Maria Aparecida Becker

abril 12, 2018

          Conheci Dona Cida da maneira mais prosaica possível, durante o coquetel de lançamento de um livro sobre direitos dos idosos, numa livraria de São José dos Campos. Fomos apresentados um ao outro e, logo depois da terceira ou quarta frase pronunciadas por aquela senhorinha de vívidos olhos azuis e um corpo de fazer inveja a qualquer adolescente vaidosa, tive a certeza de que ela não poderia ficar de fora deste livro que você agora lê.

À queima roupa já fiz o convite, e ela, faceira, ainda fez graça comigo ao dizer que eu tinha que conhece-la melhor primeiro, pra saber se ia gostar da sua pessoa. Como é que eu poderia não gostar de uma figurinha despachada como aquela, uma mulher que aos 87 anos ainda está inteirinha, com a saúde em dia, praticamente não toma remédio, dirige seu próprio carro e ainda se mantém ativa fazendo trabalho voluntário? Foi um caso típico de amor à primeira vista! Eu dei foi um bom abraço nela e disse:

__Cida, mas eu já gosto de você!

Não consegui chamá-la de “Dona Cida”, ela parecia ter a mesma idade que eu!

__Vamos marcar a primeira entrevista? Me dá o seu telefone…

Anotei o numero num guardanapo de papel, liguei para ela no dia seguinte e, no fim daquela semana, lá estava eu batendo palmas no portão da casa onde ela mora, no Jardim Satélite, um bairro de São José dos Campos que ainda consegue manter um pouco daquele encanto das cidades de interior de antigamente.

Encontrei-a lendo um desses livros de bolso, muito gasto, páginas amareladas, que inicialmente eu tomei por uma Bíblia. Mas que nada! Tratava-se de um relato histórico de André Maurois,  A História da Inglaterra, só que escrito em francês! Seria possível que ela estivesse lendo aquilo, me perguntei! Curioso e querendo testá-la, soltei umas frases na língua de Voltaire. Para meu espanto ela respondeu na lata, e, assim, fiquei sabendo que Dona Cida não só lia, como também falava o francês fluentemente! E mais, era íntima do inglês, do italiano, do espanhol e de quebra arranhava algum alemão. Uau! A minha biografada não parava de me surpreender! Definitivamente, eu havia feito uma boa escolha!

Nas várias vezes que retornei à sua casa para entrevista-la, Dona Cida continuaria a me surpreender. A cada vez, eu saia de lá renovado, com sensação de ter tido o imenso privilégio de privar com uma alma abençoada, uma mulher positiva e de bem com a vida, para quem a idade era um mero detalhe. O que você vai ler abaixo é apenas um resumo do que ela me contou nesses nossos encontros, sempre regados a café com leite e biscoitos diversos. A vida dessa mulher é tão cheia de peripécias e fatos interessantes que daria um livro delicioso! Enquanto esse livro não acontece, deixo vocês com um não menos saboroso aperitivo… ______________________________________________

Mariinha tinha 2 anos quando seu irmão Luis anunciou aos pais que iria morrer em breve. Dona Olívia fez pouco do anúncio, achou que era bobagem do filho, então com 4 anos. O garoto chegou a recusar brinquedos que quiseram dar para ele, alegando que não ia dar tempo de brincar com os mesmos. Uma semana depois do anúncio, ele acordou dizendo que o dia havia chegado e que já tinha até visto rondando por ali o anjo que viera busca-lo. Na noite daquele mesmo dia o menino estava morto…

Dona Olívia e Seu José ficaram inconsoláveis, já era o 6º filho que perdiam, todos eles com idade inferior a 2 anos e sem nenhum motivo aparente, simplesmente morriam. Sobrara-lhes apenas Mariinha, e a se acreditar na profecia que fez o recém falecido, momentos antes de morrer, ela e todos os outros 4 que ainda viriam ao mundo através do casal iriam sobreviver, chegar à idade adulta e dar-lhes muitas alegrias. De fato, a profecia tornou-se realidade, depois da morte de Luis, em 1926, Deus apiedou-se do casal e não roubou-lhes mais nenhuma criança.

Mariinha foi criada solta, brincando descalça, com outras crianças nas ruas de terra ao redor da Rua Rui Barbosa, a via que ligava o bairro de Santana ao centro da cidade. Mas os arredores da casa não eram suficiente para a insaciável curiosidade da menina de 3 anos, ela queria mais, muito mais. Um belo dia ela resolveu seguir na direção da cidade, cruzou o viaduto, a linha do trem, subiu até a Igreja Matriz, continuou pela Rua XV e foi dar na linha velha do trem, onde hoje é a Faculdade de Direito, um trajeto de quase 5km! E lá ficou, esquecida de tudo e de todos, extasiada pela visão daquele trem comprido, puxado pela imponente Maria Fumaça…

Quando deram pela falta de Mariinha foi um fuzuê; procuraram no poço, no rio, na lagoa nos fundos da casa, nas casas dos vizinhos, e nada da menina… Enquanto isso, bem longe dali, feliz da vida, Mariinha foi reconhecida pelo doceiro ambulante, que vendo aquele toquinho de gente desacompanhado, perguntou o que ela estava fazendo ali, tão longe de casa. A resposta não poderia ser mais desconcertante:

__”Eu estou conhecendo o mundo, Seu Valentim!“.

Já de volta à casa, diante dos pais chorosos mas aliviados com o retorno da única filha, Mariinha declarou entusiasmada e orgulhosa da façanha:

__”Mãe, eu vi o mundo e ele é grande!“.

Não tendo recebido punição pela fuga, ela tomou gosto pela coisa. Não demorou muito e a menina escapou novamente, embarcando na carroceria de um caminhão, desses que iam recolhendo leite de fazenda em fazenda. Desta vez Mariinha foi vista em cima da carroceria por uma vizinha, que foi correndo avisar Dona Olívia, mas era tarde, o caminhão já ia longe. Num piscar de olhos, Dona Olívia foi à pé até a Igreja Matriz e alugou o único carro de praça que havia na cidade e zarpou ao encontro da filha. Ao longo da estrada de terra que liga São José Campos à Monteiro Lobato, desesperada, ela ia incitando o motorista para que acelerasse mais o seu Fordinho T. Mas só conseguiram alcançar a menina 30 km adiante, já em Monteiro Lobato, perambulando e morta de fome, na praça principal da cidade vizinha.

Desta vez a travessura da menina não passou em branco, houve punição. Ninguém bateu nela, mas não houve remédio, tiveram que amarrar com cordas o calcanhar da arteira, ao pé de uma pesada mesa de madeira que ficava na cozinha, um castigo que se repetiria ao longo de toda infância de Mariinha. Na primeira vez que a prenderam à mesa foi fácil, ela era pequeninha, mas quando cresceu não se deixava apanhar com facilidade. Quem quisesse pega-la tinha que se livrar de suas poderosas dentadas. A menina mordia e mordia muito forte! Diz a lenda que a sólida dentição da pequena fera era fruto de uma simpatia; haviam passado o leite de uma cadela preta em suas gengivas, no intuito de aliviar as dores que lhe provocavam os primeiros incisivos que apontavam…

Mariinha tinha 3 anos quando nasceu seu primeiro irmão. Reparando que o bebe tinha olhos azuis e que isso era motivo de júbilo por parte dos parentes que vinham visitar o recém-nascido, quis saber o por que dos olhos dela serem castanhos e não arrancarem elogios de ninguém.

__Minha filha, os olhos dele são azuis por causa dos bichos de goiaba que eu comi durante a gravidez – respondeu a mãe.

Mariinha não teve dúvida, passou uma semana comendo as goiabas do chão do quintal, repletas de larvinhas brancas, mas não conseguiu ver nenhuma mudança na cor dos seus olhos… Alguns meses mais tarde, Mariinha se deu conta de que o bebê era anatomicamente diferente dela, e novamente indagou da mãe o por que de tal diferença. A mãe, querendo aproveitar a oportunidade para sossegar o pito da menina, disse que o bebê era homem porque era quietinho e obediente. Pois Mariinha passou a semana inteira quietinha e bem comportada, mas cadê que ela virava homem? Ela se mirava no espelho e nada, continuava igualzinha ao que sempre fora. Mariinha ficou desolada com a constatação da diferença, aquilo mexeu profundamente com ela. Tanto que, à partir de então, para compensar a falta anatômica, passou a se comportar, deliberadamente, como um homem.

E essas duas tentativas frustradas foram o bastante para que Mariinha passasse a desconfiar do que diziam os adultos e não mais acreditasse em qualquer coisa que saísse da boca dos homens…

Uma moleca como Mariinha não via graça na companhia de meninas e a única que tinha a idade dela era gorda e não conseguia acompanha-la nas brincadeiras… De modo que suas amizades eram masculinas, em sua maioria absoluta, e era com os garotos que ela roubava frutas, apostava corrida de bicicleta, brincava de pega-pega na mangueira e caçava besouros para fazer trenzinho, amarrando os pobres bichinhos a uma fieira de caixas de fósforos cheias de pedrinhas. Mas o mais divertido era pegar os cavalos de um carroceiro que largava os animais pastando na beira da lagoa, enquanto ele enchia a cara no bar. Mariinha e os garotos se esbaldavam montando em pelo na cavalada. Quem não gostava nada daquilo era Dona Olívia, que tinha o trabalhão de dar um bom banho de bacia na filha que voltava fedida e com os pés encardidos de barro…

Dona Olívia era uma pessoa paciente e pacata, aturava as artes da filha sem jamais ter levantado a mão contra ela. Seu José era o oposto, quando chegava do trabalho na Tecelagem Parahyba, onde trabalhava como marceneiro, comandava tudo só com o olhar. Bastava a presença austera do mineiro de Joanópolis para que os 5 filhos se comportassem como se estivessem num colégio interno. Seu José nunca bateu nos filhos, salvo uma vez que Mariinha irritou tanto o velho que acabou levando umas cintadas. Mas só porque ela deixou, pois nas primeiras tentativas Mariinha saltou mais alto que a cinta e Seu José encontrou somente o ar! Vendo que a coisa ia piorar se ela não cedesse, acabou, finalmente, deixando ele acertar algumas cintadas…

Já de criança, Mariinha demonstrou interesse e grande habilidade no trato com o dinheiro. Como gostasse muito das guloseimas que eram vendidas pelos bares no caminho, deu um jeito de ganhar uns tostões para poder compra-los. Todo domingo, bem cedinho, ela passava na casa de Dona Chiquinha, enchia um cesto com alface e ia vender as verduras ao lado da igreja. Para as costureiras que tinham a vista cansada, ela enfiava linha na agulha, e cobrava um tostão para cada 12 agulhas que preparada com as linhas. Mais tarde, como era boa de escrita, fazia às escondidas as redações das colegüinhas e recebia em espécie; cadernos, lápis de cor, borrachas, fitas, tiaras, etc…

Na véspera do seu primeiro dia de escola, de tão ansiosa que estava, Mariinha mal pegou no sono e quando escutou o pai saindo, às 5h da manhã para o trabalho, saltou da cama e foi correndo vestir o uniforme, uma saia de pregas e uma blusa branquinha, que sua avó havia cuidadosamente preparado para ela. A aula só ia começar às 8h e nesse meio tempo ela resolveu ir brincar na rua. Acontece que tinha chovido e lá fora estava um barro só. Clero que ela caiu, se sujou da cabeça aos pés, o uniforme ficou todinho marron do barro, ela teve que botar uma roupa comum e quase foi impedida de comparecer ao seu primeiro dia de aula…

Era de se esperar que uma moleca tão arteira como Mariinha não fosse morrer de amores pela escola. Pois aconteceu justamente o contrário, depois que passou a frequentar o II Grupo Escolar de São José dos Campos a menina sossegou. Encontrou nos livros uma janela para o mundo, parou de fugir de casa e tornou-se uma menina mais centrada. Mergulhou fundo na leitura e chegou mesmo a aprender francês por conta própria, com a ajuda de um método que ela guarda com carinho até hoje, presente do seu professor no 3º ano primário.

Festeira que era, não perdia nenhuma oportunidade de se apresentar no palco da escola, nas comemorações cívicas e religiosas. Mas Mariinha não havia largado totalmente seu lado moleca; no Dia das Aves, durante a declamação de poemas, havia um momento em que se soltava passarinhos, uma maneira de mostrar o valor da liberdade. Adivinhem quem é que tinha uma arapuca e capturou os bichinhos no mato? Sim, ela mesma, a Mariinha!

De resto, ela era uma menina comum, com o sonho de um dia ser professora. Em casa, mais responsável agora, ajudava a mãe a criar os irmãos mais novos. Ia ao cinema de vez em quando e colecionava fotos de moças e rapazes, recortadas da revista O Cruzeiro, com as quais enchia de alto a baixo as paredes do seu quarto.

Apesar de frequentar o “footing” da Praça de Santana, os assuntos do amor não faziam parte das suas prioridades, na verdade nem estavam nos seus planos. Mas lá pelo 5º ano do ginásio apareceu o Pedrinho, um rapaz que foi “sugerido” como um bom partido pelos parentes dela e dele, uma maneira de juntar as duas famílias. Começaram o namoro, mas a coisa estava fadada ao fracasso, Pedrinho era ciumento demais e Mariinha não havia nascido para ser propriedade de homem nenhum.  Volta e meia ele batia com o cabo do relho da montaria na porta da casa dela, informado que havia sido por um olheiro, querendo saber quem era fulano ou sicrano, que fora visto simplesmente conversando com a moça. Um dia ela se encheu com essa palhaçada, foi até a porta e gritou decidida:

__”Suma daqui já e eu nunca mais quero ver a sua cara, seu abusado!”

Namoro de verdade, de pegar na mão e com troca de olhares romanticos, só aconteceu bem mais tarde, quando Mariinha já estava cursando o Normal. Dona de casa ela já sabia que não queria ser, por isso mesmo estava cursando o Magistério. Sendo professora ela teria um trabalho digno e poderia ganhar seu próprio dinheiro, se livrando, assim, da dependencia que acorrenta as mulheres que são sustentadas pelos maridos.

Mas a moça, inquieta que era, não agüentou esperar o diploma de normalista e seguir como professora. Um dia, um professor do curso avisou-a de uma vaga para secretária no Aeroclube de São José dos Campos, que ficava do outro lado da cidade. Candidatou-se, conseguiu o posto e foi assim que acabou conhecendo seu futuro marido, Renato Becker, fundador do clube, um dentre os 53 senhores da sociedade joseense que assinaram o documento de criação do mesmo. Alguns desses senhores, caso de Renato, eram movidos pelo sincero desejo de aprender voar, mas outros, pelo sentimento patriótico de colocar o Brasil em pé de igualdade com outras nações mais adiantadas na aviação. Era tempo de guerra e o país tinha todo interesse de formar pilotos, incentivando a criação desses pequenos aeroclubes e facilitando o fornecimento de aviões de treinamento.

Nessa época, Renato não era instrutor de vôo, mas como a nova secretária houvesse demonstrado interesse por tirar o brevê, arrumou um jeito de ser ele quem deu à moça as primeiras lições de pilotagem no Paulistinha, o avião que era usado para aprendizado no Aeroclube. A atenção dispensada pelo instrutor não passou desapercebida pela aluna. Na seqüência vieram convites para sessões de cinema, passeios, sorvetes, que acabaram culminando com um pedido formal de namoro ao pai da moça.

Seu José Lopes de Campos mandou vir o pretendente. Vestidos todos a caráter, sentaram-se os tres na sala de estar, o pai, a filha e o futuro genro. O que estaria querendo com Mariinha aquele empresário trintão, sócio da Cerâmica Becker, fabricante de tijolos e telhas na cidade de São José dos Campos? Ele precisava certificar-se, olho no olho, de que não se tratava apenas de mais uma aventura de um playboy endinheirado da cidade, querendo aproveitar-se de sua filha. Um tanto quanto nervoso, devido às diferenças, de idade e de condição social, perguntou:

__Meu caro, quais são suas intenções com minha filha Maria Aparecida?

Renato fez o melhor discurso que pode e garantiu sua seriedade, disse que suas intenções eram as melhores e que queria muito constituir família com Mariinha. Ao que o pai respondeu:

__Bem o senhor já falou com ela? Sim? Então, se é do gosto dela, por mim podem namorar.

Com pouco tempo de namoro, Mariinha confirmou que Renato era um homem sério e que preenchia os todos os requisitos que ela julgava essenciais naquele que pretendesse ser seu marido. Assim, seis meses depois, às 10h da manhã, numa cerimônia discreta, celebrou-se o enlace, na pequena igreja de Santana, seguido de um café da manhã servido na casa da noiva. A família do noivo, embora fosse abastada, era de gente trabalhadora que punha a mão na massa e não gostava de ostentar. Portanto, concordaram de bom grado fazer tudo da maneira mais simples possível. Mas a lua de mel seria bem diferente, nem um pouco simples. Os noivos partiram para Poços de Caldas, um destino até que comum entre os recém casados. O diferente foi o meio de transporte, o avião, e a pessoa que o pilotou. No controle do manche, já com o seu brevê, estava a intrépida Mariinha, que exigiu ocupar o assento da frente do Paulistinha!

Ao aterissarem, porém, um imprevisto; aquela aeronave não tinha permissão para voar e teve que ficar retida na cidade de Poços de Caldas, de modo que, terminada a lua de mel, o casal teve que se sujeitar a uma viagem de ônibus. Liberar o avião não foi tarefa fácil, o que só se conseguiu com a intervenção do amigo do noivo, o influente empresário Assis Chateaubriand. Um piloto do Aeroclube, o instrutor Luis Ribeiro dos Santos, foi designado para buscá-lo, pousou em São José dos Campos e pouco tempo depois o motor explodiu, destruindo completamente esta parte da aeronave. Mariinha sentiu a mão de Deus neste aparente contratempo, o acidente poderia ter acontecido com eles a bordo…

O casamento com Renato lançou Mariinha num universo totalmente novo, à partir de agora ela fazia parte da alta sociedade joseense. O casal instalou-se na ampla residencia que ficava ao lado da Cerâmica Becker, na periferia da cidade, onde Renato ocupava o cargo de gerente. O lugar era longe de tudo, já na zona rural, e a nova dona de casa teve que fazer das tripas coração para receber bem os sogros, cunhados e os não poucos amigos e convidados do marido.

Naquela casa respirava-se aviação e havia até um cômodo, denominado Quarto da Aviação, onde eles hospedavam os amigos aviadores que vinham de São Paulo, Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais. Consta que naquele quarto dormiram, dentre outros, o Brigadeiro Neiva, Comandante da 4ª Zona Aérea e a intrépida Ada Rogato, a primeira mulher a  obter licença como paraquedista e volovelista no Brasil.

Adaptar-se à nova vida não foi nada fácil para Mariinha, que não tinha experiência alguma na administração de uma casa e além disso não contava com ajuda de empregados, embora Renato desse uma mão de vez em quando. Ela havia aprendido muito rapidamente a botar um avião no ar, mas pilotar a casa e principalmente a cozinha, ah! isso foi bem mais trabalhoso… Por sorte, a exigente sogra era uma cozinheira de mão cheia, estava sempre por perto, e Mariinha pode aprender muito com seus conselhos e sugestões… Se descontarmos as empadinhas recheadas de formigas e algum feijão que se queimou, Mariinha até que se saiu bem na cozinha…

Com a chegada dos filhos, o trabalho só aumentou, mas Mariinha tinha como ponto de honra não pedir ajuda nem à mãe nem à sogra, jamais largou os filhos com nenhuma das duas. Nem quando algum deles caia doente. Desde pequena ela se interessou por plantas, herança da avó que conhecia bem as ervas medicinais e Mariinha orgulha-se de nunca ter dado remédio de farmácia aos 3 filhos que tiveram, Tania, Renato e Ricardo, nascidos nesta ordem. No começo, ao ve-la preparar os chás, Renato ficou espantado:

__”Eu sabia que você era meio índia de Santana, mas não que era curandeira!”

Criança com tosse? Dá-lhe chá de flor de mamoeiro. Criança com febre? Dá-lhe chá de sabugueiro. Vermes? Chá de hortelã. E não era só com as ervas, Mariinha cultivava sua couve, seu cheiro verde e conhecia bem os matos comestíveis; serralha, caruru, taioba, bertalha, etc…

Quando a filha mais velha completou dez anos, Mariinha resolveu que era hora de tirar o pó do seu diploma de professora. A justificativa que ela deu para o mundo e para si mesma é que não era justo uma mulher ficar em casa feito uma dondoca. Não é certo uma mulher que depende do marido, pensava ela. Mas se hoje a vida do professor não é fácil, naquela época era ainda pior. Para um professor começar a ser fazer jus a um salário, tinha que trabalhar de graça por dois anos, acumular um determinado numero de pontos, para só então ter o direito de requerer uma docência remunerada. Para tanto, adaptou-se a igrejinha da Cerâmica, transformando-a em escola, e foi lá que Mariinha passou dois anos dando aulas, até alcançar o numero necessário de pontos. Durante esse período, ela não recebeu um tostão pelas aulas.

Tão logo atingiu os pontos, solicitou uma vaga numa escola estadual, mas tudo que conseguiu, o que sobrou para ela, foi um posto na Escola Mixta do Bairro de Cambaquara, ponta sul da longínqua Ilha Bela, onde só se chegava de barco. Ela não se deixou intimidar, a Ceramica estava mal das pernas e ela se sentia na obrigação de contribuir finaceiramente. Mandou a filha mais velha para um internato em Taubaté, deixou os outros dois com o marido e partiu para a grande desafio de dar aula numa escola que há dois anos não encontrava um professor com coragem suficiente de se aventurar por aquelas bandas…

Lá chegando, Mariinha entendeu o porque de ninguém querer dar aulas naquela escola. O prédio era de barrote (pau-a-pique), muito velho, construído no tempo do Império e caindo aos pedaços. Funcionava como moradia na parte de cima e casa de farinha na parte de baixo, com todo jeito de nunca ter passado por uma reforma. Banheiro dentro de casa não existia, era preciso uma longa caminhada num percurso cheio de cobras e borrachudos, para se aliviar. O quarto que deram para ela era tão cheio de pulgas, que Mariinha tinha que encher seus lençóis de Neocid antes de se enfiar neles para dormir. A dona da casa ficou apavorada com aquilo e para se resguardar, obrigou a professora a assinar um documento, se responsabilizando por uma eventual morte por envenenamento…

Para conseguir dar as aulas, ela tinha que se proteger doa borrachudos, deixando de fora somente os olhos e os dedos, para poder enxergar e poder pegar no giz! Mas as crianças já estavam acostumadas, não se incomodavam com as picadas. Quando iam ao quadro negro escrever qualquer coisa, ao sair deixavam a marca do pezinho delineada com o sangue que escorria de suas perninhas, pretas de tantos borrachudos.

Mariinha tinha muita saudade de casa, mas só podia sair de lá uma vez a cada mes e isso quando o mar permitia. De vez em quando dava sorte pegava carona no barquinho a motor do seu Santinho, entre bananas, aranhas e cobras, com água pelas canelas e uma cuia na mão para jogar a água que entrava pelos furos da embarcação. Uma vez ela viu uma cobra no meio das bananas e perguntou ao seu Santinho se tinha algum perigo. O pescador, muito calmo, respondeu:

__”Já olhou a linguinha da bicha? Se for verde não tem o que temer…”.

O ano e meio que ela passou dando aulas na Ilha Bela foi um verdadeiro curso de sobrevivência na selva…

Depois dessa experiência e agora com mais pontos e tempo de casa, ela finalmente conseguiu transferência para São José dos Campos, numa escola rural novinha em folha, dessa vez com banheiro no mesmo prédio. Para ir à escola, Mariinha pegava um dos caminhões basculantes da Cerâmica, que era usado para transportar o barro das telhas e tijolos. Como ia sozinha, dava carona para os alunos que moravam ao longo do percurso. Ela era boa motorista, mas não muito íntima dos caminhões. Um dia, curiosa com uma alavanca no painel, mexeu nela, e o que ouviu em seguida foi só a criançada gritando. A alavanca acionou a caçamba e as crianças foram todas despejadas para fora do caminhão. Por sorte havia areia onde elas caíram e elas sofreram apenas alguns arranhões…

Com os filhos já criados e a vida mais tranquila, Mariinha e Renato puderam cuidar melhor de si mesmos. Passaram a viajar pelo Brasil, sempre buscando conhecer a cultura popular, pesquisando e colhendo  material que Mariinha registrava em cadernos escolares e depois usava em sala de aula. Quando tudo pareciam flores, Renato morre de infarto em Belo Horizonte, durante uma viagem em que fora fazer um tratamento de acupuntura, por causa de uma dor de cabeça que o acompanhava desde criança. Mariinha sentiu o chão sumir sob seus pés, ver-se subitamente privada do marido, ele que sempre fora uma referência na vida dela! Mas não deu tempo nem de chorar, a absurdidade dos trâmites burocráticos envolvendo o traslado do corpo tomaram um tempo e energia enormes e tornaram a vida da viúva num inferno. Foram tantas decisões em tão curto espaço de tempo, que foi como se as lágrimas tivessem secado dos seus olhos.

Para piorar, em alguns meses sairia a aposentadoria que ela havia requisitado e ela ficou sem uma atividade que poderia ajuda-la a esquecer da sua miséria. Ou seja, naquele momento, tudo que Mariinha podia ver a sua frente era um vazio, e ela sabia que precisava preenche-lo urgentemente.

Na tentativa de se ocupar e dar um sentido a sua vida, foi trabalhar como voluntária no Hospital São Francisco, em Jacareí, embalando doces, costurando e remendando aventais e lençóis. Mas não era isso que ela queria para sua vida, essas coisas qualquer pessoa podia fazer. Em paralelo, ela também se dedicava à alfabetização de idosos, trabalho que ela gostava muito e ajudava a passar o tempo, mas que não resolvia o problema das asinhas que ela tinha nos pés! Ainda estava faltando alguma coisa…

E essa coisa tinha a ver com aquela Mariinha criança, aquela que um dia fugiu de casa e quis conhecer o mundo. Assim, ela teve a brilhante idéia de começar um curso para ser guia de turismo na cidade de São Paulo, na ABL, uma renomada instituição de ensino no ramo. Como o curso não ocupasse todo seu tempo, aproveitou para tomar lições de italiano e espanhol, numa escola no bairro do Tucuruvi. Fez isso durante 3 anos. Chegou a trabalhar um pouco aqui no Brasil, mas as asas queriam voar mais alto e ela não deixou passar a oportunidade tão logo surgiu; com a desculpa que uma amiga precisava de companhia, lá foi ela numa excursão para a Roma, sua primeira viagem ao exterior. Fascinada com Cidade Eterna, resolveu ficar por lá e não voltou com a turma. Com pouco dinheiro que tinha, alugou um quarto numa pensão e começou a trabalhar como guia, valendo-se do italiano que ela havia aprendido no Brasil, que ela achou pouco e reforçou com um curso intensivo em Firenze.

Terminado o curso, as coisas foram dando muito certo para Mariinha e o trabalho foi aparecendo como se fosse mágica. Seu primeiro trabalho ela conseguiu sozinha, abordando uma turista que desembarcava do trem na estação em Roma! Depois passou a trabalhar para agências, aprofundou-se no italiano e em tres tempos estava levando turistas para a França, Portugal e Holanda. O ingles que ela estudou com uma amiga holandesa, esposa de um professor do ITA, foi de grande serventia nessa hora, além do espanhol e frances que ela andou aprendendo por conta própria ao longo da vida.

Durante quase 30 anos, Mariinha ficaria viajando entre o Brasil e a Europa, às vezes trabalhando de guia, às vezes visitando amigos e parentes que lá moravam. No Brasil, sua viagem mais marcante foi o passeio de gaiola no Rio São Francisco. Foram dias dormindo em rede e convivendo com todo tipo de gente. Um belo dia, roubaram a toalha de seu companheiro de viagem, um ex seminarista que recém desistira de ser padre e estava fazendo seu primeiro contato com o mundo exterior. Mariinha não se intimidou, deu uma de detetive e desconfiada de um grupo de maconheiros, esperou que eles estivessem dormindo, foi fuçar na bagagem deles e lá estava a toalha! No fim da viagem, ela recebeu o título de Miss Santa Bárbara, talvez porque o povo achou ela fosse muito pura, de não querer tomar banho com água do São Francisco. Ela preferia se limpar com água mineral de Campos do Jordão, que comprava a preço de ouro no bar da embarcação. Mas não se tratava de frescura e sim de preservar sua saúde, pois ela havia reparado que a captação da água para uso geral, era feita abaixo da saída do esgoto dos banheiros!

Mariinha só foi parar seu vai-e-vem de viagens aos 80 anos, e isso porque um neto seu se separou e as crianças ficaram nas mãos de uma babá abusada, que botava sonífero na mamadeira dos pequenos… Ela resolveu tomar para si a tarefa de cuidar das crianças e deu por encerrada sua fase de guia de turismo. Mesmo porque, sua coluna já não estava mais parando em pé sozinha e teve que passar por uma cirurgia, na qual foram colocados 4 pinos na lombar, e amortecedores entre algumas vértebras. O corpo começava a dar sinal que já não estava agüentando o frenético ritmo de sua dona… Já não é mais o mesmo corpo que uma vez, no Metrô de São Paulo, sob os olhares atônitos dos fiscais, pulou a catraca porque estava emperrada e não teve a paciência de esperar alguém que viesse liberar!

Hoje, além de ajudar quando a família precisa, ela ainda frequenta dois centros para idosos em São José dos Campos. Num deles ela faz a contabilidade, que ela chama de escrituração, e no outro é uma usuária comum, se é que existe alguma coisa nessa mulher que possa ser chamado de comum… Nestes centros, ela organiza bingos, palestras e artesanato, além da atividade que é sua menina dos olhos, a alfabetização de idosos. Quando pode, ela dá uma de atriz nas peças que eles apresentam nos fins de ano (vide foto de Cida de anjo).

Nas horas vagas ela ainda encontra tempo para ler, bordar, cuidar de suas plantinhas, estudar e traduzir livros. Já traduziu 3 (* >> colocar no pé da página o nome dos livros >>>  Livro dos Mediuns, Genese, O que é o Espiritismo?), todos eles de Alan Kardec, do francês para o português, tendo recebido apenas uma remuneração simbólica e abrido mão dos direitos autorais como tradutora. Ou seja, ela fez por amor à arte.

Diz que gostaria de ser mais inteligente, para poder compreender melhor o mundo em que ela vive. Em muitos aspectos, Mariinha é uma mulher do seu tempo, informada e participante, mas ainda gosta de escrever cartas como antigamente, e é assim que se comunica, entre outros, com sua amiga nonagenária que vive na Holanda. Depois de resistir durante anos, está ensaiando um mergulho na modernidade e vai, finalmente, aceitar um notebook de presente dos filhos.

Seu herói é Jesus Cristo, espelha-se nele para dar um sentido à sua vida, que tem sido de serviço ao próximo. Gostaria de ser como o Nazareno, que sendo golpeado em uma das faces, ofereceu a outra… Sabe que temos todos uma fagulha de Deus e outra do Diabo e que são como dois cachorros famintos que moram dentro da gente, vai sobreviver aquele que for melhor alimentado. E por fim, ela espera que Alan Kardec tenha razão: que depois da morte, depois que alma deixe este triste envoltório, que voltemos a ser jovens, bonitos, inteligentes e corajosos.

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Dona Cida gosta de andar à pé. Se a distância é curta, ela prefere deixar o carro na garagem e aproveitar para mexer o esqueleto. Acontece que as calçadas das ruas da nossa cidade mais parecem um queijo suíço, de tantos buracos que têm, e dona Cida acabou tropeçando num deles, na época em que fazíamos as nossas entrevistas. Na hora não doeu, mas quando sentou-se em casa, justamente na durante uma entrevista comigo, ela foi acometida por uma dor que a impediu de andar e acabou indo parar num hospital, para checar se não havia nada quebrado.

No dia seguinte, preocupado com a saúde da minha amiga, dei um telefonema.

__E então, Cida? Firme e forte? Tá tudo bem com você?

Ao que ela respondeu com um neologismo inventado por ela, indignada, como se eu tivesse mexido com sua honra.

__Mas é claro que sim, a Maria Aparecida é “inestingüível”!

Na hora que escutei isso, dei uma boa gargalhada, mas depois fiquei pensando… Dona Cida está conectada com uma força que, esta sim, é inestingüível. Por isso a aura de entusiasmo e determinação que a acompanham, por isso o fascínio que ela exerce em quem se aproxima dela. Porque dona Cida está sempre em conexão direta com sua alma e a coloca em tudo que faz.

Sou grato ao destino, à existência, a Deus, por termos cruzado nossos caminhos e nos tornado amigos, pois muitas portas se abriram e meu caminho se tornou mais iluminado. Espero que este texto tenha conseguido traduzir alguma coisa da beleza que foi este encontro de almas.

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SEU NARDO

outubro 23, 2017

 

 

 

Seu Nadir, apelidado de Nardo pelos amigos, nasceu em Camanducaia MG no ano de 1943 e hoje vive em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos SP. Seu primeiro trabalho foi ajudar o pai a acabar com sauveiros numa plantação de eucaliptos, aplicando formicida Tatú, com apenas 5 anos de vida…

A vida toda lidou com tropa, baldeando carvão, madeira, “o que tivesse que transportar nóis transportava de mula… naqueles tempo num tinha as estrada boa de hoje, de modo que só a tropa que entrava nos trio, caminhão não passava não…”

Seu Nadir acorda às 5h da manhã, pica o capim, tira leite das vacas, limpa o curral, trata dos porcos, das galinhas e depois almoça. Não tem tempo nem de tirar uma soneca, já sai consertar um cerca, roçar um pasto ou remendar uma sela que está se desfazendo.
Segundo dona Lurdes, sua esposa, ele só para no meio do dia, quando se recolhe à capelinha que ele mesmo construiu ao lado de sua casa e reza para Santa Catarina. Por que Santa Catarina, seu Nadir?

__”Porque eu ganhei um santinho dela quando menino e prometi que quando fosse adulto ia fazer uma capela prela. Coisa que a gente pensa quando criança, um sonho que eu quis realizá…”

Já adulto, cincoentão, ele resolveu aprender a trabalhar com o couro. Faz bruacas, canastras, chicotes, selas, cangalhas, tudo que for de couro ele sabe fazer. Perguntei a ele porque não compra prontas as traias que usa, não seria mais fácil, já que ele tem tanto serviço na roça?

__”É que a gente gosta muito da criação, qué tá sempre junto deles e lidando com o couro é como se eu estivesse perto dos animais o tempo todo, mesmo não estando com eles, entendeu, Chico?”

 

Vera, a enfermeira do meu pai

outubro 7, 2017

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Vera é daquele tipo de pessoa que não faz cerimônia, não gosta de passar desapercebida e é com total naturalidade que ocupa o espaço à sua volta. O olhar direto, a voz firme e os gestos decididos, ela me conquistou logo no primeiro encontro. Sem papas na língua, essa piauiense de Piripiri, baixinha e com sotaque carregado, diz o que lhe vem à cabeça, franqueza é a sua marca registrada.

Conheci Vera quando ela cuidava de meu pai, paciente de Alzheimer. Ela é uma das muitas profissionais que se revezaram no trabalho de dar banho, passar creminho, trocar fraldas e entreter meu pai, nessa fase surreal em que alguns velhos resolvem voltar a ser crianças. Nossa conversa engatou muito fácil, foi só eu começar a perguntar e ela desfiou sua vida todinha, ali mesmo, ao lado do leito do doente. Meu pai, como se fosse um bebê que se deixa embalar por uma história de ninar, escutou atento o relato da saga dessa nordestina que baixou ao sul maravilha em busca de uma vida melhor…

__Posso botar no livro tudo isso que você falou, Vera? Do jeitinho que você contou?

__Mas não tenha dúvida, Chico, eu sou mulher de palavra! Não me arrependo de nada do que digo nem do que faço, pode botar tudo, lógico que sim!

E tudo eu botei!

________

 

Aos 19 de agosto de 1961, nascia Vera, a segunda filha de Vicente Erasmo da Silva e Isabel Pacífico da Silva. Nesta época, Seu Vicente já tinha deixado a roça e trabalhava como eletricista, contratado que tinha sido pelo Batalhão de Engenharia da Construção, órgão subordinado ao Exército, criado para implementar a infra-estrutura viária no Piauí. Dona Isabel era do lar, cuidava dos filhos e apesar da canícula nordestina, fazia questão de sempre plantar uma horta caseira, da qual tirava alface, couve, tomate e temperos, em cada uma das diferentes cidades pelas quais a família passou. Viviam trocando de cidade, pois o trabalho de Seu Vicente exigia constantes deslocamentos pelos diversos trechos da malha ferroviária do estado.

Vera desde menina foi opiniosa, mesmo que isso lhe custasse pesadas surras, à base de cinta e chicote, desferidas por um pai autoritário e rígido como pau-ferro. À noite, de volta do trabalho no Batalhão de Engenharia da Construção, seu Vicente não se conformava de ver sua filha brincando na rua; lugar de criança era dentro de casa, dizia ele. Como é que a mulher não via isso? As ordens de Seu Vicente eram muito claras: as crianças saiam de casa para a escola e tinham que voltar para casa olhando para a frente, sem virar a cabeça para o lado e ai de quem o fizesse! É claro que Vera não obedecia, o mundo lá fora sempre a atraiu muito mais do que as quatro paredes do lar.

A rua não ajudou Vera nas notas, tanto que acabou repetindo o 3º ano. O pai, para estimulá-la a passar de ano, prometeu um premio irresistível para a filha: uma viagem. Ela se esforçou, estudou muito e acabou passando de ano. E foi com a idade de 9 anos que Vera foi levada a Parnaíba, para conhecer uma coisa da qual ela nunca tinha ouvido falar: o mar. Ao avistar de longe aquela imensidão de água, perguntou:

__E esse rio não tem fim? Onde é que tá a outra margem dele? – Depois, ao entrar na mar, ser derrubada por uma onda mais forte e engolir muita água, exclamou indignada:

__Quem foi o imbecil que botou sal nessa água toda?

Na infância, enquanto sonhava um dia ser médica, Vera brincava de bonecas de pano, confeccionadas pela mãe, pulava corda, jogava amarelinha, mas se entediava de passar as tardes com os dois irmãos apenas. Queria mesmo é ir para a rua, onde havia mais gente, movimento! Na rua, na casa de vizinhos, Vera descobriu a televisão, que no dizer do povo era um rádio em que se podia ver as pessoas falando… Cinema só foi conhecer bem mais velha, com 13 anos. Os filmes românticos não a interessavam, achava sem graça, gostava mesmo era de filmes de muita ação, tipo Rambo e Bang Bang (esse último ela teria assistido uma meia dúzia de vezes!).

Curiosa que era, Vera acabou experimentando o cigarro e gostou, tanto que fuma até hoje, com 50 anos. Mas na época tinha seus 15 anos e o pai continuava ainda no seu pé. Foi questão de tempo para que ele a flagrasse pitando um Continental sem filtro, que segundo ela tinha a preferência, pois era mais chique que o Clássicos. E dessa vez, quando Seu Vicente a flagrou no delito, além da tradicional surra, houve um requinte na maldade. Fez ela fumar o maço todinho até o último, e entre um cigarro e outro, era uma lambada que descia nas costas da coitada da menina. Não satisfeito, pegou todas as guimbas, colocou numa jarra com água, botou umas colheradas de açúcar e obrigou a pobrezinha a beber o fétido chá adoçado! Ela bebeu, enojada, até a última gota, mas de nada adiantou a punição, Vera continuou fumando e desafiando o pai…

Para manter o vício do cigarro e poder continuar comprando suas roupas, Vera começou a fazer enfeites de fita. Teve, assim, o gosto da liberdade, através do primeiro dinheiro ganho com seu próprio trabalho. Por essa época, permitiu que um rapaz mais velho se aproximasse e tomasse algumas liberdades, mas não gostou e acabou dando o sinal vermelho para ele. Achou que o cabra anunciava bem o produto mas a propaganda era enganosa, ele não era lá essas coisas não, e dispensou-o sumariamente. Só aos 17 é que deixou de ser moça e aí foi demais para seu Vicente, que não encontrou outra saída, teve que expulsa-la de casa. Vera não pensou duas vezes, fez sua trouxa, largou família e amigos, chutou o namorado e se mandou para o Ceará, onde tinha o contato de algumas conhecidas de seu pai.

Lá chegando, não foi difícil arrumar trabalho. Despachada como só ela, Vera foi bater na fazenda de Seu Raimundo, um latifundiário que mantinha uma escola rural e estava mesmo à procura de uma professora. O problema é que ela só tinha a 8ª série, será que ia dar conta?

__Seu Raimundo, eu quero muito esse trabalho, mas verdade seja dita, eu só tenho até a 8ª série. Como ficamos, o senhor me aceita mesmo assim?

__Olhe, Vera, se você ensinar esses meus empregados e mais uns gatos pingados da cidade a escreverem o nome deles, é o que me basta.

__Disso eu dou conta, mas não é pouco, ensinar esses caboclo a escrever só o nome deles?

__O que eu preciso é que eles consigam assinar o nome na frente do mesário, pois assim eles podem votar em mim e me eleger vereador daqui a dois anos. Aceita?

Vera não titubeou, no dia seguinte lá estava ela na sala de aula, a ensinar o ABC para os 35 marmanjos, dentre amigos e matutos do Seu Raimundo, todos eles mais velhos do que ela, com idades que variavam de 18 a 55 anos. Com status especial, era tratada como uma rainha. Ganhou uma suite só para ela na casa grande, onde gozava de todas as mordomias. Comia do bom e do melhor, tinha roupa lavada e passada e tempo para namorar um dos alunos, o mais bonito deles, com o qual acabou se casando dali a dois meses…

Vera não perdia tempo! Numa quarta feira passou a mão em Jacinto, foi à igreja e ao cartório e oficializou a união com aquele que viria a ser o pai de seus tres filhos. Sem festa, sem vestido de noiva e de sandália de dedo mesmo, que o dinheiro não dava para luxo naqueles tempos. Mudaram-se para a cidadezinha próxima à fazenda, alugaram uma casa e botaram nela tudo que tinham: duas redes e um pote de água, que ficava ao lado da trempe, no comodo que servia de cozinha. As panelas e talheres só compraria dias depois. Jacinto abriu uma bodega, que é como eles chamam o bar lá no nordeste. Lá ele vendia pinga, que os fregueses bebiam enquanto jogavam sinuca. Vera, que continuava dando aulas na fazenda, resolveu abrir um mercadinho para se ocupar nas horas vagas. No fim do dia, pegava uma bicicleta e ia até a fazenda ensinar o povo a assinar o nome. Continuou fazendo isso durante dois anos, até que seu Raimundo foi eleito e ela teve que separar dos alunos, que por esse tempo, além de assinar o nome, até já estavam sabendo fazer umas aritméticas de somar e subtrair…

O primeiro filho a nascer foi Francisco Jones. Jones em homenagem ao personagem do filme de Hollywood, Indiana Jones, e Francisco em pagamento a uma promessa que Vera fez, temendo complicações no parto, que foi diagnosticado de risco pelo médico que a assistiu: se o filho nascesse vivo, não importa quantos filhos ela viesse a ter, que fossem 100, todos teriam Francisco no nome, inclusive as mulheres. Logo em seguida veio Francisca Jaqueline e o casal foi tocando a vida numa paz relativa, sem muitos aperreios, até que Vera ficou grávida de Francisca Aline, a última dos filhos.

Jacinto não bebia nem fumava, mas baralho era com ele mesmo. Recusado por Vera, que abusava (enjoava – no falar nordestino) por causa da gravidez, afundou-se no jogo e acabou perdendo todas suas economias. Mas só as dele, que Vera era mulher previdente, guardava sua parte em separado. Envergonhada da situação, Vera contatou os pais que a aceitaram de volta, com marido, dois filhos e grávida de Aline. Venderam a bodega e foram todos se arranchar debaixo das asas de Seu Vicente e Dona Isabel.

Mas foi por pouco tempo. A Jacinto, a familia de Vera ofereceu trabalho. Não foi um nem dois, mas muitos, e todos ele recusou. Só queria saber de baralho e bola. Pronto, isso irritou Vera, que se sentiu na obrigação de, mais uma vez, dar o pé na bunda de um homem que não prestava. Pegou metade do dinheiro da venda da bodega, botou na mão de Jacinto e apontou a porta da rua. Ele ainda tentou ameaçar:

__Presta atenção, mulher. Tem certeza que é isso mesmo que tu quer? Por que se for, fique sabendo, que enquanto o mundo for mundo, eu nunca mais vou te procurar!!!

Isso foi pouco para comover Vera, ela já estava decidida, deu as costas e deixou o marido falando sozinho… Preferiu enfrentar a oposição da família, que achou um absurdo ela chutar o marido e passou a hostiliza-la. Fizeram de tudo para ela voltar atrás, mas nada, Vera não queria mais o vagabundo, condição que, segundo ela, foi confirmado pelo próprio. Ao se despedir de Jones, então com 5 anos, ele abraçou-o e teria dito:

__Cresça e seja um homem, não um vagabundo como o seu pai…!

Não fosse a gravidez avançada, Vera teria partido imediatamente, pois que o clima na casa dos pais estava muito pesado demais. Já estava decidida a cair fora, mas somente depois de dar à luz ao bebe. Passou mais de ano no ostracismo, todos viravam a cara, como se ela não existisse. Mulher sem homem não vale nada, inda mais carregando dois filhos e o terceiro no buxo! Foi terrível para Vera, nem na maternidade sua mãe foi visitar a neta recém nascida! Desgostosa e triste, não agüentando a pressão, raspou da poupança o pouco dinheiro que sobrou da sua parte da venda da bodega, pegou os filhos e se mandou para a rodoviária. Lá chegando, sem saber exatamente pra onde ir mas com toda certeza do mundo que o que tinha de fazer era sair correndo daquele lugar, dirigiu-se ao balcão da Itapemirim e comprou duas passagens para São Paulo. Uma poltrona para ela e Aline, que tinha ano e meio e a outra para os dois meninos, Jones e Jaqueline. O ônibus era o famoso poeirinha, pois ia com as janelas abertas, já que não contava com ar condicionado.

São Paulo era uma luz bem fraquinha no fim do túnel, apenas uma possibilidade que ela tinha ouvido rodando na boca do povo. Dizia-se que lá o povo era frio, mas que trabalho não faltava e que se ganhava muito bem. Quem sabe lá ela não encontrava o sossego que nunca encontrou junto aos seus? Nas 48 horas de viagem, Vera foi sonhando com uma vida melhor, um futuro decente para aqueles tres seres, que agora dependiam inteiramente dela. Nas paradas, o pessoal ajudava Vera, ficando com as crianças enquanto ela ia ao banheiro. Foi assim que ela acabou puxando conversa com Seu José, que trabalhava em São Paulo, e que por conhecer muito bem a megalópole, desaconselhava que Vera arriscasse a sorte naquele inferno de pedra. Fosse pra São Paulo, o risco era grande que terminasse mendigando ou se prostituindo. Como alternativa, sugeriu que ela saltasse antes, numa cidade mais pacata e hospitaleira, ele indicava até uma pensão, que era de uma amiga dele, Dona Linda, que com certeza ia dar uma força para eles nos primeiros dias. Vera confiou desconfiando, quando estivessem chegando ela ia decidir. Ainda faltava uma boa pernada de viagem, que no todo é de longas 48 horas…

O mês era julho, mal sabiam aqueles 4 retirantes o que os esperava pela frente, eles, que a vida toda nunca tinham vestido uma blusa… Quando passaram por Minas Gerais, na região serrana, já no último quarto da viagem, a coisa ficou preta. Primeiro foi Jaqueline, depois Jones que reclamou da friagem.

__Mãe, to com frio, não consigo dormir!

Vera ficou desesperada, chegou os tres meninos contra seu corpo, formaram uma massa humana, mas não foi suficiente, o frio era demais. O que fazer? Restava pedir ajuda aos passageiros. Ela levantou-se e falou alto, para o ônibus todo escutar:

__Por amor de Nossa Senhora, tenho aqui 3 meninos tremendo de frio, será que alguém pode me fazer a caridade de doar um agasalho pra eles se protegerem dessa friagem? É doado mesmo, não é emprestado, que eu sei que não vou poder devolver.

Num passe de mágica apareceram agasalhos, não só para as 3 crianças, como também para Vera.

Já perto do fim da viagem, bem depois de Aparecida, Seu José lembrou Vera que se ela tinha que se decidir. Se quisesse ir para a pensão de Dona Linda, tinha que descer em São José dos Campos, logo ali à frente. Ela resolveu confiar, Seu José parecia uma boa pessoa. Juntou os pertences, os filhos, e pediu ao motorista que parasse em São José dos Campos. Naquela manhã fria e ventosa, ele deixou os 4 em frente ao Shopping Center Vale. Num misto de profecia e pensamento positivo para dar força a si mesma, olhou Jones nos olhos e disse:

__Jones, é aqui que nós vamos morar, essa é a nossa cidade, é aqui que vamos construir nossa casa!

Com o endereço de Dona Linda escrito num pedaço de papel, pediu informação para o primeiro que viu num ponto de ônibus.

__Sabe onde é a Rua Sebastião Hummel, moço?

__Pegue esse ônibus que vem vindo e pergunte ao cobrador, ele indica para a senhora o lugar certo de descer.

__Mas se for de pés fica em que direção essa tal rua?

__É pra lá, dona, mas é muito longe e a senhora tá com essas crianças…

Vera não terminou de ouvir o que dizia o homem, desceu até a avenida Nelson d’Avila e percorreu os quase 4 km, até a pousada de Dona Linda, na Sebastião Hummel. Lá chegando, foi recebida por uma paranaense muito simpática, que viria a desempenhar o papel de anjo da guarda, pai e mãe adotivos, lhe ajudando como pode, a construir do zero a vida dessa piauiense de fibra.

Dona Linda cedeu a ela uma suite, é verdade que muito simples, não contava nem com um guarda roupas, mas tinha cama de casal, onde dormiam os 4 juntinhos, com um banheiro muito limpinho à disposição. Como sempre, Vera foi muito rápida e no mesmo dia da chegada, antes de anoitecer, já estava empregada como ajudante de cozinha! E foi Dona Linda quem ficou cuidando das crianças, enquanto Vera pegava firme na lanchonete de Seu Jorge, na Galeria Rossi, seu primeiro emprego em São José dos Campos. Durante 5 anos Vera morou de aluguel com Dona Linda, que sempre a socorria nas dificuldades. Como na vez em que Vera foi atingida por uma bala perdida e por pouco não morreu. Vera teve que passar 15 dias se recuperando no hospital e quem ficou cuidando das crianças foi Dona Linda.

Vera foi juntando dinheiro, e com 4 anos de São José dos Campos, já deu entrada num terreno no Jardim Pararangaba. Um ano depois, terminava um comodo e se livrava do aluguel. E era um comodo mesmo, nem chegava a ser uma edícula. O dinheiro deu somente para as paredes e o teto, nem muro em volta do terreno havia. Água e luz ela pegava com o vizinho. Quando se mudaram para o comodo, Vera já sabia, São José dos Campos era seu novo lar, aqui se sentiu totalmente integrada e acolhida. No Piauí tinham dito que o povo do sul era frio, distante e calado, mas nada disso ela encontrou nesta cidade. Sobre isso, Vera filosofa:

__A gente atrai as pessoas certas, as que combinam com a gente…

Enquanto juntava o dinheiro para o terreno, Vera fez questão de garantir a educação dos filhos, e não só a deles, mas a dela também. Deu-se o luxo de contratar uma babá, que Dona Linda não podia ficar sempre com as crianças, e terminou o ensino médio. Mais tarde, fez um curso de enfermagem e ainda sonha com Medicina ou Enfermagem.

__Enquanto tá vivo, tá valendo! – diz ela com esperança.

Os filhos ela criou com marcação cerrada, mas sem a rudeza do pai. Ela sempre tinha que saber onde estava cada um deles e já teve de sair atrás de menino, tarde da noite, pra encontrar-lo numa festa e arranca-lo de lá no tapa!

__Filho meu não dá mole pra bandidagem, onde se viu ficar dando sopa solto pela noite?

Criar as meninas foi mais fácil, elas eram mais dóceis. Mas Francisco Jones era inquieto, desde os 10 anos vivia insistindo com mãe, que queria porque queria encontrar novamente o pai. Vera enrolou como pode. Prometeu que quando Francisca Aline, a mais nova, completasse 21 anos, ela diria a ele sobre o paradeiro do pai. E o menino não se esqueceu da promessa. Um mes antes da menina fazer 21 ele começou a rodear a mãe e assuntar sobre a data exata do aniversário. A mãe lembrou-se da promessa e disse a ele que ficasse sossegado, que no data prometida ela revelaria o paradeiro. O que ela não contou é que não tinha a mínima idéia de onde andava o pai das crianças, um homem que ela queria mais era esquecer… Mas ela ia ter que se virar, afinal, não havia prometido ao menino?

O que fazer? Como descobrir o endereço de uma pessoa que ela nunca mais tinha ouvido falar? Sem muita esperança, mais porque havia prometido ao filho, deu um tiro no escuro, ligou para o 102 e perguntou qual era o telefone do cartório em que Jacinto e ela haviam se casado. De posse da informação, conseguiu falar com a cartorária da cidade de Ipueiras e pediu que enviassem uma 2ª via da certidão de casamento. Para que não se sabe, mas ela achava que a certidão ia ajudar a encontrar o ex-marido. E o pior é que ela estava certa! Ipueiras é a sede do distrito de Livramento, que é onde o casamento havia sido realizado de fato. E naquele momento mesmo em que Vera ligava, estava ali escutando a conversa a cartorária de Livramento, que por um desses acasos do destino, conhecia muito bem a mãe de Jacinto. Achada a mãe, achou-se o filho.

Foram mais de 100 reais gastos em ligações, um dinherão na época, mas a promessa ia ser paga. No dia do aniversário da irmã, Francisco Jones recebeu da mãe um papelzinho onde estava escrito o endereço do pai. Pediu as contas na firma onde trabalhava, esperou vencer o mes de aviso prévio e partiu para o encontro com o pai, na cidade de Poranga, no interior do Ceará, onde veio a se casar e de onde nunca mais saiu! Mas o encontro com o pai não foi fácil, bem que a mãe tinha avisado que naquele lago não tinha peixe. Ele foi bem recebido, mas só no primeiro dia, depois virou a cara, não quis saber de conversa com o filho. Quando nasceu o primeiro filho de Jones, Vera e as duas filhas foram ao Ceará ver a criança, mas houve troca de farpas entre Jacinto e a ex-família, ele não permitiu nem ser fotografado com a família. Vera nem chegou a ve-lo e com Francisca Aline não teria passado de um frio aperto de mão.

Hoje, além de sua casa no Jardim Pararangaba, Vera tem mais outras 2 que estão alugadas. Sua meta agora é tirar carteira de motorista, que um carrinho, segundo ela, ia facilitar muito a vida. Só está esperando o ex-marido conceder o divórcio pra liberar a papelada, diz ela que a burocracia exige isso. Adora a cidade que a acolheu, tem orgulho do que conquistou materialmente, mas sua realização foi ter dado educação aos filhos e ver que eles estão trabalhando no que gostam. Jones é pedreiro, Jaqueline e Aline são formadas em Enfermagem.

A saúde vai bem, obrigada, mas carrega ainda o vício que foi motivo da ira do pai na adolescência. Jura que quer se livrar do cigarro, e como é devota de São Judas Tadeu, acredita no impossível! Vai a Aparecida quase todo mês, onde assiste missa e pagar as promessas feitas. Se Deus quiser, pretende ser enterrada em São José dos Campos. O que lhe dá mais prazer hoje em dia, depois dos filhos, são os velhinhos que ela cuida e pretende cuidar até quando a saúde permitir.

Com o pai ela se reconciliou na terceira viagem que fez ao Nordeste, numa festa de aniversário do velho Vicente. Vera chamou-o num canto e se abriu com ele, agradecida por ele lhe ter dado a vida. Seu Vicente ficou tão contente com a atitude da filha, que ao cortar o bolo concedeu-lhe o primeiro pedaço. Houve muita choradeira e puderam dar-se, finalmente, o primeiro abraço, que conforme a Vera, pai não dava abraço em filho naquele tempo, isso era coisa que não existia…

______________

 

Uma das últimas perguntas que fiz a Vera, foi sobre sua religiosidade. Ela então falou de São Judas Tadeu, de seu sonho de ir a Portugal conhecer Fátima,  de suas viagens a Aparecida e de uma parada obrigatória que ela fazia em Roseira, para visitar o santuário de Nossa Senhora das Cabeças, onde está exposta a santa, ou melhor, onde está a cabeça da santa. Estranhei, pois nunca ouvira falar dessa santa.

__Vera, e essa santa é padroeira de quem?

__Das pessoas com problema mental.

__E você tem alguém com problema mental na família, algum amigo?

__Tenho, é o traste que mora comigo agora, um folgado que não quer assumir a mulher que tem. Nem o dinheiro ele quer misturar com o meu. É por causa dele que eu vou lá.

__E vocês não se amam?

__Olha, amor eu só tenho pelos meus filhos, aliás, esse é o único amor que existe: da mãe para o filho e do filho para a mãe.

__Mas se você diz que ele é um traste, pra que serve um homem na sua vida, pra que você quer ter um homem?

__Pois pra que eu quero um homem? Ora, Chico, o homem é uma boa companhia pra brigar com a mulher!

Essa é a Vera…

 

A AVENTURA DA FARINHA DE MANDIOCA

outubro 1, 2016

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Dona Joana e Seu Tim moram numa casinha simples, na beira da estrada que leva para o Bairro do Raizeiro em São Luiz do Paraitinga SP. Uma estrada de terra, poeirenta no tempo seco e lisa que nem sabão no tempo das águas. Os dois nasceram na roça e dela nunca saíram. Os filhos foram todos para a cidade mas eles insistem na vida simples, praticando o que aprenderam com os pais, quase que imunes às modernidades que hoje invadiram a zona rural.

Conheci o casal quando procurava quem fizesse o tipiti, artefato de taquara que é usado para prensar a massa da mandioca ralada da qual vai ser feita a farinha. Gostei dos dois logo de cara, gente simples e hospitaleira que logo foi me fazendo sentir como se fossemos amigos de longa data. É assim com a maioria do povo da roça; quando percebem nossas boas intenções…

Fizemos então o tipiti, filmamos todo o processo, desde o corte do taquaruçú, toda a destalagem, secagem e trançamento do cestinho que acondiciona a massa da mandioca. Neste meio tempo, descobri que o casal ainda guardava o costume de fazer a farinha de modo bem artesanal, num terreno do outro lado do rio, onde estava a roça de mandioca. Vendo meu interesse, o casal me convidou para participar do processo da farinha, que dura dois dias do jeito que eles fazem. Avisaram que teríamos que posar na casa do outro lado do rio, com o que concordei imediatamente.

Marcamos o dia e pouco antes do meio dia atravessamos o rio para nossa pequena aventura. Lá chegando colhemos a mandioca, descascamos, ralamos e colocamos no tipiti para que a massa secasse durante a noite. As conversas foram todas em torno das coisas da roça, dos fazeres que estão se acabando por conta do povo comprar tudo pronto e ir esquecendo como se fazia antigamente…

Lá pelas tantas dona Joana me fala que a mãe dela fazia um bolinho com a massa crua da mandioca. De tanto que eu perguntei, Dona Joana deve ter pensado que eu ficaria aguado se não comesse o bolinho naquele dia e então, depois da janta preparou-nos uma boa fritada explicando passo-a-passo como ele é feito. Você pode assistir o video do bolinho aqui. Pra vocês terem uma idéia de como é gostoso este quitute, eu que sou de comer pouco, comi dois deles depois da janta!!!

No dia seguinte, o sol ainda nem tinha saído e os dois já estavam de pé. Seu Tim foi passar café e dona Joana lidar com os apreparos da farinha. A massa já estava seca na prensa de pau e pedra feita contra o barranco. Agora era tirar a massa do tipiti e peneirar no tacho de cobre, que eles chamam de forno; tacho é só quando vai cozinhar alguma coisa; para torrar farinha, o mesmo objeto chama-se forno.

Peneirada a farinha, seu Tim montou a tacuruva, um fogão de pedras improvisado no qual eles equilibram o forno, onde será despejada a massa peneirada a fim de que ela primeiro seque e depois torre. É um processo longo, demora mais ou menos 3 horas para fazer os 10 litros de farinha, que são o produto final dos mais de 30 kg de mandioca colhida no dia anterior.

Dona Joana brinca que ela chora toda vez que torra a farinha. Pudera, a tacuruva não tem chaminé e a fumaça castiga os olhos de quem está lidando com o forno… Mas vale a pena, diz ela, porque não tem comparação a farinha de pau que se encontra nos supermercados, com a que eles preparam artesanalmente. Eu confirmei isso ao degustar a farinha logo que ficou pronta; é um gosto que não dá pra descrever. Se você quiser saber um pouco mais de como eles prepararam esta farinha, clique aqui e assista o vídeo completo da aventura.

 

 

Nilton Rennó – O Brasileiro que Descobriu Água em Marte

junho 20, 2016

 

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                       Rua Rui Barbosa com Igreja Matriz ao fundo

 

Este relato é parte livro (jamais terminado) que pretendia biografar pessoas simples e que nasceram ou viveram na cidade de São José dos Campos. Neste caso, Nilton Rennó teria que ficar de fora, pois uma pessoa que descobre que existe água líquida no planeta Marte à partir da observação de uma foto tirada por uma sonda espacial, pode ser tudo menos simples. Mas Nilton é simples de alma, uma pessoa aberta, alegre e despojada. Percebi isso desde o primeiro contato feito por Skype, que foi o meio que encontramos para ele me conceder as entrevistas, já que mora em Ann Arbour, nos Estados Unidos.

Esse professor e cientista, que eu imagino seja super ocupado, dedicou horas de seu precioso tempo a dar informações sobre sua vida para mim, uma pessoa que ele mal conhecia. Deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo ao falar de seu trabalho atual sobre Marte e das perspectivas do seu próximo projeto, que está sob análise e poderá ser aprovado pela NASA em breve.

Houve um momento em nossas conversas que me dei conta que precisava de mais informações, quis saber da infancia, quis saber do molde que fabricou este cientista bem sucedido. Nilton não titubeou:

__Conversa com os meus pais, Chico, eles vão poder te esclarecer melhor sobre a minha infancia – e me passou o telefone da casa de Dona Magdalena e Seu Ney, duas pessoas maravilhosas, dois corinthianos pelos quais me apaixonei logo no primeiro encontro.

Ao longo das conversas com esses jovens senhores, no acolhedor apartamento do casal, pude perceber claramente de onde vieram o otimismo, a determinação e a atração pelo desconhecido que são a marca registrada de Nilton. A total dedicação à formação dos filhos e a pureza de alma por parte de Dona Magdalena, o espírito empreendedor e atração pelo risco por parte de Seu Ney, resultaram nesse homem singular, que hoje projeta o nome do Brasil e de nossa cidade no cenário internacional.

Desde a primeira entrevista, Dona Magdalena vivia me falando de um tal guardanapo com uma anotação do Nilton, mas que ela guardou tão bem guardado que não se lembrava mais onde estava. Finalmente, no dia em que fui apresentar o texto para aprovação, ela o encontrou e me mostrou. Nele, escrito com caneta Bic, estava registrada uma frase do ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que a meu ver reflete o pensamento e o espírito do meu biografado:

É muito melhor arriscar coisas grandiosas e alcançar triunfo e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta  que não conhece vitória nem derrota” ____________________________________________________

O ano era 1954, o sábado era de Aleluia e o baile na Associação Esportiva São José estava animado. Pé de valsa que era, Magdalena nem pensou em recusar quando Ney se aproximou e perguntou se ela lhe concederia uma dança. Bailaram até de madrugada e ali, naquela noite, começava um namoro que duraria 4 longos anos. Naqueles tempos mais recatados, o namoro deles não podia passar de um encontro semanal nas brincadeiras dançantes de domingo à tarde e olhe lá! Magdalena sempre tinha sempre que estar acompanhada de irmãos ou primos durante esses encontros. Foi só quando a coisa começou a ficar séria e os dois resolveram ficar noivos, que Ney colocou os pés, pela primeira vez, na casa da namorada. Mais dois anos se passaram até que Ney fosse pedir a mão da noiva ao seu futuro sogro.

Seu Aristides, previdente e cauteloso, disse que só liberaria a filha quando ela se formasse no magistério. Quis entregar ao genro uma professora formada e não uma simples dona de casa. Ney, que tinha planos declarados de ter 10 filhos com Magdalena e não concebia a idéia da esposa trabalhando fora de casa, não gostou nada da condição imposta pelo futuro sogro. Sem outra alternativa, tiveram que esperar mais dois anos, até que a normalista se formasse, para só então se casarem, no mesmo dia em que Magdalena pegou o diploma. Aos 31 de janeiro de 1959, na igreja Matriz de Santana, o padre Hernani, que era primo da noiva, celebrava a união do casal Ney Barbosa Rennó e Magdalena Oliveira Rennó. Os pombinhos partiram em lua de mel para São Lourenço, sul de Minas Gerais, numa viagem de táxi que ficou pendurada até que Ney conseguisse juntar o dinheiro para pagar a corrida no dia 10 do mes seguinte. Devido ao estado debilitado do recém casado, Ney estava muito gripado, o casal praticamente não saiu do quarto. Mas o mais importante Ney conseguiu fazer, e assim, aos 09 de novembro do mesmo ano, nascia de parto normal, na Maternidade do Hospital Pio XII, o primeiro dos seis rebentos que o casal viria a colocar no mundo, Nilton de Oliveira Rennó. Quinze dias depois, a devota Dona Magdalena já havia providenciado o batizado do filho.                                                          Nilton aos 3 meses

Os tempos não eram fáceis e as frequentes crises de asma de Dona Magdalena não ajudavam muito. O ganha-pão de Seu Ney eram dois caminhões toco, marca Volvo, ano 1949, com os quais fazia seu vai e vem para São Paulo, levando areia para a metrópole e trazendo cimento Votorantim na volta. A muito custo ele conseguiu ir guardando uns trocados, que ia depositando no peixe de cerâmica que ficava em cima do movel na cozinha. Assim, conseguiram reformar o comodo do 1067 da Rua Rui Barbosa, nos fundos da oficina onde Seu Ney trabalhava, transformando-o aos poucos numa casa aceitável para moradia da família. Nesse local viveu a família Oliveira Rennó, até o ano de 1995, data em que o agiota que emprestava dinheiro a Seu Ney, numa puxada de tapete, resolveu que queria tomar os bens empenhados e não teve acordo. Pediu a casa de volta e despejou a familia, que teve que se apertar num apartamento muito menor que a ampla casa da Rui Barbosa.

Em meio à molecada de rua, na pacata Vila Rossi, ao lado da antiga Cerâmica Weis, Nilton e seus irmãos cresceram com muita liberdade, mas sempre sob o olhar vigilante de Dona Magdalena, que os socorria cada vez que um deles aparecia com pé furado, uma língua cortada ou uma cabeça estourada. Nessa época, a única rua com calçamento por ali era a Rui Barbosa e era no largo passeio dessa via que os tres irmãos, Nilton, Nilson e Nilo se divertiam com o super carrinho de rolimã montado pelo Seu Ney (com eixo de solda especial de cromo-níquel). Isso para desespero da vizinhança, ensandecida com o barulheira do atrito do metal das rodas no cimento da calçada!

Nilton, em especial, gostava de jogar bola no campinho da Vila. Para cortar caminho, pulava sempre o muro dos fundos do quintal e acabava passando pelo terreno do vizinho, um chato de galochas com fama de brigão, que não gostava nada do trança-trança da criançada na sua propriedade. Um belo dia, Dona Magdalena se depara com cacos de vidro afiadíssimos espetados na parte de cima do muro, bem onde suas crianças pulavam para cortar caminho. Ela não teve dúvida, foi à oficina, pegou a marreta do marido, bateu em cada um dos cacos e ainda teve a pachorra de jogar todo o vidro pro lado do vizinho, que nunca teve a coragem de mostrar as caras pra reclamar do serviço desfeito!

A educação das crianças, numa família em que a mãe e as tias do lado materno eram todas professoras, era ponto de honra. O dinheiro não sobrava, mas isso não era problema para Dona Magdalena, que sempre foi atrás e conseguiu as melhores escolas públicas para os filhos. E quis o destino que Nilton estudasse apenas em escolas do governo, desde o jardim da infância até a faculdade. Quando a idade permitiu, o menino foi mandado para a Escola Paroquial, financiada pelo governo estadual, onde só foi aprender a ler e escrever quando já tinha seus 7 anos. Tão logo ficou íntimo das letras, Nilton começou a devorar tudo que tinha relação com as ciências. Teve a sorte de achar na escola livros como Viagem ao Reino da Química e A Pilha Mágica, que continham uma infinidade de experimentos que ele punha em prática, com incentivo dos pais e a companhia dos irmãos. Começava aí a sua longa e insaciável busca pelo conhecimento. Um conhecimento seletivo, é verdade, pois Nilton nunca gostou de matérias como Portugues e História. As tarefas dessas matérias quem fazia era Dona Magdalena. Nilton jamais teve que ler um Machado de Assis, um Eça de Queiroz ou um José de Alencar. Quem lia os livros era ela, Nilton lia o resumo feito pela mãe…                               Nilton, Nilson e Nilo brincando com Montebrás.

Se romances não o atraiam, é certo que leu e gostou de Monteiro Lobato, e dentre os livros deste autor, há um que seguramente marcou o menino leitor: Viagem ao Céu. Teria sido esta a semente que germinou no solo fértil da imaginação do garoto e deu seus frutos na forma de pesquisa científica interplanetária, alguns anos mais tarde? A suposição não é descabida, uma vez que há um capítulo inteiro dedicado ao planeta vermelho, nesta deliciosa obra da de literatura infantil.

Ao mesmo tempo que mergulhava fundo nos livros e experimentos de toda sorte, Nilton voltava também os olhos para o céu e para tudo que voava. Passou a caçar cigarras, besouros e libélulas, prendia uma linha em suas patas, soltava-os e observava o vôo dos bichinhos. Fascinado, ele queria entender a mecânica que permitia aos insetos, realizar a mágica de voar. Pipas, para-quedas e balões passaram a fazer parte das suas brincadeiras de rua. Habilidoso, ele começa a montar seus próprios brinquedos e chega até a vender alguns numa barraca de feira-livre, na qual divide o espaço com os legumes e verduras do tio agricultor. Sua curiosidade não tem limites, quer destrinchar o funcionamento de tudo que lhe cai nas mãos. No aniversário de 8 anos, ganha da avó uma motocicleta de brinquedo e qual não foi a surpresa da mãe ao ver, no dia seguinte, o brinquedo inteiramente desmontado pelo menino! Dona Magdalena teria que se acostumar, aqueles eram apenas os primeiros sintomas da curiosidade científica e gosto pelo risco que acompanham Nilton e são sua marca registrada até hoje.

E risco era o que não faltava quando Seu Ney pegava os 3 meninos, botava-os na Chimbica (apelido carinhoso que deu a seu caminhão) e ia para a beira do rio Parahyba pegar areia. Enquanto o pai negociava e carregava a areia, a meninada se fartava procurando por cobras, escorpiões, lagartos, sapos, rãs, o que caísse nas mãos deles. Voltavam pra casa e dissecavam a bicharada, botavam no formol, empalhavam, destrinchavam e os descarnavam só para remontar os esqueletos com arame e cola. Os vizinhos, vendo o interesse daqueles meninos, acabavam contribuindo e apareciam na casa dos Rennó com todo tipo de animal morto que encontravam nas redondezas. Seu Ney exultava, ele sempre foi um grande incentivador da curiosidade dos filhos, chegando a reservar um comodo inteiro da casa para que as crianças pudessem exercer esse lado mais inventivo. Além das experiencias com animais, os 3 irmãos eram fãs das caixas de isopor da coleção Os Cientistas, da Abril Cultural. Deixavam até de tomar o lanche na escola a fim de economizar o dinheiro para comprar os fascículos que traziam experimentos de Alessandro Volta, Isaac Newton e Galileo Galilei, dentre outros.

Na época em que o ensino ainda não era dividido em 1º e 2º graus, Dona Marina, que era professora de português e irmã de Dona Magdalena, foi convidada para lecionar no recém inaugurado curso ginasial experimental, dentro do Centro Tecnológico Aeroespacial. A tia de Nilton, vendo ali uma oportunidade para alargar os horizontes do menino, matriculou-o na escola EEPSG Maj Av Jose Mariotto Ferreira, que nos seus primórdios funcionou, em caráter provisório, nas dependencias do Instituto Tecnológico Aeroespacial. Enquanto não ficava pronto o prédio definitivo, aquela turma teve a chance de conviver com os alunos e utilizar as mesmas salas e laboratórios em que eram ministrados os cursos de engenharia do renomado instituto. No CTA, num ambiente onde se respirava aviões e foguetes, Nilton dava seus primeiros passos na estrada que o levaria, anos mais tarde, a transpor distâncias interplanetárias e chegar até o planeta Marte.              Nilton recebe o diploma do ginasio das mãos do Prof Lacaz, reitor do ITA

Foi com seus colegas do ginásio, filhos de professores do ITA, que conheceu sua nova paixão, o aeromodelismo. Contaminou os irmãos com seu entusiasmo e não demorou muito, também ao pai. Grande entusiasta que era das invencionices dos filhos, Seu Ney os levou várias vezes de caminhão a São Paulo, na meca dos aeromodelistas, a Casa Aerobrás. Enquanto ele descarregava areia e pegava cimento na Votorantim, os meninos se entretiam escolhendo as últimas novidades em aviõezinhos de madeira balsa. Na volta, Seu Ney já sabia que ia que enfrentar a cara feia de Dona Magdalena, que não via com bons olhos a mão tão aberta do marido, comprando o que ela considerava brinquedos de luxo. Mas ele sabia o que estava fazendo e dava a desculpa que aquilo não era gasto! De jeito nenhum! Aquilo era investimento no futuro dos filhos! O tempo deu razão ao Seu Ney, os tres garotos se tornaram engenheiros bem sucedidos.

Foi também no CTA que Nilton começou a freqüentar o grupo de Escoteiros do Ar – Tropa 180, fundado pelo professor do ITA, Roberto Verdussen, cuja sede ficava num barracão de madeira em meio a um acolhedor bosque de eucaliptos. Nesta época Nilton ainda voava apenas na imaginação, mas quis o destino que aparecesse uma vaga num DC3 da FAB, que iria ao Xingú para buscar um grupo de antropólogos e Nilton foi convidado para fazer o primeiro vôo de sua vida. O professor Verdussen acertou os detalhes da viagem com uma assustada Dona Magdalena, que de terço na mão, implorou ao chefe escoteiro que trouxesse o filho são e salvo do Xingú. Ele teria respondido com seu habitual bom humor:

__Se nenhum indio come-lo por lá, eu trago seu filho de volta, Dona Magdalena! – e caiu na gargalhada!

                                      Escoteiro do Ar (ao centro, de capacete branco)

Depois da experiência do primeiro vôo, o menino que já gostava das alturas e durante o trajeto não desgrudou da janelinha, passou a gostar mais ainda. Não demorou a descobrir que havia um curso para aprender a pilotar planadores no CTA e passou a frequentar as aulas no CVV-CTA nos fins de semana. Para complementar o curso prático, tornou-se assiduo freqüentador da biblioteca do ITA, onde havia farto material de volovelismo, todo em ingles, o que forçou Nilton a pelo menos aprender alguns termos técnicos nesta língua. Dali por diante, os planadores e a observação do clima nunca mais deixariam a vida de Nilton. Nesta época ele tirava fotos com a Kodak Instamatic da família e dava os rolos de filme para o pai revelar e ampliar na Foto Brasil, na Rua 7 de Setembro. Quando Seu Ney voltava para casa com as fotos prontas, Dona Magdalena não entendia nada, ela não via graça nenhuma naquelas fotos do céu, que mostravam apenas nuvens e raios…

Os carros nunca fizeram a cabeça do adolescente Nilton. Quando Seu Ney não pode mais leva-lo ao CVV-CTA nos fins de semana, isso não foi nenhum problema para ele, que valentemente cobria a distancia de 8 km de sua casa até o Aeroclube, em sua heróica Caloi 10. Só foi comprar um carro muito mais tarde, aos vinte e poucos anos, quando precisou de uma carreta para transportar os planadores desmontados para casa, onde os preparava para as competições de que participava.  

Quando Nilton terminou o ginásio, os pais sugeriram que ele fizesse a ETEP, Escola Técnica Professor Everardo Passos, o que lhe garantiria um emprego ao fim do curso. Ele chegou a fazer o exame de admissão, passou mas não se matriculou, alegando não queria ser um simples técnico na vida. Seis meses mais tarde, talvez influenciado pelos amigos que já faziam o curso, ele mudou de idéia e quis estudar na ETEP. Providencialmente, Dona Magdalena havia feito a matrícula sem que o filho soubesse, já prevendo que ele pudesse mudar de idéia. Nilton acabou gostando da escola e não se arrependeu da escolha, o curso técnico iria fazer a diferença em muitas oportunidades de sua futura vida acadêmica. 

Ao receber o diploma de tecnico em mecânica na ETEP, Nilton foi convidado a fazer parte do corpo docente da escola. Tendo em casa o exemplo da mãe e das tias, de que professor não era uma profissão valorizada, ele recusou; aquele ainda não era nem o momento nem o lugar em que ele exerceria sua vocação de mestre. Sua idéia naquela época era ser piloto, queria muito voar, e para isso ia tentar a AFA, Academia da Força Aérea, em Pirassununga. Por um equívoco com as datas, que ele acha que foi manobra da mãe, acabou perdendo a data da inscrição. Desde o tempo dos planadores, Dona Magdalena nunca gostou de ver o filho se arriscando lá no alto, longe da segurança da terra firme. Se fosse pela cabeça dela, Nilton teria sido médico e ficado por perto cuidando da numerosa família, ou então teria sido engenheiro e construiria um predinho no qual instalaria todos os 6 filhos e suas respectivas famílias… Mas se fosse pela cabeça do pai, esse preferia que o filho ficasse a seu lado, ajudando na oficina mecânica com os caminhões!

Assim como fazem muitos rapazes e moças quando chegam à encruzilhada do Vestibular, Nilton se inscreveu em vários concursos, inclusive no ITA, onde foi reprovado por ter ido mal em Portugues. Acabou decidindo-se pela Unicamp, que a seu ver era uma escola mais aberta, mais ao gosto de seu espírito aventureiro. Lá ele teria cursado Física se essa lhe garantisse um bom emprego quando formado, mas preferiu ser pragmático e optou por Engenharia, deixando para mais tarde aquilo que realmente gostava. Trabalhar como cientista, naquele tempo, ainda era coisa de romance de ficção científica, muito distante da realidade que ele vivia. Seu interesse pelo volovelismo nunca diminuiu e no primeiro ano de faculdade viajou para a Alemanha, a fim de participar de um campeonato de Voo à Vela. Num simpósio paralelo ao evento, conheceu pessoalmente aquele que para ele representava um deus vivo; o alemão Helmut Eichmann, um ás dos planadores. Ao ver seu herói dando uma palestra e sendo remunerado por isso, teve um vislumbre de que era possível ganhar dinheiro e fazer o que se gosta ao mesmo tempo, descobriu que hobby e trabalho poderiam trabalhar em sinergia e terem como força resultante o prazer!

Terminado o curso de Engenharia na Unicamp e já decidido a fazer o que gosta da vida, Nilton opta por um mestrado em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, em São José dos Campos. Nessas alturas ele já sabe que quer ser um cientista e dá o lance que considera o mais ousado de sua vida: entra com o pedido de requerimento para um doutorado numa das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, nos EUA. Ainda muito cru no ingles, ele pede ajuda à namorada para preencher o requerimento. Na verdade ele manda o requerimento apenas como “treinamento”, pois ainda nem havia terminado o mestrado no Brasil. Para sua surpresa, não muito tempo depois, recebe um telex dizendo que fora aceito! Ele responde que infelizmente não pode ir, pois precisa terminar o mestrado no Brasil para ter direito a uma bolsa integral. Mais uma vez os céus sorriem para ele, o MIT responde dizendo que banca o doutorado de Nilton! Ele só precisaria da indicação de 5 professores renomados; conseguiu 6 cartas de indicação!

Alvoroço na família, Dona Magdalena não se conforma com a idéia de passar 4 anos longe do filho. Mas Nilton está decidido e aos 25 anos, mal sabendo falar o ingles, parte sozinho para os EUA. A dificuldade com a língua era tanta, que para conseguir explicar ao chofer de taxi onde ele queria ir, teve que comprar um guia na banca de jornais e apontar com o dedo o endereço. Mas nem isso foi suficiente, o taxi o deixou num hotel caro em Harvard, que fica ao lado do MIT! Na recepção do hotel, teve dificuldade até para dizer que queria um simples apartamento; esperou que aparecesse alguém pedindo e fez como papagaio, repetiu o que a pessoa falou… Só no dia seguinte é que brasileiros foram ao encontro de Nilton e o conduziram ao alojamento dos alunos, que ele tinha direito. Felizmente, a gerencia do hotel foi compreensiva e devolveu o dinheiro que Nilton havia pago adiantado.

Os primeiros tempos nos Estados Unidos não foram nada fáceis. Além do problema da lingua, sentia muita falta da namorada e da comida brasileira; Nilton achava que nos EUA tudo tinha o mesmo gosto, que sabia a isopor. Seu alento vinha da matemática, das equações em que vivia mergulhado. Para piorar, a namorada no Brasil não aguentou a distancia e terminou a relação. As coisas só começaram a melhorar no segundo ano nos EUA, quando conheceu a mineira Maria Carmen num congresso. Eles começaram a namorar, Nilton terminou seu doutorado e estava fortemente inclinado a voltar para o Brasil, mas resolveu dar um tempo e esperar a namorada terminar seu curso. Esse tempo foi se esticando, eles foram dando certo, se casaram, deram à luz o menino Lucas e hoje Nilton não pensa mais em voltar a morar no Brasil.

Envolvido até o pescoço em suas atividades acadêmicas e projetos milionários com a NASA, hoje, após 25 anos nos EUA, Nilton se considera realizado e reconhecido. E o melhor de tudo, fazendo o que mais gosta na vida, pesquisa e ensino. Num país em que somente os melhores alunos se tornam professores, Nilton sente-se orgulhoso de ter conquistado a “tenure” (estabilidade de emprego), em duas grandes instituições de ensino norte-americanas; a Universidade do Arizona e a Universidade de Michigan, onde sua esposa e ele são professores.

Quem diria que aquele joseense de classe média, que foi reprovado no vestibular do ITA por não ter conseguido nota na prova de Portugues, hoje pode escrever em seu currículo que foi o responsável (ou um dos responsáveis?) pela descoberta de água na forma liquida em Marte? Esse é Nilton Rennó.

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Nas conversas que tive com Dona Magdalena, descobri que ela tem aversão a tudo que diz respeito a informática e envolve muita tecnologia. Foto, para ela, tem que ser no papel, não quer saber de nada que seja no virtual. Quando Nilton vem ao Brasil ela pena, insistindo com o filho para que largue “a maquininha” e que curta um pouco mais as pessoas. Dona Magdalena é uma pessoa especial. Até há pouco tempo ela não entendia porque o filho, com a cabeça boa que tem, gastava tempo estudando um planeta distante, se a nossa Terra está com tantos problemas. Ela só sossegou quando Nilton explicou que os dois planetas estão relacionados, que lá no princípio, no tempo de sua formação eles eram similares. E que hoje ele estuda o planeta vermelho para entender o que foi que levou Marte a se tornar um deserto gelado, para evitar que a Terra vá pelo mesmo caminho. Coincidência ou não, o atual projeto de Nilton, que está para ser aprovado pela NASA, chama-se Projeto Terra.

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Este relato foi feito em 2012

Francisco José Lacaz Ruiz

Capelas da Santa Cruz Abandonadas

janeiro 24, 2016

 

Estas imagens de capelas abandonadas de Santa Cruz foram feitas durante um passeio pela periferia da cidade de São José dos Campos, região leste do estado de São Paulo, Bairros do Jaguari e do Caetê. Fui convidado para este passeio por um amigo, o Daniel Bueno Borges, que restaura imagens sacras aqui na minha cidade. Daniel conhece essas capelas pois gosta de visitá-las à procura de imagens sacras descartadas.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Uma das capelas foi abandonada porque o dono do terreno não permitiu mais seu uso e cercou-a com arame farpado. A outra foi menos e menos utilizada nos últimos anos, a ponto de ser tomada como moradia por andantes que acabaram por depreda-la. Segundo nos informou um morador que a conhece a 43 anos, ainda acendem uma vela na sexta-feira maior. Tentaram colocar uma porta para impedir que bêbados e desocupados invadissem o recinto mas não funcionou, eles entram de qualquer maneira.

Não consegui saber a origem da construção de nenhuma das duas. Geralmente essas capelas surgem por pagamento de promessa ou em homenagem a alguém de morreu naquele mesmo local. Cria-se então, à partir da construção da capela, que geralmente acontece em beira de estrada, um calendário de rituais de rezas e festas comuns a todas as capelas da Santa Cruz.

Nesses locais é possível encontrar imagens de santos, pretos velhos, caboclos, rosários, ex-votos, etc… Algumas chegam às capelas por pagamento de promessas ou pedidos de favores, outras são descartadas porque estão quebradas e outras ainda porque a pessoa que era católica mudou de religião mas não quer jogar o santo no lixo.

Há cada vez menos capelas da Santa Cruz na periferia da cidade pois a especulação imobiliária é impiedosa e não perdoa a fé do povo comum. Para se encontrar essas capelas é preciso, mais e mais, embrenhar-se nas estradas de terra nas zonas rurais.

A tradição existe também em vários países da América Espanhola, onde, normalmente (como também aqui) as imagens que se quebram acidentalmente são depositadas especialmente nos cruzeiros de cemitérios, onde seguem recebendo culto – chamadas, em alguns lugares, carinhosamente, de “quebraítos” – corruptela de “quebraditos”.

ANTONIO E MARIA

dezembro 1, 2015

 

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Seu Antonio e dona Maria vivem numa casinha encantada, com fogão de lenha e telha van, protegida por flores plantadas e passarinhos cevados e muito bem escondida no Bairro do Sítio, em São Bento do Sapucaí. Ali o tempo parou faz já algum tempo. Pra vocês terem uma idéia, dona Maria ainda usa aquele pesado ferro de passar roupas no qual é preciso colocar brasas pra esquentar. Mas não é toda roupa que ela passa, só a que vão usar no domingo pra ir à missa na matriz de São Bento; calça e camisa para ele, saia e blusa para ela.

Cheguei hoje bem cedinho na casa deles, às 6h da manhã, a tempo de pegar seu Antonio tirando leite das 3 vaquinhas, que dão o suficiente para o gasto deles e dos familiares que moram na vizinhança.

__Quando sobra leite o que a senhora faz dona Maria?

__A gente distribui pros vizinhos, não presta vender a sobra.

Modernidades eles não querem nem que seja dado. Tem liquidificador e batedeira que ainda estão na caixa, sem uso. Os bolos dona Maria bate no braço mesmo. E atenção, esses bolos ela assa numa panela de ferro em cima do fogão de lenha, com brasa em cima e brasa em baixo. Num instantinho, enquanto eu conversava com eles, dona Maria assou um delicioso bolo de fubá com ovo caipira, nata de leite e banana, que ela serviu com café que ela mesma colheu e torrou, dos dois pés que ela tem no quintal.

Celular eles não querem. Dona Maria acha que aquilo estraga a vida da juventude, que fica ali beliscando aquele “apareinho” enquanto a vida passa… A saúde deles vai bem, obrigado. Com ajuda de alguns matos da horta e muito trabalho, que mesmo aposentados eles não pararam de trabalhar não!

Na sala há uma TV e eu não resisto à pergunta.

__Dona Maria, se a senhora gosta de tudo no sistema antigo, o que essa televisão está fazendo na sua sala?

__Ah, mas a gente usa só pra assistir a missa no fim do dia, depois que o serviço acabou a gente senta e acompanha a missa. Outra coisa que não seja reza não passa na minha televisão não…

Uma delícia visitar esse casal. Saí de lá alimentado de corpo e alma. O video abaixo tenta passar um pouco do clima de amor e harmonia que vivenciei com esses dois santinhos de carne e osso.

 

FORNALHA MINEIRA

novembro 18, 2015

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Renato Barros se lembra do pai construindo fornalhas para assar broas e biscoitos e foi vendo o pai construir que ele aprendeu a fazer.

– Antigamente todo mundo tinha uma fornalha em casa; era como liquidificador, televisão e microondas nas casas de hoje – comenta Heloisa, irmã de Renato.

A fornalha é construída sobre uma cama de bambus, na qual se faz uma caixa com tijolos que será preenchida com areia, material isolante, para ajudar manter o calor. Acima da camada de areia vão os tijolos que serão o piso da fornalha.

Construir a abóbada da fornalha é uma arte e Renato diz que ele mesmo não entende muito bem como a coisa acontece, porque numa determinada fase os tijolos são assentados praticamente a prumo e não caem!

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É preciso fazer uma chaminé no alto e um respiradouro lateral para retirar as cinzas.

Outra arte é regular a temperatura da fornalha para assar , carnes, bolos, pães e biscoitos. Primeiro é preciso fazer fogo, muito fogo dentro da fornalha. Quando se formou bastante brasa, ela tem que ser bem espalhada. Só então mede-se a temperatura usando farinha de trigo e palha de milho. Conforme o estado da farinha, se queimou ou apenas amarelou, sabe-se se a temperatura está adequada para assar o bolo. A palha do milho é usada para saber a temperatura quando vai se assar carne. A palha tem que apenas pretejar, sem pegar fogo. Se pretejar está bom para assar, mas se queimar está quente demais e vai queimar tbm a carne.

Esta fornalha foi feita para assar roscas para a festa de São José do Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí SP.

Fiz um um video que conta passo a passo a construção da fornalha, desde o corte da madeira até o revestimento com tabatinga, um barro branco que é usado para vedar as rachaduras e também para boniteza da fornalha.

 

PIRAJICA COM BANANA VERDE

novembro 9, 2015

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Conheci o Zeca na praia do Cedro, em Ubatuba SP. Nesta minúscula praia na qual só se chega à pé, ele é o dono do único comércio, uma barraca que vende peixes, camarão e frutos do mar.
Zeca nasceu em Ubatuba 56 anos atrás, quando ainda não havia farinha de trigo, estrada de rodagem e lixo nas ruas da cidade… Naquele tempo, ele e seus familiares comiam peixe da maneira mais simples possível. Seja assado ou cozido, o único tempero era o sal e, para acompanhar, banana e farinha de mandioca.

As novidades em matéria de alimentação, tais como óleo de soja, trigo e margarina, começaram a chegar por barco depois da inauguração do presídio da Ilha Anchieta em 1952. Mas Zeca teve a sorte de ter sido criado pelo avós, mais resistentes ás modernidades e com eles aprendeu muita coisa dos antigos. Dentre elas, o Azul Marinho, um prato típico caiçara.

Sempre tive curiosidade de saber como se faz esse prato e Zeca se mostrou animado quando disse do meu interesse em filma-lo cozinhando o Azul Marinho. Combinamos um dia antes da temporada, eu vim a Ubatuba especialmente para este registro e, naturalmente, estava chovendo quando chegamos ao Cedro para fazer o vídeo. Tive que proteger todo equipamento com plásticos, mochila à prova d’água e um imenso guarda-chuvas, mas quando botamos o pé na areia da praia, a chuva parou!

Zeca entrou no mar para recolher uma rede que armara no dia anterior. Se desse algum peixe faríamos o prato com peixe fresco, senão, ele já tinha na geladeira um piragica de 3 kg pescada um dia antes. A piragica não é um peixe muito conhecido, mas segundo Zeca é dos melhores para fazer o Azul Marinho. Além de ser um peixe vegetariano, se alimenta de algas, tem a carne consistente e não se desmancha em pequenos pedaços durante o cozimento.

O mar não estava pra peixe, tivemos que usar a piragica mesmo. Fiz uma rápida entrevista e passamos para cozinha.

Ele avisou que azul marinho que se faz hoje nos restaurantes já não é mais como antigamente. Antes não se colocava nada mais que sal e bananas verdes; muito importante que sejam verdes e não sejam “quinadas”, isto é, tem que ser cheias ou granadas. Hoje se faz o pirão separado, antes se fazia no prato. Ele continua fazendo no prato, amassando as bananas cozidas, adicionando a farinha e por último jogando o caldo em que foi cozido o peixe. O pirão se forma no prato e pode ficar mais seco ou mais molhado, conforme o gosto do freguês.

O que mudou no jeito dele fazer foram os temperos. Hoje ele coloca cebola, pimentão, tomate, pimenta, refoga tudo e depois verte o caldo da banana verde cozida, que é onde o peixe vai cozinhar por uns 15 minutos mais ou menos.
Depois de cozido é preciso manter o fogo baixo para que o caldo não esfrie, pois com caldo frio não se faz pirão! Por isso o peixe tem que ter a carne firme, pois senão ele desmancha.

Confesso que quando Zeca me informou que o peixe estava pronto eu me decepcionei. A única cor que havia na panela era o vermelho dos tomates… Indignado eu perguntei;

__Mas cadê o azul marinho, Zeca?

Com a maior naturalidade do mundo ele respondeu;

__Ah, mas pra ficar azul tem que ser feito no fogão de lenha, na panela de ferro e com muito mais banana…

Bem, nem tudo é perfeito… Passamos então à degustação do peixe. Minha esposa comeu primeiro e achou maravilhoso. Pra ela gostar devia estar com pouco sal. Com a câmera ainda na mão comi uma garfada do prato dela e me senti voltar no tempo. Nem sinal dos temperos, o que eu sentia ali era gosto de peixe, farinha de mandioca e banana verde. O que eu estava comendo ali era uma comida rústica, sem nenhuma sofisticação, mas com um sabor bem definido dos três ingredientes principais. Do sal, pimenta, pimentão e tomate, nem sinal. Mas não se enganem, estava uma delícia, era muito leve e matou bem matada minha fome de leão.

O vídeo vai ficar muito legal, pois Zeca tem boa didática e todos os segredos ele revelou. Na hora de pagarmos, ele se recusou, dizendo que era um prazer poder passar o seu conhecimento, de modo que muitas pessoas possam também fazer o peixe em suas casas. Eu, que estou aprendendo que dar e receber são a mesma coisa, aceitei comovido o presente. Se eu já gostava do Zeca, depois desse encontro passei a gostar mais ainda. Quanta generosidade!

Fizemos a caminhada de volta para o carro, entramos e tive que acionar o limpador de para-brisa pois voltara a chover logo que entramos no carro. Eu não via a hora de chegar em casa e escrever este texto…

Aqui o video com a receita…

TABATINGA, BISCOITO POLVILHO E SOLIDARIEDADE, UMA COMBINAÇÃO PERFEITA!

setembro 8, 2015

tabatinga wordpress

Numa gostosa tarde de agosto, num meio de uma semana qualquer, no Bairro do Serrano em São Bento do Sapucaí, um grupo de mulheres foi convidado para rebocar um rancho de pau a pique com tabatinga, um revestimento de barro branco que dá o efeito de caiação.

Desde a saída para a procura do barro no meio do pasto, o clima era de festa. Ninguém usava tabatinga naquelas vizinhanças há muitos anos, isso era coisa do passado e por isso seu Joaquim Santana não deu certeza da mina onde a terra branca era retirada. Mas os formigueiros com terra clara deram a dica e a turma retirou em dois pesados sacos, tudo o que precisava pra rebocar o rancho.

Como é tradição nesses trabalhos coletivos, sempre há comes e bebes. Desta vez as donas da casa, a dona Maria e a dona Rosana, serviram café e biscoito polvilho e farinha de milho feito segundo uma receita de dona Josefina, uma senhora de 91 anos que acompanhou o processo para ter certeza de que sairia a contento.


Com tantas mulheres reunidas as histórias foram muitas, mas por sorte fui dos poucos homens convidados e lá estava para registrar tudo com minha câmera. No video abaixo,  o registro dos momentos mágicos deste dia…


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