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PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

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Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

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O Quilombo da Caçandoca

janeiro 29, 2013

estrada caçandoca07

Depois de mais de uma semana tomando sol na praia da Lagoinha, meu corpo já estava se sentindo como bacalhau de porta de venda e implorando por um banho de cachoeira na mata. Seguindo indicação de amigos, peguei o carro e parti para o Sertão do Quina, na encosta da Serra do Mar, bem atrás da Praia da Maranduba, Ubatuba SP.

Saí da BR-101 e fui perguntando aqui e ali, para não errar o caminho, sonhando com a minha cachoeira gelada. Depois de uns 6 km rodados, qual não foi minha surpresa quando dou de cara com a BR novamente! Eu havia percorrido uma ferradura e cheguei quase no mesmo lugar! Que fazer agora? Já meio desanimado, resolvi voltar para casa, o tempo não estava mesmo lá essas coisas, achei melhor retornar.

Ao pegar a pista, a primeira placa que vejo, indicava a Praia da Caçandoca, onde existe um quilombo que há dias eu estava programando visitar, mas vinha evitando por causa do difícil acesso. Num ato impensado, resolvi mudar os planos e tentar a sorte na Caçandoca. De quilombos, eu só conhecia o que havia lido nos livros escolares, que eram grupamentos formados por escravos fugitivos. Como seria um quilombo no séc XXI?

A estrada era de desanimar qualquer cristão, um atoleiro só. Só segui em frente porque mais de um informante me garantiu que com meu celtinha 2006 eu conseguiria varar os 7 km de barro até a praia. Larguei mão do apego ao carro e meti o pé no acelerador. Em alguns trechos de subida, se o carro não estivesse embalado não ia passar não, o negócio era muito feio…

Antes da praia, cartazes indicam que estou adentrando os limites do quilombo. Preparo-me para encontrar os primeiros negros, que eu imaginava instalados, pacata e bucólicamente, naquele recanto à beira-mar.

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A primeira construção que vejo é de pau-a-pique, o Centro de Artesanato, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Quilombo da Caçandoca, conforme indica um banner afixado à parede. O imóvel está fechado, com toda cara de abandonado e o mato invadindo o que um dia deve ter sido um lindo jardim. No meio do jardim, uma antena parabólica toda comida pela ferrugem. Enquanto tiro algumas fotos, um senhor branco, com cara de gente da cidade, passa devagar pela estrada, caminhando com a ajuda de seu guarda-chuvas. Disparo minha primeira pergunta, preciso fazer contato para saber mais sobre o quilombo:

__Bom dia, o senhor está passando férias por aqui?

__Não senhor, sou nascido e moro aqui na Caçandoca. Vim telefonar no orelhão, pedir um botijão de gás, que o meu acabou ontem. Mas o orelhão está quebrado, uma pouca vergonha. Ontem ficamos sem luz e hoje sem telefone! E essa estrada ruim do jeito que está, uma vergonha… uma vergonha! 

Achei estranho, não imaginei que um branco pudesse ter nascido num quilombo, mas se ele afirmava…

__Ah, o senhor nasceu aqui? Este lugar sempre foi um quilombo? Quando foi que os escravos chegaram?

__O senhor é de onde, mal lhe pergunte?

__Desculpe, é verdade, eu nem me apresentei! Meu nome é Chico Abelha (preferi usar o apelido, dependendo do caso facilita a comunicação). Faço pesquisas para o Museu do Folclore de São José dos Campos. Então, o senhor já está aqui há quantos anos?…

__72 anos, meu filho, 72 anos…

__E o seu nome?

__Irineu Santos Neves.

__Seu Irineu deve conhecer muitas histórias. Não quer me contar como foi que começou o quilombo?

Seu Irineu moveu o rosto um nadica para o lado e levantou o nariz para dizer:

__Ah, meu filho, eu conheço muitas histórias, todas elas, mas não vou contar nenhuma não! 

Falou isso e baixou os olhos, evitando contato visual. É raro a pessoa se negar assim, terminantemente. O mais comum é as pessoas se abrirem, contarem sobre suas vidas, nem que seja para reclamar, mas o seu Irineu mostrou que não estava para conversar não. Nessas horas não tem remédio, é melhor agradecer e tocar em frente. Foi o que fiz.

Alguns metros mais abaixo, em direção à praia, que ainda não se fazia ver, mais uma construção de pau a pique, também com ar de abandonada. Conforme dizia a placa na parede, tratava-se do Centro Comunitário da Associação dos Remanescentes da Comunidade do Quilombo da Caçandoca. Mais abaixo, dos dois lados da estrada, algumas casas recém construídas, estas de blocos, sem acabamento e cobertas com telha de amianto. Das casas, sou observado por crianças e mulheres, nenhum deles é negro.

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Resolvi seguir adiante, procurar meus negros mais à frente. Chegando à praia, outro susto, ela estava tomada, de fora a fora, por barracas de venda de comida e uma linha contínua de guarda sóis coloridos, vermelhos e amarelos. Não havia quase gente, era cedo ainda, o pessoal das barracas estava se preparando para a chegada dos turistas. Procurei os negros entre o pessoal nas barracas, talvez eles estivessem fazendo um bico na temporada, talvez fossem os donos, mas nada, não havia um só deles. No máximo um mulato curtido do sol… Saltavam aos olhos, contrastando com o verde da mata, os anúncios de camping, de passeios de barcos, logotipos de cervejas, isso tinha por toda extensão dos 2 km de praia.

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Eu poderia ter perguntado para qualquer um, onde estavam os quilombolas, mas depois da lambada do seu Irineu e com receio de levar outra resposta atravessada, fiquei na minha. Tomei meu banho de mar, mastiguei meu sanduíche de pão integral e resolvi cair fora, que o céu estava ficando cinza-chumbo e eu não queria arriscar a volta debaixo de chuva.

Entrei no carro, apanhei o celular para ver que horas eram e levei um susto quando vi a data, 25 de janeiro! Vinte cinco de janeiro era o dia do aniversário da minha esposa e eu ainda não tinha providenciado um presente para ela! Lembrei de ter visto umas lojinhas dessas que vendem artesanato, atrás das barracas na praia, quem sabe eu não achava algo diferente numa delas?

Parei naquela que me pareceu a mais simpática. Quem me atende é dona Nilda, também branca. Ela me explica que o artesanato local é feito por eles mesmos, com “material que a natureza descarta“. São móbiles de conchas, esteiras de folha de bananeira e enfeites diversos, de madeira pintada, ela me mostra tudo com orgulho. Não sei se pelo efeito da alta umidade, mas tudo me pareceu já velho e sem o viço que eu queria para o meu presente. Lá do fundo da loja, umas bolsas coloridas me fisgaram o olhar.

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__E aquelas bolsas, dona Nilda, são feitas por vocês também?

__Ah, essas são as bolsa que se transforma em canga, são de uma mulhé de Ubatuba que traz aqui pra nóis. 

A bolsa era interessante, acabei comprando uma delas, uma cor-de-laranja-cheguei. Minha esposa gosta de cores fortes, certamente iria gostar deste objeto de dupla serventia.

Depois de pagar dona Nilda, já na saída, não consegui segurar a língua, perguntei onde era o quilombo da Caçandoca. Ela fez uma cara de espanto e respondeu olhando torto:

__Mas o senhor já está nele, moço! 

__Ah, é aqui? E os quilombolas, onde estão?

__Está falando com um deles. Todos que moram aqui são quilombolas.

A minha cabeça deu um nó nessa hora. Resolvi não perguntar diretamente o por que de não haver nenhum negro neste quilombo, ou, se os havia, onde se escondiam…

__E a senhora nasceu aqui no quilombo, dona Nilda?

__Nasci aqui, sim, mas quando eu nasci não era quilombo ainda, era tudo fazenda. Em 2003 foi que o Lula criou o quilombo e disse que a terra era nossa, de quem tivesse morando nela. A gente ainda não temos o papel, mas esse ano ele prometeu que vai sair em definitivo. Deu na Voz do Brasil, eu escutei ainda um dia desses, que a gente tem que escutar a Voz do Brasil pra se informar, não é mesmo? Ele é muito bão, o Lula.

__Quer dizer que a senhora gosta do Lula?

__Gosto! Eu só acho ruim que a gente não pode derrubá uma árvore que seja pá modi prantá que é murtado. Isso eu acho muito errado! Por isso que nóis agora tamo virando pro turista pra se garanti.

Sem que eu perguntasse, dona Nilda começou a falar de como era a vida nas fazendas, do tempo em que ela era criança, de como eles tinham de tudo ali na Caçandoca, só precisavam comprar querosene, sal e pólvora. Das festas de bate-pé, das catiras, dos reisados, que eram a unica diversão que eles tinham naqueles tempos. E que tudo isso acabou porque veio um pessoal da cidade, comprou a terra dos caiçaras por um dinheiro qualquer, o povo se foi para a cidade e só agora é que estava voltando, depois que o “Lula criou o quilombo“. Minha cabeça estava que era uma bagunça só. Eu nunca imaginei que um quilombo pudesse ser criado em pleno sec XXI.

__Mas espera aí, dona Nilda, quer dizer que esse quilombo não foi formado por escravos foragidos que se esconderam aqui na Caçandoca? 

__Não, menino, este quilombo é por doação, não por fuga. 

Achando que ela poderia ser uma boa informante, quis registrar o material e sugeri:

__O, dona Nilda, vamos fazer um vídeo dessa nossa conversa, a senhora permite?

__Ah, hoje não, menino, que eu perdi o meu pente e estou com a cara muito bagunçada. Volte aqui outro dia, hoje não.

__Mas com essa estrada ruim, é muito difícil chegar aqui.

__Então volte no tempo da seca, que aí a estrada fica uma “excelencia”!

Entendi que dona Nilda não queria se comprometer com gravações e respeitei sua vontade. Nem perguntei mais nada. Despedi-me dela e disse que voltaria quando fosse possível.

Quando cheguei em casa, dei um google e encontrei farto material sobre o quilombo da Caçandoca. É material acadêmico e técnico, resultado de pesquisa antropológica e com a finalidade de fazer valer aos remanescentes, o direito à propriedade da terra em que vivem. À partir da constituição de 1988, que atualizou o conceito de quilombo, foi possível a diversas comunidades remanescentes espalhadas pelo Brasil, enquadrarem-se na nova lei e reivindicarem a propriedade da terra.

A situação da Caçandoca não é simples. Segundo me contou uma pessoa que mora na praia da Maranduba, além dos remanescentes, reivindicam a propriedade da região, uma empresa imobiliária que teria comprado a terra quando da abertura da  BR 101, a Rio-Santos e também os descendentes de um antigo proprietário, que dizem ter um documento de posse de séculos atrás. Por isso a minha dificuldade de obter informações dos atuais moradores. Mas eu ainda não entendi muito bem porque não encontrei nenhum negro por lá, isso ainda é um mistério para mim. Se alguém que conhece mais de perto a situação quiser explicar, eu agradeço.

Quem se interessar, pode conferir o material técnico aqui.

Naturalmente, mudei os nomes dos personagens do meu relato, devido à situação melindrosa que estão vivendo. Tampouco coloquei fotos dos mesmos.


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