prejudique a planta, tá ligado?

O rapaz pegou uma folha que estava ao lado do caixote, cortou-a com uma faca de mesa comum, dessas de serrinha e começou a trançar. Tive dificuldade de acompanhar os movimentos dele, era muito rápido demais! Corta daqui, trança dali e de repente, surge nas mãos dele um grilo, perfeito! Pena que eu estava sem minha câmara, queria ter registrado o feito…

__Escuta, eu quero filmar o seu artesanato, como eu posso fazer para encontrar você? Você tem um celular pra eu ligar e combinarmos?

__Não, não mexo com essas coisas, senhor. A gente é desapegado das tecnologias…

__Não tem celular? Mas você mora onde?

__Por aí, a gente dorme onde dá, por aí mesmo. Pode procurar a gente ali na pracinha da Igreja de São Dimas, todo mundo conhece me conhece nessas redondezas. Eu não saio de lá.

__E o seu nome?

__Caio.

Dois dias depois apareci na pracinha de São Dimas procurando por ele. Ninguém conhecia o tal Caio. Fiquei decepcionado, será que o cara tinha mentido pra mim? Já ia indo pro carro quando vi uma molecada, 3 meninos desses de rua, sujos e mal vestidos, carregando umas folhas de coqueiro. Me aproximei deles e perguntei:

__Vocês mexem com artesanato? Conhecem o Caio?

Eles me olharam desconfiados e desafiadores. Senti o peso no ar…

__Aqui não tem nenhum Caio.

__Eu encontrei com ele na feira do Santos Dumont, ele faz artesanato com folhas de coqueiro, iguais e essas que vocês estão carregando. – Descrevi o Caio para eles, gorro vermelho, falante, 1,70m, etc…

__Ah, você tá falando do Grilo, o nosso professor!

__Professor?

__É, o Grilo foi o nosso professor, ele ensinou a gente a fazer 28 tipos de objetos com folha de coqueiro, gente boa.

__Então, onde é que está o Grilo.

__Mas o que você quer com ele?

__To querendo filmar o cara enquanto ele monta uma peça, só isso, ele sabe já falei com ele sobre isso.

Eles me mediram mais um pouco, se entreolharam e resolveram que iam chamar o Grilo pra mim.

Dez minutos depois me aparece o Caio, já veio pedindo desculpas, não ia dar pra filmar naquela hora, que eles estavam indo tomar banho. Dali um minuto ia passar a Ronda Social, um serviço da prefeitura que recolhe moradores de rua e dá um trato neles. Achei que ele estava me enrolando, mas não deu um minuto e apareceu mesmo uma Kombi. Antes deles entrarem no veículo, combinei de nos encontrarmos na semana que vem, na mesma feira em que eu o tinha conhecido.

Dessa vez deu certo, na semana que vem eu o encontrei no mesmo lugar, vendendo seus objetos na feira. Fizemos o filme que você pode conferir abaixo e ele me contou um pouco da vide dele.

Disse que abandonou o lar logo cedo, porque não se entendia com o padrasto. Este queria que ele estudasse, fosse alguém na vida e o Caio nunca gostou de contas, fórmulas, cadernos e livros seu negócio era trabalhar com as mãos, criar com o que estivesse a seu redor. Assim sendo, Caio fugiu da casa da mãe em Jundiaí e procurou o pai, um hippy que na época estava no Paraná. Com ele aprendeu a dobrar arame e montar bijuterias com durepoxi. Mais tarde conheceu os indios que ensinaram o tal do encarpeamento, que segundo ele é o nome da arte de fazer objetos com folha de coqueiro. Caio se considera um homem livre, que não gosta de ter coisas e se diz desapegado de tudo que a sociedade de consumo pode proporcionar ao ser humano. Por isso, vive com o que pode carregar na mochila e não tem parada, não consegue se imaginar tendo um CEP.

Perguntei a ele há quanto tempo está em São José dos Campos e para onde pretende ir depois daqui.

__Já estou aqui há dois anos.

__Dois anos? Mas pra quem tem rodinhas nos pés isso não é muito? Por que você está aqui há tanto tempo?

__Porque aqui é a cidade do Tio Patinhas. Aqui a gente vende bem, o povo tem grana sobrando!

Não pude deixar de concordar com ele, a cidade é rica, tão rica que pode se dar ao luxo de abrigar “desapegados” como o Caio…

 

 

 

 

 

 

Seu Ivan

março 11, 2012

É um defeito meu querer me ocupar, estar sempre fazendo algo útil e produtivo. Na verdade é mais que um defeito, é pior, é um vício disfarçado de virtude. Porque o se ocupar é visto como uma boa qualidade no meio em que fui criado. Existe até um dito popular que afirma – O ócio é a oficina do diabo. Imagino que isso tenha um peso enorme sobre a consciência da maioria das pessoas, ninguém questiona, é como se esta informação já viesse impressa no DNA.

Definitivamente, a sociedade não vê com bons olhos um ser desocupado e eu, como a maioria, prefiro não ser visto com maus olhos, de modo que procuro me ocupar o tempo todo… Ou procurava, até sexta feira passada, quando eu perambulava pelo centro da cidade, esperando que o mecânico desse um jeito no suspiro do tanque de combustível do meu carro, que estava entupido.

Como o conserto deveria ser rápido, coisa de umas duas horas, decidi não percorrer os 7 km de volta pra casa e fiquei ali pelo centro mesmo, passeando entre os camelôs que agora infestam a região. Percorri as bancas montadas na praça, em frente à Igreja Matriz e uma passada de olhos rápida nos títulos dos DVDs não me mostrou nada interessante, só blockbusters. Eu já havia caminhado uns 20 minutos, com uma pesada mochila às costas (por causa do computador, caso eu resolvesse trabalhar um pouco enquanto esperava), e procurei um banco sob as árvores, para descansar. Mas cadê que eu encontrava um banco vazio? Estavam todos ocupados por… desocupados! Daquele tipo de desocupados que você vê que não estão fazendo nada mesmo. Um pensamento rápido me passou pela cabeça – “Será que essa gente não tem mais o que fazer da vida além de se sentar num banco de praça?” Ao mesmo tempo que tive a impressão de que eles me olhavam como se eu fosse um estrangeiro perdido, recém-chegado ao país dos desocupados…

Que fazer? As costas já me doíam, eu estava a ponto de me sentar ali no chão da praça mesmo quando me lembrei que dentro da igreja há bancos, e que além de ser bem fresquinho, seria também um descanso para os ouvidos. Adentrei o templo quase vazio, sentei-me no ultimo banco, depositei a mochila a meu lado e pude, finalmente, relaxar. Respirei fundo um par de vezes, tentei meditar, mas foi impossível, não consegui ficar parado, observando o ar entrando e saindo das minhas narinas. Senti uma vontade irresistível de abrir o computador e começar um relato sobre as minhas impressões do centro da cidade. Mas eu não podia fazer isso ali, seria muito desrespeitoso. Quer dizer, poder eu podia, mas não queria que me expulsassem do templo como Jesus fez com os vendilhões, isso não! Quem sabe um banco não havia vagado na praça?

Saí da igreja e procurei um banco, mas ainda não havia nenhum lugar vago. Na verdade havia chegado mais gente, a cidade começava a se encher, o sol cada vez mais quente e eu cogitei voltar pra casa. Já ia caminhando na direção da  rodoviária, pra pegar o ônibus, quando dei de cara com um salão de beleza e lembrei que meus cabelos já tinham sido objeto de crítica por mais de uma pessoa nos últimos dias. Resolvi aproveitar então a oportunidade. Entrei no salão e passei reto por um homem que estava na porta, com um olhar fixo de quem parecia estar muito longe dali. A cabeleireira que fazia o penteado de uma perua me informou que quem cortava cabelo masculino era o senhor de olhar fixo, aquele por quem eu tinha passado na entrada.

Me aproximei do senhor de olhar fixo e perguntei se podia cortar meu cabelo. Ele me respondeu com um sorriso e apontou a cadeira de barbeiro vazia. Seu Ivan, um moreno escuro, esguio e quase sem cabelos brancos, não tinha pressa nenhuma, fazia tudo com uma lentidão bahiana. No papo, descobri que ele era mesmo bahiano, nascido em Valença, ao sul de Salvador. Descobri também que ele tem quase 80 anos, aparenta apenas 60 e que adora conversar. A cada pergunta que eu fazia, Seu Ivan interrompia o corte, se postava à minha frente e respondia com uma minúcia virginiana. O que ele me contava era tão interessante que, por mais que eu tentasse, não conseguiria me irritar com a lentidão do homem… Eu escutava tudo e ainda perguntava mais.

Primeiro quis saber o que estava procurando o seu olhar distante, aquele que eu notei quando entrei.

__Nada, moço, eu não procurava nada, não. Estava é assistindo o filme da vida, minha diversão enquanto não corto cabelo – assim dizendo, colocou-se à minha frente e fez um discurso sobre a pressa que os paulistas tem no sangue e ele , como bahiano há mais de 50 em solo paulista, ainda não conseguiu entender. Ele continuou…

__Já fiz foi perguntar para todo tipo de gente. E foi gente importante, assessor de prefeito, professor de faculdade, filósofo, eles dizem que isso não é coisa para se entender, é da natureza do povo aqui do sul, dos descendentes de europeus.

Depois, eu quis saber como é que ele mantinha a forma, se fazia algum exercício para manter aquela forma aos 80 anos.

__Meu exercício é andar de casa até o trabalho, do trabalho de volta pra casa.

Imaginei que ele morasse longe, alguns kilometros, no mínimo.

__Moro não, minha casa é a duas quadras daqui, ao lado do Mercado.

__Mas como é que o senhor mantém essa forma, assim, magrinho e esperto?

Mais uma vez ele parou a tesoura, foi para minha frente e me contou tim tim por tim tim, como é que ele mesmo preparava, todos os dias, seu café da manhã, almoço e janta, que esse era o segredo da sua saúde de ferro. Que pão branco com manteiga ele não comia, que isso faz é muito mal à saúde! Comer fora, segundo  ele, é muito arriscado, nunca se sabe o que vai pela cabeça do cozinheiro enquanto prepara a comida… Eis o relato resumido:

__Primeiro eu cozinho duas bananas compridas bem maduras, ou pode ser um inhame grande, mas os dois tem que ser com a casca. Quando ficou molezinho eu descasco, coloco num prato, ralo meio coco fresco, adiciono uma pitada de sal, outra de açúcar e pronto, é o meu café, que tomo desde menino. No almoço é feijão de corda verde (quando tem, senão é maduro mesmo), arroz e mistura, mais um jerimum ou uma couve, ambos refogados. De noite é só uma sopa, pode ser do que for, mas tem que ser sopa. E sobremesa não me dou o luxo, isso é coisa para o paladar de gente mimada.

__Mas e nem uma frutinha de vez em quando, Seu Ivan? – perguntei pois havia visto uma maçã ao lado dos seus apetrechos de barbeiro.

__Fruta eu trago sempre aqui pro trabalho, como só quando o estômago reclama.

__E remédio, o senhor toma algum medicamento, Seu Ivan?

__Tomo não, isso de remédio é perdição, o sujeito começa com um e dali a pouco é uma renca que ele tem que tomar. Não presta, não!

Seu Ivan ia me contando tudo isso enquanto cortava minha sobrancelha, aparava os pelos que saem do nariz e do ouvido, coisa que nenhum barbeiro jamais fez comigo. Lavou meus cabelos com xampu e deu finalmente por terminado. Ficou muito bom, gostei do corte e perguntei a ele onde tinha aprendido, onde ele tinha feito curso de barbeiro.

__Na vida, meu filho, aprendi olhando o barbeiro na minha cidade, comecei a cortar quando tinha 15 anos e nunca mais parei.

Revelando todo meu preconceito, perguntei a ele se nunca quis estudar para ser outra coisa na vida. A resposta veio à altura:

__Mas eu estudo, meu filho, eu estudo cada pessoa que senta nesta cadeira e aprendo com cada uma delas.

Aquilo me desconcertou e eu não pude evitar de abrir um sorriso para aquele bahiano mais do que sossegado. Nesta hora, tocou o celular, era o mecânico avisando que o carro já estava pronto.

__Mas já está pronto? Você não falou duas horas? – indaguei surpreso.

__Mas já passou mais que isso, Chico! – me respondeu o mecânico.

Olhei para o relógio e me dei conta, havia passado uma hora e meia na cadeira do Seu Ivan, tomando um curso intensivo de relaxamento à moda bahiana. Paguei o corte e saí para a rua. Decidi não ir direto para o mecânico. Sem pressa, tomei um caminho mais longo e passei no Mercado para comprar uma penca de banana comprida e um coco maduro, só para experimentar…

Piracema

fevereiro 6, 2012

Era uma vez um peixe que andava meio triste, entediado de se deixar levar ao sabor da correnteza, que insistia em leva-lo para águas cada vez mais sujas e mal cheirosas, o Reino das Águas Turvas. Um dia, nosso amigo peixe bateu a cabeça numa enorme pedra preta, ficou todo zonzo e perdeu o caminho de volta para sua loca. Desorientado e sem saber o que fazer, resolveu pedir ajuda a um cardume de jovens guarús, que passava por ali naquela hora.

Os guarús nem se deram o trabalho de parar, simplesmente acenaram com as guelras, fazendo sinal para que o nosso amigo os seguisse. E foi o que ele fez, atrás dos guarús ele foi, como se tivesse sido encantado. Era difícil acompanhar o ritmo dos guaruzinhos, que nadavam ligeiros contra a correnteza. Ele já estava começando a ficar cansado, quando reparou que as águas estavam ficando mais transparentes. Foi então que uma energia desconhecida invadiu seu corpo e o cansaço foi sumindo. Reparou que mais e mais peixes juntavam-se ao bando e que tomaram um afluente em que as aguas eram ainda mais puras e cristalinas.

Deixou-se levar pelo turbilhão em que fora envolvido, ele agora não pensava em mais nada, queira nadar rio acima, atraído por uma força até então desconhecida para ele. No seu intento de subir, chegava mesmo a saltar fora d’água, coisa que nunca se imaginara capaz de fazer. Quanto mais longe ele subia, mais força ele ganhava, mais prazer ele tinha. Esqueceu que estava procurando o caminho de volta para sua loca, esqueceu-se do cansaço, esqueceu-se de tudo, ele só queria subir, subir, subir…

Quanto mais ele subia, mais encantado ele ficava, ao reconhecer lugares que ele nunca tinha visto, mas que produziam em seu coraçãozinho de peixe, uma estranha familiaridade. O ponto alto, de altura e de extase, aconteceu quando ele chegou a um remanso tranquilo e foi tomado por uma vontade parecida com a vontade de fazer xixi, só que dez vezes melhor. Nessa hora ele se sentiu do tamanho do universo inteiro e esqueceu-se de quem ele era, para onde ia e o que estava fazendo ali…

Neste lugar maravilhoso, de águas puras e cristalinas, nosso amigo peixe reencontrou o prazer de viver e resolveu construir seu reino encantado.  Arregimentou peixinhos e peixões e criou um exército do bem, que ao invés de servir para proteger o local, luta para que ele seja invadido constantemente por mais e mais foragidos do Reino das Águas Turvas.

Vinte anos se passaram desde a criação deste reino.  Hoje, contrariando todos os meus hábitos de permanecer os domingos em casa com a família, resolvi seguir um bando de guarus que me acenaram com suas guelras, e fui parar sabem onde? Sim, no reino encantado do nosso amigo peixe!

Este peixe tem nome, chama-se Elder, assumiu forma humana e hoje atrai todos aqueles que um por este ou aquele motivo, resolveram nadar contra a correnteza. Cansado de sua vida de bancário, largou a profissão e fixou-se na zona de periferia semi-rural de São José dos Campos, onde constituiu o Espaço Piracema, dedicando-se a despertar a poesia e alegria de viver em quantos se aproximam deste lugar encantado.

Nadando contra a correnteza da mesmice, e utilizando-se de materiais que estão à sua volta, tais como bambu, farinha de trigo, jornal velho e tudo quanto a cidade despreza, ele e seu irmão Eden, mantém hoje uma oficina de confecção de pereirões (bonecos gigantes), envolvendo uma ampla rede de crianças e voluntários dedicados. Todo tipo de gente é atraída e bem vinda, desde o pessoal mais simples da comunidade, até pedagogos que se empolgaram com a idéia.

A idéia de trabalhar com esses bonecos nasceu da lembrança dos carnavais que passou em Redenção da Serra, terra de seus avós, quando o menino Elder se assustava com as figuras dos gigantes Maria Angú e João Paulino. Viu na confecção destes bonecos a oportunidade de dar uma ocupação à criançada de rua e recriar uma fantasia de sua infância.

O nome Piracema é uma alusão ao retorno às origens, às fontes puras da nossa tradição, que hoje estão tão contaminadas pelas modernices enlatadas e massificantes. Piracema, pra quem não conhece o nome, é uma palavra de origem Tupi, que se decompõe em,  pira (peixe) e sema (sair). Segundo o dicionário, piracema designa um conhecido fenômeno da natureza, quando os peixes migram no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. Por extensão, designa também um movimento e o rumorejo dos cardumes quando sobem as correntezas.

O fenômeno da piracema, apesar de muito estudado, ainda é um enigma para os cientistas, no que diz respeito a suas razões maiores. Por motivos que só a natureza sabe, os peixes são movidos por incontida pulsão de voltar ao lugar onde nasceram, para nele projetar o futuro através da desova. Portanto, a imagem de um mergulho na tradição para, a partir dela, instalar a vanguarda, é a linha mestra do Espaço Piracema em São José dos Campos.

Eu fui parar neste lugar como pesquisador e curioso que sou, de todas as manifestações culturais espontâneas, essas que vem diretamente das entranhas do inconsciente. Quero voltar outras vezes, pois o que vi no Piracema é a vida pulsando em toda sua pujança. Assim, tive o cuidado de perguntar ao Elder se nossa presença não ia atrapalhar quando eles estivessem trabalhando e a resposta que ele me deu foi o fecho de ouro da visita de hoje.

__Chico, mas claro que não, vocês quando vierem vão fazer o boneco de vocês também. Vocês vão ser batizados, vão virar Piracema também…

Κυρία Sophia

novembro 20, 2011

Hoje pela manhã, um vento gelado me trouxe de volta a Κυρία Sophia, via uma atualização do Facebook, chegada da página da minha amiga Jacqueline. Κυρία Sophia foi uma senhora para quem colhi azeitonas em Creta, no comecinho da década de 90. Ela chegou de carona numa notícia no site do Pravda em português, que apresentava uma troca de cartas nada amistosa entre um grego e um alemão, relativa à recente crise financeira européia. Em sua carta, o alemão ressaltava a generosidade dos germânicos ao ajudar os helenos, que teriam recebido o maior quinhão da verba destinada à comunidade européia, e criticava o mau uso que fizeram os gregos, dos preciosos euros ofertados pelos alemães. O grego, por sua vez, rebatia com a lembrança da dívida de guerra nunca paga pelos alemães e pedia o imediato repatriamento das obras de arte gregas saqueadas, que hoje se encontram nos museus de Berlim e Munich…

O inverno que passei em Creta foi muito ventoso, o ar gelado descia das montanhas pedregosas e tornava mais difícil minha caminhada de alguns quilômetros, que eu tinha que fazer todos os dias se quisesse trabalhar. Eu não estava preparado para aquele inverno, era a primeira vez que eu enfrentava temperaturas abaixo de zero e minhas roupas eram totalmente inadequadas. A sorte é que eu tinha achado na praia uma capa de lã que me batia nos calcanhares, ela era minha maior aliada contra o frio. Como eu era muito pão-duro, preferi passar frio a comprar roupas que me aquecessem adequadamente! Coisas da juventude que tem saúde. Na época eu tinha 32 anos; hoje, com 54, isso seria impensável.

Ninguém queria trabalhar para  Κυρία Sophia e eu não sabia bem o por que. Quando indagava o motivo, o pessoal dava um sorriso maroto e desconversava. Em sua maioria absoluta os trabalhadores avulsos que estavam ali eram de origem alemã. Havia marroquinos, iugoslavos e alguns  franceses e ingleses, mas 80% eram alemães que vinham gastar seus marcos do seguro desemprego. Para eles a Grécia era perfeita, com uma moeda fraca e um inverno mais quente, ou melhor, menos frio que o deles. O único problema, segundo os alemães, era o jeito bruto dos gregos, que segundo eles, tratavam os trabalhadores como escravos. Eu nunca percebi isso, mas eu vinha do 3º mundo, uma realidade bem diferente da deles. Por uma questão de necessidade absoluta, eu era recém chegado e ainda não tinha feito muitos contatos em Creta, resolvi arriscar trabalhar para Κυρία Sophia. Subi na caçamba da caminhonete Isuzu azul-clara dela, toda caindo aos pedaços e lá fomos nós para as oliveiras da velha.

Κυρία Sophia devia ter uns 70 anos, vestia preto, cabeça coberta e tratava os homens de igual para igual, características da maioria das mulheres gregas que eu conheci. Ela não falava ingles, nenhuma palavra, e eu mal arranhava o grego, estava com apenas um mes no país. Nem por isso nossa comunicação foi falha. Já de início eu percebi que ela era muito exigente, queria somente azeitonas nos sacos de 50 kg que eu deveria encher, nada de folhas, galhos e pedras. Me disse onde estavam os sacos de plástico e estopa, apontou o relógio no seu pulso, mostrou o numero XII e fez um gesto com a mão e eu entendi que o almoço era ao meio dia. Almoço era modo de dizer, o que os patrões davam para a gente era sempre a mesma coisa: pão, azeite, tomate, queijo duro, salame (tudo frio) e um vinho forte, um dos piores que eu já tomei na vida. Depois de uns meses comendo isso, enjoei e passei a preparar minha própria comida em casa. Eles olhavam ressabiados quando eu tirava minha marmita da mochila, como se eu estivesse recusando a comida deles, mas eu tinha que respeitar o meu pobre fígado…

Bem, lá fui eu colher as azeitonas da Κυρία Sophia, sozinho em meio ao sombrio olival milenar, o vento gelado soprando firme. Meus pensamentos, nesses momentos de solidão, viajavam entre o dinheiro que eu precisava fazer para sair dali e a possibilidade de me casar com uma grega e ficar morando naquela ilha para sempre. Ou seja, eu não sabia o que queria e minha cabeça gostava de analisar e sonhar com todas as possibilidades. Estava perdido nessas fantasias, recolhendo as azeitonas com as mãos, quando senti algo se mexer no meio dos frutos que estava selecionando. De início pensei que fosse uma lagartixa, mas olhando melhor vi que tinha um escorpião preto nas minhas mãos! Claro que eu levei um susto enorme e larguei tudo no chão. Como podia? Um escorpião num frio daqueles! Eu jamais podia pensar que eles sobrevivessem nestas condições, mas lá estava ele, assustado, todo preparado para dar sua ferroada com a cauda.

Dei um jeito de apanha-lo e coloca-lo numa sacola de plástico e levei-o para Κυρία Sophia ver. Achei que ela podia me esclarecer se era perigoso continuar trabalhando, se era normal eles aparecerem, mas na verdade eu estava é muito apavorado com a possibilidade de levar uma ferroada do aracnídeo num lugar ermo daqueles.

Chamei-a e ela veio de dentro da casa. Mostrei o bichinho e depois mostrei minhas mãos. Ela ficou apavorada, pensou que eu tivesse sido picado, me arrastou pra dentro da casa e me apontou a cama, querendo que eu deitasse nela. Tentei desfazer o mal entendido falando uma das poucas palavras que eu conhecia:

__Οχι! – que quer dizer não, em grego. Eu repeti várias vezes a palavra, me negando a deitar na cama. A muito custo consegui faze-la entender que nada havia acontecido comigo, mas ela não pareceu entender, queria que eu deitasse na cama de qualquer jeito. Ficou mesmo decepcionada com a minha negativa. E mais ainda quando eu fiz menção de ir embora sem terminar o serviço. Finalmente ela entendeu, mas me fez comer alguma coisa antes de partir. Sentamos-nos à mesa e ela me serviu o de sempre, mais um cafezinho quente, que foi muito bem vindo naquela hora de frio e nervosismo.

Com a ajuda de muita mímica, conseguimos manter uma conversação enquanto comíamos. Depois de perguntar a idade dela, onde tinha nascido, se tinha filhos, quis saber se tinha marido. A palavra para homem em grego, eu sabia. Perguntei onde estava o homem dela.

__Caput Μεγάλου Πολέμου – ela me respondeu. O caput eu sabia que era um jeito de dizer que ele estava morto, e Μεγάλου era grande. Mas a outra palavra, Πολέμου, eu não sabia o que era. Ela repetiu diversas vezes a palavra, fazendo gestos de todo tipo, usando de onomatopéias, tipo PUM!, PUM!, PUM!, chegou mesmo a ficar indignada de eu não saber o sentido e finalmente desistiu. Eu só vim a saber o sentido quando olhei no dicionário grego-portugues, que eu havia comprado em Atenas logo que cheguei. Πολέμου queria dizer guerra, o marido dela tinha morrido na II Guerra Mundial.

Depois dessa história da guerra, ela ficou meio desenxabida e eu resolvi que era hora de ir embora. Num salto ela se levantou da mesa e veio em minha direção, acenando com um bolinho de drachmas, a moeda grega naquela época. Eu entendi que ela ia me pagar pelas poucas horas que eu havia passado juntando azeitonas e ia aceitar o dinheiro. Mas o que ela fez foi enfiar a mão com as notas no meu bolso e se adiantou de maneira muito clara, me dando um abraço sufocante. Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo e me livrar daquela boca que tentava encontrar-se com a minha. Quando consegui, saí correndo dali o mais rápido que pude para a estrada de terra que levava ao povoado.

Nunca mais ouvi falar de Κυρία Sophia. Quando contei aos alemães, eles deram risada, falaram que eu tinha que tomar cuidado com as muitas viúvas que eles tinham feito na guerra…


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