SEU NARDO

outubro 23, 2017

 

 

 

Seu Nadir, apelidado de Nardo pelos amigos, nasceu em Camanducaia MG no ano de 1943 e hoje vive em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos SP. Seu primeiro trabalho foi ajudar o pai a acabar com sauveiros numa plantação de eucaliptos, aplicando formicida Tatú, com apenas 5 anos de vida…

A vida toda lidou com tropa, baldeando carvão, madeira, “o que tivesse que transportar nóis transportava de mula… naqueles tempo num tinha as estrada boa de hoje, de modo que só a tropa que entrava nos trio, caminhão não passava não…”

Seu Nadir acorda às 5h da manhã, pica o capim, tira leite das vacas, limpa o curral, trata dos porcos, das galinhas e depois almoça. Não tem tempo nem de tirar uma soneca, já sai consertar um cerca, roçar um pasto ou remendar uma sela que está se desfazendo.
Segundo dona Lurdes, sua esposa, ele só para no meio do dia, quando se recolhe à capelinha que ele mesmo construiu ao lado de sua casa e reza para Santa Catarina. Por que Santa Catarina, seu Nadir?

__”Porque eu ganhei um santinho dela quando menino e prometi que quando fosse adulto ia fazer uma capela prela. Coisa que a gente pensa quando criança, um sonho que eu quis realizá…”

Já adulto, cincoentão, ele resolveu aprender a trabalhar com o couro. Faz bruacas, canastras, chicotes, selas, cangalhas, tudo que for de couro ele sabe fazer. Perguntei a ele porque não compra prontas as traias que usa, não seria mais fácil, já que ele tem tanto serviço na roça?

__”É que a gente gosta muito da criação, qué tá sempre junto deles e lidando com o couro é como se eu estivesse perto dos animais o tempo todo, mesmo não estando com eles, entendeu, Chico?”

 

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Vera, a enfermeira do meu pai

outubro 7, 2017

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Vera é daquele tipo de pessoa que não faz cerimônia, não gosta de passar desapercebida e é com total naturalidade que ocupa o espaço à sua volta. O olhar direto, a voz firme e os gestos decididos, ela me conquistou logo no primeiro encontro. Sem papas na língua, essa piauiense de Piripiri, baixinha e com sotaque carregado, diz o que lhe vem à cabeça, franqueza é a sua marca registrada.

Conheci Vera quando ela cuidava de meu pai, paciente de Alzheimer. Ela é uma das muitas profissionais que se revezaram no trabalho de dar banho, passar creminho, trocar fraldas e entreter meu pai, nessa fase surreal em que alguns velhos resolvem voltar a ser crianças. Nossa conversa engatou muito fácil, foi só eu começar a perguntar e ela desfiou sua vida todinha, ali mesmo, ao lado do leito do doente. Meu pai, como se fosse um bebê que se deixa embalar por uma história de ninar, escutou atento o relato da saga dessa nordestina que baixou ao sul maravilha em busca de uma vida melhor…

__Posso botar no livro tudo isso que você falou, Vera? Do jeitinho que você contou?

__Mas não tenha dúvida, Chico, eu sou mulher de palavra! Não me arrependo de nada do que digo nem do que faço, pode botar tudo, lógico que sim!

E tudo eu botei!

________

 

Aos 19 de agosto de 1961, nascia Vera, a segunda filha de Vicente Erasmo da Silva e Isabel Pacífico da Silva. Nesta época, Seu Vicente já tinha deixado a roça e trabalhava como eletricista, contratado que tinha sido pelo Batalhão de Engenharia da Construção, órgão subordinado ao Exército, criado para implementar a infra-estrutura viária no Piauí. Dona Isabel era do lar, cuidava dos filhos e apesar da canícula nordestina, fazia questão de sempre plantar uma horta caseira, da qual tirava alface, couve, tomate e temperos, em cada uma das diferentes cidades pelas quais a família passou. Viviam trocando de cidade, pois o trabalho de Seu Vicente exigia constantes deslocamentos pelos diversos trechos da malha ferroviária do estado.

Vera desde menina foi opiniosa, mesmo que isso lhe custasse pesadas surras, à base de cinta e chicote, desferidas por um pai autoritário e rígido como pau-ferro. À noite, de volta do trabalho no Batalhão de Engenharia da Construção, seu Vicente não se conformava de ver sua filha brincando na rua; lugar de criança era dentro de casa, dizia ele. Como é que a mulher não via isso? As ordens de Seu Vicente eram muito claras: as crianças saiam de casa para a escola e tinham que voltar para casa olhando para a frente, sem virar a cabeça para o lado e ai de quem o fizesse! É claro que Vera não obedecia, o mundo lá fora sempre a atraiu muito mais do que as quatro paredes do lar.

A rua não ajudou Vera nas notas, tanto que acabou repetindo o 3º ano. O pai, para estimulá-la a passar de ano, prometeu um premio irresistível para a filha: uma viagem. Ela se esforçou, estudou muito e acabou passando de ano. E foi com a idade de 9 anos que Vera foi levada a Parnaíba, para conhecer uma coisa da qual ela nunca tinha ouvido falar: o mar. Ao avistar de longe aquela imensidão de água, perguntou:

__E esse rio não tem fim? Onde é que tá a outra margem dele? – Depois, ao entrar na mar, ser derrubada por uma onda mais forte e engolir muita água, exclamou indignada:

__Quem foi o imbecil que botou sal nessa água toda?

Na infância, enquanto sonhava um dia ser médica, Vera brincava de bonecas de pano, confeccionadas pela mãe, pulava corda, jogava amarelinha, mas se entediava de passar as tardes com os dois irmãos apenas. Queria mesmo é ir para a rua, onde havia mais gente, movimento! Na rua, na casa de vizinhos, Vera descobriu a televisão, que no dizer do povo era um rádio em que se podia ver as pessoas falando… Cinema só foi conhecer bem mais velha, com 13 anos. Os filmes românticos não a interessavam, achava sem graça, gostava mesmo era de filmes de muita ação, tipo Rambo e Bang Bang (esse último ela teria assistido uma meia dúzia de vezes!).

Curiosa que era, Vera acabou experimentando o cigarro e gostou, tanto que fuma até hoje, com 50 anos. Mas na época tinha seus 15 anos e o pai continuava ainda no seu pé. Foi questão de tempo para que ele a flagrasse pitando um Continental sem filtro, que segundo ela tinha a preferência, pois era mais chique que o Clássicos. E dessa vez, quando Seu Vicente a flagrou no delito, além da tradicional surra, houve um requinte na maldade. Fez ela fumar o maço todinho até o último, e entre um cigarro e outro, era uma lambada que descia nas costas da coitada da menina. Não satisfeito, pegou todas as guimbas, colocou numa jarra com água, botou umas colheradas de açúcar e obrigou a pobrezinha a beber o fétido chá adoçado! Ela bebeu, enojada, até a última gota, mas de nada adiantou a punição, Vera continuou fumando e desafiando o pai…

Para manter o vício do cigarro e poder continuar comprando suas roupas, Vera começou a fazer enfeites de fita. Teve, assim, o gosto da liberdade, através do primeiro dinheiro ganho com seu próprio trabalho. Por essa época, permitiu que um rapaz mais velho se aproximasse e tomasse algumas liberdades, mas não gostou e acabou dando o sinal vermelho para ele. Achou que o cabra anunciava bem o produto mas a propaganda era enganosa, ele não era lá essas coisas não, e dispensou-o sumariamente. Só aos 17 é que deixou de ser moça e aí foi demais para seu Vicente, que não encontrou outra saída, teve que expulsa-la de casa. Vera não pensou duas vezes, fez sua trouxa, largou família e amigos, chutou o namorado e se mandou para o Ceará, onde tinha o contato de algumas conhecidas de seu pai.

Lá chegando, não foi difícil arrumar trabalho. Despachada como só ela, Vera foi bater na fazenda de Seu Raimundo, um latifundiário que mantinha uma escola rural e estava mesmo à procura de uma professora. O problema é que ela só tinha a 8ª série, será que ia dar conta?

__Seu Raimundo, eu quero muito esse trabalho, mas verdade seja dita, eu só tenho até a 8ª série. Como ficamos, o senhor me aceita mesmo assim?

__Olhe, Vera, se você ensinar esses meus empregados e mais uns gatos pingados da cidade a escreverem o nome deles, é o que me basta.

__Disso eu dou conta, mas não é pouco, ensinar esses caboclo a escrever só o nome deles?

__O que eu preciso é que eles consigam assinar o nome na frente do mesário, pois assim eles podem votar em mim e me eleger vereador daqui a dois anos. Aceita?

Vera não titubeou, no dia seguinte lá estava ela na sala de aula, a ensinar o ABC para os 35 marmanjos, dentre amigos e matutos do Seu Raimundo, todos eles mais velhos do que ela, com idades que variavam de 18 a 55 anos. Com status especial, era tratada como uma rainha. Ganhou uma suite só para ela na casa grande, onde gozava de todas as mordomias. Comia do bom e do melhor, tinha roupa lavada e passada e tempo para namorar um dos alunos, o mais bonito deles, com o qual acabou se casando dali a dois meses…

Vera não perdia tempo! Numa quarta feira passou a mão em Jacinto, foi à igreja e ao cartório e oficializou a união com aquele que viria a ser o pai de seus tres filhos. Sem festa, sem vestido de noiva e de sandália de dedo mesmo, que o dinheiro não dava para luxo naqueles tempos. Mudaram-se para a cidadezinha próxima à fazenda, alugaram uma casa e botaram nela tudo que tinham: duas redes e um pote de água, que ficava ao lado da trempe, no comodo que servia de cozinha. As panelas e talheres só compraria dias depois. Jacinto abriu uma bodega, que é como eles chamam o bar lá no nordeste. Lá ele vendia pinga, que os fregueses bebiam enquanto jogavam sinuca. Vera, que continuava dando aulas na fazenda, resolveu abrir um mercadinho para se ocupar nas horas vagas. No fim do dia, pegava uma bicicleta e ia até a fazenda ensinar o povo a assinar o nome. Continuou fazendo isso durante dois anos, até que seu Raimundo foi eleito e ela teve que separar dos alunos, que por esse tempo, além de assinar o nome, até já estavam sabendo fazer umas aritméticas de somar e subtrair…

O primeiro filho a nascer foi Francisco Jones. Jones em homenagem ao personagem do filme de Hollywood, Indiana Jones, e Francisco em pagamento a uma promessa que Vera fez, temendo complicações no parto, que foi diagnosticado de risco pelo médico que a assistiu: se o filho nascesse vivo, não importa quantos filhos ela viesse a ter, que fossem 100, todos teriam Francisco no nome, inclusive as mulheres. Logo em seguida veio Francisca Jaqueline e o casal foi tocando a vida numa paz relativa, sem muitos aperreios, até que Vera ficou grávida de Francisca Aline, a última dos filhos.

Jacinto não bebia nem fumava, mas baralho era com ele mesmo. Recusado por Vera, que abusava (enjoava – no falar nordestino) por causa da gravidez, afundou-se no jogo e acabou perdendo todas suas economias. Mas só as dele, que Vera era mulher previdente, guardava sua parte em separado. Envergonhada da situação, Vera contatou os pais que a aceitaram de volta, com marido, dois filhos e grávida de Aline. Venderam a bodega e foram todos se arranchar debaixo das asas de Seu Vicente e Dona Isabel.

Mas foi por pouco tempo. A Jacinto, a familia de Vera ofereceu trabalho. Não foi um nem dois, mas muitos, e todos ele recusou. Só queria saber de baralho e bola. Pronto, isso irritou Vera, que se sentiu na obrigação de, mais uma vez, dar o pé na bunda de um homem que não prestava. Pegou metade do dinheiro da venda da bodega, botou na mão de Jacinto e apontou a porta da rua. Ele ainda tentou ameaçar:

__Presta atenção, mulher. Tem certeza que é isso mesmo que tu quer? Por que se for, fique sabendo, que enquanto o mundo for mundo, eu nunca mais vou te procurar!!!

Isso foi pouco para comover Vera, ela já estava decidida, deu as costas e deixou o marido falando sozinho… Preferiu enfrentar a oposição da família, que achou um absurdo ela chutar o marido e passou a hostiliza-la. Fizeram de tudo para ela voltar atrás, mas nada, Vera não queria mais o vagabundo, condição que, segundo ela, foi confirmado pelo próprio. Ao se despedir de Jones, então com 5 anos, ele abraçou-o e teria dito:

__Cresça e seja um homem, não um vagabundo como o seu pai…!

Não fosse a gravidez avançada, Vera teria partido imediatamente, pois que o clima na casa dos pais estava muito pesado demais. Já estava decidida a cair fora, mas somente depois de dar à luz ao bebe. Passou mais de ano no ostracismo, todos viravam a cara, como se ela não existisse. Mulher sem homem não vale nada, inda mais carregando dois filhos e o terceiro no buxo! Foi terrível para Vera, nem na maternidade sua mãe foi visitar a neta recém nascida! Desgostosa e triste, não agüentando a pressão, raspou da poupança o pouco dinheiro que sobrou da sua parte da venda da bodega, pegou os filhos e se mandou para a rodoviária. Lá chegando, sem saber exatamente pra onde ir mas com toda certeza do mundo que o que tinha de fazer era sair correndo daquele lugar, dirigiu-se ao balcão da Itapemirim e comprou duas passagens para São Paulo. Uma poltrona para ela e Aline, que tinha ano e meio e a outra para os dois meninos, Jones e Jaqueline. O ônibus era o famoso poeirinha, pois ia com as janelas abertas, já que não contava com ar condicionado.

São Paulo era uma luz bem fraquinha no fim do túnel, apenas uma possibilidade que ela tinha ouvido rodando na boca do povo. Dizia-se que lá o povo era frio, mas que trabalho não faltava e que se ganhava muito bem. Quem sabe lá ela não encontrava o sossego que nunca encontrou junto aos seus? Nas 48 horas de viagem, Vera foi sonhando com uma vida melhor, um futuro decente para aqueles tres seres, que agora dependiam inteiramente dela. Nas paradas, o pessoal ajudava Vera, ficando com as crianças enquanto ela ia ao banheiro. Foi assim que ela acabou puxando conversa com Seu José, que trabalhava em São Paulo, e que por conhecer muito bem a megalópole, desaconselhava que Vera arriscasse a sorte naquele inferno de pedra. Fosse pra São Paulo, o risco era grande que terminasse mendigando ou se prostituindo. Como alternativa, sugeriu que ela saltasse antes, numa cidade mais pacata e hospitaleira, ele indicava até uma pensão, que era de uma amiga dele, Dona Linda, que com certeza ia dar uma força para eles nos primeiros dias. Vera confiou desconfiando, quando estivessem chegando ela ia decidir. Ainda faltava uma boa pernada de viagem, que no todo é de longas 48 horas…

O mês era julho, mal sabiam aqueles 4 retirantes o que os esperava pela frente, eles, que a vida toda nunca tinham vestido uma blusa… Quando passaram por Minas Gerais, na região serrana, já no último quarto da viagem, a coisa ficou preta. Primeiro foi Jaqueline, depois Jones que reclamou da friagem.

__Mãe, to com frio, não consigo dormir!

Vera ficou desesperada, chegou os tres meninos contra seu corpo, formaram uma massa humana, mas não foi suficiente, o frio era demais. O que fazer? Restava pedir ajuda aos passageiros. Ela levantou-se e falou alto, para o ônibus todo escutar:

__Por amor de Nossa Senhora, tenho aqui 3 meninos tremendo de frio, será que alguém pode me fazer a caridade de doar um agasalho pra eles se protegerem dessa friagem? É doado mesmo, não é emprestado, que eu sei que não vou poder devolver.

Num passe de mágica apareceram agasalhos, não só para as 3 crianças, como também para Vera.

Já perto do fim da viagem, bem depois de Aparecida, Seu José lembrou Vera que se ela tinha que se decidir. Se quisesse ir para a pensão de Dona Linda, tinha que descer em São José dos Campos, logo ali à frente. Ela resolveu confiar, Seu José parecia uma boa pessoa. Juntou os pertences, os filhos, e pediu ao motorista que parasse em São José dos Campos. Naquela manhã fria e ventosa, ele deixou os 4 em frente ao Shopping Center Vale. Num misto de profecia e pensamento positivo para dar força a si mesma, olhou Jones nos olhos e disse:

__Jones, é aqui que nós vamos morar, essa é a nossa cidade, é aqui que vamos construir nossa casa!

Com o endereço de Dona Linda escrito num pedaço de papel, pediu informação para o primeiro que viu num ponto de ônibus.

__Sabe onde é a Rua Sebastião Hummel, moço?

__Pegue esse ônibus que vem vindo e pergunte ao cobrador, ele indica para a senhora o lugar certo de descer.

__Mas se for de pés fica em que direção essa tal rua?

__É pra lá, dona, mas é muito longe e a senhora tá com essas crianças…

Vera não terminou de ouvir o que dizia o homem, desceu até a avenida Nelson d’Avila e percorreu os quase 4 km, até a pousada de Dona Linda, na Sebastião Hummel. Lá chegando, foi recebida por uma paranaense muito simpática, que viria a desempenhar o papel de anjo da guarda, pai e mãe adotivos, lhe ajudando como pode, a construir do zero a vida dessa piauiense de fibra.

Dona Linda cedeu a ela uma suite, é verdade que muito simples, não contava nem com um guarda roupas, mas tinha cama de casal, onde dormiam os 4 juntinhos, com um banheiro muito limpinho à disposição. Como sempre, Vera foi muito rápida e no mesmo dia da chegada, antes de anoitecer, já estava empregada como ajudante de cozinha! E foi Dona Linda quem ficou cuidando das crianças, enquanto Vera pegava firme na lanchonete de Seu Jorge, na Galeria Rossi, seu primeiro emprego em São José dos Campos. Durante 5 anos Vera morou de aluguel com Dona Linda, que sempre a socorria nas dificuldades. Como na vez em que Vera foi atingida por uma bala perdida e por pouco não morreu. Vera teve que passar 15 dias se recuperando no hospital e quem ficou cuidando das crianças foi Dona Linda.

Vera foi juntando dinheiro, e com 4 anos de São José dos Campos, já deu entrada num terreno no Jardim Pararangaba. Um ano depois, terminava um comodo e se livrava do aluguel. E era um comodo mesmo, nem chegava a ser uma edícula. O dinheiro deu somente para as paredes e o teto, nem muro em volta do terreno havia. Água e luz ela pegava com o vizinho. Quando se mudaram para o comodo, Vera já sabia, São José dos Campos era seu novo lar, aqui se sentiu totalmente integrada e acolhida. No Piauí tinham dito que o povo do sul era frio, distante e calado, mas nada disso ela encontrou nesta cidade. Sobre isso, Vera filosofa:

__A gente atrai as pessoas certas, as que combinam com a gente…

Enquanto juntava o dinheiro para o terreno, Vera fez questão de garantir a educação dos filhos, e não só a deles, mas a dela também. Deu-se o luxo de contratar uma babá, que Dona Linda não podia ficar sempre com as crianças, e terminou o ensino médio. Mais tarde, fez um curso de enfermagem e ainda sonha com Medicina ou Enfermagem.

__Enquanto tá vivo, tá valendo! – diz ela com esperança.

Os filhos ela criou com marcação cerrada, mas sem a rudeza do pai. Ela sempre tinha que saber onde estava cada um deles e já teve de sair atrás de menino, tarde da noite, pra encontrar-lo numa festa e arranca-lo de lá no tapa!

__Filho meu não dá mole pra bandidagem, onde se viu ficar dando sopa solto pela noite?

Criar as meninas foi mais fácil, elas eram mais dóceis. Mas Francisco Jones era inquieto, desde os 10 anos vivia insistindo com mãe, que queria porque queria encontrar novamente o pai. Vera enrolou como pode. Prometeu que quando Francisca Aline, a mais nova, completasse 21 anos, ela diria a ele sobre o paradeiro do pai. E o menino não se esqueceu da promessa. Um mes antes da menina fazer 21 ele começou a rodear a mãe e assuntar sobre a data exata do aniversário. A mãe lembrou-se da promessa e disse a ele que ficasse sossegado, que no data prometida ela revelaria o paradeiro. O que ela não contou é que não tinha a mínima idéia de onde andava o pai das crianças, um homem que ela queria mais era esquecer… Mas ela ia ter que se virar, afinal, não havia prometido ao menino?

O que fazer? Como descobrir o endereço de uma pessoa que ela nunca mais tinha ouvido falar? Sem muita esperança, mais porque havia prometido ao filho, deu um tiro no escuro, ligou para o 102 e perguntou qual era o telefone do cartório em que Jacinto e ela haviam se casado. De posse da informação, conseguiu falar com a cartorária da cidade de Ipueiras e pediu que enviassem uma 2ª via da certidão de casamento. Para que não se sabe, mas ela achava que a certidão ia ajudar a encontrar o ex-marido. E o pior é que ela estava certa! Ipueiras é a sede do distrito de Livramento, que é onde o casamento havia sido realizado de fato. E naquele momento mesmo em que Vera ligava, estava ali escutando a conversa a cartorária de Livramento, que por um desses acasos do destino, conhecia muito bem a mãe de Jacinto. Achada a mãe, achou-se o filho.

Foram mais de 100 reais gastos em ligações, um dinherão na época, mas a promessa ia ser paga. No dia do aniversário da irmã, Francisco Jones recebeu da mãe um papelzinho onde estava escrito o endereço do pai. Pediu as contas na firma onde trabalhava, esperou vencer o mes de aviso prévio e partiu para o encontro com o pai, na cidade de Poranga, no interior do Ceará, onde veio a se casar e de onde nunca mais saiu! Mas o encontro com o pai não foi fácil, bem que a mãe tinha avisado que naquele lago não tinha peixe. Ele foi bem recebido, mas só no primeiro dia, depois virou a cara, não quis saber de conversa com o filho. Quando nasceu o primeiro filho de Jones, Vera e as duas filhas foram ao Ceará ver a criança, mas houve troca de farpas entre Jacinto e a ex-família, ele não permitiu nem ser fotografado com a família. Vera nem chegou a ve-lo e com Francisca Aline não teria passado de um frio aperto de mão.

Hoje, além de sua casa no Jardim Pararangaba, Vera tem mais outras 2 que estão alugadas. Sua meta agora é tirar carteira de motorista, que um carrinho, segundo ela, ia facilitar muito a vida. Só está esperando o ex-marido conceder o divórcio pra liberar a papelada, diz ela que a burocracia exige isso. Adora a cidade que a acolheu, tem orgulho do que conquistou materialmente, mas sua realização foi ter dado educação aos filhos e ver que eles estão trabalhando no que gostam. Jones é pedreiro, Jaqueline e Aline são formadas em Enfermagem.

A saúde vai bem, obrigada, mas carrega ainda o vício que foi motivo da ira do pai na adolescência. Jura que quer se livrar do cigarro, e como é devota de São Judas Tadeu, acredita no impossível! Vai a Aparecida quase todo mês, onde assiste missa e pagar as promessas feitas. Se Deus quiser, pretende ser enterrada em São José dos Campos. O que lhe dá mais prazer hoje em dia, depois dos filhos, são os velhinhos que ela cuida e pretende cuidar até quando a saúde permitir.

Com o pai ela se reconciliou na terceira viagem que fez ao Nordeste, numa festa de aniversário do velho Vicente. Vera chamou-o num canto e se abriu com ele, agradecida por ele lhe ter dado a vida. Seu Vicente ficou tão contente com a atitude da filha, que ao cortar o bolo concedeu-lhe o primeiro pedaço. Houve muita choradeira e puderam dar-se, finalmente, o primeiro abraço, que conforme a Vera, pai não dava abraço em filho naquele tempo, isso era coisa que não existia…

______________

 

Uma das últimas perguntas que fiz a Vera, foi sobre sua religiosidade. Ela então falou de São Judas Tadeu, de seu sonho de ir a Portugal conhecer Fátima,  de suas viagens a Aparecida e de uma parada obrigatória que ela fazia em Roseira, para visitar o santuário de Nossa Senhora das Cabeças, onde está exposta a santa, ou melhor, onde está a cabeça da santa. Estranhei, pois nunca ouvira falar dessa santa.

__Vera, e essa santa é padroeira de quem?

__Das pessoas com problema mental.

__E você tem alguém com problema mental na família, algum amigo?

__Tenho, é o traste que mora comigo agora, um folgado que não quer assumir a mulher que tem. Nem o dinheiro ele quer misturar com o meu. É por causa dele que eu vou lá.

__E vocês não se amam?

__Olha, amor eu só tenho pelos meus filhos, aliás, esse é o único amor que existe: da mãe para o filho e do filho para a mãe.

__Mas se você diz que ele é um traste, pra que serve um homem na sua vida, pra que você quer ter um homem?

__Pois pra que eu quero um homem? Ora, Chico, o homem é uma boa companhia pra brigar com a mulher!

Essa é a Vera…

 

A AVENTURA DA FARINHA DE MANDIOCA

outubro 1, 2016

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Dona Joana e Seu Tim moram numa casinha simples, na beira da estrada que leva para o Bairro do Raizeiro em São Luiz do Paraitinga SP. Uma estrada de terra, poeirenta no tempo seco e lisa que nem sabão no tempo das águas. Os dois nasceram na roça e dela nunca saíram. Os filhos foram todos para a cidade mas eles insistem na vida simples, praticando o que aprenderam com os pais, quase que imunes às modernidades que hoje invadiram a zona rural.

Conheci o casal quando procurava quem fizesse o tipiti, artefato de taquara que é usado para prensar a massa da mandioca ralada da qual vai ser feita a farinha. Gostei dos dois logo de cara, gente simples e hospitaleira que logo foi me fazendo sentir como se fossemos amigos de longa data. É assim com a maioria do povo da roça; quando percebem nossas boas intenções…

Fizemos então o tipiti, filmamos todo o processo, desde o corte do taquaruçú, toda a destalagem, secagem e trançamento do cestinho que acondiciona a massa da mandioca. Neste meio tempo, descobri que o casal ainda guardava o costume de fazer a farinha de modo bem artesanal, num terreno do outro lado do rio, onde estava a roça de mandioca. Vendo meu interesse, o casal me convidou para participar do processo da farinha, que dura dois dias do jeito que eles fazem. Avisaram que teríamos que posar na casa do outro lado do rio, com o que concordei imediatamente.

Marcamos o dia e pouco antes do meio dia atravessamos o rio para nossa pequena aventura. Lá chegando colhemos a mandioca, descascamos, ralamos e colocamos no tipiti para que a massa secasse durante a noite. As conversas foram todas em torno das coisas da roça, dos fazeres que estão se acabando por conta do povo comprar tudo pronto e ir esquecendo como se fazia antigamente…

Lá pelas tantas dona Joana me fala que a mãe dela fazia um bolinho com a massa crua da mandioca. De tanto que eu perguntei, Dona Joana deve ter pensado que eu ficaria aguado se não comesse o bolinho naquele dia e então, depois da janta preparou-nos uma boa fritada explicando passo-a-passo como ele é feito. Você pode assistir o video do bolinho aqui. Pra vocês terem uma idéia de como é gostoso este quitute, eu que sou de comer pouco, comi dois deles depois da janta!!!

No dia seguinte, o sol ainda nem tinha saído e os dois já estavam de pé. Seu Tim foi passar café e dona Joana lidar com os apreparos da farinha. A massa já estava seca na prensa de pau e pedra feita contra o barranco. Agora era tirar a massa do tipiti e peneirar no tacho de cobre, que eles chamam de forno; tacho é só quando vai cozinhar alguma coisa; para torrar farinha, o mesmo objeto chama-se forno.

Peneirada a farinha, seu Tim montou a tacuruva, um fogão de pedras improvisado no qual eles equilibram o forno, onde será despejada a massa peneirada a fim de que ela primeiro seque e depois torre. É um processo longo, demora mais ou menos 3 horas para fazer os 10 litros de farinha, que são o produto final dos mais de 30 kg de mandioca colhida no dia anterior.

Dona Joana brinca que ela chora toda vez que torra a farinha. Pudera, a tacuruva não tem chaminé e a fumaça castiga os olhos de quem está lidando com o forno… Mas vale a pena, diz ela, porque não tem comparação a farinha de pau que se encontra nos supermercados, com a que eles preparam artesanalmente. Eu confirmei isso ao degustar a farinha logo que ficou pronta; é um gosto que não dá pra descrever. Se você quiser saber um pouco mais de como eles prepararam esta farinha, clique aqui e assista o vídeo completo da aventura.

 

 

Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

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                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

Capelas da Santa Cruz Abandonadas

janeiro 24, 2016

 

Estas imagens de capelas abandonadas de Santa Cruz foram feitas durante um passeio pela periferia da cidade de São José dos Campos, região leste do estado de São Paulo, Bairros do Jaguari e do Caetê. Fui convidado para este passeio por um amigo, o Daniel Bueno Borges, que restaura imagens sacras aqui na minha cidade. Daniel conhece essas capelas pois gosta de visitá-las à procura de imagens sacras descartadas.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Uma das capelas foi abandonada porque o dono do terreno não permitiu mais seu uso e cercou-a com arame farpado. A outra foi menos e menos utilizada nos últimos anos, a ponto de ser tomada como moradia por andantes que acabaram por depreda-la. Segundo nos informou um morador que a conhece a 43 anos, ainda acendem uma vela na sexta-feira maior. Tentaram colocar uma porta para impedir que bêbados e desocupados invadissem o recinto mas não funcionou, eles entram de qualquer maneira.

Não consegui saber a origem da construção de nenhuma das duas. Geralmente essas capelas surgem por pagamento de promessa ou em homenagem a alguém de morreu naquele mesmo local. Cria-se então, à partir da construção da capela, que geralmente acontece em beira de estrada, um calendário de rituais de rezas e festas comuns a todas as capelas da Santa Cruz.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Há cada vez menos capelas da Santa Cruz na periferia da cidade pois a especulação imobiliária é impiedosa e não perdoa a fé do povo comum. Para se encontrar essas capelas é preciso, mais e mais, embrenhar-se nas estradas de terra nas zonas rurais.

A tradição existe também em vários países da América Espanhola, onde, normalmente (como também aqui) as imagens que se quebram acidentalmente são depositadas especialmente nos cruzeiros de cemitérios, onde seguem recebendo culto – chamadas, em alguns lugares, carinhosamente, de “quebraítos” – corruptela de “quebraditos”.

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

FORNALHA MINEIRA

novembro 18, 2015

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Renato Barros se lembra do pai construindo fornalhas para assar broas e biscoitos e foi vendo o pai construir que ele aprendeu a fazer.

– Antigamente todo mundo tinha uma fornalha em casa; era como liquidificador, televisão e microondas nas casas de hoje – comenta Heloisa, irmã de Renato.

A fornalha é construída sobre uma cama de bambus, na qual se faz uma caixa com tijolos que será preenchida com areia, material isolante, para ajudar manter o calor. Acima da camada de areia vão os tijolos que serão o piso da fornalha.

Construir a abóbada da fornalha é uma arte e Renato diz que ele mesmo não entende muito bem como a coisa acontece, porque numa determinada fase os tijolos são assentados praticamente a prumo e não caem!

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É preciso fazer uma chaminé no alto e um respiradouro lateral para retirar as cinzas.

Outra arte é regular a temperatura da fornalha para assar , carnes, bolos, pães e biscoitos. Primeiro é preciso fazer fogo, muito fogo dentro da fornalha. Quando se formou bastante brasa, ela tem que ser bem espalhada. Só então mede-se a temperatura usando farinha de trigo e palha de milho. Conforme o estado da farinha, se queimou ou apenas amarelou, sabe-se se a temperatura está adequada para assar o bolo. A palha do milho é usada para saber a temperatura quando vai se assar carne. A palha tem que apenas pretejar, sem pegar fogo. Se pretejar está bom para assar, mas se queimar está quente demais e vai queimar tbm a carne.

Esta fornalha foi feita para assar roscas para a festa de São José do Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP.

Fiz um um video que conta passo a passo a construção da fornalha, desde o corte da madeira até o revestimento com tabatinga, um barro branco que é usado para vedar as rachaduras e também para boniteza da fornalha.

 

PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

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Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

TABATINGA, BISCOITO POLVILHO E SOLIDARIEDADE, UMA COMBINAÇÃO PERFEITA!

setembro 8, 2015

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Numa gostosa tarde de agosto, num meio de uma semana qualquer, no Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí, um grupo de mulheres foi convidado para rebocar um rancho de pau a pique com tabatinga, um revestimento de barro branco que dá o efeito de caiação.

Desde a saída para a procura do barro no meio do pasto, o clima era de festa. Ninguém usava tabatinga naquelas vizinhanças há muitos anos, isso era coisa do passado e por isso seu Joaquim Santana não deu certeza da mina onde a terra branca era retirada. Mas os formigueiros com terra clara deram a dica e a turma retirou em dois pesados sacos, tudo o que precisava pra rebocar o rancho.

Como é tradição nesses trabalhos coletivos, sempre há comes e bebes. Desta vez as donas da casa, a dona Maria e a dona Rosana, serviram café e biscoito polvilho e farinha de milho feito segundo uma receita de dona Josefina, uma senhora de 91 anos que acompanhou o processo para ter certeza de que sairia a contento.


Com tantas mulheres reunidas as histórias foram muitas, mas por sorte fui dos poucos homens convidados e lá estava para registrar tudo com minha câmera. No video abaixo,  o registro dos momentos mágicos deste dia…

O CAIPIRA ASSUMIDO

julho 18, 2015

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Seu Geraldo tem 64 anos e “pita” desde os 3, quando o pai enrolou e deu ao filho seu primeiro cigarro de palha. Assim lhe contou a mãe. Seu pai era fumeiro, plantava e processava o tabaco como atividade secundaria. Antigamente o fumo era barato, ninguém vivia só de plantar fumo.

Estar com seu Geraldo, é vê-lo enrolar e acender um cigarro de palha atrás do outro. Ele pacientemente alisa a palha do milho, corta-a no tamanho certo, passa uma saliva que diz que é para ficar mais “legal”, corta o fumo com um canivete surrado, coloca-o entre as palmas das mãos e num movimento circular que ele chama de “misgaiar”, reduz os pedaços a um pó grosseiro que finalmente vai enrolar na palha. Depois de enrolado, acende o cigarro com um isqueiro a gás e começa a pitar.

Nas duas horas que estive com ele, uns bons 4 cigarros de palha foram enrolados na palha do milho que ele mesmo planta e reserva para esta finalidade. Fumo ele não planta mais, compra de quem planta ou do comércio mesmo.

Este caipira assumido mora no mesmo lugar em que nasceu, no Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP e nunca passou pela cabeça sair dali. Sua esposa, a dona Cacilda é da mesma opinião.

Sua saúde vai bem, obrigado. Ele não tem doença nenhuma, não toma remédio e quando pega uma gripe ou tem dor de barriga recorre aos matos que encontra em volta da casa.

Aposentado, ele ainda planta para o gasto e gosta de ajudar os amigos quando é chamado. Para matar um porco, destalar fumo, arrumar uma cerca, essas coisas que só se faz ainda na roça.

Nos bancos escolares ele sentou por três meses, quando tinha 17 anos; foi pouco mas aprendeu o suficiente para o gasto. Sabe assinar o nome e fazer contas mais rápido do que muita gente formada.

Segundo ele, antigamente ninguém dava bola para os caipiras. Hoje as pessoas tratam o pessoal da roça com mais respeito e reconhecem o valor da vida no campo. Haja vista a quantidade de gente da cidade que está vindo morar na vizinhança… Antigamente ninguém queria morar na roça, as terras não tinham valor. Hoje, os que venderam suas terras choram arrependidos… Assista o vídeo abaixo, que começa, justamente, com um comentário sobre o caboclo que vendeu o sítio e foi morar na cidade…


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